Violência e performance no chamado ‘novo cangaço’: Cidades sitiadas, uso de explosivos e ataques a polícias em assaltos contra bancos no Brasil

Jânia Perla Diógenes de Aquino

Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Ceará (UFC, Fortaleza, Brasil). É pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da UFC. Tem doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade de São Paulo (USP, Brasil), mestrado pelo PPGS da UFC e graduação em ciências sociais pela mesma universidade., Universidade Federal do Ceará, Brasil



Resumo

Neste texto analiso uma modalidade de roubos e furtos contra agências bancárias que tem ocorrido em todas as regiões do Brasil, cuja característica principal é a truculência das quadrilhas nas abordagens dos alvos. Devido às afrontas ao poder público, à audácia e ao tamanho das quadrilhas, essas ações criminais têm sido chamadas por jornalistas, agentes e delegados de polícia de “novo cangaço”, em alusão aos grupos de sertanejos que, na primeira metade do século XX, percorriam o Nordeste e norte de Minas Gerais, sitiando e saqueando cidades, vilas e fazendas, confrontando e abatendo forças policiais. Discutirei as características principais desses roubos e furtos, bem como a socialidade nas quadrilhas que organizam e executam estas investidas ilegais.

Received: 2020 January 15; Accepted: 2020 June 9

5638. 2020 ; 13(3)
doi: https://doi.org/10.17648/dilemas.v13n3.31668

Keywords: Palavras-chave assaltos, roubos, violência, crime, quadrilha.
Keywords: Keywords robberies, thefts, violence, crime, band.

Introdução

Neste texto analiso uma modalidade de roubos e furtos [1] contra agências bancárias que tem ocorrido em todas as regiões do Brasil, cuja característica principal é a truculência das quadrilhas nas abordagens dos alvos. Em tais ocorrências, agrupamentos de dezenas de homens lançam mão de violência ostensiva contra reféns e a estrutura física de bancos. Utilizando armamento pesado e explosivos, costumam atacar e neutralizar as forças de segurança pública das cidades onde realizam esses assaltos. Devido às afrontas ao poder público, à audácia e ao tamanho das quadrilhas, essas ações criminais têm sido chamadas por jornalistas, agentes e delegados de polícia de “novo cangaço”, em alusão aos grupos de sertanejos que, na primeira metade do século XX, percorriam o Nordeste e o norte de Minas Gerais sitiando e saqueando cidades, vilas e fazendas, confrontando e abatendo forças policiais. Entre estes, o bando liderado por Virgulino Ferreira Silva, vulgo Lampião, foi o que se tornou mais conhecido em todo o país. A análise se centrará, portanto, nas características principais desses roubos e furtos que costumam ser associados ao fenômeno do “cangaço”, bem como na socialidade nas quadrilhas que organizam e executam essas investidas ilegais.

Desde 2000, pesquiso assaltos contra instituições financeiras e seus protagonistas, ressaltando a complexidade, o planejamento, a divisão de tarefas, a dimensão de negócio e as relações sociais que os atravessam (AQUINO, 2010a, 2010b, 2017, 2019). Embora tivesse conhecimento dessas ocorrências mais truculentas e chamativas e as tenha mencionado em alguns textos ( Idem, 2010a, 2017), vinha priorizando na análise ações realizadas a partir de metodologias “discretas” e silenciosas, que se destacam pela artimanha ou criatividade nas abordagens dos alvos, como o assalto à agência do Banco Central de Fortaleza, em 2005, em que os assaltantes montaram uma loja de grama sintética de “fachada” e de lá construíram um túnel que deu acesso ao cofre do estabelecimento, de onde foram roubados R$ 156 milhões; ou o assalto, em 2011, ao setor de cofres privados de uma agência do banco Itaú localizada na Avenida Paulista, no qual os assaltantes se passaram por trabalhadores encarregados de reparos na mobília da agência e conseguiram arrombar 171 cofres, que lhes renderam em moedas estrangeiras, barras de ouro e joias um valor estimado em R$ 250 milhões; ou ainda, o assalto ao aeroporto de Guarulhos, realizado em 2019, no qual oito homens a bordo de caminhonetas semelhantes às utilizadas pela Polícia Federal entraram para o setor de cargas e exportações do aeroporto e levaram 718,9 quilos de ouro. Tais ocorrências de grandes roubos, tidas por seus protagonistas como mais “sofisticadas”, evitam confrontos armados e costumam resultar em quantias que ultrapassam seis dígitos.

Se assaltantes que atuam contra instituições financeiras quase sempre são considerados parte de uma espécie de “elite do crime” dentro e fora das prisões, minhas conversas informais e entrevistas com participantes de assaltos mais inventivos, com abordagens baseadas em astúcia e discrição, durante os anos 2000, indicavam que esses homens se viam como uma “elite da elite”, mantendo uma visão pejorativa dos participantes das ações mais truculentas e espalhafatosas — termos como “açougueiros” e “pistoleiros”[2] costumavam ser utilizados em referência aos protagonistas de tais ocorrências. Apesar de certo estigma que ainda recai no universo social dos assaltos sobre aqueles que atuam com base na “violência ostensiva”, nesta década têm aumentado substancialmente a quantidade desses assaltos. Tenho observado nos últimos anos uma mudança de opinião por parte significativa dos meus interlocutores de campo em relação às ações em que cidades são dominadas e emulsões explosivas são utilizadas — tem se formado um consenso de que se trata de uma boa estratégia. Apesar do estardalhaço e da violência física desprendida nesses assaltos, alega-se que a coleta de informações anterior à ocorrência, o tamanho das quadrilhas, seus armamentos e demais investimentos em logísticas constroem cenários favoráveis ao sucesso da investida criminal e à fuga dos seus participantes.

Durante os anos 2000, realizei 41 entrevistas com praticantes de assaltos contra instituições financeiras, atuantes em diversos estados do país. Também desenvolvi diálogos com policiais e delegados lotados em divisões da Polícia Civil especializadas em roubos e furtos contra bancos, carros-fortes e empresas de guarda valores. Posteriormente, ao retomar minhas pesquisas sobre grandes assaltos em 2016, entrevistei 11 assaltantes, três delegados da Polícia Civil e quatro agentes da Polícia Federal. Passei a me interessar por estas ocorrências identificadas por polícias e mídias como “novo cangaço”, devido a suas performances impactantes, ao aumento estatístico desses roubos e furtos na década corrente e à sua proliferação no território nacional. Na primeira parte deste texto, apresento a diversidade de formatos e abordagens concernentes à modalidade de assaltos em análise e discuto a relação entre violência e performance nessas ações criminais. Na segunda parte, problematizo a expressão “novo cangaço” e a socialidade nas quadrilhas que articulam essas ocorrências. Por fim, assinalo a dimensão de “empreendimento” e negócio que esses assaltos assumem para seus praticantes.

Diversidade de formatos e abordagens em ocorrências de assaltos contra bancos marcados por violência ostensiva

Assaltos em que cidades inteiras são sitiadas se tornaram corriqueiros na região Nordeste em meados dos anos 2000 e, na década atual, ocorrências inspiradas nessas abordagens abruptas e barulhentas têm apresentado elevada incidência em todo o país. Trata-se de ações contra agências bancárias[3], geralmente localizadas em cidades de pequeno e médio porte, cujo efetivo policial e equipamentos de segurança pública podem ser superados pelas quadrilhas. Dezenas de homens fortemente armados chegam de súbito, rendem unidades policiais e investem contra agências bancárias. Tais roubos e furtos produzem grande impacto visual e sonoro, de modo a interromper o cotidiano de bairros e cidades onde são realizados, instaurando momentaneamente novas dinâmicas, baseadas em medo e perplexidade. Vejamos um exemplo desse modus operandi em um assalto ocorrido no interior do Ceará:

Uma agência do banco do Brasil foi alvo de ataques na madrugada desta terça-feira (2), na cidade de Graça a 255 km de Fortaleza. Criminosos também alvejaram o prédio da Polícia Militar da cidade e uma viatura. A sede do banco ficou completamente destruída e a estrutura desabou. Segundo informações apuradas pela Rede Jangadeiro FM, depois de invadir a cidade, o grupo teria se dividido em dois. Uma parte sitiou o posto policial e atirou contra o prédio. Ao mesmo tempo a outra parte seguiu para a agência bancária, implantou as dinamites nos caixas eletrônicos e efetuou as explosões. Em imagens recebidas pelo Tribuna do Ceará, é possível ver moradores de Graça chegando à agência logo após as explosões. O alarme da agência também pode ser ouvido. Fotografias mostram a viatura policial com os vidros estilhaçados e o teto da agência bancária totalmente destruído. A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) informou que as equipes das Polícias Civil do Estado do Ceará (PCEC) e Militar do Ceará (PMCE) estão em diligências, nesse momento, com o objetivo de localizar e capturar os responsáveis pela ação criminosa. Um Ecosport, utilizado pelo grupo, foi abandonado e incendiado na saída do município. O fato aconteceu por volta das três horas, quando um grupo armado chegou ao município em três veículos. Após o crime, os suspeitos fugiram em seguida, sentido São Bendito (JANGADEIRO FM, 02/04/2019).

Nesta ação, provavelmente a quadrilha errou nos cálculos da quantidade de explosivos a ser utilizada e, ao tentar arrombar os caixas eletrônicos da agência bancária, destruiu todo o prédio. Desde o fim dos anos 2000, dinamites têm sido utilizadas em diversas ocorrências de assaltos contra bancos no país. Segundo um dos assaltantes com quem tenho desenvolvido diálogo e que afirma usar esse material desde 2008, inicialmente as emulsões explosivas eram furtadas dos barracões de construtoras que as obtinham para implodir rochas e edificações antigas; outro meio de adquiri-las era pela compra de forma ilegal nos depósitos do Exército brasileiro. Com o aumento da demanda pelo material por parte das quadrilhas de assaltantes, teriam sido montadas fábricas clandestinas de explosivos no Nordeste com clientes em todas as regiões do país. Mas não se trata de uma logística de uso fácil, é preciso técnica no tratamento e manuseio das emulsões. Algumas quadrilhas contratam os chamados explosivistas, agentes ou ex-agentes das Forças Armadas que fazem cursos específicos para o manuseio desse material ou ainda pessoas treinadas por esses profissionais. Há também quadrilhas que obtêm os explosivos contando apenas com vagas instruções para sua utilização. Em decorrência deste amadorismo, ações como a que ocorreu em Graça, no Ceará, se tornaram frequentes. Para arrombar caixas eletrônicos ou cofres de agências bancárias, assaltantes implodem unidades inteiras das instituições financeiras e, algumas vezes, até pontos comerciais e residências vizinhas ao local assaltado. Em outra ocorrência no Ceará, esta com datação em 2011, no momento da explosão de uma agência do Banco do Brasil, milhares de cédulas voaram pelos ares e foram levadas por correntes de vento por dezenas de quilômetros, de modo que habitantes de zonas rurais do município relataram à polícia ter visto “dinheiro cair do céu” em suas localidades. A recorrência nos assaltos em que explosivos são utilizados tem levado bancos a reduzirem a quantidade de agências no interior do país, impactando a economia dos municípios e causando prejuízos à população, obrigada a se deslocar para cidades vizinhas, apenas para realizar saques e outras transações bancárias.

Ainda sobre o assalto no município de Graça, apesar da destruição provocada, observemos que a ação não foi caracterizada pelo improviso. Conforme demonstra a notícia acima transcrita, cada etapa do ataque armado foi calculada: uma parte dos assaltantes alvejou a sede da Polícia Militar e a outra atacou a agência bancária de modo estridente e ruidoso, despertando medo e apreensão na população, impactando na rotina do pequeno município. Também cidades de médio porte têm sido alvos dessas ações, vejamos a notícia desta ocorrência em Surubim, em 2018:

Uma cidade sitiada, uma polícia acuada e uma população inteira em pânico, refém em suas próprias casas, assustada com quase uma hora e meia de tiroteio ininterrupto. Assim foi a madrugada de terça-feira no município de Surubim, cidade-polo do Agreste Setentrional, de comércio farto e detentora do título de capital pernambucana da vaquejada, distante 119 quilômetros do Recife. Em mais uma ação estrategicamente planejada, aproximadamente 50 homens fortemente armados e encapuzados, usando dez veículos e algumas motocicletas, cercaram a cidade e explodiram os cofres de quatro dos cinco bancos instalados no local. Não buscavam mais os caixas-eletrônicos, alvo preferido das quadrilhas de assaltantes até então. Queriam os cofres das agências bancárias. Incendiaram dois veículos, trancaram a Polícia Militar em seu próprio batalhão e fizeram pelo menos seis cidadãos reféns, um deles ferido por um golpe de fuzil nas nádegas. Depois, fugiram sem dificuldade, com uma quantia em dinheiro não-revelada, deixando para trás um rastro de destruição e medo (...). “Foi desesperador. A gente não sabia o que fazer. Ficamos trancados dentro de casa, escondidos como podíamos. Foi a primeira vez que Surubim sofre um crime nessas proporções. Humilharam a polícia", diz o morador Carlos Henrique da Conceição. A ação meticulosamente planejada pelos homens armados com fuzis 762 e 556, além de metralhadoras .50 (aquelas utilizadas sobre um tripé), começou à 0h30. O grupo entrou na cidade e rapidamente se dividiu para bairros e locais estratégicos do município. O objetivo era um só: assustar a população para que ficasse trancada em casa e impedir qualquer possível reação da polícia. A primeira ação foi contra a Polícia Militar. Parte da quadrilha, utilizando três veículos, encurralou os sete policiais que estavam no 22º Batalhão, localizado no bairro de Cabaceiras. Destruíram o portão da unidade com uma caminhonete ’Ranger’ e, depois de incendiá-la, iniciaram uma troca de tiros com os PMs para impedi-los de sair da unidade. Enquanto isso, outro grupo espalhava o terror na Rua João Batista, localizada no Centro e conhecida como a rua dos bancos porque nela estão instaladas, lado a lado, as agências do Bradesco, Santander, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco do Nordeste, este último o único que não foi alvo dos criminosos (SOARES, 11/07/2018).

O poder de fogo das quadrilhas que efetuam esta modalidade de assalto costuma impressionar e submeter as populações das cidades sitiadas. Ao render ou impedir a atuação das forças policiais locais, agências e postos bancários, estabelecimentos comerciais e toda a população ficam submetidos às quadrilhas. Ações como a que ocorreu em Graça, no Ceará, em Surubim, no Pernambuco, e em dezenas de outras cidades do país foram efetuadas na madrugada, horário em que a movimentação nas ruas é menor do que durante o dia e as delegacias e quarteis funcionam com efetivos em quantidades reduzidas. A escolha do horário garante que as quadrilhas fiquem em vantagem na quantidade de homens, no poder de fogo das armas e pela chegada súbita. Assaltos truculentos, espalhafatosos e que causam comoção social também têm afetado o interior mineiro e o sudoeste da Bahia. Vejamos algumas descrições:

Na madrugada do Dia de Reis, em 6 de janeiro, cinco homens fortemente armados explodiram o cofre de uma tonelada do Banco do Brasil que ficava dentro da agência dos Correios de Josenópolis, a 145 km de Montes Claros (MG). A notícia varou o sertão como prenúncio de mais um ano de supremacia de bandos armados. (...) Em 16 de dezembro de 2016, 15 homens com metralhadoras e fuzis chegaram em dois carros a São João do Paraíso do Norte (MG). Parte entrou com maçarico na agência da Caixa Econômica Federal para abrir o cofre. Outra parte foi para a frente do quartel da Polícia Militar, ali próximo, disparar, nas contas da própria guarnição, 130 tiros de fuzil. Depois, com o dinheiro já nos carros, eles jogaram pontas cortantes de aço num trecho de 15 quilômetros da estrada que liga a cidade a Taiobeiras, para furar pneus de quem ousasse persegui-los. No dia 3 do mesmo mês, cinco homens com metralhadoras, revólveres e bombas haviam explodido, em poucas horas, caixas eletrônicos de agências do Banco do Brasil em Francisco Sá e dos Correios em Caetité, também no norte de Minas. A polícia ainda foi desafiada em Buritis, cidade mineira do Entorno do Distrito Federal, onde na ficção [Grande Sertão: Veredas] Riobaldo tinha fazenda. Na madrugada de 11 de outubro, dez homens dispararam rajadas de tiros contra o quartel da Polícia Militar e explodiram caixas eletrônicos do Banco do Brasil e da Caixa. A ação durou 40 minutos. O bando fugiu no rumo de Brasília. (...) Foi uma ação ousada que deixou em pânico a cidade baiana de Cocos, na divisa com Minas Gerais. Por volta das 11h30 de 10 de março de 2014, dez homens com fuzis entraram nas agências do Banco do Brasil e do Bradesco na praça principal de Cocos e anunciaram assalto. Para sair dos bancos, eles montaram um escudo com bancários e correntistas e, na fuga, levaram quatro funcionários do Banco do Brasil e quatro clientes do Bradesco. Como no tempo de Antônio Dó, jagunço descrito por Guimarães Rosa, os bandidos desfilaram pelas ruas disparando para o alto (NOSSA, 20/04/2017).

As analogias dos assaltos no interior do Brasil com cenas do romance de Guimarães Rosas, Grande sertão: Veredas, na notícia acima, não é um caso isolado. São recorrentes nas narrativas jornalísticas dessas ocorrências alusões a Riobaldo, cangaceiro que na ficção atuava em Minas Gerais, e a Lampião, personagem real da história pernambucana e brasileira. Nos assaltos noticiados, observamos que as abordagens se caracterizam pela ostentação de poder de fogo das quadrilhas e por encenações de agressividade ressoante na efetivação dos assaltos e fugas. Segundo afirmou um delegado de polícia que me concedeu entrevista, os bancos têm evitado divulgar o valor subtraído nessas ações para não dar visibilidade às quantias que circulam em cada unidade, acreditando que tal divulgação encorajaria novos ataques. Ainda segundo esse interlocutor, dada a elevada incidência de assaltos sofridos, as instituições financeiras em todo o país têm reduzido as somas dispostas periodicamente em caixas eletrônicos e as quantias transportadas em carros-fortes. Ademais, os bancos estariam incentivando seus clientes a utilizarem mais os cartões de crédito e a efetuarem transações com dinheiro apenas quando não houver alternativas de pagamento com cartões. O objetivo seria evitar elevadas cifras de valores líquidos em um mesmo local.

Ao contrário do que ocorre em outras regiões do Brasil, em assaltos registados na região Sul, quartéis e delegacias de polícia não costumam ser alvejados por coletivos de assaltantes. Um dos meus interlocutores, natural do Rio Grande do Sul e que já atuou em assaltos em 12 estados do país, ressaltou as boas condições da infraestrutura nas delegacias e quartéis do Sul do Brasil. Em nossa conversa, recebi uma espécie de “aula” sobre características das forças de segurança e da infraestrutura policial em cada região, vejamos sua fala:

— O formato da ação vai depender das características da cidade. No Sul, tu tens uma polícia e o Exército bem guarnecidos, tu vês uma situação diferente do resto do Brasil. Cada local tem a sua especificidade. No Nordeste e Norte tem muitas cidades com delegacias da Civil e instalações da PM muito sucateadas. Tu encontras cidades que não têm sequer delegacia. No interior de São Paulo e Rio não tem muita diferença do Nordeste e Norte em relação ao sucateamento, mas lá se torna mais perigoso porque tem uma parte de policiais que são suicidas, não liga pra vida deles nem da gente, troca tiro sempre que pode. No Sul, como te expliquei, estamos falando de polícias bem equipadas, com material novo e treinamento periódico. Por mais que a gente vá em muitos homens, tu não tens como metralhar a sede das polícias, porque eles vão responder com uma bazuca, uma bomba... Assim pensamos e chegamos a outros modos de agir, com energia, a moçada chegando e se impondo, fazendo pressão, mas de outro modo, fazemos assaltos que também são eletrizantes, mas com outros formatos. (Entrevista com Thiago, realizada em 18 de maio de 2019)

Para meu interlocutor Thiago as boas condições de infraestrutura dos quarteis e delegacias desencorajam a efetivação de ações que envolvem o domínio de cidades inteiras, no entanto, as quadrilhas atuantes na região teriam elaborado estratégias de abordagens “eletrizantes” que, mesmo sem alvejar sedes das polícias, produzem impacto e comoção social. Para impedir a atuação das forças de segurança pública locais na repressão aos assaltos, no Sul do Brasil as quadrilhas têm utilizado reféns como “escudo humano”; pessoas são colocados em volta dos assaltantes no intuito de protegê-los no percurso entre as agências bancárias e os veículos a bordo dos quais empreendem fuga. Em etapas previamente definidas, os assaltantes posicionam os reféns de modo a formarem “escudos” de proteção ante eventuais disparos da polícia. Vejamos esta notícia de um assalto ocorrido no interior do Paraná:

Quadrilha faz 45 reféns em assalto a bancos no interior do Paraná: Funcionários e clientes dos bancos, além de pessoas que passavam pela calçada no momento do assalto, foram usadas como escudo humano.A pacata cidade de Borrazópolis, a 130 quilômetros de Londrina, foi cenário de dois assaltos simultâneos na tarde desta terça-feira (14). As agências do Banco do Brasil e do Sicredi – que ficam uma ao lado da outra – foram atacadas por sete pessoas encapuzadas e fortemente armadas no início da tarde, segundo informações da Polícia Militar de Apucarana. Os bandidos estavam em dois carros, um GM Vectra e um Hyundai I30. Ao chegarem nas agências, eles deram voz de assalto e renderam os seguranças. Vestidos com roupas similares às de empresas de segurança privada, os assaltantes também usavam máscaras para cobrir o rosto e coletes balísticos. Para entrarem no Banco do Brasil os criminosos deram um tiro de fuzil na porta de vidro, que foi totalmente destruída. Uma vez dentro das agências, eles roubaram uma grande quantidade de dinheiro – ainda não contabilizada pelas gerências. No momento da saída, funcionários e clientes dos bancos, além de pessoas que passavam pela calçada no momento do assalto, foram usadas como escudo humano pelos assaltantes. A PM acompanhava de longe a ação. Segundo informações de testemunhas, os assaltantes ameaçaram matar as pessoas caso os policiais intervissem. De acordo com a polícia, ninguém ficou ferido na ação. Os bandidos fugiram atirando. Alguns dos disparos atingiram um veículo de um supermercado que fica nas imediações das agências bancárias. As paredes do estabelecimento também ficaram marcadas pelos tiros de fuzil. Pelo menos um dos vigias dos bancos foi levado como refém pelos assaltantes, mas foi deixado ileso na saída da cidade (CALSAVARA, 14/07/2015).

Embora efetuem disparos durante os assaltos e as fugas, ao partirem levando reféns as quadrilhas desencorajam perseguições policiais violentas. Outra característica marcante nestas ocorrências truculentas, como vimos, é a realização de duas ou mais ações em simultaneidade. Vejamos também esta ocorrência, registrada na cidade de Jaquirana, no Rio Grande do Sul:

Grupo assalta agências bancárias e faz reféns em Jaquirana, na Serra do RS: Criminosos chegaram à cidade em um carro vermelho, de acordo com testemunhas, e atacaram as agências do Banrisul e do Banco do Brasil. Também houve tentativa de invadir um posto de combustíveisUm grupo de criminosos atacou duas agências bancárias e fez reféns em Jaquirana, na serra gaúcha, nesta quinta-feira (5). A Brigada Militar do município, que tem pouco mais de 4 mil habitantes, faz buscas aos suspeitos. Ninguém ficou ferido. A auxiliar de escritório Alice Ritiele Padilha da Silva, de 22 anos, testemunhou a chegada dos assaltantes, em um veículo vermelho. "Eles vieram em alta velocidade, pela contramão, e pararam no Banco do Brasil". Ali, eles fizeram um cordão humano, com os clientes e funcionários, e também com pessoas que estavam em dois carros, que foram parados pelos suspeitos. A moradora, que ia para o trabalho na hora do crime, 13h30, diz que os suspeitos chegaram a disparar para o alto, o que assustou a população. Após o roubo, um dos vigias da agência foi levado como refém para o banco Banrisul, há algumas ruas do primeiro local atacado. A agência fica em frente à prefeitura e, de sua sala, o funcionário público Pablo Castilho Lopes viu a chegada dos criminosos na segunda agência. Pablo conta que os suspeitos estavam com o rosto coberto, e usavam armas longas e revólveres. Eles fizeram novamente um cordão humano, e saíram de lá com outro vigia refém, desta vez do Banrisul. Depois, retornaram ao Banco do Brasil, onde fizeram um funcionário refém. Segundo Alice, os criminosos ainda tentaram invadir um posto de gasolina que fica na frente do banco, e onde também funciona uma agência lotérica. Chegaram a atirar na porta do estabelecimento, mas fugiram em seguida. Os reféns foram liberados a cerca de 6 km do local dos crimes, em direção ao Rio Tainhas (G1 RS, 05/07/2018).

A similaridade na performance das quadrilhas nas ocorrências de Jaquirana e Borrazópolis também pode ser observada em diversas outras ações realizadas na região Sul do país, em plena luz do dia. A estratégia de realização de dois ou mais assaltos de modo simultâneo, observada nos dois casos acima descritos, foi estrelada no Brasil pelo Comando Vermelho (CV) nos anos 1980, na cidade do Rio de Janeiro. Aproveita-se o impacto na rotina das agências bancárias e suas vizinhanças, decorrente da chegada repentina e intempestiva de homens armados e, assim, mais de um estabelecimento é atacado (AMORIM, 1993).

Tentando dar resposta a essas ações, não raro, referidas como “novo cangaço”, estados e prefeituras pelo Brasil têm adotado diferentes medidas. Alguns têm investido em helicópteros que reduzem o tempo de reposta da polícia entre a capital e o interior, outros criaram comandos policiais móveis que atendem a mais de um município e se locomovem com rapidez entre eles. Houve também casos de prefeituras que isolaram agências bancárias do seu entorno com correntes, impedindo o acesso de carros. Tais medidas, quando não fracassam, têm sido apenas parcialmente eficazes, já que essa modalidade de ações criminais tem se mantido frequente.

Desde 2018, têm sido mais registrados os confrontos entre polícias e quadrilhas em decorrência dessa modalidade de assalto, resultando em mortes e comoção social. Na Grande São Paulo este ano, uma tentativa de assalto desencadeou troca de tiros e 11 assaltantes foram fatalmente alvejados pela polícia:

Guararema: tentativa de roubo a bancos termina com 11 mortos após tiroteio: Quadrilha tentou assaltar dois bancos e um dos criminosos fez uma família refém durante fuga em cidade da Grande SP.Uma tentativa de roubo a dois bancos terminou com tiroteio em Guararema, cerca de 80 quilômetros da capital, na madrugada desta quinta-feira (4). De acordo com a Polícia Militar, eram ao menos 25 criminosos e 11 foram mortos por policiais. (...) O governador de São Paulo, João Doria, parabenizou a polícia: “Estão de parabéns os policiais que agiram e colocaram no cemitério mais dez bandidos”. Uma família foi feita de refém durante a fuga de um dos assaltantes, mas não se feriu. O criminoso que manteve os reféns morreu ao ser baleado. A ação começou por volta das 4h na região central da cidade. De acordo com o comandante da Rota, Mario Alves da Silva, os assaltantes, fortemente armados, estavam em cinco veículos blindados. Eles invadiram uma agência do Banco do Brasil e outra do Santander (...). Até a última atualização desta reportagem, não estava confirmado se, de fato, o dinheiro foi levado dos bancos. Em nota, o Santander citou “tentativa de furto”. O Banco do Brasil informou ter tido a agência “vandalizada” e que analisa os danos ao prédio. (...) Foram apreendidos com a quadrilha oito fuzis, quatro pistolas, duas espingardas calibre 12, dois revólveres, coletes à prova de balas e oito emulsões de explosivos e espoletas que acionam os explosivos. “Em princípio, havia indivíduos altamente equipados, com colete tático, luva, balaclava, equipamentos de última geração para, realmente, uma ação de guerra”, informou o comandante da Rota. De acordo com a assessoria de imprensa da PM, dos 11 assaltantes mortos, sete foram atingidos por balas durante a troca de tiros em um bloqueio feito por policiais da Rota, na Estrada Hércules Campanholi, que dá acesso ao centro do município. A polícia apreendeu com o grupo um Hyundai blindado que havia sido roubado na noite anterior em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Ainda segundo a Polícia, outros dois criminosos que estavam em um veículo Subaru blindado, em outro ponto da mesma estrada, fugiram em direção a uma mata. Um deles foi morto em confronto com a PM no matagal, enquanto o segundo morreu após fazer reféns no condomínio e ser baleado por policiais. Os dois últimos assaltantes mortos foram baleados também na mata. O Banco do Brasil invadido é vizinho de parede da delegacia da cidade. A distância entre as duas agências alvo dos criminosos é de menos de 300 metros. Os bancos ficam a cerca de 500 metros da Prefeitura de Guararema, cidade turística com pouco mais de 28 mil habitantes. (...) Durante a ação dos assaltantes nesta madrugada, as bombas colocadas no banco Santander não chegaram a ser detonadas. Explosivos foram achados no interior das agências. Os criminosos também metralharam a fachada de uma loja. Por volta de 7h40, carros da polícia chegavam ao local do assalto para analisar uma suspeita de bomba em um veículo. Ainda segundo informações da polícia, fora os assaltantes mortos e um único preso até por volta de 10h30, o restante da quadrilha conseguiu fugir em carros usando estradas rurais. Um veículo foi abandonado no meio do caminho. Policiais militares informaram que nenhum agente da corporação ficou ferido durante a ação contra os criminosos. No entanto, viaturas foram atingidas por disparos e tiveram os vidros estilhaçados, além de terem ficado com os pneus furados por “miguelitos” (pregos) (G1, 04/04/2019).

Outro caso de confronto entre polícia e assaltantes que terminou em “banho de sangue” e ganhou visibilidade nacional ocorreu na cidade de Milagres, localizada no interior do Ceará:

Pelo menos 14 pessoas foram mortas em uma tentativa de assalto a dois bancos, na madrugada desta sexta-feira, 7, na cidade de Milagres, região do Cariri, no Ceará. Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado, após confronto com policiais, oito membros da quadrilha morreram. As outras vítimas eram reféns – cinco da mesma família – e informações preliminares indicam que houve execução por parte dos bandidos. Milagres, a 487 quilômetros de Fortaleza, tem cerca de 28 mil habitantes. A tentativa de roubo às agências do Banco do Brasil e do Bradesco foi por volta das 2h30. A quadrilha estava com os reféns quando a PM chegou e, dizem testemunhas, houve intenso tiroteio. Cinco criminosos morreram no local e dois após serem atendidos em postos de saúde da região. Outro foi morto por policiais na cidade de Barro, a cerca de 100 quilômetros de Milagres. Três bandidos foram detidos depois e nenhum dinheiro foi levado. Primeiramente, os bandidos assaltaram um caminhão na rodovia BR-116, entre Milagres e Brejo Santo. Depois que sequestraram os seis reféns na estrada e os obrigaram a entrar na cidade. (...) A família sequestrada era do empresário João Batista Magalhães, de 46 anos, que voltava junto do filho Vinícius, de 14 anos, do Aeroporto de Juazeiro do Norte (CE), onde haviam buscado parentes vindos de São Paulo para passar o Natal. Além deles, morreram a cunhada Claudineide Souza, de 42 anos, o marido dela, Cícero Santos, de 60, e o filho do casal, Gustavo, de 13. “Uma tragédia. Toda a família e a cidade estão aos prantos”, diz Tadeu Gama, cunhado do empresário, que era de Serra Talhada (PE). A sexta vítima era Francisca Cruz, de 49 anos. A investigação que levou ao grupo envolveu as inteligências das polícias de quatro Estados – Sergipe, Alagoas, Bahia e Ceará. A quadrilha teria atuação interestadual, com foco no Nordeste, segundo o secretário da Segurança, André Costa. Milagres já havia sofrido tentativa de ataque na semana anterior, segundo o diretor do Sindicato do Bancários do Ceará, Gabriel Mota. Por isso, a polícia investigava a ação da quadrilha e conseguiu interceptá-la. (...) A Polícia apreendeu armas e explosivos, além de três veículos envolvidos na ocorrência. “O carro parou na frente do banco, mas a polícia vinha atrás. Quando percebemos, fomos nos esconder, com medo das balas”, conta Niedja Alves, de 32 anos, dona da funerária em frente à agência. “Foram 20 minutos de disparos. Nunca aconteceu nada disso aqui. Só via na TV”, diz um empresário da cidade, que pediu anonimato. A Polícia também encontrou um homem morto em uma caminhonete abandonada, com colete à prova de balas, e investiga sua relação com os ataques (O ESTADO DE S. PAULO, 07/12/2018).

Apesar de barulhentos e audaciosos, esses roubos e furtos até meados de 2018 não costumavam resultar em mortes, exatamente por conseguirem conter as forças policiais e, nos casos em que havia reféns, observava-se demonstração de cuidado com a integridade física das vítimas por parte das polícias, que não partiam para o enfrentamento. No caso do confronto na Grande São Paulo acima descrito, embora a polícia tenha demonstrado conduta violenta e exterminadora na perseguição aos assaltantes, houve também inadvertência e certo desleixo no planejamento da ação pela quadrilha, cujo alvo estava localizado na vizinhança de uma delegacia de polícia. No caso do confronto no Ceará, jornalistas e pesquisadores entrevistados atribuíram as mortes ao despreparo e à irresponsabilidade da polícia, que não teria demonstrado nenhum zelo pela vida dos reféns do assalto. Assim como o governador de São Paulo, João Doria, que parabenizou a ação violenta da polícia em Guararema, o governador do Ceará, Camilo Santana, em entrevistas concedidas no dia seguinte à tragédia na cidade de Milagres, também avalizou o desempenho das polícias cearenses no caso, inclusive lançando a suspeita de que as vítimas mortas faziam parte da quadrilha, hipótese que as investigações vieram a negar. O aumento dos confrontos que resultam em mortes de assaltantes, policiais e vítimas, em alguma medida sinaliza que nos últimos anos os governos têm desistido de enfrentar o aumento dessa modalidade de crime com inteligência policial, investigação e investimentos em infraestrutura, passando a confrontar as quadrilhas com parte das estratégias de atuação a que estas têm recorrido, como intrepidez, brutalidade e violência ostensiva, colocando a população e os funcionários de bancos no meio do fogo cruzado.

A estridência e o alvoroço característicos desses assaltos, que têm sido designados pelo termo “novo cangaço”, fazem parecer que constituem investidas rudimentares, baseadas em rompantes emotivos ou ações impulsivas. Contudo, trata-se de ocorrências que envolvem planejamento e elaboração. Antes de atacarem delegacias, as quadrilhas costumam pesquisar sobre o efetivo policial da cidade onde vai ser realizado o assalto, a movimentação de valores e a rotina de funcionamento das agências bancárias locais. As dezenas de homens que participam dessas ações não constituem uma turba desorientada ou sem rumo, cada um deles desempenha funções entre as muitas que envolvem tais ocorrências: entre os participantes há “soldados”, “arrombadores”, “motoristas”, “explosivistas”, entre outras funções (RODRIGUES, 20/06/2018). Os modos abruptos de abordar “vítimas” e alvos, atacar delegacias e quartéis, movimentar-se pela cidade e partir em fuga são vivenciados também como performance. A violência ostensiva desprendida nas chegadas, permanências e saídas das quadrilhas objetivam em parte constranger, assustar e submeter reféns e eventuais oponentes dos assaltantes. Vejamos as falas de alguns dos meus interlocutores, protagonistas dessa modalidade de assalto. Paulo Sérgio enfatiza a logística e a indumentária utilizada:

— Tem que chegar, chegando, de uma vez, em caminhonete, carro médio, já tem que todo mundo ver os fuzis, fazer o que tem que fazer sem hesitar. Cada um sabe qual a sua missão ali, então tem que fazer sem hesitar. Cada passo é conversado antes. (Entrevista com Paulo Sergio, realizada em 15 de abril de 2018)

Laurindo, por sua vez, salienta as expressões corporais e faciais que os assaltantes devem manifestar:

— Tem que fazer cara que vai atirar, que não tá ali pra brincadeira. Seja com toca ou de cara limpa, o jeito que o cara anda, que se movimenta, com a cara fechada, sem demonstrar simpatia, só o jeito de se movimentar e olhar o pessoal sabe que a gente tá ali pra arrebentar. A gente tem que dominar todos os sentidos de quem assiste um assalto desse. Tem que ter a arma e o carro para impactar no visual, tem que ter barulho de tiro ás vezes para impactar no sonoro, se aparece alguém mais atrevido a gente dar um empurrão, uma mãozada, solta um grito, a gente tem que mostrar que é parada é séria, entrando na mente por todos os sentidos. (Entrevista com Laurindo, realizada em 3 de agosto de 2018)

Raul considera a rapidez na execução da ação criminal um elemento de grande relevância para seu êxito:

Percebemos, portanto, que há um cálculo racional em cada tarefa desempenhada nessas ações. Há consciência, por parte de seus executantes, da truculência dessas investidas e dos seus impactos sobre quem é abordado diretamente nos assaltos e até mesmo sobre quem apenas os presencia. Embora haja imponderáveis que podem ter lugar nessas ocasiões, as quadrilhas procuram alcançar o equilíbrio entre violência e racionalidade. Investe-se em infraestrutura e logísticas específicas. Além de armas modernas, veículos potentes e explosivos, são providenciados também coletes à prova de balas para se protegerem em caso de confrontos com a polícia, balaclavas para ocultar o rosto, objetos pontiagudos para furar os pneus das viaturas policiais durante a fuga, entre outros equipamentos. Embora possam parecer improvisados e repentinos, tais roubos e furtos demandam semanas de levantamento de dados e informações, reuniões entre seus participantes, divisões de tarefas, discussões e decisões sobre detalhes de sua efetivação. O momento da ação truculenta não costuma durar mais que duas horas, mas para que possam agir com crueldade e estardalhaço por algumas dezenas de minutos e consigam sair impunes do local do assalto, todo um trabalho de planejamento e cálculo é necessário.

Os participantes desses assaltos estão cientes da relevância de seus desempenhos dramáticos na situação de interação presencial ensejada pelo assalto. Ao contrário do que ocorre nas situações sociais de encontro face a face na vida cotidiana, analisadas por Goffman (1992), em que “atores sociais” buscam produzir imagens positivas de si aos seus interlocutores, os integrantes de quadrilhas que realizam assaltos caracterizados por truculência e estardalhaço buscam alimentar nos funcionários ou usuários dos estabelecimentos atacados, ou ainda nas polícias, as piores impressões possíveis (AQUINO, 2010). Sendo considerados rústicos, agressivos e descontrolados por seus oponentes, eles têm maiores chances de não enfrentarem reações, evitando perseguições e confronto armado na fuga. Além de domínio do componente expressivo do comportamento nos assaltos, esses profissionais do crime elaboram “técnicas corporais” (MAUSS, 2003) específicas para as ações criminais das quais participam, que vão desde os modos de segurar e disparar as armas até atitudes agressivas para com os reféns — por exemplo, “dar um empurrão”, “uma mãozada” ou soltar “um grito”, como disse Laurindo — ou posturas afrontosas diante da polícia. Com a participação continuada nessa modalidade de ocorrências, tais habilidades e técnicas corporais e mentais se tornam inscritas em suas mentes e corpos.

A partir de 2017, quando passei a me debruçar sobre essas ações que se valem da violência ostensiva, tenho observado que tal característica costuma ser bastante relativizada por seus protagonistas. Se os assaltantes que apostam em investidas mais silenciosas e comedidas se orgulham da sagacidade de suas técnicas, os que participam dessas mais barulhentas e chamativas ressaltam a coragem mobilizada ao partirem para o confronto aberto com a polícia e a capacidade de vivenciarem pressões extremas, mantendo, segundo alguns dos meus interlocutores, o autocontrole e a aparência de valentia. Esses assaltos marcados por gestualidades abruptas, gritos e disparos envolvem, tal como definidos por Wieviorka (1997), usos fortemente “instrumentais” da violência, por meio de ações impactantes que dispensam outros tipos de comunicação e relação entre os atores envolvidos.

No Brasil, desde meados dos anos 1970 vem se constituindo um pertinente e sofisticado campo de estudos que tem sido chamado de sociologia da violência, abrangendo pesquisas com variados recortes, abordagens e orientações teóricas (ADORNO, 1993; ZALUAR, 1999; KANT et al., 2000; FACHINETTO et al., 2020). Mais recentemente, levantamentos e balanços bibliográficos têm chamado a atenção para o crescimento de uma modalidade ou repertório de pesquisas e análises designadas como “etnografias do crime” (BARBOSA, 2016; BIONDI, 2018; AQUINO e HIRATA, 2019). Para um diálogo com a problemática abordada neste texto, merece destaque a reflexão pioneira de Alba Zaluar (1985) sobre a construção de masculinidades na Cidade de Deus, na periferia do Rio de Janeiro, atreladas ao ingresso no crime e, sobretudo, ao uso ostensivo de armas de fogo. Embora a masculinidade dramatizada por gestualidades abruptas, imposição de armamento pesado, gritos e ameaças não tenha sido diretamente tematizada nas entrevistas que realizei com assaltantes, participantes das ocorrências contra bancos designadas pela polícia e por veículos midiáticos como “novo cangaço”, a percepção de si e dos seus comparsas como “machos”, “valentes” e “implacáveis” parecia subliminar em várias narrativas e expressões como: “eles percebem logo que ali não tem brocha não” ou “tem que aguentar o tranco, não pode amolecer como viadinho” ou ainda “policial só é homem fazendo revista em moleque desarmado, quando eles veem uma AK 47 vira mulherzinha”. Ademais, os coletivos que planejam e executam esses assaltos têm composição exclusivamente masculina. Ao contrário de ações que envolvem abordagens mais astuciosas e sutis, nas quais ocorrem de mulheres assumirem tarefas como aluguel de casa para as reuniões das quadrilhas ou preparo de refeições para os reféns, nas ocorrências em que o enfrentamento armado desempenha papel central a presença feminina não tem sido observada.

Outra elaboração importante na discussão acadêmica sobre violência desenvolvida no Brasil é o conceito de “sociabilidade violenta” de Machado da Silva (2004), que busca apreender a natureza e o sentido da transformação qualitativa nas relações sociais a partir das práticas dos chamados criminosos comuns no Rio de Janeiro. O autor destaca a desregulação e a autonomização no emprego da violência na criminalidade urbana contemporânea, que teria passado a dispensar maiores justificações (Idem, ibid.). Em uma abordagem próxima à de Machado da Silva, César Barreira (2013), ao centrar-se na criminalidade urbana contemporânea, identifica a “crueldade” como sua marca e ponto de partida para a compreensão da “violência difusa”, categoria analítica cuja efetividade e amplitude se fariam sentir pela capacidade de irradiação do fenômeno da violência por distintos espaços da vida social, resvalando na “sensação difusa de insegurança” e em “difusos medos sociais”. Para Barreira (Ibid.), o difuso também configura o incontrolável e o imponderável, manifestos na possibilidade de “todos”, independentemente de sexo, idade ou classe social, tornarem-se vítimas de práticas violentas em diversificadas situações. No contexto brasileiro marcado pela “violência difusa”, a “crueldade” ganharia contornos em práticas delituosas, cuja violência desprendida transborda noções de equivalência social (Idem, ibid.).

O conceitos de “sociabilidade violenta” de Machado da Silva e as categorias “crueldade” e “violência difusa” trabalhadas por Barreira exprimem o cotidiano de tensão e medo característico de cidades brasileiras cujas ocorrências criminais ganham visibilidade midiática, sendo também difundidas nas redes sociais, e repercutem fortemente em seus moradores, cujas percepções, experiências e rotinas têm sido atravessadas pela sensação de insegurança. Os cenários delineados por Machado da Silva e Barreira soam imponentes e verossímeis tanto para eventuais “vítimas” como para o perfil de assaltantes aqui analisados. Estes últimos, cientes dos contextos materiais e simbólicos em que vão atuar, conseguem daí tirar proveito. Para compreendermos os agenciamentos mobilizados pelas quadrilhas ante a insegurança e o pavor associados à violência urbana, um diálogo com as análises de Michel Misse se faz oportuno.

Misse (1999, 2016) destaca a polissemia e complexidade conceitual da violência, que, para ele, não constitui um conceito e se torna “performativa”, “normativa” e “acusatorial” quando deixa de ser “meramente constatativa”. Segundo o autor, há duas características que resistem às variações históricas nos significados da violência. Uma delas seria a falta de identificação ou a relação de alteridade estabelecida por quem a utiliza: raramente alguém considera violentos seus próprios atos. A outra constante da violência se faria notar por seu emprego se dar sempre “contra alguém”, configurando-se em uso performativo, seja de modo “denunciatório” ou “acusatório”. Misse (2016) assinala que a violência não tem sido uma expressão apenas “descritiva” ou “neutra”, mas tem representado posicionamentos ou tomadas de partido, engajando-se na própria definição do ato ou ator. A fecunda e inovadora reflexão de Misse fornece importantes vias para pensarmos a relação entre violência e performance nos assaltos contra bancos abordados neste texto, cujas narrativas midiáticas os classificam como “novo cangaço”. Inteirados das repercussões e dos impactos de suas atuações enérgicas e barulhentas, os assaltantes envolvidos em tais investidas armadas contra bancos acionam violências físicas e simbólicas, não por descontrole ou precariedade técnica, mas como recurso dramatúrgico, sobretudo.

Mais do que protagonizar situações sociais ou ocorrências emblemáticas da “sociabilidade violenta”, consideradas “cruéis” ou manifestação de “violência difusa”, esses “profissionais do crime” se utilizam das repercussões de suas ações criminais e das visões instituídas sobre uso de armamento pesado, explosivos, confrontos e disparos para manter e fortalecer a “eficácia simbólica” (LÉVI-STRAUSS, 1985) de suas atuações. Demonstrando elevado “poder de fogo” e se portando estridentemente, essas quadrilhas de assaltantes desmobilizam e desmoralizam equipes policiais que poderiam colocar em risco o sucesso de seus “investimentos” e interesses e, ao mesmo tempo, aprovisionam diferentes mídias com conteúdo para difusão e repercussão de suas ações, assim o alcance de suas performances é ampliado. Veiculando essas ocorrências, jornais, telejornais e redes sociais o fazem de modo “denunciatório” e “acusatório” (MISSE, 2016), enfatizam a truculência, crueldade e rusticidade de seus participantes. Mas tais difusões midiáticas e pelas redes sociais, que denunciam e acusam as quadrilhas e seus integrantes, também trabalham a favor deles, pois servem para fortalecer crenças socialmente instituídas sobre a truculência e brutalidade implicadas nesses assaltos e, assim, amedrontam e submetem potenciais oponentes, desencorajando reações.

Ao contrário do que as veiculações midiáticas levam a pensar, quanto mais contundente a violência utilizada, mais planejamento se faz necessário nesses furtos e roubos. Tais açõessão reflexo, portanto, do aperfeiçoamento técnico e, de certo modo, da profissionalização de seus protagonistas e não de improvisações ou imprudências, como pode se especular. A violência manifestada funciona como moduladora de socialidades entre assaltantes em suas práticas e engajamentos, tanto quanto atributo de suas ações, refletindo o investimento material, mental e emocional aplicado nessas investidas ilegais. Conforme assinalado anteriormente, a performance das quadrilhas deriva de cálculos, estes por sua vez derivados de saberes inscritos na mente e no corpo. É no planejamento, na organização e no treinamento para os instantes da efetivação dos assaltos que esses homens se associam, socializam, compartilham e elaboram conhecimentos e técnicas.

Grupo assalta agências bancárias e faz reféns em Jaquirana, na Serra do RS: Criminosos chegaram à cidade em um carro vermelho, de acordo com testemunhas, e atacaram as agências do Banrisul e do Banco do Brasil. Também houve tentativa de invadir um posto de combustíveis

Um grupo de criminosos atacou duas agências bancárias e fez reféns em Jaquirana, na serra gaúcha, nesta quinta-feira (5). A Brigada Militar do município, que tem pouco mais de 4 mil habitantes, faz buscas aos suspeitos. Ninguém ficou ferido. A auxiliar de escritório Alice Ritiele Padilha da Silva, de 22 anos, testemunhou a chegada dos assaltantes, em um veículo vermelho. "Eles vieram em alta velocidade, pela contramão, e pararam no Banco do Brasil". Ali, eles fizeram um cordão humano, com os clientes e funcionários, e também com pessoas que estavam em dois carros, que foram parados pelos suspeitos. A moradora, que ia para o trabalho na hora do crime, 13h30, diz que os suspeitos chegaram a disparar para o alto, o que assustou a população. Após o roubo, um dos vigias da agência foi levado como refém para o banco Banrisul, há algumas ruas do primeiro local atacado. A agência fica em frente à prefeitura e, de sua sala, o funcionário público Pablo Castilho Lopes viu a chegada dos criminosos na segunda agência. Pablo conta que os suspeitos estavam com o rosto coberto, e usavam armas longas e revólveres. Eles fizeram novamente um cordão humano, e saíram de lá com outro vigia refém, desta vez do Banrisul. Depois, retornaram ao Banco do Brasil, onde fizeram um funcionário refém. Segundo Alice, os criminosos ainda tentaram invadir um posto de gasolina que fica na frente do banco, e onde também funciona uma agência lotérica. Chegaram a atirar na porta do estabelecimento, mas fugiram em seguida. Os reféns foram liberados a cerca de 6 km do local dos crimes, em direção ao Rio Tainhas (G1 RS, 05/07/2018).

— Tem que ter foco e precisão cirúrgica, cada um vai fazer o que veio fazer e no final cada função se encaixa com a outra. Quem vai atirar já vai de colete [à prova de balas]. Já é acostumado a fazer isso, sem se apavorar, vai ali, troca tiro, dar o seu recado. Se vai usar explosivo já botou ali, já vai abrindo os caixas, já pega o dinheiro e se dirige para um dos veículos. É importante fazer tudo no tempo planejado, porque se a rapaziada se demora demais já vamos perder nossa principal vantagem, que é o fator surpresa. (Entrevista com Raul, realizada em 28 de março de 2019)

‘Novo cangaço’? Socialidades nas quadrilhas e perfil empreendedor dos assaltantes

A literatura acadêmica sobre assaltos é em geral restrita à criminologia (MATTHEWS, 1996; 2002) e as pesquisas empíricas deste fenômeno (NASCIMENTO, 2003; LOPES JÚNIOR, 2006; AQUINO, 2010a; GRILLO, 2013; PAES-MACHADO e VIODRES-INOUE, 2017; CAMINHAS, 2018) são ainda raras na América Latina. Sobre o tipo específico de ocorrências abordadas neste texto, em que se verificam abordagens truculentas, cercos a cidades e afrontas a unidades policiais, há uma bibliografia de autoria de policiais civis, federais e militares composta por artigos e monografias que constituem trabalhos de conclusão de curso de especializações ou formação específicas para profissionais da segurança pública no âmbito de escolas civis e militares, em sua maior parte disponíveis em plataformas e sites on-line — destaco os trabalhos de Barbosa (2009), Da Cruz (28/09/2018) e Rodrigues (20/06/2018).

Barbosa (2009) situa as ocorrências inaugurais da modalidade de assaltos que concebe como “novo cangaço” no sertão pernambucano em meados dos anos 1990: “Das brigas entre famílias os clãs migraram para os assaltos, sequestros, roubos a bancos e estabelecimentos comerciais, narcotráfico, entre outros, sempre praticados com grande violência” ( Idem, ibid., p. 105). Para ele, “brigas de famílias, crimes políticos e até a pistolagem são uma questão cultural, herdada do ‘cangaço’ e das antigas oligarquias, motivadas pela impunidade” ( Idem ). Da Cruz (28/09/2018) destaca a “organização” nestas ocorrências e as dificuldades impostas pelas quadrilhas às forças policiais. O autor também assinala as relações desses assaltos com outras modalidades de crime, como o tráfico de drogas e armas. Rodrigues (20/06/2018) aborda as diferenças nos modi operandi de acordo com as características das cidades e estratégias de investigações das polícias, listando diferentes funções entre os integrantes das quadrilhas. Segundo ele, a crescente incidência e “organização” dessas ações criminais pode inviabilizar o transporte de valores por instituições financeiras e grandes estabelecimentos comerciais no país.

Embora a expressão “novo cangaço” venha sendo difundida por jornalistas responsáveis pelas seções de polícia de periódicos impressos, telejornais e páginas na internet em todo o país, a associação entre assaltos truculentos e o fenômeno do “cangaço” parece ter ocorrido primeiro nas delegacias de polícia. Vejamos a fala de um delegado:

— É “novo cangaço” mesmo, desde o início dos anos 2000 a gente chama assim já há uns 20 anos. Veja que a mentalidade dos criminosos que executam estes roubos e furtos é similar a dos cangaceiros, apenas a roupagem tecnológica é que é nova. Eles não querem apenas o dinheiro, há um desejo de dar show, de mostrar que o bando deles que está mandando em tudo, naquele momento. É como os romances e livros de história mostram que bandos de cangaceiros se portavam aqui no Nordeste. (Entrevista com delegado de polícia lotado na Região Metropolitana de Fortaleza, realizada em 2 de março de 2019).

Um outro delegado entrevistado reforçou esta versão, vejamos:

— Sim, a gente chama “novo cangaço” desde que começaram com essa estratégia de invadir cidades, atacar delegacias e quartéis. Esses casos lembram muito os grupos de cangaceiros que também sitiava cidades nos sertões, o rótulo “novo cangaço” cai como uma luva. A gente trabalha muito em colaboração com outros estados, hoje a Polícia investigativa o tempo todo troca informações com colegas de outros estados, acaba que não só dados e técnicas vêm e vão. Nosso vocabulário policial vai se consolidando entre nós e se espalhando além do nosso meio profissional. (...) A gente vai dando entrevistas, os jornalistas vão gostando daquela palavra e eles também começam a usar (...) Não é só o “novo cangaço” não, tem outras como pirangueiro, meliante, tem muitas. A gente usa, aí eles publicam, o público deles repercute e acontece a incorporação do nosso vocabulário por eles. (Delegado de polícia)— Se a marca do “novo cangaço” são cidades sitiadas e bases policiais rendidas, por que vocês também chamam assim assaltos em que isso não ocorre? (Entrevistadora)— A gente chama quando o “modus operandi” é uma derivação desse modelo da invasão de cidades, se não atiram nas delegacias, mas você vê a mesma postura audaciosa, o ímpeto de enfrentamento, de usar reféns como escudo, para deixar a polícia de mãos atadas. São situações que polícia está vendo a cena toda, mas não pode avançar para não provocar uma tragédia. (Delegado de polícia lotado na cidade de Fortaleza, em entrevista realizada em 23 de abril de 2019)

Conforme indicam as falas acima, os delegados de polícia entrevistados veem a relação entre a modalidade de assaltos contra bancos abordada neste texto e o fenômeno do “cangaço” menos demarcada por técnicas específicas de abordagens ou pelas quantias subtraídas e mais por “posturas” e “modos” de se portar das quadrilhas em ação. Sobre os trânsitos terminológicos entre os chamados “jornalistas policiais” e delegados de polícia, Morales (2020) destaca que estes últimos costumam ser os principais “contatos” ou “fontes” de produtores, jornalistas e apresentadores de programas policiais, de modo que tais profissionais da mídia tendem a assinalar não apenas vocabulários, mas também versões sobre diversas ocorrências que veiculam. Quer tenha sido cunhada por delegados de polícia ou por jornalistas, é importante observarmos que a expressão “novo cangaço” condensa e expressa representações do fenômeno histórico do “cangaço” — e de sua relação com determinadas modalidades de assaltos contra bancos recorrentes na atualidade — plausíveis e efetivas entre operadores da segurança pública e os chamados “jornalistas policiais”. Devido à capacidade destes profissionais de difundir versões e visões sobre acontecimentos, as representações e os simbolismos implicados na expressão “novo cangaço” se tornaram razoáveis e credíveis para contingentes populacionais ou universos sociais em escalas ampliadas.

Também o sociólogo Edmilson Lopes Júnior (2006) situa os primórdios dessas ações contra bancos denominadas de “novo cangaço” por polícias e mídias em meados dos anos 1990. O autor analisa um processo de transição de brigas entre famílias, envolvendo interesses políticos, pistolagem e vinganças no oeste potiguar, similar ao que Barbosa (2009) observa no sertão pernambucano. Lopes Júnior deslinda a saga da família Carneiro do Rio Grande do Norte, conhecida em todo o Nordeste por guerras com outras famílias, assassinatos por vinganças e sobretudo pelos assaltos contra bancos protagonizados por parte de seus integrantes entre os anos 1980 e 2000. Os Carneiros chegaram a figurar como temática exclusiva da edição de 24 de julho de 2003 do programa Linha Direta, exibido semanalmente na Rede Globo naquele decênio. Esse clã mantinha ligações com outras conhecidas famílias de assaltantes da Paraíba, de Pernambuco e do Piauí. A marca de suas ações era o ineditismo no uso de armamento pesado em assaltos no Nordeste, a invasão de cidades no período noturno e os ataques a quartéis militares e delegacias de polícia.

Esse modus operandi colocado em prática incialmente no interior do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, baseado em abordagens chamativas e cerco a cidades de pequeno e médio porte, veio a inspirar diversas outras quadrilhas atuantes no Nordeste e posteriormente em todo o país. Apesar do estardalhaço e barulho envolvidos em tais assaltos, a técnica se mostrou promissora por causa da deficiência do aparato de segurança pública nas cidades nordestinas de pequeno e médio porte, passando a ser utilizada por quadrilhas atuantes em todas as regiões do país, incluindo mesmo parte dos assaltos organizados por integrantes de grandes facções criminais do Sudeste, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) (AQUINO, 2019). Por um lado, essas ocorrências, conforme afirmam delegados de polícia e os chamados “jornalistas policiais”, têm efetivamente pontos em comum com as ações de bandos de cangaceiros armados atuantes no início do século XX, pelas audaciosas abordagens dos alvos, pelo enfrentamento da polícia e a atuação preferencial no interior dos estados. Inclusive, vale ressaltar que parte dos assaltantes envolvidos com o chamado “novo cangaço” no Nordeste são descendentes de antigos cangaceiros, pistoleiros e mandantes de crimes de pistolagem. Por outro lado, a analogia com o “cangaço” não esgota o fenômeno dos assaltos contra agências bancárias contemporâneos, caraterizados por abordagens estridentes e grandes quantidades de homens armados, e desvenda apenas uma de suas nuances, localizando-os em um passado arcaico e pouco racional, de modo a ofuscar aspectos dessas ocorrências e das relações sociais que as atravessam.

As diferenças entre o “velho” e o chamado “novo cangaço” envolvem tanto estratégias de atuação criminal como a socialidade nos agrupamentos que efetuam as ações criminais assim designadas. Tais assaltos incorporam diversos elementos do crime urbano e do modus operandi de grandes facções criminais do país, atuantes principalmente nos mercados de droga. Desde os anos 1980, o funcionamento de prisões de segurança máxima nos estados do Nordeste tem possibilitado o encontro e a convivência de assaltantes e pistoleiros locais com agentes criminais de outras regiões do país, sobretudo cariocas, integrantes do CV, e paulistas, membros do PCC, presos por participação no tráfico de drogas, em assaltos e sequestros. Interações similares têm ocorrido nas periferias e prisões sobretudo de estados do Sudeste, possibilitadas pela imigração de nordestinos que vão residir em favelas e bairros de baixa renda do Rio de Janeiro e de São Paulo. Parte destes migrantes se envolvem em atividades ilegais e são presos, permanecendo anos em regime fechado. Nestas ocasiões conhecem detentos oriundos de diversos estados do país, aprendem novas técnicas de atuação ilícita e ampliam suas redes de relações no universo social do crime. Tais encontros, colaborações e atuação conjunta há décadas vêm diversificando tipos, formatos e socialidades do crime no Nordeste e em outras regiões do Brasil, largamente manifestada nas quadrilhas que empreendem assaltos contra bancos, carros-fortes e empresas de guarda valores.

Lopes Júnior (2006) menciona um traficante paulista, integrante do PCC, que veio à Paraíba participar de um assalto com comparsas locais e, na ocasião, teria se apaixonado por uma sertaneja do município de Catolé do Rocha, onde passou a residir e atuar continuamente em ações contra bancos e carros-fortes na região, tendo transmitido conhecimentos sobre planejamento e execução de roubos, manuseio de armas modernas e outras modalidades logísticas. Em minhas pesquisas de campo junto a praticantes de ações contra instituições financeiras, conheci um assaltante carioca que veio tomar parte em um assalto no Piauí e passou a residir no estado. Ele se dizia apaixonado pela vegetação da caatinga e pelo “pôr do sol laranja do sertão”. Este homem comprou um sítio com 200 hectares de terra e um pequeno rebanho no estado, e desde então alterna o cotidiano de agricultor com participações em assaltos em outros estados do país. Além da paixão por sua habitação bucólica, outra motivação para residir na zona rural piauiense seria a conveniência do esconderijo “seguro”, onde acredita serem remotas as chances de equipes policiais conseguirem localizá-lo. Tais experiências relatadas por participantes de atividades ilegais elucidam recorrentes trânsitos interestaduais e intercâmbios de conhecimentos, seja pela migração de sertanejos para outros estados do país seja pela vinda ao Nordeste de traficantes e assaltantes, sinalizando que o fenômeno do chamado “novo cangaço” tem menos relações com um passado rural, retrógrado e isolado, à margem da “civilidade” e da modernidade urbana, do que com as dinâmicas criminais do presente, marcadas por trocas de saberes e estratégias de atuação entre “profissionais do crime” e incorporação contínua de novas técnicas e logísticas que envolvem tecnologias de ponta. Embora pesquisas que contemplam o fenômeno do “cangaço” evidenciem a sagacidade e perícia de seus protagonistas, bem como sua dimensão de contestação política (MARQUES, 2001; VILLELA, 2004), a imagem desse fenômeno social que ficou marcada nas narrativas da mídia e na teledramaturgia nacional tende a reduzi-lo à crueldade, ao arcaísmo e à barbárie.

É fato que os assaltos contra agências bancárias designados pelo termo “novo cangaço” foram registrados primeiro no interior do Nordeste, entretanto tal “origem” não permite afirmar em tons de determinismo que há uma afinidade categórica entre essas ações e a “natureza” ou a socialidade do sertanejo com o fenômeno do “cangaço”, das guerras entre famílias ou dos crimes de pistolagem, como argumenta Barbosa (2009). Quando nos debruçamos na análise desta modalidade de roubos e furtos, observamos que apresentam infraestrutura e planejamento sofisticado, envolvem coalizões interestaduais de saberes criminais e canalização de tecnologias modernas. Trata-se de um tipo de ilegalismo de concepção e execução por assaltantes naturais de diferentes estados e que atualmente é registrado em todo o país. Ademais, a designação desses recorrentes assaltos contemporâneos pelo termo “novo cangaço” e sua referência a um fenômeno criminal do início do século XX, marcadamente rural e pretensamente rústico, sugerem-nos que tais ocorrências, assim como uma série de outros fenômenos da atualidade, borram fronteiras categóricas ou “grandes divisores” (GOLDMAN e LIMA, 1999) analíticos como o rural e o urbano, o tradicional e o moderno, o arcaico e o contemporâneo, entre outros.

É importante termos em mente que assaltos de grande porte constituem empreitadas coletivas, promovem convívio e negociações entre seus participantes. Para pensar essas relações no universo social dos assaltos de grande porte, tenho optado pela categoria socialidade, em vez de sociabilidade, levando em consideração as observações de Strathern (1988, 1999), para quem a noção de sociabilidade evoca vínculos de comunidade e empatia, ao passo que socialidade é referente à matriz relacional em que se desenvolve a vida das pessoas, permitindo conceber as relações sociais como intrínsecas à existência humana, sem prévias conotações normativas. Tenho observado que a socialidade entre praticantes de assaltos contra instituições financeiras experimentou mudanças significativas durante a década de 1990, quando passaram a predominar no planejamento e na realização de ações contra bancos um tipo de agrupamento que delegados de polícia no país têm denominado de quadrilhas interestaduais, por aglutinarem assaltantes procedentes de variadas regiões do Brasil (AQUINO, 2010b, 2017, 2019).

Em vez de pré-formadas, as quadrilhas interestaduais têm sua composição definida nas etapas de elaboração do plano e viabilização da infraestrutura de cada ação criminal. São coalisões temporárias que costumam se desfazer depois que um assalto é realizado e seus ganhos divididos. Laços de amizade, quando ocorrem, tendem a envolver dois ou três componentes, não se estendendo aos demais. Cada assaltante tem autonomia para utilizar a parte do dinheiro que lhe cabe, sem dar satisfações ou dividendos a um líder. Nessas ações, quando um ou mais participantes ficam com quantias maiores do que os outros, é por terem investido mais recursos ou emprestado armas para uso dos colegas no assalto ( Idem ).

As quadrilhas de assaltantes que abrigam integrantes de antigas famílias de cangaceiros e pistoleiros, como a família Carneiro do Rio Grande do Norte, analisada por Lopes Júnior (2006), já nos anos 1990 representavam apenas uma pequena parcela dos agrupamentos que se formam para assaltar agências bancárias e não se diferenciavam muito de outros coletivos criminais atuantes nesta atividade ilegal. Os vínculos de sangue já não eram determinantes nos agrupamentos de assaltantes, que também eram temporários e envolviam divisão nos investimentos para realização dos assaltos e nas quantias obtidas. Lopes Júnior ( Ibid. ) ressalta que tais quadrilhas identificadas a partir dos nomes de certos clãs familiares conhecidos como “valentes”, envolvidos em guerras com outras famílias e em crimes de pistolagem, não constituíam cópias de seus respectivos grupos de parentesco na atuação ou nas ligações entre os seus integrantes. Para o pesquisador, os nomes das famílias nestas situações operariam como uma espécie de “franquia”, que quando associada a certa quadrilha de assaltante lhe confere aura de destemor e periculosidade, tornando-a temida e “respeitada” em uma dada região. É como se tais clãs familiares com um histórico de assassinatos e “valentia” adicionassem um impacto extra às performances de violência ostensiva dos agrupamentos de assaltantes que carregam seu nome. Nestas coalizões, segundo Lopes Júnior ( Ibid. ), a maioria dos participantes não apresenta vínculos reais de parentesco com a família que nomeia o bando, estando eles aglutinados em função da cooperação técnica mútua e do interesse comum nas altas quantias resultantes dos assaltos. As relações sociais em tais coletivos de assaltantes seriam cada vez menos caracterizadas por solidariedade ou ações comunais duradouras, predominando relações de “pura instrumentalidade” ( Idem, ibid. ).

Em tais quadrilhas vinculadas a nomes de famílias, de acordo com alguns dos assaltantes com quem desenvolvi diálogo, por vezes ocorre da divisão do dinheiro roubado não ser equitativa, mesmo assim as quantias recebidas pelos que não portavam tais sobrenomes seriam maiores do que as somas que ganhariam em outras atividades ilegais como roubo de carga ou assassinatos por encomenda. Também foi ressaltada como vantagem da participação em tais agrupamentos a oportunidade da inserção em prósperas redes de relações do universo social dos grandes roubos, além dos aprendizados técnicos adquiridos, referentes ao manejo de diferentes modelos de armas e habilidades em pesquisas de alvos e elaboração de planos de assaltos. Ou seja, mesmo compondo grupos associados a certas famílias em que os que não pertencem a esses clãs ficariam em desvantagem na divisão das quantias ilicitamente obtidas, haveria possibilidade de acumular dinheiro, adquirir bens, montar negócios legais e ascender socialmente. Aluísio, um dos meus interlocutores, declarou que durante dois anos atuou em uma quadrilha de assaltantes que levava o nome de uma conhecida família de “fazendeiros pistoleiros” na Paraíba, e que nas partilhas das somas provindas dos roubos realizados costumava ficar com quantias menores do que os descendentes legítimos dos tais “pistoleiros famosos” que nomeavam a quadrilha. Contudo, ele afirma que neste “ramo” até em ocasiões as quais não são muito altas as somas obtidas, há outros ganhos implicados:

— É um ramo que dar um bom dinheiro, não dar para negar, mas também não é uma mega sena da vida. (...) Se em um assalto você ganha pouco, aceite, não faça confusão, porque você tá ganhando em contatos. Meu colega da Bahia diz que o nome disso é construir “network”. Não é bom se passar por ganancioso. Aí vem outro pessoal e te coloca em uma missão mais pomposa, você já ganha mais, quando menos se espera já tem um milhão, já pode ter coisas que você sempre quis e não tinha condições de comprar. Se não faz inimigo já é um ganho, porque não vai ter ninguém te perseguindo e te queimando pra seus contatos. (Entrevista com Aluísio, realizada em dia 29 de março de 2019)

De acordo com meu interlocutor, portanto, quando se constrói uma “rede” com grande quantidade de “contatos” sem contrair inimizades, há oportunidade de participar de ações que resultam em cifras elevadas e, deste modo, é possível acumular capital e realizar “sonhos” de consumo. Assim, mesmo em quadrilhas pautadas por assimetrias entre os integrantes, sendo que alguns ficam com fatias maiores dos montantes roubados, há possibilidades de ganho e acúmulo de quantias consideráveis, de formação de novas parcerias no universo dos grandes roubos e de ampliação nas possibilidades de atuação.

A expansão econômica do Brasil nos anos 2000 e o aumento dos numerários em circulação nas instituições financeiras, cujas quantidades de agências aumentaram e se expandiram no território nacional, tornou os bancos atraentes a assaltantes e elevou o número de quadrilhas especializadas nesse tipo de alvo, exatamente pelas altas cifras daí provindas, capazes de “melhorar” significativamente a vida financeira dos assaltantes e de lhes possibilitar conquistas como aquisição de casa própria, negócios legais, entre outras. Conforme mencionado anteriormente, nos últimos anos os bancos não estão divulgando os valores subtraídos nos assaltos, todavia alguns dos meus interlocutores de trabalho de campo afirmam que as somas roubadas nessas ações costumam oscilar entre R$ 200 e R$ 600 mil. Como Aluísio, outros entrevistados enfatizaram que, apesar de não se tornarem milionários em poucos dias, consideram satisfatórios os ganhos decorrentes da participação nessas ações criminais.

Se durante os anos 1990 e 2000 as quadrilhas de assaltantes vinculadas à famílias consideradas “valentes” ou “perigosas” já constituíam apenas uma pequena parcela dos agrupamentos atuantes em assaltos contra bancos no país, atualmente tais coletivos criminais são quase inexistentes. Parte dos assaltantes descendentes de cangaceiros, ou pertencentes a famílias em guerras com outras famílias, ou ainda envolvidos com crimes de pistolagem, morreram em confrontos com a polícia ou com outros assaltantes nas últimas décadas. Observo a consolidação de uma tendência dos anos 1990, já assinalada neste texto, das quadrilhas de assaltantes constituírem coletivos temporários, pautados nas habilidades técnicas de seus membros, que se associam no financiamento, na organização e na execução de investidas de grande porte, cujos ganhos são divididos (AQUINO, 2010b, 2019).

Se não são muitos os pontos em comum entre as quadrilhas de assaltantes, que recorrem a abordagens agressivas e estridentes, e os bandos de cangaceiros que percorriam os sertões no início do século XX, mais distante ainda parecem estar os chamados “assaltantes de banco” da imagem do “bandido social” concebida por Hobsbawm (1970, 2010). O autor apresenta o banditismo social como uma forma de resistência camponesa observada nas mais diversas regiões do mundo, em diferentes períodos históricos. Sua emergência estaria associada à desintegração de sociedades tribais ou a rupturas com modelos de sociedade familiar pela emergência do capitalismo agrário. Hobsbawm identifica três tipos recorrentes de bandidos sociais: “o nobre” ao estilo Robin Hood, “os guerrilheiros primitivos” e “o vingador”, como Lampião (HOBSBAWM, 2010). Embora haja entre assaltantes que se engajam em ações truculentas contra bancos uma busca implícita por reconhecimento de sua coragem, força e inteligência, seus maiores anseios e motivações parecem ser marcadamente individuais e estar mais relacionados a expectativas de ganho monetário e ascensão social — vistos por esses homens como propulsores de reconhecimento e aceitação — do que a formas de resistência coletiva. A dimensão de contestação política do fenômeno do “cangaço”, pensado como uma modalidade de banditismo social por Hobsbawm (Ibid.) e mais recentemente como “o povo em armas” por Villela (2004), não parece manifesta no universo dos assaltos contra bancos, cujos personagens tendem a se perceber como “profissionais” e “homens de negócio”.

É importante observarmos que, da mesma maneira que negócios legais, a organização de assaltos contra bancos requer dispêndios monetários. São investidos recursos em veículos e armamentos, imóveis para estadia e reuniões da equipe que vai executar o crime, entre outros gastos. Protagonistas desses “empreendimentos”, os assaltantes de certo modo atuam como “empresários”, movimentam recursos, elaboram planos de fugas e abordagens dos alvos, calculam possibilidades de êxitos e falhas. Embora classificados como “criminosos” por códigos jurídicos e valores socialmente instituídos, significam suas ações criminais como “investimentos” que exigem cuidados e habilidades específicas (AQUINO, 2019). Devido à disposição de se “expor ao risco”, à criatividade e à “inovação” desprendidas para contornar os modernos sistemas de segurança dos bancos, esses sujeitos se aproximam, em alguma medida, do ideal de “empreendedor” tornado clássico por Schumpeter (1961) em sua “teoria do desenvolvimento econômico”. Vejamos trechos da fala de Heraldo:

— A gente bota o dinheiro da gente na roda, planeja tudo mastigadinho, não tem nada que a gente não tenha maquinado nas reuniões. Quando a gente vai para cima é tudo ou tudo, eu sei que ali está em jogo meu futuro e meus sonhos. Tem tendência de muitos caras experientes subestimar o perigo, mas eu nunca perdi de vista que tá tudo em jogo naquela hora. É chegar e partir pra cima, ficar atento, ligado. Depois que tá ali não adianta urinar na roupa, chamar pela mãe. Só quem pode te tirar dali é sua ação. A gente vai com receio, com esperança e ambição também. Se der bom vem grana boa pra garantir o futuro, a volta por cima. (Entrevista com Heraldo, realizada em 15 de maio de 2019)

Paulo Sérgio, outro dos meus interlocutores, expôs uma visão próxima a de Heraldo:

— Você sabe que a gente tá numa crise econômica muito séria né, muito difícil emprego, muito difícil de ganhar dinheiro. Cada 40, 50, 60 mil [reais] que a gente tira numa história dessa tá valendo. Porque tá muito difícil pra todo mundo. Você bota ali uns cinco mil e tira uns 40 [mil reais], você ganhou mais de 30 [mil reais] em uma, duas horas de aperto. A gente que já tem costume de muito tempo, não entra em desespero, já sabe o que vai fazer. O negócio é traiçoeiro, pode até te matar, mas, com os cuidados certos, dá pra levar. (Entrevista com Paulo Sergio, realizada em 15 de abril de 2018)

A percepção de si mesmos como “empresários” ou “empreendedores” parece clara e bem formulada para a maior parte dos meus interlocutores. Assim como ocorre entre praticantes de assaltos silenciosos e baseados em abordagens “discretas”, aqueles que tomam parte nas ações mais barulhentas e espalhafatosas analisadas neste texto também demonstraram mentalidades empreendedoras. Quase todos os entrevistados têm afirmado estarem cientes dos “riscos” envolvidos nas ocorrências criminais das quais tomam parte, no entanto o interesse nas somas daí provindas — e nas aquisições e experiências que tais quantias podem proporcionar — prevaleceriam sobre eventuais temores e receios.

Deste modo, vale observarmos que os agrupamentos que se formam para planejar e realizar estridentes e ruidosos assaltos contra agências bancárias são animados pela cooperação profissional, associação monetária e pelo empreendedorismo individual. Depois de divididos os valores líquidos obtidos, cada assaltante tem liberdade para investir ou gastar como quiser as somas que lhe couberam, sem que seus “comparsas” venham interferir. Não raro, eles investem em bens e negócios legais, como imóveis, fazendas e variados tipos de comércios como farmácias, postos de gasolina, lojas de material de construção, entre outros, sendo capazes de garantir o sustento de suas famílias e gastos com advogados quando são capturados pela polícia.

Considerações finais

Neste texto abordei assaltos contra agência bancárias, caracterizados por abordagens truculentas e impactantes, e ressaltei o uso instrumental da violência, acionada nessas ocorrências por meio de performances agressivas e espalhafatosas, que desencorajam reações aos assaltantes em ação. Discuti as pertinências e inadequações do termo “novo cangaço” para denominar esses assaltos. Argumento que, a despeito da audácia manifestada pelas quadrilhas que não hesitam em desafiar forças de segurança pública do Estado e, por vezes, sitiar cidades inteiras, como faziam os grupos de cangaceiros, tais coletivos criminais, quase sempre formados por assaltantes nascidos e atuantes em diferentes estados do país, mobilizam logísticas modernas e continuamente incorporam técnicas de atuação do crime urbano, inclusive das maiores facções criminais do país. Também me concentrei na socialidade nas quadrilhas, destacando que desde os anos 1990 passaram a predominar no universo dos assaltos contra instituições financeiras coalizões temporárias, cujos participantes investem, além de saberes e técnicas, quantias consideráveis no planejamento e na infraestrutura de ações criminais, cujas somas obtidas são divididas entre os participantes. Assinalo que tais coletivos de assaltantes se baseiam na cooperação técnica e financeira e, sobretudo, no objetivo comum aos seus integrantes de reaverem multiplicadas as quantias investidas.


Notas
[1].

fn4 Furto corresponde ao artigo 155 do Código Penal brasileiro e define o ato de subtrair algo móvel pertencente a outra pessoa para si ou para outrem. Caracteriza-se pela ação de tirar de outra pessoa algo móvel que lhe pertença, sem a sua permissão. Roubo, por sua vez, está especificado no artigo 157 do referido código. Embora sua ação principal seja a mesma do furto (subtrair de alguém um bem móvel), pode ser considerado um crime mais grave porque para se apropriar do bem há emprego de grave ameaça ou violência contra a pessoa, ou de qualquer outro meio que reduza sua capacidade de resistência (Código Penal, 2002). Em se tratando os assaltos contra agências bancárias em análise neste texto, as ocorrências envolvendo ameaças e violências contra funcionários e usuários desses estabelecimentos costumam ser classificadas como roubos; já casos que não envolvem contato com funcionários da instituição e as quantias são subtraídas dos bancos por meio de arrombamento de caixas eletrônicos e cofres costumam ser interpretados como furtos. Tais assaltos costumam também envolver agravantes jurídicos como formação de quadrilha e porte ilegal de arma, entre outros.

[2].

fn2Pistoleiros são homens que praticam crimes de pistolagem, um tipo de assassinato realizado sob encomenda de um mandante. Até meados do século XX a pistolagem figurava como um dispositivo de resolução de conflitos no mundo rural, mas essa modalidade de crime não apenas tem sobrevivido como se mostra em consonância com as dinâmicas da vida urbana. O sociólogo César Barreira (2009), que desenvolveu uma relevante pesquisa sobre a pistolagem, assinala que esse fenômeno se reconfigura nas grandes cidades, onde o acesso a logísticas como pistolas modernas, motocicletas e capacetes têm se mostrado propícias e acessórias ao ofício dos “pistoleiros” que conseguem transitar e executar suas tarefas sob anonimato.

[3].

fn3Embora em menor quantidade, também têm sido registrados assaltos contra carros-fortes e às sedes de empresas de guarda e transporte de valores, no Brasil e em países vizinhos, realizados por meio de abordagens agressivas e truculentas. Neste texto, optei por centrar a análise em assaltos contra agências bancárias. Embora haja pontos em comum no modus operandi e na composição das quadrilhas que efetuam ações contra as diferentes modalidades de instituições financeiras, também há diferenças. Observo, por exemplo, que na quase totalidade dos assaltos contra empresas de guarda valores há participação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Já nos assaltos contra bancos e carros fortes se verifica maior quantidade de agrupamentos sem vínculos com grandes facções criminais do país. Por outro lado, tenho ouvido nas entrevistas realizadas assaltantes que participam de assaltos contra agências bancárias afirmarem que recusam convites para assaltos contra carros-fortes por considerá-los mais arriscados. Diante da relativa heterogeneidade concernente ao universo dos assaltos contra instituições financeiras, nesta análise específica das ações que costumam ser associadas por polícias e pela mídia ao fenômeno do “cangaço” considerei pertinente concentrar a atenção nos assaltos contra agências bancárias.

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