Chamada de artigos, v9, n2

O início do século XXI abriu novos horizontes para a relação entre China e América Latina. Durante a década que abrange o período de 2004 aos primeiros anos da década de 2010, as relações entre as duas regiões atingiram uma nova fase e as trocas bilaterais nos campos político e econômico adquiriram maior relevância.

O rápido processo de desenvolvimento da China das últimas décadas implicou uma grande mudança no ambiente econômico global que impactou diretamente as opções de desenvolvimento da América Latina. Desde o aumento dos preços internacionais das commodities até a presença de significativos investimentos chineses em setores estratégicos, a relevância econômica da China para a América Latina tornou-se cada vez mais evidente.

 De forma mais recente, observa-se que o interesse da China na região esta se concentrando em desenvolver mecanismos de cooperação mais sofisticados, focados em posicionar a China como um ator regional construtivo. No nível político, essa nova etapa é apoiada por três iniciativas principais: A estrutura de cooperação intitulada “1 + 3 + 6”; o policy paper da China sobre a América Latina publicado em 2016; e a inclusão da região na Iniciativa do “Cinturão e Rota”, que enfatiza um novo tipo de parceria focada no desenvolvimento industrial, de infraestrutura e tecnológico, assim como na diversificação do comércio e do investimento.

 Apesar de todo o progresso alcançado nos campos econômico e político, novas dinâmicas e desenvolvimentos políticos domésticos na América Latina, combinados com estas novas iniciativas da China em nível regional e internacional geram diferentes desafios e oportunidades para o relacionamento bilateral.

 O cenário doméstico da América Latina mudou nos últimos anos. Diferentemente da primeira década do novo milênio, em que grande parte da região passava por um período de alto crescimento econômico em um contexto global favorável, caracterizado por altos preços de commodities e abundante liquidez financeira, atualmente muitos países da América Latina estão passando por períodos de baixo crescimento e crescente agitação social.

 A China, desde a chegada de Xi Jinping ao poder, também esta atravessando importantes mudanças tanto no que faz ao sistema de governança como no que tange ao processo de reformas económicas e transformação estrutural da economia. Neste sentido, uma compreensão atualizada sobre as tendências e modificações recentes sistema de governo e no processo de desenvolvimento chines resulta fundamental para avaliar as as perspetivas das relações entre a China e América Latina nesta etapa histórica.

 Todos esses processos interatuam com as transformações no cenário económico e político global, onde cabe particularmente mencionar a crescente competição entre os Estados Unidos e a China. No atual contexto geopolítico, Washington não pode mais ignorar o fortalecimento do papel da China na América Latina, principalmente porque o gigante asiático está aumentando sua cooperação com países historicamente próximos da América do Norte, como Chile, Costa Rica, Peru e, mais recentemente, Panamá e República Dominicana.

 Esses desenvolvimentos ao nível nacional e internacional exigem uma nova compreensão dos desafios e oportunidades no relacionamento entre China e América Latina. Como anova dinâmica política na América Latina afeta o relacionamento bilateral? Quais são as implicações da nova era de desenvolvimento e modelo de crescimento da China para a América Latina? Quais são as novas formas de cooperação em potencial para ambas as regiões no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota? Quais os possíveis efeitos geopolíticos e económicos do aumento da presença da China em uma região historicamente influenciada pelos Estados Unidos?

 Estas questões fundamentais devem ser abordadas neste dossiê da revista, a partir de análises tanto ao nível regional como estudos de caso nacionais e sobre o processo de reformas na China.