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<P>Sobre Erving Goffman e a análise do fracasso em The Presentation of Self in Everyday Life </P>
<TextBox>
<P>DOSSIÊ </P>
<P>60 ANOS DO LIVRO </P>
<P> THE PRESENTATION OF SELF IN EVERYDAY LIFE, DE ERVING GOFFMAN </P>
</TextBox>
<TextBox>
<Figure>
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</Figure>
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<H1>Mauro Guilherme Pinheiro Koury </H1>
<H1>Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil </H1>
<P> </P>
<P> </P>
<P> </P>
<Table>
<TR>
<TH>
<P>Este artigo explora algumas facetas do esquema teórico-metodológico e temático do pensamento simbólico-interacionista de Erving Goffman e discute seu legado, seminal na análise do urbano contemporâneo. Centra-se na noção de fracasso enquanto conceito que percorre não somente o livro The Presentation of Self in Everyday Life, mas toda a obra de Goffman. Assim, analisa o pensamento do autor como expressão do seu contexto acadêmico e de pesquisa e comemora os 60 anos da edição de The Presentation of Self in Everyday Life, carro-chefe como vendagem e leitura no conjunto de sua obra. </P>
</TH>
<TH>
<P>About Erving Goffman and the Analysis of Failure in The Presentation of Self in Everyday Life explores some facets of Erving Goffman’s theoretical-methodological and thematic scheme of symbolic-interactionist thinking and explores Goffman’s legacy as a seminal author in contemporary urban analysis. Its analytical focus is the notion of failure as a concept that runs through not only The Presentation of Self in Everyday Life, but the entire work of the author. It analyzes Goffman's thinking as an expression of his academic and research context and commemorates the 60 years of publishing The Presentation of Self in Everyday Life, the flagship of selling and reading in the entirety of his work. </P>
</TH>
</TR>
<TR>
<TH>
<P>Palavras-chave: Erving Goffman, The Presentation of Self in Everyday Life, cotidiano, interação face a face, fracasso </P>
</TH>
<TD>
<P>Keywords: Erving Goffman, The Presentation of Self in Everyday Life, daily, face to face interaction, failure </P>
</TD>
</TR>
</Table>
<P> </P>
<P> </P>
<P>Introdução </P>
<P> </P>
<P>
<DropCap>
<ImageData></ImageData>
A </DropCap>
</P>
<P>pesar de publicado na Série Monográfica do Centro de Pesquisas em Ciências Sociais da Universidade de Edimburgo, na Escócia, em 1956
<Link>1</Link>
, apenas na edição comercial de 1959, da Anchor Books, The Presentation of Self in Everyday Life
<Link>2</Link>
ultrapassa os limites acadêmicos e se torna um best-seller, fato não muito corriqueiro em se tratando de uma obra sociológica. Em 1961, o livro recebe o prêmio da American Sociological Association (ASA) de melhor livro de sociologia americana publicado nos últimos anos
<Link>3</Link>
. </P>
<Endnote>
<P>Notas </P>
<P> </P>
<P>1 Essa publicação pela Universidade de Edimburgo foi parte de um convênio entre o Departamento de Antropologia Social da Universidade de Chicago com o Centro de Pesquisas em Ciências Sociais da Universidade de Edimburgo, cujo objetivo estava centrado em um estudo sobre interação social, associado com outro sobre estratificação social financiado pela Ford Foundation (GOFFMAN, 1956, p. IV). </P>
<P>2 A apresentação do self na vida cotidiana, em português. Não custa aqui lembrar que o conceito de self em Goffman é distinto da noção de eu. Em suas palavras, “O Self... não é uma coisa orgânica que tem localização definida, cujo destino fundamental é nascer, crescer e morrer; é um efeito dramático que surge difusamente de uma cena apresentada, e a questão característica, o interesse primordial, está em saber se será acreditado ou desacreditado” (GOFFMAN, 1959, p. 252). Todas as citações em inglês ou alemão ao longo do artigo são traduções livres do autor deste artigo. </P>
<P>3 No Brasil, o livro foi publicado sob o título A representação do eu na vida cotidiana, pela Editora Vozes, em 1975. Desde então teve edições sucessivas (GOFFMAN, 1975). </P>
<P>4 Ao escrever sobre o contato entre indivíduos em uma situação nova, Goffman (1956, p. 2) diz o seguinte: “o indivíduo terá que agir de modo que ele, intencionalmente ou não, se expresse, e os outros, por sua vez, terão que ser impressionados de alguma forma por ele. Descobrimos, então, que quando o indivíduo está na presença imediata de outros, sua atividade terá um caráter promissor. Os outros provavelmente descobrirão que devem aceitar o indivíduo com fé, oferecendo-lhe um retorno justo enquanto ele estiver diante deles em troca de algo cujo verdadeiro valor não será estabelecido até depois que ele deixar sua presença. (É claro que os outros também vivem por inferência em suas relações com o mundo físico, mas é somente no mundo da interação social que os objetos sobre os quais eles fazem inferências propositadamente facilitam e atrapalham esse processo inferencial.) A segurança que eles justificadamente sentem ao fazer inferências sobre o indivíduo irá variar, é claro, dependendo de fatores como a quantidade de informações prévias que eles possuem sobre ele, mas nenhuma quantidade de tais evidências passadas pode evitar totalmente a necessidade de agir com base nisso. de inferências”. Esse parágrafo foi modificado na edição de 1959, tal como usado parte dele acima, sintetizando e objetivando melhor o sentido que ele queria expressar. </P>
<P>5 Isto é, toda a atividade de um participante específico de uma situação também específica, que serve para influenciar de alguma forma os demais participantes envolvidos na cena ou situação social. </P>
<P>6 A questão das vulnerabilidades interacionais em situações sociais será exposta de forma mais aprofundada e definitiva, na obra de Goffman, no livro Frame Analysis (1974), embora esteja presente em toda a sua obra. </P>
<P>7 Goffman se inspira e usa com propriedade, em uma perspectiva dramatúrgica, o importante conceito de definição de situação de Willian Isaac Thomas (1923, p. 42): “preliminar a qualquer ato de comportamento autodeterminado há sempre </P>
</Endnote>
<P>O dossiê do qual este artigo faz parte comemora os 60 anos da edição americana de The Presentation of Self, de 1959. Em 1961, o livro explodiu como fenômeno de vendas e chamou a atenção do público para a microssociologia, que vinha sendo trabalhada desde o início do século XX pelo interacionismo e pelo interacionismo simbólico da Escola de Chicago, com forte herança pragmatista e simmeliana. Não é para menos que, no prefácio de The Presentation of Self, Goffman faça uma referência a Simmel informando que a abordagem por ele perseguida no livro e no seu caminhar acadêmico de então era também a de Simmel (GOFFMAN, 1956, 1959, 1975). </P>
<P>Este artigo, apesar da forma inicial de situar um livro homenageado neste dossiê, não fará uma história do pensamento sociológico americano, nem uma história do pensamento goffmaniano, tampouco uma tentativa de biografar o autor. Antes, busca situar uma leitura de The Presentation of Self a partir da ideia de fracasso, que movimenta toda a análise goffmaniana nesse livro e o conjunto de sua obra. O artigo está estruturado em dois momentos. No primeiro, situará os conceitos e caminhos metodológicos que nortearam a análise goffmaniana no livro, bem como de outros pensadores significativos para a sua formação – como Georg Simmel, Williams Thomas, George Cooley, Everett Hughes – tanto quando Goffman era aluno pós-graduado da Universidade de Chicago e frequentava departamentos de sociologia e antropologia, como no decorrer de sua vida profissional. O segundo momento tratará da noção de fracasso em The Presentation of Self. Nesse livro, importantíssimo para os estudos das interações face a face e da microanálise do social, a noção do fracasso, do medo do fracasso, de cometer deslizes, de fazer um papel de marca ou otário, ronda o jogo interacional nos encontros sociais. O artigo, nesse segundo momento, defende a hipótese de que essa noção seja um dos aspectos mais importantes da obra de Goffman, e, particularmente, de The Presentation of Self. </P>
<P> </P>
<P> </P>
<P>Conceitos e caminhos metodológicos que nortearam a análise goffmaniana em </P>
<P>The Presentation of Self in Everyday Life </P>
<P> </P>
<P>Em The Presentation of Self, primeiro livro a abordar a interação face a face como objeto de apreciação sociológica, Goffman explora o nível micro da análise social no estudo do significado e da prática das interações sociais. Para tal, já no prefácio informa que usará o caminho metodológico da dramaturgia adaptado para a análise social. Em suas palavras: </P>
<P> </P>
<P>A perspectiva empregada neste relatório é a do desempenho teatral; os princípios derivados são dramatúrgicos. Vou considerar a maneira pela qual o indivíduo em situações comuns de trabalho apresenta a si próprio e a sua atividade para os outros, as maneiras pelas quais ele orienta e controla a impressão que os outros formam dele, e os tipos de coisas que ele pode e não pode fazer enquanto sustenta sua performance ante os demais (GOFFMAN, 1956, p. IV). </P>
<P> </P>
<P>Como Simmel, Goffman parte da perspectiva de que as interações sociais se dão entre indivíduos sociais, isto é, personagens que participam de uma forma de sociabilidade comum e estão em um ambiente em que as trocas comunicativas são possíveis. São indivíduos que possuem experiências sociais específicas no desenvolvimento de trajetórias biográficas ou percursos de vida, o que lhes permite compor e compreender as situações sociais em que se envolvem cotidianamente. Goffman, em sua análise em The Presentation of Self, parte, deste modo, apresenta uma definição simmeliana ampla de sociedade. Para Simmel, </P>
<P> </P>
<P>[a] sociedade existe onde vários indivíduos interagem. Esta interação surge sempre a partir de certos impulsos... ou por causa de um propósito definido. Os impulsos [ao outro], os propósitos de defesa ou ataque, de vicissitudes, de aquisição, de assistência, bem como de instrução e inúmeros outros possibilitam aos homens estar juntos, trabalhar uns para os outros, trabalharem juntos, [ou] atuarem uns contra os outros, ou a entrarem em convivência mútua, isto é, de transferir efeitos sobre os demais homens e receber os efeitos deles em si. Essas interações significam que os portadores individuais desses impulsos e fins se tornem uma unidade, se tornem uma sociedade (SIMMEL, 1908, p. 4). </P>
<P> </P>
<P>Simmel analisa a sociedade, deste modo, como um jogo interacional no interior de situações diversas em que se abrem alternativas várias às ações entre os indivíduos presentes no ato interativo, ou na situação. Isso possibilita a esses indivíduos, na troca comunicacional, responderem e transmitirem impulsos emocionais que os achegam ou os afastam, mas que os tornam dependentes uns dos outros; eles apenas se encontram como pessoas nessa tensão emocional do encontro social. </P>
<P>É esse compartir tenso que fundamenta a socialidade, para Simmel, e inspira teórica e metodologicamente Goffman. A socialidade – para o primeiro, e que orienta o olhar do segundo – é esse compartilhamento tensivo que embasa e motiva o encontro social. Encontro esse que permite a troca social entre indivíduos e possibilita a construção de uma rede tênue de partilha, comunicação e participação, formando um ethos, uma espécie de “consciência mútua” (SCHEFF, 2016a, p. 156), enquanto cultura emotiva (KOURY, 2017, pp. 13-30) de busca e aproximação ou afastamento do outro. Essa rede aproxima ou afasta os pares envolvidos no encontro e possibilita finalizações ou anseios de continuidade, seja de forma duradoura ou passageira. E nessa ambição e volição conjeturada – que comportam tênues alianças e montam alternativas e trajetórias –, a socialidade vai se objetificando, se cristalizando em projetos e projeções, dando origem a sociabilidades e produzindo moralidades e “mundos morais” (GOFFMAN, 1956, p. 162). </P>
<P>Na passagem da socialidade para a sociabilidade, assim, se consolida a união como um nós, isto é, uma força que organiza um projeto social e funda códigos de conduta e de direitos e deveres entre os associados, cristalizando um sentido de ordem e uma montagem de tradição que deve ser repassada aos associados e às novas gerações. Assim, a sociabilidade é uma noção que pressupõe a base formativa de modos de vida em sociedade, da mesma maneira que a acomodação ou as reações internas ao modelo de conduta objetivado e transformado em ordem moral cujas normatividades devem ser seguidas pelos seus membros. E, igualmente, configura o olhar social aos modos de viver externo, de outras sociabilidades e moralidades consideradas divergentes. A sociabilidade, enquanto conceito, desta forma, não apenas congrega e dá continuidade a um projeto societário, mas também coage os indivíduos a ela pertencentes a uma ordem moral. Logo, se realiza ininterruptamente como um jogo tensional entre sentimentos de pessoa e de pertencimento a um lugar de sufoco e medos. </P>
<P>Nesse sentido, as interações sociais, para Goffman, sob a influência de Simmel, são ações motivadas entre indivíduos sociais, isto é, ações que se passam entre personagens que têm ou desenvolvem uma biografia, produto de uma experiência social construída no decorrer de suas vidas. Portanto, são atores que se dispõem a outros a partir de um conjunto de expectativas e motivações comuns ou diferentes, e que se aproximam ou se chocam em situações sociais em que se envolvem no cotidiano. O social é o resultado dessas interações, produzidas a partir do encontro social entre dois ou mais indivíduos em processo interacional em situações determinadas. </P>
<P>Assim, para Goffman, nos processos de interação, nas interações face a face, “a expressividade do indivíduo parece envolver dois tipos radicalmente diferentes de atividade de sinais: a expressão que ele dá e a expressão que ele emite” (Idem, 1959, p. 2
<Link>4</Link>
). É no jogo de impressões que o social se dá, permeado no conhecimento comum das normas e ações que formam a etiqueta orientadora o encontro social. </P>
<P>Na situação armada em um determinado encontro, uns observam e estudam os outros e buscam demonstrar o melhor de si no papel social que desempenham. As performances dos participantes
<Link>5</Link>
, portanto, são medidas pelos demais presentes e submetidas a um crivo lógico sobre cada atuação. Assim, por exemplo, em uma reunião de amigos de longa data, se um deles esconder uma situação pessoal vivida dos demais presentes, estes podem não perceber o fingimento, e a reunião continuará como deveria, isto é, cordial e alegre; ou podem fingir não perceber, respeitando a vontade daquele, mas, ao mesmo tempo, vigiando os seus passos durante o encontro, de modo a ajudá-lo ou consterná-lo; ou podem ainda intrometer-se na situação escondida pelo amigo, com boa ou má intenção de ajudá-lo ou tomar partido, julgando a situação. Nessas três possibilidades aqui elencadas, o encontro social pode se desdobrar em novas situações de diagnósticos posteriores, que vão desde a manutenção do equilíbrio social, conduzindo o encontro com habilidade e destreza, até o desastre total, havendo bate-bocas, ou mesmo levando à ruptura permanente entre o grupo de amigos e, depois, à dificuldade de reatar os vínculos que os uniam. </P>
<P>Nesse sentido, apesar de um ethos, ou, como prefere Goffman – segundo Scheff (2016a, p. 143) –, de uma “consciência mútua” que permite aos indivíduos sociais se locomover habilmente em um encontro social, conscientes que são das normas, dos costumes e das etiquetas sociais a serem seguidas em cada situação de que participam ou se envolvem, esse ethos ou consciência mútua serve exclusivamente, para Goffman, como mapa mental que ajuda o indivíduo a se situar a cada novo encontro que participa. </P>
<P>No encontro, portanto, os indivíduos em interrelação tentam agir conforme o esperado socialmente, e observam os outros nessa mesma direção. Agem como se o processo interacional fosse um ritual (GOFFMAN, 2012). Todavia, no jogo movimentado durante as diversas performances podem surgir situações que fogem do controle e que, ao se tentar salvar o encontro, podem levar o mesmo a um retorno positivo, no qual a situação pode ser contornada e a reunião continuar e terminar bem, ou ao contrário, os levar ao seu desfecho como catástrofe. </P>
<P>Para Goffman, desse modo, as vulnerabilidades das situações
<Link>6</Link>
surgidas na interação durante um encontro social mostram, de um lado, o frágil equilíbrio em que se assenta o ethos ou a consciência mútua que ordena e orienta o encontro; e, de outro, informa que a cada momento os indivíduos se encontram em movimento, constituindo um tecido de relações móveis em que a agência individual ganha significação e sentido na administração de si e dos demais envolvidos em uma situação social dada. Nas palavras de Goffman: </P>
<P> </P>
<P>Quando permitimos que o indivíduo projete uma definição da situação quando se encontra diante dos outros, também precisamos ver que os outros, por mais passivos que os seus papéis possam parecer, também projetarão efetivamente uma definição da situação em virtude de sua resposta ao indivíduo e em virtude de qualquer linha de ação que iniciem para ele (GOFFMAN, 1956, p. 3). </P>
<P> </P>
<P>É o jogo interacional, em constante movimento, consequentemente, que torna possível o social, também sempre em movimento nos encontros sociais cotidianos. No jogo intersubjetivo, os indivíduos sociais presentes medem a cada momento o desempenho de cada ator-agente presente e os seus próprios, definindo e redefinindo a situação
<Link>7</Link>
e montando estratégias possíveis para a continuidade do encontro ou sua explosão. Para Thomas (1923), as interpretações não são objetivas e as ações são afetadas por percepções subjetivas nas trocas entre atores no jogo relacional configurativo de cada situação experienciada. Qualquer definição de situação, por conseguinte, é um ato simbólico e influencia o presente dos indivíduos e grupos nela envolvidos, de forma sempre tensional (THOMAS, 1923, p. 42). </P>
<Endnote>
<P>uma etapa de exame e deliberação que podemos chamar de definição da situação. E, na verdade, não apenas os atos concretos dependem da definição da situação, mas, gradualmente, toda uma política de vida e a personalidade do próprio indivíduo em si...” (Idem). </P>
<P>8 O conceito de má fé (SARTRE, 1948) é usado por Goffman no sentido antropológico de reconhecimento do homem como um ser livre e sua negação. Está remetido ao self que “implicitamente renuncia a todas as alegações de ser ‘coisas’ que não parece ser e, portanto, renuncia ao tratamento que seria apropriado para tal” (GOFFMAN, 1956, pp. 6-7). A má fé, assim, é uma simulação de que algo é necessário quando de fato é voluntário, e serve tanto para negar o self individual como para manipular os demais selves em interação. Em Sartre, a má fé se constitui como uma fuga da liberdade, uma desonesta evasão à agonia da opção. </P>
<P>9 Essa pesquisa foi publicada em 1962, sob o título: Good People and Dirty Work (HUGHES, 1962). </P>
<P>10 Publicadas no Brasil pela Editora Vozes (GOFFMAN, 2010, 2012). </P>
<P>11 Goffman (1952, 2009, 2014). </P>
<P>12 Goffman (1963, 1988). </P>
<P>13 Que vão desde os indivíduos fisicamente incapacitados aos indivíduos de comportamento desviante (que possuem “maus antecedentes morais” [GOFFMAN, 1988, p. 150]), como “as prostitutas, os viciados em droga, os delinqüentes, os criminosos, os músicos de jazz, os boêmios, os artistas de show, os jogadores, os malandros das praias, os homossexuais, e o mendigo impenitente da cidade...” (Ibid., pp. 154-155) e até grupos rebeldes, como “os radicais políticos..., o rico viajante..., [os] expatriados..., os apóstatas da assimilação étnica..., os ortodoxos religiosos..., o homem metropolitano... que não constitui família... [e se coloca] contra o sistema familiar..., e todos os desviantes sociais [que] ostentam sua recusa em aceitar o seu lugar e são temporariamente tolerados nessa rebeldia, desde que ela se restrinja às fronteiras ecológicas de sua comunidade... [como os guetos étnicos e raciais]” (Idem). </P>
<P>14 É interessante comparar os escritos de Goffman sobre o sentimento de fracasso na sociedade americana com o livro de Richard Sennett e Jonhatan Cobb (1973). Ver, também, Thomas Scheff (2016a, 2016b). </P>
</Endnote>
<P>Pode-se pensar, como fez Stone (1957, p. 105) ao resenhar o então recém-lançado livro de Goffman, The Presentation of Self, que as definições de situação nesse autor, ao mesmo tempo em que lidam com os limites da consciência mútua e jogam com possibilidades de manipular as impressões para lançar ou salvaguardar uma determinada situação de interesse individual ou de grupo em um contexto interacional, elas são simultaneamente “atos, muitas vezes empreendimentos coletivos, controlados por padrões normativos, que resultam em padrões organizacionais recorrentes e em consequências objetivas para o comportamento coletivo” (STONE, 1957, p. 105). Desse modo, também funcionam como busca de reposicionar as interpretações para o interior de uma normalidade normativa capaz de proporcionar um reequilíbrio, mesmo que sempre frágil (ELIAS, 1994), das forças no jogo relacional em processo, como uma espécie de consenso mínimo que permita a continuidade da situação experienciada. </P>
<P>Nesse movimento, redes de controle de si e dos outros são constantemente lançadas, exigindo de cada participante um controle e uma habilidade no uso das impressões pessoais levadas adiante no jogo interacional na situação por ele definida, e na apreensão das definições da situação pelos outros interacionais. Esse equilíbrio frágil tece, assim, possibilidades de alianças, de caminhos a serem seguidos juntos, de confiança e amizade, ou de armações de poder, de manipulação das regras do jogo, de sentimentos de traição e falência moral, de vergonha e orgulho, de humilhação e de rupturas e inimizades. </P>
<P>O ethos comum que orienta a comunicação e motiva os atores-agentes para a experiência social cria expectativas positivas ou negativas em relação às demandas a cada movimento interacional em uma determinada situação. Serve, assim, como ponto de partida para o encontro e para as diversas alternativas abertas a cada lance que a situação oferece. </P>
<P>Cada situação armada no decorrer de um encontro oferece então uma multiplicidade de ações: é um jogo em aberto. Cada troca comunicativa em um processo interacional, e em uma situação dada, pode gerar novas e inúmeras definições de situações e um sem-número de possibilidades interativas para os indivíduos que dela participam. No decorrer do encontro, cada ator espera que cada personagem em cena esteja à altura das situações emergidas nele, mantendo o encontro vivo e o seu desenrolar crível. </P>
<P>As relações entre os diversos atores podem ser abertas, não focadas, ou, ao contrário, focadas em um determinado objeto ou objetivo. A interação não focada, para Goffman (1961, pp. 7-8), “consiste naquelas comunicações interpessoais que resultam unicamente em virtude de as outras pessoas estarem em presença uma da outra”. Mesmo nessa situação de copresença impessoal, entre desconhecidos, ambos observam “a postura e modos um do outro, enquanto cada um modifica o seu próprio comportamento porque se encontram também sob observação”. </P>
<P>A interação focada, por sua vez, “ocorre quando as pessoas efetivamente concordam em sustentar por um tempo um único foco de atenção cognitiva e visual, como em uma conversa... ou uma tarefa conjunta sustentada por um círculo de colaboradores próximos e face a face”. Para Goffman (Idem), mesmo os que acompanham a interação focada como plateia participam da interação. Formam pequenos grupos de encontros permanentes ou ocasionais. Os indivíduos que se encontram em uma situação, assim, se percebem como uma unidade social, isto é, percebem que estão reunidos para um fim comum, embora, para Goffman (Ibid., p. 9), “possam ter relações particulares uns com os outros”. Ao se sentirem membros, se sentem pertencentes ao lugar e ao processo interacional e suas situações possíveis armadas e desmanchadas a todo o momento. Identificam-se entre si como grupo e se sentem imersos no sentido e apoio moral dele advindo. Do mesmo modo que se sentem estranhos ao participarem de grupos desconhecidos e “sustentam certo sentimento de hostilidade aos grupos externos” (Ibid., p. 9). Uma simbolização da realidade que a situação de pertença promove então se faz, e as relações de cada ator, com o nós formado e do qual sentem fazer parte, os envolvem. Mas, ao mesmo tempo, qualquer pequeno passo em falso, qualquer desvio pessoal ou de outro membro, pode ocasionar um desequilíbrio na rede frágil em que assenta o sentimento de pertença, ocasionando ranhuras, ou justificativas, acusações e disputas. </P>
<P>A cultura emotiva, ou ethos, ou consciência mútua que orienta a experiência social, desse modo, sobrevém no interior de uma expectativa moral ampla sobre a qual cada ator-agente precisa se situar. Da mesma maneira que precisa localizar e verificar as posições dos outros, por meio do que percebe como o melhor modo de se movimentar e atuar no ambiente tenso onde a situação se processa e do papel que vai desempenhar, ou irá ser a ele destinado, no jogo aberto com os outros presentes. </P>
<P>É sobre a cultura emotiva e as relações tensivas da objetificação dessa consciência comum em moralidades que a troca comunicacional se move. O jogo interacional, assim, a todo o momento se transforma em ardis, em situações arriscadas observadas na performance de cada ator-agente, tornando o processo sempre tenso, enredado a um equilíbrio frágil e repleto de vulnerabilidades. A sua continuidade depende, desse modo, de uma nova definição da situação, encaminhando os interacionais para uma rodada de difíceis negociações que permita situar cada ator-agente em uma rede de significados sobre como proceder pessoalmente e o que esperar dos outros naquela situação em processo, no interior de um encontro social qualquer. Desse modo, o encontro social continua e prospera e um novo conjunto de expectativas é aberto, uma nova aliança frágil remontada. </P>
<P>The Presentation of Self, destarte, é um livro que trabalha o encontro entre uma cultura emocional (KOURY, 2017, p. 23), que Simmel (1998) chama de cultura subjetiva – ou seja, os diversos olhares e mapas sobre o mundo social que levam indivíduos ao encontro a, ou de encontro com, outros indivíduos –, e um processo moral, ou um conjunto de moralidades que surgem a partir das trocas intersubjetivas entre os atores-agentes sociais envolvidos em uma determinada situação, que Simmel (Idem) chama de cultura objetiva. É um livro que trabalha, de um lado, o esforço permanente dos atores para se situarem e tirarem proveito, da melhor forma possível, do encontro e das situações sociais emergentes, do mesmo modo que almejam que os demais envolvidos também o façam. E de outro, a tensão produzida no desenvolvimento do encontro: em que todos os presentes buscam o bem pessoal e o bem comum e esperam que o encontro traga resultados positivos e dê continuidade às relações nele significadas. </P>
<P>É um livro que também trabalha com as vulnerabilidades interacionais, presentes a cada momento no desenrolar do encontro. Vulnerabilidades essas que se tornam problemas quando acionadas por má féacionadas por má féacionadas por má féacionadas por má féacionadas por má fé</P>
<P>Goffman (Ibid., p. 6) afirma que não se deve “negligenciar o fato crucial de que para qualquer definição projetada para a situação tem um caráter moral distintivo. É esse caráter moral das projeções que mais nos interessam”. Nessa afirmação, ele expressa que é o jogo entre a cultura emotiva projetada e a moralidade vivida como controle social, por cada um dos participantes de um encontro social aos demais envolvidos, que desempenha um importante motivo para a definição da situação onde ocorre o encontro. O jogo tensivo entre o ethos ou cultura emotiva e as regras morais, portanto, na definição de expectativas a respeito do comportamento de si próprio e dos outros relacionais, acolherão as posições sociais que os atores-agentes desenharam para si e informarão aos demais. Para Goffman (Idem), </P>
<P> </P>
<P>(...) a sociedade é organizada com base no princípio de que qualquer indivíduo que possua certas características sociais tem o direito moral de esperar que os outros o valorizem e o tratem de maneira adequada, [e que,] um indivíduo que implícita ou explicitamente afirma ter certas características sociais, deve ter esta afirmação honrada pelos outros e deve, de fato, ser o que ele afirma ser. </P>
<P> </P>
<P>Contudo, e ao mesmo tempo, informa que </P>
<P> </P>
<P>...quando um indivíduo projeta uma definição da situação e, assim, faz uma reivindicação implícita ou explícita de ser uma pessoa de um tipo particular, ele automaticamente exerce uma exigência moral sobre os outros, obrigando-os a valorizá-lo e tratá-lo da maneira que pessoas da sua espécie têm o direito de esperar. Ele também implicitamente renuncia a todas as reivindicações de ser coisas que não parece ser e, portanto, renuncia ao tratamento que seria apropriado para tais indivíduos. Os outros acham, então, que o indivíduo os informou sobre o que é, e sobre o que deveriam [fazer para] se comportar como “ele” (Idem). </P>
<P> </P>
<P>É por meio dessa constante releitura das posições individuais a partir da performance do papel projetado por cada qual que se dá o jogo social nas interações face a face, em que também os atores-agentes controlarão os outros com quem dialoga no momento e a audiência que circula ao seu redor e é por eles controlada. Um simples deslize pode virar uma catástrofe para o ator-agente em cena. Contudo, segundo Goffman, a reação dos demais participantes a uma possível falha de um indivíduo durante o encontro seria de imediato tentar salvar a cena, o ator em cena e a própria peça, dissimulando, se fazendo de desentendidos ou buscando contornar a situação crítica e dar continuidade ao espetáculo. </P>
<P>Daí se espera, da parte dos atores-agentes que cometeram deslizes em suas performances e foram salvos e recuperados pelos demais ou por alguns dos membros presentes ao encontro, que demonstrem gratidão e se desculpem junto ao grupo: seja por meio de um gesto de cordialidade agradecida (um levantar de um copo, por exemplo), como forma de agradecimento aliviado, seja por meio de uma explicação formal ou informal sobre a falha ocorrida. Os demais fazem demonstrações de que entenderam, “de que não foi nada de mais”, e o encontro prossegue. </P>
<P>Mas a tensão continua. Até a finalização do evento, segundo Goffman, ninguém está de fato confortável. Em todo momento, pesa sobre o ambiente o receio de que um novo deslize aconteça e de que a nova cena provoque uma possível mudança na definição das situações em que o encontro se movimenta. </P>
<P>Quando o encontro se encerra, contudo, uma onda de alívio paira no ambiente e se pode respirar um pouco mais aliviado. Nos momentos após a finalização do encontro, porém, se há uma sensação positiva sobre o sucesso do evento acontecido sem deslizes ou apenas com alguns poucos, há também o medo do fracasso e as avaliações de cada personagem presente no encontro e da atuação de cada um deles, criando uma lista de quem deveria ser convidado para os próximos eventos e de quem deveria ser deixado de molho, ou ainda de quais presentes deveriam ser definitivamente excluídos e de como fazê-lo. </P>
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<P>Em torno da ideia e noção de fracasso em The Presentation of Self in Everyday Life </P>
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<P>A obra de Goffman em seu conjunto é um grande e arguto olhar sobre a construção social da realidade e um estudo crítico do manual de etiqueta da sociedade americana dos anos 1950, mas também se mostra profícua para entender a sociedade globalizada, se considerada para os dias de hoje. De um lado, há uma sociedade que pensa e idealiza o indivíduo e a individualidade como algo sagrado e que deve ser respeitado; de outro, uma sociedade que execra o fracasso e os fracassados e, ao fazê-lo, cria uma cultura do medo do fracasso que não poupa ninguém. </P>
<P>É isso que Goffman analisa em seu estudo sobre o fracasso, tendo por alvo de análise a sociedade americana do início dos anos 1950. O modelo analítico seguido nesse estudo é dramatúrgico, com todo um arranjo conceitual utilizado e aprofundado mais tarde em The Presentation of Self e em toda uma gama de artigos posteriormente organizados em coletâneas importantes, tais como, Behavior in Public Places: Notes on Social Organization of Gathering, de 1963, e Interaction Ritual: Essays on face-to-face behavior, de 196710, entre outras. </P>
<P>Nesse estudo sobre o fracasso, escrito alguns anos antes da publicação de The Presentation of Self e intitulado “On Cooling the Mark Out: Some Aspects of Adaptation to Failure”
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, Goffman objetiva compreender as perdas e os fracassos pessoais, principalmente os que envolvam o sentimento de humilhação, e as maneiras como uma pessoa se desengata de um ou de todos os seus envolvimentos sociais. O artigo se preocupa ainda em entender as estratégias utilizadas pela sociedade – por meio de “operadores” ou “especialistas em arrefecimento” – para lidar com e “resfriar” a pessoa em falência moral. </P>
<P>Esse mesmo processo ocorrerá em toda a sua obra subsequente, e de forma especial em Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity
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, de 1963. Nesse livro, Goffman informa ao leitor que “o normal e o estigmatizado não são pessoas, e sim perspectivas que são geradas em situações sociais durante os contatos mistos...” (GOFFMAN, 1988, p. 148). Com essa informação, examina os conceitos de estigma e identidade social deteriorada para sua análise dos indivíduos e grupos estigmatizados
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e “o sentimento de insegurança em relação à maneira que os normais o identificarão e o receberão... [além da] sensação de não saber aquilo que os outros estão ‘realmente’ pensando dele” (Ibid., p. 23). </P>
<P>Os “contatos mistos”, assim, são momentos em que os estigmatizados e os normais estão envolvidos em uma mesma ‘situação social’, e na presença física um do outro (Ibid., p. 22). Nesse caminho, Goffman apreende e informa ao leitor que nas “situações sociais mistas” se experiencia “uma interação angustiada” (Ibid., p. 27), onde normais e estigmatizados vivem um clima de tensão. De um lado, “o indivíduo estigmatizado pode tentar aproximar-se de contatos mistos com agressividade”, (ou com ‘retraimento’). De outro lado, porém, entre os normais pode haver uma série de insinuações e réplicas desagradáveis, instituindo um clima tensivo que pode vir a tornar-se um processo de “interação face a face... violenta” (Idem). </P>
<P>Mais uma vez, Goffman abre sua análise para as dificuldades de sensibilidade à diferença na sociedade americana e para a visão do outro diferente como desacreditado, incapaz, vagabundo e, por que não, fracassado
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. Para Goffman, em sua análise em The Presentation of Self, todos os participantes em interações sociais estão envolvidos em ações e estratégias para evitar serem constrangidos ou embaraçar os outros. Segundo o autor, “por trás de muitas máscaras e muitos personagens, cada intérprete tende a usar um único olhar, um olhar nu não-socializado, um olhar de concentração, um olhar, [enfim,] de alguém envolvido em uma tarefa difícil e traiçoeira” (GOFFMAN, 1959, p. 235). </P>
<P>O conjunto da obra de Goffman, e aqui particularmente The Presentation of Self, portanto, de um lado afirma – baseando-se no conceito de self auto-espelhado de Cooley (1922, p. 184) e indo mais além – que os indivíduos, ao se refletirem através dos outros e ao mesmo tempo habitarem a mente desses outros, provocam o surgimento de emoções básicas, como a vergonha e o orgulho. Processo esse que, segundo Scheff (2016a, p. 156), forma a base analítica “para o que Goffman chama de controle e gestão das impressões”. </P>
<P>De outro lado, contudo, essas emoções basilares – a vergonha e o orgulho – servem para Goffman como o solo analítico por meio do qual compreende as dificuldades e vulnerabilidades interacionais e os problemas oriundos de assumir riscos e desafiar as expectativas do self para consigo mesmo e em relação aos outros relacionais nos jogos e encontros face a face. Nos seus escritos, destarte, está presente um conjunto de emoções como embaraço, ansiedade, pavor, raiva, constrangimento, humilhação, frustração e outras afins, que criam o cenário no qual se desenvolvem as interações face a face em crescente movimento tensivo nas definições de situações e no gerenciamento das mesmas e das impressões sobre elas no encontro interacional e comunicativo de atores-agentes. </P>
<P>A longa citação que se segue adiante demonstra a vulnerabilidade e a tensão do encontro social no processo de definições de situações e no esforço continuado dos agentes-atores de gerenciar as impressões próprias ou alheias. Goffman (2012, p. 97) informa não existir um encontro social que não seja palco de incidentes, vexames e constrangimentos para um ou mais participantes. Do mesmo modo que ocasionalmente, mas não raro, os apuros de um dos participantes podem levar ao constrangimento de setores ou de todos os presentes no evento em que se evidenciou a dificuldade embaraçosa de um dos membros. </P>
<P>O jogo social se realiza, desse modo, no interior de um ambiente difuso de articulações permanentes de cegueiras, espertezas, habilidades, tatos, desembaraço e diplomacia, em uma luta por manutenção e salvamento da face ou fachada, e de uso, sustentação e manipulação de impressões, pessoais ou dos outros interacionais. O medo do fracasso paira como uma sombra ameaçadora sobre a cabeça dos membros presentes no encontro social. O próprio encontro e seus organizadores são também, a todo o momento, colocados em estado permanente de alerta contra deslizes, desvios, imprecisões que possam levar o empreendimento ao fracasso. </P>
<P>O encontro social e os seus participantes, assim, protagonizam um estado de alerta e estão envolvidos em uma precaução constante contra riscos, incidentes e desvios que possam vir a comprometer a si mesmos, aos outros, ou ao próprio encontro. E dos embaraços, enrubescimentos, gagueiras, suor frio, tremores nas mãos, constrangimentos, envergonhamentos e humilhações advindas dos perigos da exposição da face no decorrer da interação (GOFFMAN, 2012, pp. 95-109) em um contexto situacional qualquer. Nas palavras de Goffman, </P>
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<P>Em sua capacidade de performers, os indivíduos estarão preocupados em manter a impressão de que estão cumprindo os muitos padrões pelos quais eles e seus produtos são julgados. Como esses padrões são tão numerosos e tão difundidos, os indivíduos que são performers habitam mais do que podemos pensar em um mundo moral. Mas, qua performers, os indivíduos não estão preocupados com a questão moral de perceber esses padrões, mas com a questão amoral de projetar uma impressão convincente de que esses padrões estão sendo realizados. Nossa atividade, então, está amplamente preocupada com questões morais, mas, como performers, não temos uma preocupação moral nesses assuntos morais. Como performers, somos mercadores da moralidade. Nosso dia é entregue ao contato íntimo com os bens que exibimos e nossas mentes estão cheias de entendimentos íntimos deles; mas pode ser que quanto mais atenção nós dermos a esses bens, mais distantes nós nos sentimos deles e daqueles que ainda estão acreditando o suficiente para comprá-los. Para usar uma imagem diferente, a própria obrigação e lucratividade de aparecer sempre em uma luz moral firme, de ser um personagem socializado, nos forçam a ser o tipo de pessoa que é experimentada nos caminhos do palco (Idem, 1956, p. 162). </P>
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<P>Na análise goffmaniana, desse modo, a tensão em gerenciar as impressões funciona como um plano de articulações permanente entre os interacionais. Essa tensão é alimentada, e ao mesmo tempo os alimenta, pelo receio e a ansiedade subsequentes de uma possível perda de face ou fachada em todos os relacionais presentes ao encontro, e por uma peleja homérica de salvar a situação coletivamente e a própria pele no plano pessoal. De acordo com Goffman, na citação acima, nesse sentido, os interesses dos indivíduos não se centram na manutenção da questão moral e seus padrões de julgamento, mas pelo que ele denomina de questão amoral, isto é, de driblar os olhares dos outros sobre si e maquinar uma impressão convincente de que os padrões de julgamentos em ação no decorrer do encontro e nas situações dele advindas estejam sendo alcançados. </P>
<P>O ritual social de interação para Goffman, de um lado, confirma os atores-agentes no interior de um plano ideal que vê o indivíduo e a individualidade como sagrados e detentores de uma aura de respeitabilidade em seu entorno. De outro lado, contudo, o olhar goffmaniano para o ritual de interação, ao perscrutar o bas fond da sociedade americana de sua época, na emergência de um individualismo feroz que só fazia crescer, mostra que, na realidade, essa aura sagrada colide com a cultura do fracasso que coloca os seus cidadãos em cheque e transforma o encontro social em um movimento eterno. </P>
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<H1>Referências </H1>
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<P>MAURO GUILHERME PINHEIRO KOURY (maurokoury@gmail.com) é professor do Departamento de Ciências Sociais (DCS) e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB, João Pessoa, Brasil). É doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar, Brasil), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, Recife, Brasil) e graduado em ciências sociais pela UFPE. </P>
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<P>Recebido em: 15/04/2019 Aprovado em: 30/07/2019 </P>
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