Chamada de artigos - Metamorfoses 23.1

2026-01-08

Dramaturgias brasileiras contemporâneas: poética, escrita e leitura

A dramaturgia, no sentido de texto de teatro, assim como as práticas e as políticas da escrita
dramatúrgica, constituem uma parte da criação cênica que sempre esteve em franco processo de
transformação. Da segunda metade do século XX até aqui, no entanto, é notável uma ampliação
das categorias e um entendimento cada vez mais evidente de que a ideia que se tem de cada
gênero dramatúrgico é cada vez menos previsível. No contexto do teatro de investigação de
linguagem, muitas vezes, cada peça parece ter a sua própria poética. As modalidades se
entrelaçam, as propostas dramatúrgicas parecem revisar e pôr à prova os elementos mais
reconhecíveis em uma prática mais convencional, como no teatro comercial, ou no que foi mais
amplamente publicado e divulgado como cânone da chamada literatura dramática. O drama, por
exemplo, elevado pela historiografia hegemônica do campo ao status de forma do teatro por
excelência, não está necessariamente em pauta. A cultura de escrita no teatro sempre esteve
muito além da soberania de um único gênero. No Brasil de hoje, isso não poderia ser mais
evidente.
A teoria do teatro, no entanto, demora um pouco mais a produzir pensamento sobre a
dramaturgia do seu tempo de maneira visível. No caso do Brasil, a situação se agrava com as
precariedades financeiras e a escassez de políticas públicas para a reflexão crítica.
Pesquisadores que estudam o texto teatral veem seus temas de trabalho em um campo teórico
movediço, que muitas vezes não ganha o primeiro plano em nenhuma das áreas. Na literatura,
romances, contos e poesias costumam receber muito mais atenção, até mesmo pela pouca
relevância de um estudo do texto teatral contemporâneo que não seja radicalmente informado
pela cena. No teatro, a dramaturgia é apenas um dos elementos importantes da cena, e que
ganhou nos últimos anos uma expansão nos estudos de suas variadas acepções (dramaturgias
do corpo, da luz, do espaço etc.). Assim, a reflexão que se encontra em revistas acadêmicas
parece mais dedicada aos elementos visuais da cena, às questões da encenação e da atuação, e
à dimensão ética e social dos projetos. Talvez seja possível dizer que a dimensão dramatúrgica,
num sentido mais ligado ao texto propriamente dito, não tem sido um grande foco da produção
teórica brasileira contemporânea, pelo menos não de maneira visível.
Tal cenário de rarefação dos estudos sobre o texto dramatúrgico como objeto de análise tem
implicações nos âmbitos da leitura, do ensino, do mercado editorial e da própria relação com o
imaginário público sobre o teatro. Em manuais de ensino superior e básico da área de Letras e
Língua Portuguesa, por exemplo, a dramaturgia não raro ocupa um lugar isolado, encarada como
gênero textual periférico no cânone literário (porque ligado à cena teatral), ou gênero textual
codificado em noções clássicas como diálogo, ação, personagem, conflito e tensão dramática,
aspectos esses que não são mais centrais na tessitura dramatúrgica de peças e espetáculos
contemporâneos. Muito menos no que é produzido em termos de dramaturgia no campo da
dança, outro tópico de grande relevância para as discussões atuais das artes da cena de modo
geral.
Nos últimos anos no Brasil, no entanto, percebe-se uma retomada no interesse pela escrita e pela
publicação de dramaturgias, como no caso da Editora Cobogó, que tem um amplo acervo de
peças com sucesso de circulação, da Editora Javali, especializada em teatro e com foco na
pesquisa de linguagem, e das Edições Pequeno Gesto, que disponibiliza seu seleto acervo para
leituras online. O trabalho colaborativo e intempestivo da sala de ensaio – marca de boa parte das
práticas de criação de teatro e dança na atualidade – tem sido transfigurado para as páginas do
livro impresso. Em alguns casos, vê-se a pressuposição da leitura silenciosa de uma peça, como
no prefácio de Amores surdos, de Grace Passô. Quando ela nos dirige a palavra – “Tenha uma
boa leitura, irmão de página” –, vemos como as propostas teatrais ganham um novo espaço-
tempo, a saber, o da leitura individual ou compartilhada; o das bibliotecas e rodas de leitura; o das
questões de vestibular e exercícios de interpretação de texto; em suma, a temporalidade e
espacialidade de cenas imaginárias e de palcos feitos de palavras.

O presente dossiê, intitulado “Dramaturgias brasileiras contemporâneas: poética, escrita e leitura”,
busca contribuições relacionadas aos seguintes tópicos:
- Poéticas e teorias da dramaturgia contemporânea
- Dramaturgia e crítica literária: análises de textos teatrais contemporâneos
- Dramaturgia em livro e demais suportes impressos e digitais
- Editoras, práticas editoriais, selos e coleções de/sobre dramaturgia
- Dramaturgia e ensino do teatro
- Dramaturgia e letramentos literários
- Dramaturgia brasileira nos currículos nacionais de educação básica
- Dramaturgia brasileira nos currículos nacionais de ensino superior
- Dramaturgia brasileira nas publicações de livros didáticos
- A entrada dos livros de dramaturgia em espaços literários: livrarias, bibliotecas, saraus etc.
- A relação entre crítica de teatro e dramaturgia por uma via não textocêntrica
- Perspectivas contracoloniais da dramaturgia brasileira contemporânea
- A presença do texto na dramaturgia da dança no Brasil
- Leituras críticas de conceitos eurocentrados como “teatro performativo” e “teatro pós-dramático”
a partir da dramaturgia brasileira
- A influência de dramaturgias africanas na dramaturgia brasileira
- Línguas e linguagens dos povos originários na dramaturgia brasileira
- Pesquisa científica como dramaturgia na cena-pensamento das palestras-performances,
desmontagens cênicas, reenactments e outras poéticas expositivas no Brasil atual

Editores convidados: Daniele Avila Small e Renan Ji

Prazo para submissão: 27 de setembro de 2026.

Previsão de publicação: dezembro de 2026.