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<P>Ascensão econômica, declínio do mercado do crack </P>
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<P> </P>
</TextBox>
<P>e violência extrema: A realidade do South Bronx </P>
<P>em Nova York </P>
<P>Resenha (review) de ‘The Stickup Kids: Race, Drugs, Violence, and the American Dream’, de Randol Contreras </P>
<H1>Betina Warmling Barros </H1>
<P>Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil </P>
<P> </P>
<P> </P>
<P>
<DropCap>
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R </DropCap>
</P>
<P>andol Contreras não é um sociólogo americano com uma história de vida tradicional. O autor da obra The Stickup Kids: Race, Drugs, Violence, and the American Dream (2013) nasceu e foi criado na parte sul do Bronx, bairro da cidade de Nova York, nos EUA. Filho de imigrantes da República Dominicana, ele passou sua juventude no South Bronx justamente na chamada “era do crack”, quando o local foi alvo de muitos incêndios e de um estado de abandono geral, conforme ele próprio narra no decorrer do livro. Contreras adquiriu o título de doutor em sociologia pela Universidade da Cidade de Nova York e tornou-se professor da Universidade de Toronto, no Canadá, cargo que exerce até os dias atuais. </P>
<P>A etnografia, que lhe rendeu o 2014 Special Recognition Award for an Outstanding Monograph that Advances the Understanding of Urban Life, foi escrita entre 1999 e 2002, entre 2003 e 2004 e desse ano até o momento da publicação do livro, em 2013. O livro é resultado de um retorno do autor à região em que ele passou uma importante parte da sua vida e do seu reencontro, já como sociólogo e pesquisador, com seus antigos vizinhos e amigos, agora autodenominados the stickup boys. A temática central da obra é a forma como esses garotos, marcados por uma forte vinculação com o mercado de venda de drogas, viveram três momentos específicos: o apogeu da venda do crack; a contração desse mercado e a transferência do empreendimento criminal para aquele do “roubo da droga”; e, por fim, o resultado final do envolvimento dos jovens em ambos os contextos e as consequências dessa vivência nas suas próprias subjetividades. </P>
<P>Logo de início, o autor assume que as suas próprias experiências no South Bronx durante a “era do crack” moldaram significativamente a sua interpretação como sociólogo durante o trabalho de campo. Além de lhe conferirem certa proteção no ambiente hostil em que realizou a pesquisa, fizeram com que sua compreensão sobre a etnografia o diferisse substancialmente daqueles que a entendem como uma “aproximação do exótico” (CONTRERAS, 2013, p. 17). O exótico, para Contreras, ao contrário, é a convivência com acadêmicos brancos de Manhattan. Agora que possui os instrumentos teórico-analíticos para compreender a realidade que testemunhou desde sua infância, o autor percebe uma lógica tanto no aspecto micro da violência, formado pelos processos emocionais associados ao roubo da droga, quanto no panorama macro, sobretudo pela influência dos objetivos culturais e materiais postos aos jovens, da deterioração econômica da comunidade em que vivem e do declínio do mercado do crack. O objetivo principal de sua investigação, portanto, foi reunir diferentes níveis de análise em um padrão consistente de descrição e análise social. </P>
<P>Para fundamentar suas observações, Contreras utiliza sobretudo a teoria da anomia de Merton (1938, 1968), que mobiliza como lente teórica durante a inserção no campo de pesquisa, em conjunto com referências mais gerais como Phillippe Bourgois (2003), para pensar o mercado de drogas a partir de uma teoria da resistência; Jack Katz (1988), pela ênfase na atração emocional do crime; e Randall Collins (2008) e sua microteoria sociológica sobre o crime. Cabe ressaltar que dentre todas as referências, o texto se aproxima em diversos aspectos de In Search of Respect: Selling Crack in El Barrio, de Bourgois (2003), seja por ambas serem etnografias profundas realizadas no cerne do mercado de drogas em Nova York, seja pela concepção comum de que, por mais que os altos níveis de violência exibidos pelas obras possam acabar fortalecendo discursos que afirmam uma suposta desumanização dos sujeitos que trabalham no mercado da droga americano, não cabe aos autores “higienizar” a realidade presenciada tanto no South Bronx como no Harlem. A compreensão dos indivíduos que constroem esse espaço social conhecido como “mundo do crime”, afinal, prescinde de certa ética pessoal, analítica e teórica em expor os horrores testemunhados pelos pesquisadores, relacionando-os às estruturas de poder que constituem a desordem das interações humanas (BOURGOIS, 2003). </P>
<P>Com essa concepção etnográfica como pano de fundo, Contreras insere-se no campo de pesquisa a partir do contato com antigos amigos, sobretudo Pablo e Gus, moradores do South Bronx e personagens principais da narrativa que o autor passa a desenvolver. A partir da década de 1980, diferentemente de seus pais – a primeira geração de imigrantes acolhida pelos empregos nas manufaturas industriais –, esses jovens careciam de serviços sociais e de trabalhos estáveis. Por outro lado, e este é um importante argumento do autor, a cultura propagava a necessidade de se ganhar muito dinheiro, não importando o caminho para alcançar esse objetivo: vivia-se a era dos banqueiros de Wall Street que fraudavam na mesma proporção que lucravam (CONTRERAS, 2013, p. 52). </P>
<P>O autor procede em uma retomada histórica sobre como a cocaína adentrou na sociedade americana, tornando-se o principal alvo da conhecida política de “tolerância zero” posta em marcha durante a década de 1980 (WACQUANT, 2001), a qual, em alguma medida, levou ao abandono da substância por usuários vindos das classes superiores, muitos deles a partir da entrada em clínicas de reabilitação de alto custo. Para a população pobre do Bronx, entretanto, não só não foi oportunizado o tratamento adequado, como os montantes destinados aos serviços sociais foram realocados para a repressão ao tráfico de drogas. Para completar, os distribuidores de cocaína, droga de alto custo, enxergaram uma forma de baratear a venda da substância ao misturá-la com o éter e possibilitar a expansão do consumo para as classes mais baixas. Nascia a “era do crack”, e com ela uma mistura de sucesso econômico de jovens trabalhadores do mercado da droga e de flagelo social de um grupo social que passou a ter na substância uma fonte de esperança para a fuga da pobreza, um caminho para a realização da masculinidade e um lugar para, finalmente, atingir o american dream, com todas suas promessas materiais e hedonistas (CONTRERAS, 2013, p. 54). </P>
<P>Ao manter durante toda a escrita da obra uma constante interlocução entre a narrativa etnográfica e a teoria social, o autor retoma as análises de David Garland (2008) sobre o recrudescimento penal e as ações estatais de “lei e ordem” para afirmar sua importância na constituição de Gus e Pablo como traficantes de drogas respeitados na comunidade em que vivem e na passagem por instituições prisionais, sobretudo Rikers Island, localizada em Nova York. Na visão de Contreras, a prisão acabou sendo uma instituição educacional que, em razão da superlotação, possuía altíssimos níveis de violência. As lições aprendidas oscilaram entre manter um “perfil discreto” ou vitimar alguém para evitar a própria vitimização, o que depois acabou sendo transferido para a vivência desses jovens na rua (CONTRERAS, 2013, p. 83). </P>
<P>Para fundamentar essa concepção, o autor retoma uma ideia posta por Wacquant (2002) de que o Estado construiu uma ponte para resolver as desigualdades econômica e social que liga os bairros pobres diretamente à prisão. Wacquant entende que com o desenvolvimento dessa política, não apenas as prisões passaram a se parecer mais com os guetos, como os guetos se tornaram similares às prisões. Exemplo dessa dialética está, por exemplo, na narrativa de Contreras sobre como o comportamento de Pablo se modificou quando ele saiu da prisão. O jovem se tornou muito mais musculoso, passou a imprimir um olhar descontrolado, falando o linguajar da prisão e com movimentos exagerados no seu corpo e em seus gestos (CONTRERAS, 2013, p. 85). Já para Gus, a prisão acabou solidificando sua preocupação com a exaltação da força, que se tornou seu ponto de referência para determinar sua própria masculinidade. Nas palavras do jovem, “se você pode sobreviver à prisão, você é um homem” (Ibid., p. 86). </P>
<P>A partir de então, o autor narra o processo de inserção dos jovens no negócio das drogas, primeiro em Nova York e depois no estado da Geórgia, onde eles enriqueceram de forma significativa. Ao narrarem esse período para Contreras, os garotos expressaram um misto de surpresa, por ter sido a primeira vez em que foram identificados pelos demais como homens negros, e de aversão a essa imagem. Na análise do autor, esses meninos passavam por um processo de angústia racial (Ibid., p. 99). Se, por um lado, lutavam para se manter em um lugar de superioridade racial, por outro, eram vistos pelos demais como homens negros e, então, acabavam estando sempre em estado de contradição, desapontados com a sua própria identidade. Uma das maneiras de tentar superar as frustrações decorrentes do racismo que os impedia de construir uma identidade racial seria a procura por mulheres mais brancas que eles. Na visão do autor, os jovens compreendiam que essa seria uma maneira de “melhorar a raça”. </P>
<P>Para Contreras, portanto, fica clara a ligação entre o dinheiro do tráfico, o respeito diante das mulheres e a masculinidade desses garotos. Esse elo permaneceu e, a partir de então, tudo passou a ter um preço para os jovens (mulher, amor, amizade) (Ibid., p. 103). Ocorre que no período seguinte, entre 1994 e 1997, a venda do crack diminui consideravelmente na cidade de Nova York, sobretudo no Bronx
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. As tentativas de migrar para a venda de outras substâncias foram infrutíferas, na medida em que já existiam outros grupos sociais vinculados ao mercado, como no caso da heroína, cuja venda, no Harlem, era dominada pelos porto-riquenhos. Além disso, o período normalmente destinado à formação profissional de um indivíduo foi, no caso de Gus e Pablo e dos demais personagens da obra, de dedicação exclusiva à venda de drogas, o que em nada auxiliava na sua qualificação para a economia de serviço – setor em que existiam oferta de empregos para esses jovens. Pelo contrário, a economia da droga parece ter produzido sujeitos não tão afeitos a uma demanda de mais subserviência, menos masculinidade, mais educação, menos resistência e comportamento em consonância com a “etiqueta” da classe média (Ibid., p. 112). </P>
<Endnote>
<P>Notas </P>
<P> </P>
<P>1 O autor apresenta o que os jovens entendem como as principais razões para o fim da “era do crack” – aumento do efetivo policial e do encarceramento dos traficantes de droga (p. 107) – em contraposição com o que ele compreende como a principal razão para o fenômeno: a aversão da comunidade à substância devido aos imensos danos causados aos moradores e a afirmação de um estigma negativo para o usuário de crack, sobretudo no caso das mulheres. </P>
<P>2 Tradução livre para “penalidade salarial”. </P>
</Endnote>
<P>A saída encontrada pelos jovens foi a atividade que dá nome ao livro: Gus e Pablo tornaram-se garotos do stickup. Por falta de melhor tradução, a expressão será utilizada como equivalente ao ato de roubo à mão armada. No caso específico da narrativa do livro, os garotos stickup se especializam no roubo de drogas e de montantes em dinheiro de outros traficantes. Para ilustrar a nova atividade de Gus e Pablo, o autor narra um episódio em que a estratégia do roubo é realizada por meio do auxílio de uma garota, responsável pela sedução e atração da vítima até o seu apartamento (Ibid., p. 121). Melissa, uma garota de 19 anos descendente de imigrantes dominicanos, se utilizava das facilidades das mulheres em se aproximar dos traficantes em seus locais de venda de drogas para levar a futura vítima até o local em que vive, onde Gus e Pablo a aguardavam. </P>
<P>A partir de então, o que Contreras narra – baseado no que os próprios jovens contaram ao autor – é um episódio de muita violência e tortura. Utilizando-se de diversas estratégias físicas e psicológicas, Gus e Pablo exercem atos de extrema violência contra a vítima, com o intuito principal de obter o conhecimento sobre a localização do estoque de drogas e da quantia em dinheiro. O autor entende que se tratava de uma “violência sistêmica”, conforme o trabalho do sociólogo Paul Goldstein (1985) (CONTRERAS, 2013, p. 137). Essa violência, contudo, não ocorre pelo uso da droga ou seus efeitos, mas em razão do estilo ilegal da regulação econômica e da intensa ambição que concebe o sistema capitalista. Assim, essas disputas territoriais, a retaliação e os roubos de drogas seriam exemplos do que Timothy Black (2009) chama de “capitalismo cowboy urbano”. </P>
<P>Ocorre que os garotos stickup encontraram do outro lado jovens que resistiam fortemente ao uso da violência, sobretudo porque sabiam que o repasse das informações poderia acabar colocando-os em uma situação de risco diante dos seus fornecedores de droga, na medida em que muitos adquiriam as substâncias na forma de consignação e que, portanto, posteriormente precisariam prestar contas das suas vendas. O autor atenta, contudo, para o fato de que também os ladrões necessitavam se manter fortes para executar a tortura e completar o roubo (CONTRERAS, 2013, p. 148), levando à ideia de uma disputa emocional entre o ladrão e o traficante, ou ao que Goffman (1967) chamaria de “concurso de personagens”. </P>
<P>Para o autor, o que explica o fenômeno da extrema brutalidade nos atos dos jovens é o fato de eles estarem envoltos em uma lógica societal que justifica a tortura, na medida em que ela é um instrumento fortemente vinculado ao objetivo do capitalismo: acumular o máximo possível de renda e capital por meio de uma empresa competitiva. Uma vez que o lucro é o único propósito, torna-se compreensível realizar qualquer ato para alcançá-lo. Na visão de Contreras, a ideia de que tudo vale em busca do lucro ocorre tanto para a elite capitalista como para a população em geral; mas para aqueles mais pobres, essa acumulação material só é provável por meio dos negócios ilícitos (CONTRERAS, 2013, p. 154). Assim, para o autor, o fenômeno da venda e dos roubos de drogas não se trata de uma resistência à sociedade dominante, mas de uma garantia à persistência da sua lógica, de seus valores materiais e dos seus objetivos principais. </P>
<P>Uma importância referência utilizada na leitura teórica das dinâmicas do Bronx são os estudos de Randall Collins (2008). O autor examina as emoções das situações violentas produzindo aquilo que chama de “microteoria”. Collins entende que a realização de um ato violento “cara a cara” é extremamente difícil para o ser humano. Assim, a violência perversa só acontece quando um lado tem muito mais poder que o outro, fazendo com que a vantagem dessa parte transforme suas emoções em um pânico que o leva a seguir adiante com a violência. Para o teórico, menos do que um décimo da população seria competente para o exercício dessa espécie de violência. Para aqueles que a realizam, a violência é uma ferramenta adquirida por meio da repetição e da prática, isto é, é social por natureza. </P>
<P>Ao utilizar tal referência teórica, o autor inova no campo da criminologia americana, deixando de usar as teorias das subculturas. Essa escolha é justificada por ele ter presenciado pouquíssimas situações criminosas vinculadas à chamada “cultura da rua” (CONTRERAS, 2013, p. 160) e, por outro lado, ter identificado alguns de seus informantes, como Gus, como parte do que Collins chamou de “elite da violência”. O personagem central da narrativa de Contreras adquire essa característica, conforme aponta o autor, pela obtenção do estilo americano, superando as barreiras estruturais impostas (Ibid., p. 165). Ademais, a participação no mercado de drogas e as prisões foram importantes para reforçar a dominação no contexto dos roubos de drogas. </P>
<P>Em outro momento da narrativa do autor, ele retoma a forma como os lucros obtidos com o roubo da droga são divididos entre os sujeitos que participaram do evento. Assim, além da definição na hierarquia da rua, o status de homem brutal também é o principal balizador no estabelecimento da hierarquia dos lucros (Ibid., p. 184). Homens como Gus, altamente temidos pelos demais, acabam adquirindo uma posição em que é possível trair os próprios companheiros de atividades ilícitas, desviando uma parcela do montante surrupiado das vítimas dos roubos de drogas, e mesmo assim se mantendo em segurança. </P>
<P>Após a repartição dos valores e a venda para os traficantes do varejo da droga roubada, os ladrões experimentam o melhor momento da empreitada: estão ricos. A partir desse momento podem usufruir a vida como se fosse uma festa. Há uma explosão de hedonismo e de prazer, o que se materializa pela aquisição de bens de alto valor, como carros, roupas de marca e joias. Contreras nota, contudo, que essa exposição não é típica de todos os ladrões de drogas (Ibid., p. 194). Contrariando o que o conhecimento comum entende, alguns desses indivíduos planejam o futuro, criando guarda-chuvas econômicos para dias piores no mercado de droga e pensando veículos legais para sair do crime. </P>
<P>Já outros preferem usufruir dos benefícios dos valores alcançados, sem se preocupar com um futuro que poderia reservar dificuldades no negócio do roubo da droga. Entretanto, mesmo para os “empreendedores”, a marginalidade faz com que eles se tornem vulneráveis em seus investimentos legais (Ibid., p. 199). Na visão do autor, falta educação e capital cultural para mantê-los seguros sobre o que os outros fazem com o seu dinheiro. </P>
<P>Assim como ocorrera com o declínio da “era do crack”, as oportunidades de efetivar os roubos de drogas em grande quantidade ficam cada vez mais escassas, colocando Gus e Pablo em uma situação de dificuldade econômica. Para esse último, apesar de suas tentativas, os trabalhos legais almejados se tornaram inviáveis em razão da sua dupla condenação por tráfico de drogas, levando ao que Contreras chama de wage penalty
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(Ibid., p. 208). Esse histórico, em conjunto com o fato de Pablo ser identificado como negro e com um comportamento de “dureza” adquirido durante o tempo na prisão acabam anulando a formação escolar do jovem, que havia inclusive iniciado seus estudos em uma universidade americana, antes de adentrar no tráfico de drogas. </P>
<P>Nessa nova fase de suas vidas, portanto, os personagens centrais da etnografia passam a conceber ideias suicidas. Utilizando Mills (1959), o autor afirma que os homens do Bronx começariam a experimentar suas vidas como uma sequência de ameaças (CONTRERAS, 2013, p. 216). Se durante os dias de glória eles agiam de forma confiante, com o controle social e financeiro, agora experimentavam um novo caminho para a sua vida: eram estrelas em decadência, isto é, indivíduos que experimentaram um crescimento meteórico e uma igualmente meteórica queda. No entendimento de Contreras, a inserção em todo esse contexto de ascensão econômica e vivência da violência brutal produziu uma colisão emocional responsável por colocar esses jovens no estado denominado por Durkheim como estado anômico. Tal anomia, segundo o responsável pelo conceito, seria “uma condição humana angustiante causada por uma crise social ou pessoal repentina que enfraquece a firmeza da moral social” (DURKHEIM, 1997 apud CONTRERAS, 2013, p. 217). </P>
<P>Contreras entende que Durkheim não poderia ter entendido o mercado ilegal de drogas como um possível regulador moral da sociedade, em que pese ele tenha alertado sobre os perigos de indústrias efervescentes baseadas no capitalismo e na ganância desenfreada. Assim, na compreensão de Contreras, o sociólogo francês entendia que os mercados de drogas baseados no capitalismo seriam ainda piores, na medida em que acabariam lançando revendedores novos em uma espiral de hedonismo e desorientação. Para atualizar a compreensão durkheimniana, o autor retoma a teoria de Merton (1938, 1968), segundo a qual os desfavorecidos poderiam acabar aliviando a anomia vivida por meio do crime econômico. Por fim, baseando-se na etnografia de Bourgois (2003), o autor complementa com a ideia de que os mercados de drogas podem acabar fornecendo uma regulamentação moral: mudanças no trabalho do mercado de crack, identidades profissionais e apoio de mentores frequentemente regulam o uso de drogas dos traficantes e elevam a sua autoestima (BOURGOIS, 2003). </P>
<P>Essas inserções teóricas no decorrer da narrativa etnográfica não excluem do texto as teorias produzidas pelos próprios sujeitos do fenômeno estudado sobre as razões pelas quais eles acabaram fazendo parte desse universo de tamanha violência. Assim, para Gus, por exemplo, não seria a raça, as desigualdades de classe ou a pressão pela construção de uma masculinidade forjada na força os responsáveis por sua entrada no mercado de drogas e pela sua prisão. Gus culpava a si próprio, pintando a sociedade como o Éden perfeito, o paraíso em que ele sozinho teria decidido “comer a maçã proibida”. Agora teria que pagar pelos seus pecados. </P>
<P>É visível, portanto, como as trajetórias dos jovens apresentadas no livro complexificam o “american dream”, ou como ele também é vivido no South Bronx, apesar de todas as dificuldades materiais (CONTRERAS, 2013, p. 236). Para Contreras, jovens como Pablo e Gus buscaram um crescimento simultâneo na masculinidade e na feminilidade, enquanto lidavam com sua angústia racial. Eles acabaram desumanizando e “emasculando” suas vítimas – homens negros em sua maioria – enquanto desumanizaram e objetificaram as mulheres negras. </P>
<P>Em suma, para o autor, quando o mercado de drogas alcança um ponto de crise, seja a crise induzida por forças policiais (como no México), ou pelo fortalecimento da comunidade (como no South Bronx), a violência aumenta (Ibid., p. 237). São, portanto, as mudanças estruturais aquelas capazes de definir as condições para o aumento da violência. Para o autor, a persistência de personagens como Pablo e Gus em adquirir um melhor status econômico, apesar de todas as dificuldades encontradas, demonstra seu comprometimento com o mundo legal, com os valores e objetivos da sociedade tradicional. </P>
<P>Assim, talvez a grande tese construída em The Stickup Boys se trate da afirmação de que, em casos como o tráfico de drogas, em que o crime é empreendimento, não há resistência ou desvio dos valores dominantes; pelo contrário, há um tributo à sua lógica, a valores materiais e aos objetivos da sociedade capitalista tradicional. Para conjecturar mudanças, seria necessária uma transformação cultural no país que, efetivamente, não parece possível de se imaginar (Ibid., p. 242). Por outro lado, etnografias como a produzida por Contreras ajudam leitores e acadêmicos a compreender como a frustração pode levar o marginalizado ao crime, o não violento à violência, o violento ao uso da brutalidade como símbolo de status e os decadentes ao desespero suicida. </P>
<P>No Brasil, contudo, as consequências dos jovens que vivem trajetórias parecidas como as de Gus e Pablo não se restringem apenas à vivência da depressão. Os jovens brasileiros também se deparam com a ameaça da morte, mas não aquela que se materializa pelo suicídio. Trata-se de uma morte concretizada por meio dos milhares de homicídios que acabam atingindo esses sujeitos, consumados nos conflitos internos do tráfico de drogas e a partir da ação violenta da polícia brasileira. Afinal, talvez a própria possibilidade de viver as consequências da violência extrema nos limites da subjetividade em sofrimento psíquico seja um privilégio ainda restrito aos grupos desfavorecidos do Norte global.</P>
<H1>Referências </H1>
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<P> </P>
<P>BLACK, Timothy. When a Heart Turns Rock Solid: The Lives of Three Puerto Rican Brothers on and off the Streets. New York: Pantheon Books, 2009. </P>
<P>BOURGOIS, Phillippe. In Search of Respect: Selling Crack in El Barrio, 2.ed. Nova York: Cambridge University Press, 2003. </P>
<P>COLLINS, Randall. Violence: A Micro-Sociological Theory. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 2008. </P>
<P>CONTRERAS, Randol. The Stickup Kids: Race, Drugs, Violence, and the American Dream. Berkley; Londres: University of California, 2013. </P>
<P>DURKHEIM, Émile. Suicide: A Study in Sociology. New York: Free Press, 1997. [1897]. </P>
<P>GOFFMANM, Erving. Interaction Rituals: Essays on Face-to-Face Behavior. Nova York: Doubleday, 1967. </P>
<P>GOLDSTEIN, Paul J. The Drugs-Violence Nexus: A Tripartite Conceptual Framework. Journal of Drug Issues, v. 39 p. 143-174, 1985. </P>
<P>MERTON, Robert K. Social Structure and Anomie. American Sociological Review, v. 3, n. 5, p. 672-682, 1938. </P>
<P>MERTON, Robert K. Social Theory and Social Structure. New York: Free Press, 1968. </P>
<P>KATZ, Jack. Seductions of Crime: Moral and Sensual Attractions of Doing Evil. Nova York: Basic Books, 1988. </P>
<P>MILLS, C. Wright. The Sociological Imagination. Nova York: Oxford University Press, 1959. </P>
<P>WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. </P>
<P>WACQUANT, Loïc. Deadly Symbiosis: When Ghetto and Prison Meet and Mesh. Punishment & Society, Londres/Nova Delhi, v. 3, n. 1, p. 95-134, 2002. </P>
<P> </P>
<P> </P>
<Table>
<TR>
<TH>
<P> </P>
</TH>
<TH>
<P>BETINA WARMLING BARROS (barros.betina3@gmail.com) é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, Porto Alegre, Brasil) e graduada em ciências jurídicas e sociais pela UFRGS. </P>
</TH>
</TR>
<TR>
<TH>
<P> </P>
</TH>
<TD>
<P> </P>
</TD>
</TR>
</Table>
<P>Recebido em: 17/09/2018 Aprovado em: 26/03/2019 </P>
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