Revista Mulemba v. 12 n. 22 (jan.-jun. 2020)

Tema do Dossiê: Viagem, alteridade e tradução cultural: África e representação literária

Organizadores:
Prof. Dr. Nazir Ahmed Can (Universidade Federal do Rio de Janeiro / FAPERJ / CNPq)
Profa. Dra. Rita Chaves (Universidade de São Paulo)
Prof. Dr. Pedro Serra (Universidad de Salamanca)
Profa. Dra. Rebeca Hernández (Universidade de Salamanca)
Prof. Marlon Augusto Barbosa (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Envio de textos até 31 de janeiro de 2020.
Publicação prevista para 30 de junho de 2020.

a paisagem colocou-me questões: para lidar com ela, para entendê-la, para fazer da paisagem e da sua decifração o lugar da vida, só sabendo como a viam, liam, diziam os que a olhavam a partir de outras línguas, de outras linguagens, de outros entendimentos moldados por essas mesmas paisagens e por essas mesmas línguas............. arranjar uma maneira de dizer dessas paisagens, em português, o que noutras línguas se diria delas ou o que elas diziam noutras línguas................. como aliás não podia deixar de ser................. (Ruy Duarte de Carvalho, a câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras, Lisboa, Cotovia, 2008).

Prática intrinsecamente ligada à criação artística, a viagem tem sido ao longo da história um dos principais temas de escrita e objetos de análise no campo literário. Algumas especificidades contextuais dos países africanos de língua portuguesa nos convidam, todavia, a dar continuidade a uma discussão que se renova em permanência. A relevância concedida às questões ligadas ao deslocamento de imensos segmentos das populações africanas para outros continentes não deve, por exemplo, apagar uma característica fundamental do desenvolvimento histórico do continente que é a intensa circulação de forças demográficas responsável por uma “extraordinária reorganização dos espaços, da sociedade e da cultura que opera por muitos desvios e oscilações”. (Mbembe, 2014, p. 141).
Essa “casa sem chaves”, na bela imagem do filósofo camaronês, foi, como sabemos, palco de incursões de outros povos que souberam e puderam desdobrar as várias formas de invasão, atingindo em cheio o coração do simbólico. Desde os primeiros momentos do que foi muitas vezes apresentado como um encontro, sobretudo entre os séculos XVIII e XX, a representação do continente africano trazia sinais da tensa relação entre dois blocos de oposição (“nós” e “eles”), inscritos em grande medida em narrativas de viajantes ou colonos. Por via de um avassalador processo de estereotipagem, que legitimou no plano simbólico a invasão, a violência ritualizada e a dominação territorial, a literatura vinculada aos antigos impérios europeus domesticou a geografia africana, afastou-a da história e inclusive retirou o “outro” local do horizonte de possíveis da humanidade.
Ao projetarem no século XX um pacto com a história dos deserdados e um movimento de reapropriação da geografia, os autores africanos sublinharam a necessidade de libertação política, reafirmaram o desejo de reinvenção identitária e viabilizaram o surgimento de novas formulações estéticas e epistemológicas.
Além da presença massiva de personagens estrangeiras, diversos espaços internacionais (africanos, europeus, americanos e asiáticos) foram sendo incorporados com o passar dos anos por um número significativo de narrativas, confirmando a vocação inclusiva que desde cedo orientou a produção literária do continente. A esta preocupação com o trânsito pelo mundo se junta a aposta pela mobilidade em espaços nacionais até então inexplorados no campo artístico. Quando lidos pela ótica das populações mais segregadas, como aquelas que na epígrafe são sugeridas por Ruy Duarte de Carvalho, estes espaços se afiguram tão distantes quanto qualquer outro cenário internacional.
Paralelamente ao debate sobre os modos de figuração da viagem e do encontro/embate com o “outro”, a reflexão sobre certos problemas de natureza institucional torna-se necessária. Devido às dificuldades materiais que afetam o continente, o autor africano deve lidar com um desafio suplementar em seu processo de criação: apresentar uma realidade que lhe é próxima a um leitor quase sempre distante. Para aprofundar a complexidade, este mesmo leitor costuma ter apenas o distorcido quadro de referências oferecido pela mídia, pelos panfletos turísticos ou pela literatura imperial. Em contextos de produção atravessados por uma espécie de contradição constitutiva, o autor depara-se com dilemas semelhantes aos do tradutor.
Como tem observado a crítica e a teoria que se ocupam das trocas entre estes dois campos de saber, apesar de o trabalho do produtor literário não corresponder à tradução clássica que se concretiza em outra publicação, mas sim a um gesto de mediação cultural executado no interior da própria obra, o escritor, tal como o tradutor, vê-se invariavelmente forçado a escolhas. Dependendo das decisões tomadas, assume uma postura reivindicativaou, pelo contrário, exótica. O processo de mediação torna-se ainda mais agudo quando em jogo estão textos que focalizam travessias a universos “alheios” ao do próprio autor.
Assim, sem perder de vista os contextos históricos, geográficos, literários, culturais e institucionais de cada campo literário, que motivam distintas formas de narrar o deslocamento, o próximo número da Revista Mulemba convida a uma reflexão sobre o impacto da viagem nas representações do e pelo continente. Considerando a circulação e suas conexões em sentido amplo (literal e metafórica, temática e autobiográfica) e ressaltando seus desdobramentos (nas figuras do forasteiro, do deslocado, do estrangeiro, do exilado, do refugiado, do expatriado), propomos uma discussão que, centrada nas literaturas africanas e/ou em textos que tenham a África como objeto, incida em alguns dos seguintes aspectos:

  • a viagem como elemento constitutivo das literaturas africanas;
  • literaturas africanas, espaço e tradução cultural: problemas e desafios teóricos;
  • a dimensão institucional: produção, recepção e circulação do objeto literário africano;
  • projeções, desilusões ou “viradas epistemológicas” inspiradas pelo deslocamento;
  • o deslocamento interno de personagens, narradores e/ou autores africanos: impacto das noções de distância, proximidade e insilio.
  • o estrangeiro em territórios africanos: fascínio, abjeção e formas de ambivalência.
  • travessias voluntárias: personagens, narradores e/ou autores africanos e suas formas de relação com o espaço internacional.
  • imigração, exílio e refúgio: figuração do deslocado africano em territórios internacionais;
  • representação dos espaços africanos em outras tradições literárias;
  • formas contemporâneas de exotismo e orientalismo.