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Mercado mundial, imperialismo e dependência: o papel central da grande indústria
Leonardo Leite * e Marcelo Carcanholo**
Resumo: O artigo analisa a relação entre grande indústria, mercado mundial e imperialismo, com o
objetivo de reconstituir teoricamente o processo histórico que produziu a dependência. Constata-se
que o entendimento da gênese da dependência não pode estar vinculado com a tese do capitalismo
monopolista, pois deve-se buscar suas raízes na Revolução Industrial e na formação do mercado
mundial propriamente capitalista. Para isso, desenvolve-se a teoria do valor e dos preços de Marx
para identicar os processos de transferência de valor a partir do comércio, mostrando que a grande
indústria cria centro e periferias e que a relação embutida no desenvolvimento do mercado mundial é
uma relação imperialista.
Palavras-chave: Imperialismo. Dependência. Mercado mundial. Grande indústria. Teoria marxista da
dependência.
Abstract: e article analyzes the relationship between big industry, the world market and imperialism
with the objective of theoretically reconstituting the historical process that produced dependency. It
nds that an understanding of the genesis of dependency cannot be linked to the thesis of monopolistic
capitalism since it must seek its roots in the Industrial Revolution and in the formation of the capitalist
world market itself. To this end, he develops Marx’s theory of value and prices to identify the processes
of transference of value from trade, he shows that large industry creates centers and peripheries and
that the relationship embedded in the development of the world market is an imperialist relationship.
Keywords: Imperialism. Dependency. World market. Big industry. Marxist dependency theory.
Resumen: El artículo analiza la relación entre la gran industria, el mercado mundial y el imperialismo
para reconstituir teóricamente el proceso histórico que produjo la dependencia. Señala que la
comprensión de la génesis de la dependencia no puede vincularse a la tesis del capitalismo monopolista,
ya que debe buscar sus raíces en la Revolución Industrial y en la formación del propio mercado mundial
capitalista. Para ello, desarrolla la teoría del valor y de los precios de Marx para identicar los procesos
de transferencia de valor a partir del comercio, muestra que la gran industria crea centros y periferias y
que la relación que se inscribe en el desarrollo del mercado mundial es una relación
Palabras-clave: Imperialismo. Dependência. Mercado mundial. Gran indústria. Teoría marxista de la
dependencia.
* Professor Adjunto da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro
do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e Marxismo (NIEP-Marx/UFF).
** Professor Titular da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro
do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e Marxismo (NIEP-Marx/UFF)
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ARTIGOS
Introdução
Está bem consolidado na literatura sobre o imperialismo a indicação de que se trata
de um fenômeno histórico cuja gênese se situa no último quarto do século XIX
(LENIN, 2008; HARVEY, 2003; CALLINICOS, 2009; ARRIZABALO MONTORO,
2014). Existem outras interpretações, como a de Mészáros (2001), que aponta a
existência de um “imperialismo colonial moderno” entre 1800 e 1870, ou a de
Gallagher e Robinson (1953), que falam de um “imperialismo do livre comércio
no mesmo período, mas essas são teses com menor difusão e, por circunstâncias
variadas, incapazes de desaar a interpretação dominante.
Ao mesmo tempo, do ponto de vista da teoria marxista da dependência, está
igualmente consolidada a tese de que a dependência da América Latina nasce com
os processos de independência política no primeiro quarto do século XIX, com a
constituição contraditória de soberanias nacionais (MARINI, 2005; SANTOS, 1970;
BAMBIRRA, 2015). Isso se expressa na clássica denição de Santos (1970, p. 231,
grifos nossos), por exemplo, quando ele diz que “[...] por dependência entendemos
uma situação na qual a economia de certo país é condicionada pelo desenvolvimento
e expansão de outra economia à qual a primeira é subordinada, ou quando ele separa
a “dependência colonial” da “dependência industrial-nanceira.
Partindo da formulação de Santos, que é compartilhada por Marini, Bambirra e
outros teóricos que fundam a teoria marxista da dependência, existe uma tentativa
clara de vinculação com as teorias do imperialismo. Quando o autor indica que a
dependência industrial-nanceira” substitui a “dependência colonial, mas se con-
solida apenas no nal do século XIX, reiterando a tese do capitalismo monopolista
tão cara à interpretação leninista sobre o imperialismo
1
, ele parece deixar um período
descoberto na análise, que é o período entre as independências políticas (m da de-
pendência colonial) e o nal do século XIX.
Luce (2018, p. 27), quando comenta o ensaio de Marini (2005), evita explicitar
quando exatamente nasce a condição dependente, mas desenvolve uma formulação
semelhante à de Santos (1970). Ele diz que “[...] o ensaio de Marini assentou as bases
para aprofundar o conhecimento de complexos mecanismos que operam desde que
se formou o mercado mundial e teve advento a fase superior do capitalismo. Embora
não que claro quando seria o advento dessa “fase superior”, se o autor estiver supon-
do que corresponde ao nal do século XIX, como sugere Santos, Lênin, e outros,
1 Kvangraven (2021, p. 84) apresenta outras evidências da vinculação entre as teorias da dependência
construídas pelos “neomarxistas” com a tese do capitalismo monopolista: “e neo-Marxist dependen-
cy theorists tend to root their economic theory in the extension of monopoly capitalism.
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temos o mesmo problema de antes, pois o esforço de Marini (e Bambirra, como Luce
reconhece adiante) foi entender a nova condição de exploração internacional surgida
com “as rupturas com as ex-metrópoles” (LUCE, 2018, p. 212).
Parece existir, na interseção entre as teorias marxistas do imperialismo e da de-
pendência, uma diculdade para interpretar esse período: como explicar as relações
de dependência que se constituem com a descolonização formal a partir de uma
teoria do imperialismo? Nossa hipótese é que a busca por teorizar a dependência
nos marcos das teorias predominantes do imperialismo, que se baseiam na tese do
capitalismo monopolista, torna essa diculdade incontornável, o que poderia ser
superado se recorrêssemos a uma teoria do imperialismo que não pressuponha o
capitalismo monopolista. O reconhecimento de que nos marcos da expansão impe-
rialista gesta-se a dependência exige que a teoria do imperialismo adequada à teoria
marxista da dependência seja distinta da versão predominante.
Kvangraven (2021), na sua tentativa de sistematizar as diversas teorias sobre a de-
pendência em um eclético programa de pesquisa, aponta que o núcleo do programa
seria a hipótese de que o desenvolvimento econômico global tende a ser polarizador
ao invés de equalizador, conformando, em nossas palavras, centro imperialista e per-
iferias capitalistas dependentes. Explicar o desenvolvimento desigual entre nações
está, de fato, no núcleo das teorias marxistas sobre a dependência, por isso elas par-
tem da noção de troca desigual, que é o vetor adequado, como iremos defender neste
artigo, pelo qual as teorias da dependência podem convergir com as teorias do impe-
rialismo. Em outras palavras, a dependência e o imperialismo são frutos de um mes-
mo processo histórico, através do qual o primeiro ato envolve trocas desiguais através
do comércio exterior, portando as condições necessárias para a gênese da relação de
subordinação econômica das periferias dependentes ao centro imperialista.
O objetivo deste artigo é oferecer uma interpretação sobre a gênese do imperialismo
(e da dependência) a partir da teoria do valor de Marx. Partindo desse referencial,
a formulação teórica deve, necessariamente, vincular-se com a reconstituição do
processo histórico, mesmo sem todas as complexas nuances concretas que, anal,
compõem o próprio objeto. Para isso, precisaremos mostrar que, com a constituição
da grande indústria, no período histórico conhecido como a primeira Revolução
Industrial, que se estende do último quarto do século XVIII à primeira metade do
século XIX, o modo capitalista de produção (e apropriação) rompe radicalmente
com formas pretéritas, torna-se sui generis, passa a reproduzir-se em escala mundial,
gerando, assim, o par categorial imperialismo/dependência.
Ao lançar luz nas transformações reais e concretas oriundas da Revolução Indus-
trial a partir da teoria do valor, nosso trabalho pretende contribuir com o entendi-
66
ARTIGOS
mento de uma forma de imperialismo muitas vezes negligenciada (o comércio exteri-
or, característica inclusive do imperialismo contemporâneo do século XXI) e de uma
fase do imperialismo igualmente negligenciada: o imperialismo do século XIX.
Nosso argumento está organizado em mais três seções. Na próxima, indicamos
como a lei do valor opera uma transferência internacional de valor entre capitais em
concorrência no mercado mundial. Na seguinte, mostramos como a transformação
qualitativa no modo capitalista de produção gerada pela grande indústria se expressa
na constituição do mercado mundial capitalista. Por m, discutimos como esse mer-
cado mundial existe necessariamente sob a forma de imperialismo.
Lei do valor e mercado mundial
Parece-nos que é requisito de uma teoria marxista do imperialismo e/ou da de-
pendência um tratamento rigoroso do funcionamento do valor-capital em escala
mundial. As distintas formas de inserção de cada economia/região, inuenciando
a dinâmica da acumulação mundial ou tendo que responder dialeticamente a essa
mesma dinâmica, denem o caráter imperialista ou dependente das diversas econo-
mias. Os distintos níveis de desenvolvimento capitalista de determinadas economias
são consequência da forma desigual e combinada com que as leis gerais do modo de
produção capitalista se apresentam em determinado momento histórico.
Analisar concretamente as situações de imperialismo/dependência, além das his-
toricidades especícas dentro do capitalismo, requer entender que o valor-capital, de
um ponto de vista mais concreto, se manifesta, de forma desigual e combinada, no
âmbito da acumulação mundial de capital. Um rigoroso entendimento da teoria do
valor (capitalismo) é, portanto, obrigario para isso.
Se a teoria do valor é, também, uma teoria sobre o modo de produção capitalis-
ta, então esta última depende dos “resultados” a que se chega com a primeira. Isso
é importante porque a categoria mercado mundial, em Marx, é também a forma
mais concreta de expressão das leis gerais do modo de produção capitalista. E estas
últimas decorrem da teoria (lei) do valor. Portanto, um entendimento correto desta
última está pressuposto na correta avaliação do signicado da categoria mercado
mundial para Marx.
Ainda que a teoria do valor, em Marx, não se restrinja à determinação da magni-
tude dos valores (relativos) das mercadorias, e nem seja essa a parte mais importante,
a determinação da magnitude dos valores é parte constituinte da teoria do valor desse
autor. Desafortunadamente, mesmo esse aspecto é pouco entendido. Alguns creem
que a magnitude do valor de uma mercadoria se restringe ao seu mais alto nível de
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abstração, no Catulo 1 do Livro I de O Capital: o tempo de trabalho socialmente
necessário para sua produção. Outros armarão que o Capítulo 9 do Livro III da
mesma obra é crucial, pois demonstra que as mercadorias não se vendem por seus
valores, mas por seus preços (de produção). Há ainda aqueles que percebem que as
mercadorias não são nem vendidas pelos preços de produção, mas pelos preços de
mercado. Estes últimos são o nível de determinação mais concreto daquilo que, no
Capítulo 1 do Livro I, estava em sua determinação mais abstrata.
A teoria do valor em Marx signica uma teoria da realidade social e histórica
em que o valor devém dinheiro, que devém capital. Todas as leis do capitalismo
dependem de as mercadorias serem compradas e vendidas pelos seus valores. A teoria
do valor em Marx é o entendimento, em todos os seus níveis de abstração, da lei do
valor, determinação mais abstrata do que é a sociabilidade capitalista, seu objeto em
sua crítica da economia política. Por isso é que, quando chegamos à segunda seção
do Livro III, no Catulo 8, nos deparamos com uma contradição. De acordo com a
teoria do valor até ali desenvolvida, assumindo que a lei do valor implica a troca de
equivalentes e que, nos vários setores da economia, existem diferenças nas rotações
do capital e nas suas composições orgânicas, reinariam taxas de lucro diferenciadas.
Por outro lado, o da evidência real e concreta, existe um processo de tendência à
igualação das taxas de lucro, processo esse mediado pela concorrência
2
entre os
distintos capitais. A teoria nos garante que as taxas de lucro têm que ser diferentes,
dada a disparidade de composição e rotação do capital. A realidade concreta nos
garante que não. A primeira chega a essa conclusão baseada na troca de equivalentes.
A segunda sinaliza que as mercadorias não são e nem podem ser vendidas pelos
seus valores. Há uma contradição agrante entre os Livros I e II (mercadorias são
vendidas pelos seus valores) e o Livro III (mercadorias não são e nem podem ser
vendidas pelos seus valores). O que fazer?
Em primeiro lugar, deve-se deixar claro que não se trata de uma contradição
do pensamento de Marx, mas de uma contradição própria da realidade concreta
capitalista percebida por Marx. Se é assim, e o objetivo do autor é entender
seu objeto como ele é, com todas suas legalidades, tendências e contradições, a
obrigação da teoria é não esconder, mistificar, desconsiderar, abstrair (no puro
pensamento) essa contradição, como se ela não existisse. Esse procedimento
metodológico implicaria em desconsiderar a realidade para preservar a teoria
quando esta não consegue explicar aquela.
2 A temática do sentido real da concorrência em Marx tem sido rigorosamente discutida nos últimos
tempos, escapando da visão economicista que relaciona a concorrência no capitalismo unicamente com
a dimensão do número de produtores (ofertantes) e consumidores (demandantes) para caracterizar
estruturas de mercado especícas. Para uma visão sobre o assunto ver Shaikh (2016).
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ARTIGOS
Em segundo lugar, é imprescindível alertar que esse não é o primeiro momento
da exposição de Marx em que ele se depara com essa contradição. O autor já tinha
tratado do assunto, em um maior nível de abstração, no Catulo 1 do Livro I, quan-
do constatou que a magnitude do valor de uma mercadoria era dada pelo tempo de
trabalho socialmente necessário para produzir uma mercadoria. Naquele momento,
embora não o tenha ali explicitado, ele já tinha nos apresentado o verdadeiro signi-
cado da lei do valor (troca de equivalentes): as mercadorias não são vendidas pelos
seus valores, e nem poderiam sê-lo, ainda que o sejam!
Naquele nível de abstração, Marx percebe que o tempo de trabalho socialmente
necessário para a produção de uma mercadoria determina o seu valor. Mas isso de
acordo com as condições sociais médias de produtividade e intensidade do trabalho.
Assim, se uma determinada economia necessita de duas unidades da mercadoria hi-
potética A, e um determinado capital I leva 4 horas para produzir uma unidade,
sendo que outro capital II leva 6 horas para produzir outra unidade, tem-se que a
economia tem um custo (social) de 10 horas para produzir duas unidades. O valor
da mercadoria A, seu tempo de trabalho socialmente necessário, é igual a 5 horas,
cada. Perceba-se que nenhum dos dois capitais (I ou II) tem um valor individual que
corresponda a esse valor médio. Portanto, do ponto de vista dos capitais particulares,
as mercadorias não foram vendidas por seus valores individuais (4 horas e 6 horas),
mas do ponto de vista da totalidade, as duas mercadorias A foram vendidas por seus
valores (10 horas no total).
Ali já estava o verdadeiro signicado da lei do valor, só que ainda em um nível de
abstração elevado. O segundo nível de abstração corresponde à famosa Seção II do
Livro III, que trata da formação dos preços de produção. Naquele momento, Marx
percebe que capitais de igual montante e apenas com distintas composições orgâni-
cas, se vendessem as mercadorias por seus valores, obteriam taxas diferenciadas de
lucro, o que faria com que fosse negada a própria tendência da concorrência entre
capitais de distintos setores de procurarem maiores taxas de lucro, o que terminaria
por, como tendência, formar uma taxa média de lucro
3
.
A taxa média de lucro, aplicada ao capital adiantado, dene o lucro médio, que,
somado ao preço de custo, forma o preço de produção, o qual garante que capitais
3 Essa forma de entender a tendência à formação da taxa média de lucro pela entrada e saída de capitais
dos distintos setores fez com que vários intérpretes considerassem que Marx pensava o processo como a
economia política clássica, isto é, a partir do pressuposto da concorrência perfeita e da taxa de lucro mé-
dia como uma taxa de equilíbrio para onde convergiriam todos os capitais. Isso é completamente estra-
nho a Marx. Só para citar um exemplo, para que atue a tendência à igualação das taxas de lucro, bastaria
que os capitais já operantes em um setor com taxa de lucro superior à média elevassem suas produções
ao mesmo tempo em que aqueles em setores com taxas de lucro inferior à média reduzissem suas pro-
duções, para que a tendência se efetivasse, prescindindo da hipótese de livre entrada e saída de capitais.
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de igual montante se apropriem do mesmo lucro médio, independentemente de
quanta mais-valia produziram no processo produtivo
4
. Dessa forma, exceto em
setores de composição orgânica do capital igual à média, os preços de produção
necessariamente são distintos dos valores. Esse preço de produção não é o preço
nal de venda (de mercado). O fato é que, exatamente por isso, a categoria preço de
produção é extremamente importante, mas também entendida de forma equivocada.
Trata-se do preço que os capitais, ao saírem do processo produtivo, desejariam
obter para se apropriar da taxa média de lucro. Se esse preço de produção vai ou
não corresponder ao preço nal de venda, apenas a concorrência em seu nível de
abstração mais concreto (a confrontação do volume produzido com a necessidade
social daquela mercadoria especíca) poderá conrmar.
O preço de produção (a taxa média de lucro) é uma espécie de mecanismo de
distribuição a priori (antes do mercado) do total do mais-valor produzido. Mas, na
totalidade, o valor produzido é igual àquele que foi apropriado, na forma de preço
de produção
5
. Comprova-se com isso que as mercadorias não são e nem podem ser
vendidas pelos seus valores (do ponto de vista da particularidade dos capitais), mas
pelos seus preços de produção. Entretanto, para o capital total, os preços de produção
(magnitude de valor apropriada) equivalem aos valores (magnitude de valor pro-
duzida). Logo, nesse segundo nível de abstração, assim como no primeiro, as merca-
dorias não são, nem podem ser vendidas pelos seus valores, ainda que o sejam!
No terceiro, e último, nível de abstração, Marx constata que os preços de mercado
só corresponderiam aos preços de produção por uma casualidade. Se a oferta é maior
do que a demanda, os preços de mercado são inferiores aos preços de produção, e
vice-versa, o que nos leva à conclusão de que as mercadorias, de fato, não são vendi-
4 Além do mais, como os capitais representantes dos distintos setores são também uma média (o preço
de produção de mercado), que podem inclusive nem existir na particularidade concreta de um deter-
minado capital, os mais variados capitais nesse setor (com distintos preços de custo, de produção etc.)
apresentarão taxas distintas de lucro. A formação da taxa média de lucro não signica que todos os ca-
pitais ganharão a mesma taxa média de lucro (de equilíbrio). Ao contrário, ela pressupõe a disparidade
de taxas efetivas de lucro.
5 A formação dos preços de produção levou a uma inndável discussão sobre o famigerado problema da
transformação dos valores em preços de produção, com distintas posições dentro e fora do marxismo,
com base na ou rechaçando a teoria do valor de Marx, ou ainda confrontando distintas interpretações
desta última. Como foge ao escopo deste trabalho, nos limitamos a enunciar nossa posição. Trata-se de
um falso problema! Valores e preços de produção não são coisas (entes) distintos, que necessitam ser
transformados (seus sistemas) uns nos outros. Transformação em Marx signica a mudança de forma
de uma mesma coisa. Valor e preço de produção são a mesma capacidade da mercadoria de ser trocada
por outras, só que em instâncias (níveis de abstração) distintas. Por isso, em primeiro lugar, não parece
fazer sentido transformar (no sentido corriqueiro) uma coisa nela mesma! Em segundo lugar, ainda que
assim se proceda, não seria natural esperar que uma mesma coisa, em instâncias distintas, apresente
cardinalidades distintas?
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ARTIGOS
das pelos seus valores (intermediados pelos preços de produção). Observando mais
de perto, quando os preços de mercado são inferiores aos preços de produção, a taxa
efetiva de lucro é inferior à taxa média. Capitais instalados nesses setores tendem a
reduzir seus volumes de produção, ou simplesmente abandonar essas esferas de pro-
dução. Por uma razão e/ou por outra, a quantidade de produção nesse mercado tende
a cair, fazendo com que o preço de mercado suba em direção ao preço de produção.
O mesmo processo ocorre, com sentido inverso, quando os preços de mercado são
superiores aos preços de produção. Logo, a aparente utuação indeterminada dos
preços de mercado, na verdade, tem uma determinação, o valor da mercadoria, in-
termediado pelo preço de produção.
Ao contrário da economia política, clássica e vulgar, não se trata de um preço de
produção que funciona como uma referência de equilíbrio que atrai os eventuais/
conjunturais desacertos entre oferta e demanda. Trata-se de uma lei de tendência. Na
realidade, os capitais reavaliam suas decisões de produção com base no ocorrido no
período anterior, sinalizado pelo mercado, mas enfrentarão (no futuro!) condições
de demanda completamente distintas, que são alteradas inclusive pelas modicações
da totalidade de alterações nas decisões de produção.
Assim, a lei (teoria) do valor em Marx não signica que os preços de mercado
irão corresponder quantitativamente aos valores das mercadorias, e nem poderia ser
assim. A troca de equivalentes (lei do valor), de acordo com a teoria de Marx (2017),
signica que o valor é o centro por onde utuam os preços, explicando/determinan-
do, portanto, essa utuação.
Entendida de maneira correta (dialeticamente) a teoria do valor em Marx, deve-
se retomar o fato de que todas as leis de tendência do modo de produção capitalista
decorrem dela. Como essas leis de tendência se manifestam de forma distinta depen-
dendo da conjuntura, do momento histórico e/ou do grau de desenvolvimento capi-
talista em determinada região, tem-se que a categoria mercado mundial em Marx, em
um plano mais concreto, é crucial para entender o seu objeto de estudo, as categorias
capitalistas como elas são na realidade concreta.
Alguns podem entender mercado mundial simplesmente como um mercado
em escala global. Mas essa categoria em Marx signica muito mais. Quando esse
autor se refere a mercado, não está tratando de um espaço especíco onde os
indivíduos, eventualmente, compram e vendem produtos. Mercado (ou circulação
de mercadorias) para ele é a totalidade das trocas em uma economia mercantil-
capitalista. Nessa sociedade, os indivíduos não têm a liberdade de ir, ou não, conforme
seus caprichos, ao mercado (mundial) para, eventualmente, comprar ou vender
produtos. Na sociedade capitalista, os seres humanos são obrigados, para existirem
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nessa sociedade, a comprar e vender produtos. Com o desenvolvimento da divisão
do trabalho, esses indivíduos produzem apenas parte do que necessitam para viver.
São obrigados, portanto, a obter as outras mercadorias na circulação, oferecendo
para isso os seus produtos em troca. Isso signica que: (i) o trabalho privado, no
capitalismo, só é reconhecido, ou não, como parte do trabalho social se o seu produto
for reconhecido/validado na troca; (ii) os indivíduos se relacionam uns com os outros
por intermédio da compra/venda de suas mercadorias, e não diretamente como
seres sociais. Trata-se de uma sociabilidade obrigatoriamente mercantil. Portanto,
quando Marx se refere ao mercado mundial, ele está se referindo a essa sociedade
onde os seres humanos se relacionam socialmente de forma mediada/estranhada
ao capitalismo. Em Marx, mercado mundial representa capitalismo mundial, as leis
gerais de tendência que constituem o capitalismo em escala mundial, desenvolvidas
de forma desigual.
E como a lei do valor implica, necessariamente, que capitais particulares não irão
se apropriar exatamente da magnitude de valor que produziram, temos uma dialética
entre a produção de valor e sua apropriação na interação entre capitais, que é justa-
mente o que a categoria transferência de valor procura captar. A diferença entre a
produtividade de distintos capitais na concorrência dentro do setor (valor individual
vs. valor de mercado) e entre setores (preço de produção individual vs. preço de pro-
dução mercado) é que determina essa diferença entre a produção e a apropriação do
valor. Assim, é sob o acicate da concorrência que a lei do valor, bem entendida, se
impõe. E, no mercado mundial, de forma desigual. Nos Grundrisse, isto é, em 1857-
1858, Marx já tinha isso claro:
Tendo em vista que o lucro pode ser inferior ao mais-valor, ou seja, que o capital [pode] tro-
car-se lucrativamente sem se valorizar no sentido estrito, segue-se que não só os capitalistas in-
dividuais, mas também as nações podem trocar continuamente entre si, e repetir continuamente
a troca em escala sempre crescente, sem que por isso precisem ganhar de modo uniforme. Uma
pode apropriar-se continuamente de uma parte do trabalho excedente da outra, pela qual nada
dá em troca, só que nesse caso a medida não é como na troca entre capitalista e trabalhador.
(MARX, 2011, p. 747).
Rosdolsky (2001) percebe a importância desse trecho dos Grundrisse para o en-
tendimento da relação de dependência – ainda que ele mesmo não use o termo – de
6 Esta categoria passou a ser reivindicada com o sentido que lhe estamos atribuindo apenas depois da
morte de Marx. Em sua obra, Marx utiliza especialmente a dialética produção-apropriação quando se
refere à relação de exploração da força de trabalho. Para sua utilização do ponto de vista da concorrência
no mercado mundial, ver, por exemplo, Grossmann (1979). Ela será, posteriormente, central, por exem-
plo, para a teoria marxista da dependência.
72
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nações formalmente independentes frente àquelas em que as legalidades capitalistas
estão em maior grau de desenvolvimento. Esse autor ainda deixa claro que se trata
de “[...] uma exploração que não necessita servir-se de nenhuma pressão política e,
mais ainda, que sequer é intencional; estabelece-se simplesmente por causa das leis
econômicas do capitalismo... Que leis são essas? Em primeiro lugar, a lei do valor”
(ROSDOLSKY, 2001, p. 258)
7
. É, portanto, no mercado mundial que a lei do valor,
enquanto dialética entre a produção e apropriação de valor, se expressa por intermé-
dio da concorrência (mundial) entre os distintos capitais. Da citação dos Grundrisse,
percebe-se que Marx tinha clara já nessa época a noção de transferência de valor
– ainda que não usasse o termo nesse sentido –, sem confundir a exploração capi-
tal-trabalho com uma pretensa exploração nação-nação.
Mas a relação entre o mercado mundial (intercâmbio internacional) e o desen-
volvimento desigual é ainda anterior. Em A Ideologia Alemã, de 1845-1846, Marx e
Engels já sustentavam que:
De acordo com nossa concepção, portanto, todas as colisões na história têm sua origem na
contradição entre as forças produtivas e a forma de intercâmbio. Aliás, não é necessário que essa
contradição, para gerar colisões num país, tenha de chegar ao seu extremo nesse mesmo país.
A concorrência com países industrialmente mais desenvolvidos, provocada pela expansão do
intercâmbio internacional, é o bastante para engendrar uma contradição similar também nos
países com indústria menos desenvolvida (por exemplo, o proletariado latente na Alemanha,
revelado devido à concorrência da indústria inglesa). (MARX; ENGELS, 2007a, p. 61-62).
Sobre este trecho, Mészáros (2011, p. 332) arma: “[...] a questão do desenvolvimen-
to desigual [...]” apareceu em A Ideologia Alemã “[...] com referência à possibilidade
de mudanças sociais dramáticas acontecerem em um país capitalisticamente subdesen-
volvido, como resultado das contradições do desenvolvimento desigual em um sistema
cada vez mais intimamente interconectado de maneira global”. Para Mészáros (2011,
p. 333), “[...] isso acontece porque os países menos desenvolvidos são inevitavelmente
impulsionados pelo comércio mundial à luta universal da concorrência.
Em 1848, Marx novamente explicita o processo de transferência de valor inerente
ao comércio internacional quando, em seu Discurso sobre o Problema do Livre
Comércio, arma que “[...] todos os fenômenos destruidores suscitados pela livre
concorrência no interior de um país reproduzem-se, em proporções mais gigantescas,
7 Em sua forte crítica à teoria de Rosa Luxemburgo sobre a necessidade de mercados externos ao capi-
talismo, Grossmann (1979) percebe muito bem que o desenvolvimento da lei do valor, pressupondo e
pondo o mercado mundial, implica transferência de valor de capitais em economias dependentes para
capitais em economias centrais, em que pese toda a relação equivocada que ele faz desse processo com
a derrocada do capitalismo.
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no mercado mundial. Portanto,
[...] não podemos nos espantar se os livre-cambistas são incapazes de compreender como um
país pode enriquecer à custa de outro, pois estes mesmos senhores tampouco querem com-
preender como, no interior de um país, uma classe pode se enriquecer às expensas de outra.
(MARX, 1985, p. 196).
Em síntese, o mercado mundial em Marx constitui uma categoria fundamental,
signicando a necessária expansão do valor-capital em escala mundial, com a di-
alética da lei do valor e sua contradição entre produção e apropriação contendo o que
mais tarde chamou-se de transferência do valor. Não é que não existissem mercados
em escala mundial antes do capitalismo, mas é que a lógica do capital industrial uma
vez posta historicamente modicou o conteúdo desse mercado mundial, transfor-
mando-o em uma sociabilidade (mundial) capitalista. Aqueles mercados em escala
mundial antes do capitalismo podem ser entendidos, como veremos, em uma forma
antediluviana do mercado mundial enquanto uma categoria capitalista.
Grande indústria e mercado mundial
A historicização do mercado mundial, brevemente indicada na seção anterior, neces-
sita ser teoricamente explicada para que nossa proposição de que o mercado mundial
capitalista assume a forma de imperialismo faça sentido. Essa proposição pressupõe
outra formulação: que esse mercado mundial capitalista é posto pela grande indústria,
o que signica que sua gênese histórica é o período da Revolução Industrial, na tran-
sição entre os séculos XVIII e XIX. Nesse sentido, antes de analisarmos a relação en-
tre mercado mundial e imperialismo (tema da próxima seção), necessitamos, agora,
caracterizar os traços gerais da relação entre grande indústria e mercado mundial
8
.
Marx historiciza o mercado mundial, em vários momentos de sua obra, em duas
fases. Na primeira, que começa com as Grandes Navegações do nal do século XV
e termina com a Revolução Industrial, o mercado mundial está em formação, em
desenvolvimento, e seu conteúdo não é posto pelo capital. Por outro lado, é bem ver-
dade que essa fase inicial do mercado mundial foi impulsionada por comerciantes,
mercadores etc., encarnações de formas embrionárias de capital comercial
9
– de uma
8 Trabalhos recentes sobre mercado mundial em Marx, como Pradella (2015), Franklin (2017) e Miran-
da (2018) não abordam essa questão ou, quando abordam, o fazem de forma muito supercial.
9 É bem conhecida a formulação de Caio Prado Júnior (1961) segundo a qual as “descobertas” da Amé-
rica conguram capítulo da história comercial europeia, dentro da qual o “sentido da colonização” tro-
pical foi a constituição de uma “vasta empresa comercial”, cujo resultado foi a organização de uma
economia e de uma sociedade “voltada para fora, atendendo aos objetivos do comércio europeu.
74
ARTIGOS
forma de capital destituída de conteúdo capitalista, designada por Marx (2013) como
forma antediluviana de capital. Na medida em que a primeira fase do mercado mun-
dial foi gerada por essas formas antediluvianas de capital, vamos caracterizá-la aqui
como a forma antediluviana do mercado mundial.
A segunda fase do mercado mundial, de constituição do mercado mundial com
conteúdo capitalista, do mercado mundial propriamente dito, ocorre com a radical
transformação na base técnica do modo capitalista de produção instaurada pela grande
indústria. Pradella (2013, p. 121) indica que Marx distingue as duas fases do mercado
mundial nos Cadernos de 1846-47 sobre Gustav von Gülich, separando, nas palavras
da autora, um “mercado mundial pré-industrial” do “mercado mundial criado com
base na grande indústria. Segundo a autora, esses estudos formaram a base dos tra-
balhos de Marx nesse período, dA Ideologia Alemã (1845-46) ao Manifesto comunista
(1848), em que o tema do mercado mundial e o do imperialismo estão presentes.
Note-se, por exemplo, que Marx e Engels (2007a, p. 60) tratam a relação entre
grande indústria e mercado mundial nA Ideologia Alemã como de causa e conse-
quência: a grande indústria funciona como causa, como motor do processo de
criação” do “moderno mercado mundial, que signica, ao mesmo tempo, criação,
pela primeira vez, da “história mundial. Subentende-se que o mercado mundial,
antes do modo capitalista de produção plenamente desenvolvido, tem outro conteú-
do, ainda não capitalista.
Marx e Engels (2007b, p. 41), no Manifesto Comunista, de 1848, não hesitam
em armar que “[...] a grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela
descoberta da América. O mercado mundial propriamente dito (criado pela grande
indústria, que imprime “[...] um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em
todos os países [...]” e que “[...] roubou da indústria sua base nacional” [MARX;
ENGELS, 2007b, p. 43]) emerge a partir das condições pré-existentes postas pelo que
chamamos de forma antediluviana do mercado mundial, que gesta as condições para
sua transformação qualitativa posterior
10
.
O desenvolvimento da sociedade burguesa, objeto da primeira parte do Manifesto,
caminha pari passu com o desenvolvimento do mercado mundial. Embora esse
argumento já se encontre em 1848, ele será destacado novamente por Marx em
1858, quando, em carta para Engels, parcialmente citada por Pradella (2015, p. 131),
explicita a criação do mercado mundial como a “verdadeira tarefa” da burguesia:
10 A América Latina, por exemplo, nos séculos XVI, XVII e XVIII, contribui decisivamente para
o desenvolvimento do capital comercial europeu (tanto do capital de comércio de mercadorias
quanto do capital de comércio de dinheiro) (MARINI, 2005). Ademais, igualmente decisivo para o
desenvolvimento do capital industrial europeu, em especial o inglês, foi o mecanismo do exclusivo
metropolitano, estabelecido graças ao monopólio comercial, como enfatiza Novais (1989).
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Não há como negar que a sociedade burguesa experimentou pela segunda vez seu século XVI,
um século XVI o qual, eu espero, soará como sua trombeta de morte assim como o primeiro a
conduziu ao mundo. A verdadeira tarefa da sociedade burguesa é a criação do mercado mun-
dial, ao menos em esboço, e da produção baseada neste mercado. Como o mundo é redondo, a
colonização da Califórnia e da Austrália e a abertura da China e do Japão parecem ter comple-
tado esse processo. (MARX, 2010, p. 346-347, tradução nossa, grifos nossos).
Nessa carta, Marx rearma, com todas as letras, a historicidade proposta ante-
riormente. O segundo século XVI da sociedade burguesa é o século XIX (ou, mais
precisamente, a primeira metade do século XIX, pois a abertura dos portos japoneses
ocorreu em 1854
11
).
Ademais, se evidencia que a produção baseada na troca, isto é, produção de mer-
cadorias enquanto cristais de trabalho humano abstrato, depende da criação do mer-
cado mundial. No Livro III de O Capital, falando sobre o desenvolvimento do modo
capitalista de produção, Marx (2017, p. 380) destaca o caráter impessoal (e global)
da troca: “[...] em vez de produzir para o mercador individual ou para determinados
clientes, agora o tecelão de pano produz para o mundo do comércio. Portanto, pro-
dução capitalista é produção para o mercado mundial: o mercado mundial, como já
armamos neste artigo, é o capitalismo (em escala mundial). Disso se infere que a
expansão longitudinal do capitalismo equivale à expansão das fronteiras do merca-
do mundial, que passa a abarcar crescentemente todo o globo terrestre: “Uma pro-
dução em massa, cada vez mais ampla, inunda o mercado existente e, assim, promove
constantemente a expansão desse mercado, a derrubada de suas barreiras” (MARX,
2017, p. 381). Na mesma carta citada anteriormente, de 1858, Marx pontua que, na
Europa, uma “revolução é iminente, de “caráter socialista, mas tem dúvidas de sua
efetividade, tendo em vista o “movimento ascendente” da sociedade burguesa sobre
as demais partes da Terra (MARX, 2010, p. 346-347, grifos do autor), revelando a di-
namicidade do mercado mundial: a expansão de suas fronteiras signica a expansão
das relações sociais e de produção tipicamente capitalistas.
Uma vez que a expansão longitudinal de um tipo de forma social (a sociedade
burguesa) se choca com outras formas sociais, precisamos compreender por qual
motivo a sociedade burguesa, usando uma expressão famosa do Manifesto, “[...] cria
um mundo à sua imagem e semelhança” (MARX; ENGELS, , . ), isto é, por
11 Devemos registrar que o método capitalista para forçar a abertura da China e do Japão foi a força das
armas. Segundo Hobsbawm (2017a, p. 230), o “[...] comodoro Perry, dos Estados Unidos, [...] forçou os
japoneses à abertura de alguns portos em 1853-54 com o método usual das ameaças navais. Os ingleses, e
mais tarde, em 1862, as forças unidas ocidentais, bombardearam o Japão com a frivolidade e a impunidade
habituais. A China, por sua vez, foi aberta na Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842 (HOBSBAWM, 2017b).
76
ARTIGOS
qual motivo ela sai vitoriosa do confronto com outras formas de sociabilidade. Mes-
mo que o confronto inicial se resolva com a força das armas, como, por exemplo, nas
aberturas chinesa e japonesa, o capital recorre a outro tipo de artilharia para manter
e desenvolver a dominação prestes a ser instaurada. Já no paneto de 1848, Marx e
Engels oferecem uma explicação inicial que será desenvolvida nos Grundrisse, nos
Manuscritos de 1861-1863 e em O Capital. Em todos os momentos, a chave para
compreender a expansão capitalista (e o desenvolvimento da dominação do capital) é
a mesma: a produtividade. Recuperando a famosa passagem do Manifesto, os autores
dizem que “[...] os baixos preços de seus produtos são a artilharia pesada que destrói
todas as muralhas da China” e “obriga todas as nações a adotarem o modo burguês
de produção” (MARX; ENGELS, 2007b, p. 44, grifos nossos).
A expansão geográfica do mercado mundial, por sua vez, significa a extensão
das distâncias percorridas pelo capital em seu ciclo. A revolução na produtividade
que incide de início sobre as atividades fabris, têxteis em primeiro lugar, se trans-
borda para atividades ligadas à circulação, como a navegação a vapor, a partir dos
anos 1820, e as ferrovias, a partir da década seguinte. Isso significa aumento na
velocidade de circulação das mercadorias, necessário para compensar as maiores
distâncias percorridas no ciclo do capital com a dilatação do mercado mundial
12
.
A revolução nos transportes (com obras de infraestrutura para navegação, como,
por exemplo, o Canal de Suez) e comunicações (com linhas telegráficas) abrevi-
ou “o tempo de rotação do comércio mundial, incidindo positivamente sobre as
taxas anuais de lucro (MARX, 2017, p. 98), o que pode ter levado Engels, em nota
de rodapé ao texto de Marx, a afirmar que “[...] a expansão colossal dos meios de
transporte – navios a vapor transatlânticos, ferrovias, telégrafos elétricos, canal
de Suez – criou, pela primeira vez, de fato, o mercado mundial” (MARX, 2017, p.
546, grifos nossos).
Nos Grundrisse, em passagens parcialmente citadas por Harvey (2005, p. 50-51),
Marx (2011, p. 444) argumenta que “[...] a própria distância espacial resolve-se em
tempo; não depende, p.ex., da distância espacial do mercado, mas da velocidade – o
quantum de tempo em que se chega ao mercado. Isto é, para que a expansão das
fronteiras do mercado mundial não reduza as taxas anuais de mais-valor, a resposta
capitalista é incrementar a produtividade: o tempo de circulação, como corretamente
enfatizado por Harvey, responde ao imperativo da acumulação.
12 Harvey (2005) indica que a dilatação do mercado mundial implicaria aumento do tempo de rotação
caso a produtividade nos setores ligados à circulação permanecesse a mesma de antes. Ademais, se ocor-
resse de fato esse aumento no tempo de rotação do capital, o capital faria menos rotações por unidade
de tempo, o que signicaria produção menor de mais-valor, que levaria à diminuição na taxa anual de
mais-valor (MARX, 2014) e na taxa anual de lucro (MARX, 2017).
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Nos termos de Marx (2011, p. 445, grifos nossos) nos Grundrisse, o capital “[...]
tem de se empenhar para derrubar toda barreira local do intercâmbio, i.e., da troca,
para conquistar toda a Terra como seu mercado. A superação de “toda barreira local do
intercâmbio” equivale à superação de toda forma social não-capitalista, que se trans-
forma, assim, em forma capitalista à medida que se integra ao mercado mundial. Ade-
mais, a destruição do “espaço por meio do tempo” signica necessariamente o radical
incremento de produtividade nos setores ligados à circulação, como sugerimos ante-
riormente, que, por sua vez, depende da revolução no valor nos setores propriamente
produtivos. Um raciocínio parecido com esse é desenvolvido nas Teorias da Mais-Valia,
obra escrita entre 1861 e 1863, em que Marx articula a expansão do mercado mundial
com uma noção primitiva de relação centro-periferia, dizendo que “[...] o mercado
se amplia no espaço, e um raio cada vez mais longo delimita a periferia em relação ao
centro da esfera de produção da mercadoria” (MARX, 1980, p. 1335).
Contudo, ainda não está explícito que o que difere essencialmente o centro da
periferia são os níveis diferentes de produtividade. Apenas em O Capital tal raciocí-
nio encontra suporte efetivo, que começa a se desenhar, entretanto, nos Manuscritos
de 1861-1863 e especialmente no texto escrito entre 1863-4, que se tornou conhecido
como Capítulo VI Inédito de O Capital. Ao desenvolver a distinção entre os proces-
sos formais e reais de subsunção do trabalho ao capital, Marx (2004, p. 92) indica
expressamente que a produção do mais-valor relativo é a “expressão material [...]
da subsunção real do trabalho ao capital, com a qual “[...] efetua-se uma revolução
total (que prossegue e se repete continuamente) no próprio modo de produção, na
produtividade do trabalho e na relação entre capitalista e trabalhador” (MARX, 2004,
p. 104-105). O modo de produção capitalista “[...] agora se estrutura como um modo
de produção sui generis, especicamente capitalista, o que equivale a dizer que a
subsunção real serve de “[...] base para o desenvolvimento da relação capitalista
(MARX, 2004, p. 105). Nesse sentido, já é possível antever que a subsunção real dota
o capital das forças necessárias para a constituição do mundo “à sua imagem e sem-
elhança. Embora não nesses termos, nos parece que é isso que Marx aponta quando
arma que, com a subsunção real do trabalho ao capital, “[...] a produção capitalista
tende a conquistar todos os ramos industriais de que até o momento ainda não se
apoderou e nos quais ainda (existe) a subsunção formal” (MARX, 2004, p. 105).
Esse argumento presente no Catulo VI Inédito foi aprofundado em O Capital
nos três catulos com os quais Marx explica o desenvolvimento dos métodos de
produção do mais-valor relativo: cooperação, manufatura e grande indústria. O ar-
gumento do autor revela que os métodos pioneiros (cooperação e manufatura) não
deixam de existir com o advento da maquinaria e da grande indústria, mas con-
78
ARTIGOS
stituem as bases para a produção capitalista mais desenvolvida, isto é, centrada na
grande indústria. Marx (2013, p. 411, grifos nossos) foi explícito ao apontar que a
manufatura foi a “forma característica do processo de produção capitalista” entre o
século XVI e o último terço do século XVIII, sendo, a partir de então, substituída pela
produção em grande indústria.
Ocorre, assim, uma revolução na produtividade e, em função disso, esse novo
método de produção se generaliza gradativamente à medida que os novos capitalistas
industriais passam a ocupar os espaços do mercado anteriormente ocupados pelos
fabricantes que utilizavam métodos primitivos de produção
13
. Como a revolução
na produtividade signica, tautologicamente, revolução na capacidade de produzir
e fazer circular as mercadorias, isso só foi possível graças à revolução no pprio
mercado mundial, que muda de qualidade a partir de várias e sucessivas mudanças
quantitativas
14
. A diferença crucial que representa essa mudança de qualidade é
que, antes, a produção capitalista não se distinguia radicalmente (do ponto de vista
técnico) de formas de produção artesanais espalhadas ao redor do mundo, de modo
que havia barreiras quase intransponíveis ao espraiamento da relação capitalista. Por
outro lado, com a grande indústria (a partir de condições postas pela manufatura
15
),
a forma de produção capitalista é radicalmente distinta de qualquer outra, e, por
conseguinte, instaura-se progressivamente uma divisão do trabalho na sociedade
(mundial) organizada pelo desnível estrutural de produtividade
16
.
No Capítulo “Maquinaria e grande indústria, de O Capital, Marx (2013) deixa
claro que a existência de uma divisão internacional do trabalho (a qual pressupõe a
existência de nações formalmente independentes, como desenvolveremos na pxima
seção) decorre da produção mecanizada em grande escala, de altíssima produtividade
comparada com formas contemporâneas de produção, ou seja, da subsunção real do
13 Analisando dados da produção de tecidos entre 1788 e 1803, Rubin (2014, p. 279) relata o impacto
da introdução da máquina de ar na Inglaterra: “[...] o tecido de algodão começou a sobrepujar as lãs
mais caras; graças ao seu preço barato, eles conseguiram penetrar na remota área rural e nos mercados
estrangeiros.
14A Inglaterra estava em vias de se transformar na ‘brica do mundo, fornecendo bens fabricados
para o resto do planeta. Seu comércio exterior crescia rapidamente. Entre 1760 e 1815, as importações
para a Inglaterra passaram de 10 para 30 milhões de libras, ao passo que suas exportações aumentaram
de 15 para 59 milhões de libras. O comércio exportador, que anteriormente subordinava a indústria de
exportação, tornava-se agora o subsidiário de uma indústria poderosamente desenvolvida” (RUBIN,
2014, p. 279).
15 “Tão logo a manufatura se fortalece de alguma maneira – e, mais ainda, a grande indústria –, ela cria
um mercado para si mesma, conquista-o por meio de suas mercadorias” (MARX, 2017, p. 380).
16 As máquinas “[...] suprassumem a atividade artesanal como princípio regulador da produção social.
Por um lado, portanto, é removido o motivo técnico da anexação vitalícia do trabalhador a uma função
parcial. Por outro, caem as barreiras que o mesmo princípio ainda erguia contra o donio do capital
(MARX, 2013, p. 443, grifos nossos).
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trabalho ao capital naqueles lugares a que o autor chamou de “centro” nos Manuscritos
de 1861-63, que arruína o “produto artesanal” das periferias
17
.
Esse comentário de Marx reforça a tese segundo a qual
[...] a necessidade imanente que este possui [i.e., o modo de produção capitalista] de produzir
em escala cada vez maior gera um impulso à constante expansão do mercado mundial, de modo
que [...] não é o comércio que revoluciona a indústria, mas é ela que revoluciona constantemente
o comércio. (MARX, 2017, p. 377).
O mercado mundial possui fronteiras uidas que se deslocam de acordo com o
ritmo da produção industrial, de forma que o “[...] capitalista industrial tem sem-
pre diante de si o mercado mundial”; o produtor, quando se torna comerciante, isto
é, quando produz para a troca, o que só ocorre no modo de produção especica-
mente capitalista, se torna dependente das “[...] condições de produção que têm
origem no mercado mundial
18
” (MARX, 2017, p. 380). Em outras palavras, o capi-
talista industrial “[...] confronta e tem de confrontar constantemente seus próprios
preços de custo com os preços de mercado, não só aqueles praticados em seu país,
mas no mundo inteiro” (MARX, 2017, p. 381). Ou seja, desde a grande indústria,
o valor-capital funciona, opera, em nível mundial, o que signica que os desdo-
bramentos dialéticos da lei do valor (desenvolvidas na seção anterior) também são
válidos nesse mesmo nível.
Marx retoma a tese do Manifesto, segundo a qual a “artilharia pesada” é eviden-
temente municiada pelos incrementos de produtividade, no Livro III de O Capital,
quando comenta sobre os “ridículos” e “infames” experimentos econômicos britâni-
cos na Índia: com o “poder político e econômico” dos ingleses, se “[...] se pode falar
em um efeito revolucionador de seu comércio sobre o modo de produção [asiático],
é apenas na medida em que, por meio do baixo pro de suas mercadorias, eles ani-
quilam as atividades de ação e de tecelagem” e “desagregam essas comunidades
(MARX, 2017, p. 378, grifos nossos).
19
17 Em estudo empírico sobre o comércio de têxteis entre Grã-Bretanha e Brasil na primeira metade do
século XIX, Pereira (2021) mostra que o extraordinário volume de mercadorias que chegava aos portos
brasileiros era causado mais pelo “hiato de produtividade” do que pelas tarifas preferenciais de 1810.
“Demand increased substantially with cheaper textiles and Brazil imports of calicos increased from 12.8
million yards in 1815 to 153.8 million in 1860. In comparison, the estimated production of cotton fabrics
(most of them coarse cloth) in Brazil was only 2.9 million yards in 1866” (PEREIRA, 2021, p. 328).
18 Nos Manuscritos de 1864-65, em trecho não incluído por Engels na edição do Livro III de O Capital,
Marx (2015, p. 442) ainda enfatiza, entre parênteses, logo após mencionar o mercado mundial no nal
da oração citada: “ao invés de ser local ou nacional.
19 Cf. Miranda (2018, p. 126-153) para um estudo rigoroso sobre o verdadeiro sentido das controversas
teses de Marx sobre os efeitos do colonialismo britânico na Índia.
80
ARTIGOS
A produção artesanal em ruínas é imediatamente substituída pela produção para
o mercado mundial, portanto, produção capitalista. Como o processo histórico é
complexo e não-linear, podem se desenvolver relações capitalistas mesmo quando
vigoram instituições pré-capitalistas, como a escravidão, por exemplo. Contudo,
mesmo antes da disseminação histórica da relação de assalariamento, as regiões nas
quais as unidades produtivas produziam mercadorias para o mercado mundial po-
dem ser encaradas como formalmente capitalistas (MARX, 1980)
20
. Em decorrência
desse argumento, essas unidades produtivas eram capitais (na forma) e, como é de se
esperar, operavam sob o jugo da lei do valor.
Interessante observar que as pressões inglesas para o m do regime de escravi-
dão na América ocorrem especialmente após a constituição da grande indústria. De
fato, como explica Fernando Novais (1989, p. 109), o escravismo “[...] limita o cres-
cimento da economia de mercado” e põe barreiras à rotação do capital industrial.
Com a Revolução Industrial e o aumento da produtividade e da produção, há maior
necessidade de consumo “da sociedade como um todo, o que implica a necessidade
da “generalização das relações mercantis, inclusive no mercado de força de trabalho
(NOVAIS, 1989, p. 112). Com o m das formas de trabalho compulsório e a gene-
ralização do assalariamento, ocorre a disseminação da produção realmente (e não
apenas formalmente) capitalista, com forma e conteúdo capitalista
21
.
Ora, a generalização do assalariamento e a dos processos formais de descoloni-
zação americana
22
têm em comum serem ambas resultado, em um elevado nível de
generalização, do desenvolvimento da grande indústria
23
. O mesmo pode ser dito do
mercado mundial capitalista, como tentamos mostrar nesta seção, cuja gênese como
20 Nas colônias onde vigoravam as plantations “[...] destinadas desde o início à especulação comercial e
com a produção voltada para o mercado mundial, verica-se produção capitalista, embora formalmente
apenas, uma vez que a escravatura negra exclui o assalariado livre, portanto o fundamento da produção
capitalista” (MARX, 1980, p. 729).
21 Registre-se que a transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado é um longo processo
histórico permeado por inúmeras formas intermediárias de trabalho. Ademais, como aponta Cardoso
(1979, p. 365), apesar da abolição da escravidão e a imposição de reformas liberais serem responsáveis
pela “desagregação de estruturas de tipo colonial” em proveito do avanço do capitalismo, elas “[...] não
signicaram, contudo, o triunfo de relações de produção capitalistas típicas, isto é, como vigente nos
países centrais.
22 Para nosso escopo, por “descolonização” estamos nos referindo ao processo de formação de uma
soberania nacional do ponto de vista formal.
23 Não estamos, com isso, reduzindo a determinação de ambos os processos como se fossem única e
exclusivamente causados pela grande indústria, por isso nosso aposto de que se trata de uma determinação
em um elevado nível de generalidade. Os dois processos históricos – abolição da escravidão e declaração
formal de independência – resultam, concretamente, da luta de classes. No primeiro caso, de uma luta
de longa duração do povo negro contra as classes proprietárias (AZEVEDO, 1987), e, no segundo,
observando o caso brasileiro, de uma disputa interna à classe dirigente, dos latifundiários brasileiros,
que vendiam para o mercado mundial, contra a aristocracia imperial portuguesa (SALGADO, 2019).
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uma categoria nova, qualitativamente distinta de sua forma antediluviana, depende
da grande indústria. Precisamos ainda analisar outra implicação dessa questão: qual
o desdobramento do fato de que o mercado mundial capitalista (criado pela grande
indústria) é o lócus através do qual o capital se reproduz? Em outras palavras, qual
a implicação da reprodução do valor-capital em escala mundial? Esse é o tema da
próxima seção, na qual a análise será realizada em um nível lógico mais concreto,
considerando a concorrência real entre capitais em um mundo fragmentado em na-
ções (ou grupos de nações) formalmente independentes.
Mercado mundial e imperialismo
Na seção anterior mostramos que o mercado mundial capitalista nasce com a grande
indústria, a qual também é responsável pela crise do sistema colonial latino-ameri-
cano
24
(ou melhor, corresponsável, pois não podemos ignorar o papel da Indepen-
dência dos Estados Unidos e do Haiti e da Revolução Francesa na difusão dos ideais
anticoloniais [CARDOSO, 1990, p. 122]). Nascia a sociedade moderna (expressão
utilizada por Marx para designar a “[...] diferença entre sociedades pré-capitalistas/
pré-burguesas e capitalistas/burguesas, resultado das “[...] profundas transforma-
ções políticas e econômicas ocorridas entre 1780 e 1860” [HEINRICH, 2018, p. 21-
22]) e o “sistema internacional de Estados soberanos” (SALGADO, 2019, p. 2, grifos
nossos). Pretendemos mostrar que, nessa sociedade moderna e nesse sistema in-
ternacional, as relações econômicas internacionais carregam características do que
contemporaneamente chamamos de imperialismo, ou seja, o imperialismo é a forma
histórica do mercado mundial capitalista. O conteúdo capitalista do mercado mun-
dial, portanto, se desdobra historicamente, desde sua gênese, em imperialismo, que,
por sua vez, também tem sua própria historicidade (a qual ajuda a explicar a confu-
são em torno da noção tradicional do imperialismo como capitalismo monopolista,
como veremos adiante).
No caso da América Latina, a velha subordinação colonial se transforma, com
a grande indústria e o mercado mundial, em uma nova subordinação, de quali-
dade radicalmente distinta, entre nações formalmente independentes. Contradi-
toriamente, em outros lugares do mundo, como a Ásia ou a África, por exemplo,
o capital opera uma transformação inversa: a necessidade de mercados de ma-
téria-prima impulsiona agressões militares das mais variadas formas, forjando
novas relações de dominação coloniais (ou neocoloniais) a partir do século XIX
(GALLAGHER; ROBINSON, 1953).
24 Ver, a esse respeito, Novais (1989).
82
ARTIGOS
Nosso ponto é que a teoria do imperialismo geralmente não é requisitada para
se analisar o período entre a Revolução Industrial e a formação do que Hilferding e
Lenin chamaram de “capitalismo monopolista, que começaria entre a depressão dos
anos 1870 e a crise de 1900 a 1903 (LENIN, 2008). Historiadores marxistas, como
Caio Prado Júnior (2006), por exemplo, enfatizam a inuência do imperialismo so-
bre a economia brasileira a partir da República, notadamente recorrendo ao arsenal
categorial de Lenin que enfatiza o papel das exportações de capital. Quanto aos estu-
dos contemporâneos sobre o imperialismo, também parece existir um vácuo teórico
quando o assunto é o século XIX, pois, como aponta Corrêa (2012), a maioria das
teorias tenta explicar o imperialismo a partir dos anos 1870.
Ao reivindicar o “capitalismo monopolista” como fundamento genético do im-
perialismo e considerar a dominação exercida por capitais nanceiros, monopólios,
trustes etc. como a característica denidora do imperialismo, os autores clássicos
estão caracterizando-o a partir de mecanismos de dominação econômica
25
. Certa-
mente essa dominação econômica depende da dominação extraeconômica, especial-
mente da força das armas, motivo pelo qual autores como Callinicos (2009) e Har-
vey (2003) caracterizam o imperialismo na interseção entre o econômico e o (geo)
político. Contudo, a dominação econômica continua localizada no núcleo central da
explicação do imperialismo capitalista (o que está correto, pois o que há de especíco
no capitalismo é exatamente a dominação via mercado, que se apresenta de forma
velada, mais ou menos oculta, invisível, como sugere Wood [2014], diferenciando
o que ela chama de “império do capital” de formas pré-capitalistas de dominação).
No entanto, como indicamos ao longo deste artigo, a conformação da grande in-
dústria cristaliza a própria dominação econômica, embora por canais distintos do
atribuído pelas teorias clássicas do imperialismo. Não é obra do acaso que a Inglater-
ra consolide uma posição absolutamente dominante no quadro das relações interna-
cionais do século XIX. A explosão do comércio exterior entre 1780 e 1850 signica
que a reprodução do capital passa a ocorrer no plano do mercado mundial
26
, com
imenso predomínio técnico de capitais ingleses. Segue-se, a partir daí, como expli-
25 Leite e Correa (2021) mostram porque Lênin tratou as exportações de capitais como “a questão prin-
cipal” em sua teoria do imperialismo.
26 “Entre 1780 e 1840, o comércio internacional em todo o mundo ocidental mais do que triplicou;
entre 1780 e 1850, ele se multiplicou em mais de quatro vezes. Por padrões posteriores, tudo isto foi sem
dúvida muito modesto, mas, por padrões anteriores, e anal de contas estes eram os padrões utilizados
pelos contemporâneos para estabelecer comparações com sua época, eles estavam além dos sonhos mais
loucos” (HOBSBAWM, 2017b, p. 271). Evidentemente, a partir dos anos 1870 este processo explode ain-
da mais, fazendo com que Engels sugira, por exemplo, em nota de rodapé ao Livro III de O capital, como
já indicamos neste artigo, que o mercado mundial se origine, “de fato, a partir da “expansão colossal dos
meios de transporte” desde a crise de 1867. Ver nota de rodapé em Marx (2017, p. 546).
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camos na primeira parte deste artigo, a conformação de um processo estrutural de
transferência de valor pela via do comércio exterior: uma transferência internacional
de valor nos marcos de um sistema internacional de Estados soberanos. A domina-
ção, do ponto de vista da América Latina, é econômica. Por isso a teoria marxista da
dependência toma como base o comércio exterior, que é o canal pelo qual se cons-
titui uma relação original de “exploração internacional, portanto de imperialismo e
dependência
27
.
Como a grande indústria exaspera a cooperação e a divisão do trabalho, o im-
perialismo que nasce com ela impõe o desenvolvimento combinado. Os “núcleos
econômico-espaciais, utilizando uma expressão de Osorio (2012, p. 76), estão ne-
cessariamente imbricados nessa rede de relações imperialistas; o desenvolvimento
nos centros se combina com o desenvolvimento nas periferias. Ao mesmo tempo,
a transferência internacional de valor segmenta as diversas regiões em “núcleos de
acumulação de valor” e “territórios que sofrem de desacumulação” (OSORIO, 2012,
p. 76), de modo que o desenvolvimento também é desigual
28
.
Osorio (2012, p. 77) divide a história dos processos de transferência de valor em
basicamente dois períodos: colonial e pós-colonial, sendo que os mecanismos eco-
nômicos de transferência de valor predominam apenas no último período. Se o im-
perialismo capitalista é denido exatamente pelo predomínio da coerção econômica
sobre a não-econômica (WOOD, 2014), as relações imperialistas nascem quando os
mecanismos de coerção econômica (transferência de valor) se estruturam organi-
camente no seio da economia mundial, o que pressupõe (i) o desnível estrutural de
produtividade entre os núcleos econômico-espaciais e (ii) a conformação das sobe-
ranias nacionais.
Arrizabalo Montoro (2014) defende a interpretação de Lenin para a gênese his-
tórica do imperialismo. Ele recorre à vitalidade dos famosos cinco traços do objeto e
sustenta que o imperialismo deve ser formulado em termos de um estágio histórico
do capitalismo, nascido no nal do século XIX, sucedendo o que ele chama de “está-
gio do capitalismo ascendente. Contudo, para defender que o terreno da acumulação
de capital no estágio imperialista é a “economia mundial como tal” (ARRIZABALO
MONTORO, 2014), ele precisa pressupor que há um processo de internacionalização
27 Utilizamos a denição de Marini, já destacada na Introdução com as palavras de Santos (1970), em
que a dependência refere-se a “[...] uma relação de subordinação entre nações formalmente indepen-
dentes, em cujo marco as relações de produção das nações subordinadas são modicadas ou recriadas
para assegurar a reprodução ampliada da dependência” (MARINI, 2005, p. 141).
28 Para a relação entre desenvolvimento combinado e desenvolvimento desigual, ver Trotsky (1977).
Não estamos apontando que o imperialismo é a única causa do desenvolvimento desigual, mas que é
um mecanismo que o retroalimenta.
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ARTIGOS
do capital que o antecede historicamente e forja, seguindo seus termos, o próprio
imperialismo. Uma divisão internacional do trabalho no suposto estágio pré-im-
perialista, seguindo Arrizabalo Montoro (2014, p. 161-162), decorrente da opera-
ção da lei do valor, impõe-se como uma “[...] relação assimétrica, cujas diferenças
tendem a se reproduzir de forma ampliada no tempo, convertendo a dependência
em um fenômeno crônico. O autor caracteriza a reprodução da assimetria “entre
as distintas nações” como desenvolvimento desigual, que se constitui como “uma
lei de desenvolvimento capitalista. Portanto, a lei do desenvolvimento desigual ex-
plica o “lugar subordinado e dependente [das economias subdesenvolvidas] na di-
visão internacional do trabalho” e funciona desde antes do que ele denomina como
estágio histórico” do imperialismo.
O autor não desenvolve, contudo, qual o mecanismo lógico que dá sustentação a essa
lei. Ademais, não percebe que a lei do valor implica uma relação assimétrica na divisão
internacional do trabalho, reproduzida ampliadamente no tempo, desde a Revolução
Industrial. Nesse quadro histórico, a dependência se converte em um fenômeno crônico
desde a Independência. A diferença qualitativa entre a situação colonial e a situação de
dependência, que Marini (2005, p. 141) sugere como “a diculdade da análise teórica,
só pode ser compreendida à luz das imensas transformações operadas pela grande
indústria que sobrepõem mecanismos econômicos de subordinação e dominação aos
fundamentos extraeconômicos da dominação colonial
29
.
Arrizabalo Montoro (2014, p. 167), embora defenda a concepção de Lenin para
a gênese histórica do imperialismo no nal do século XIX, tateia nosso argumento
quando diz que
[...] o grande desenvolvimento das forças produtivas que implicou o capitalismo ascendente [1750
a 1900], se materializa na constituição das grandes potências imperialistas, conguradas em torno
de uns capitais cada vez maiores diretamente respaldados por seus respectivos Estados.
Ora, o “grande desenvolvimento das forças produtivas” é uma decorrência históri-
ca da grande indústria. As “grandes potências imperialistas” só podem ser adjetivadas
assim enquanto “capitais cada vez maiores” estabelecem relações econômicas com
capitais menos produtivos e/ou produtores não-capitalistas de outros lugares, consti-
29 Em relação às diferenças entre a situação colonial e a situação de dependência, Marini argu-
menta que ambas são qualitativamente diferentes, contrapondo sua perspectiva à de André Gunder
Frank. Seu argumento é que “[...] ainda que se dê continuidade entre ambas, não são homogêneas.
Por isso, assegura o autor, “[...] a dificuldade da análise teórica está precisamente em captar essa
originalidade e, sobretudo, em discernir o momento em que a originalidade implica mudança de
qualidade” (MARINI, 2005, p. 141).
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tuindo necessariamente processos de transferência internacional de valor. Constitu-
indo o imperialismo. É por esse motivo que o desenvolvimento desigual se reproduz
no tempo e se rma como uma lei de desenvolvimento capitalista.
Se a “condição dependente, como diz Osorio (2004, p. 81), se dene pela “trans-
ferência de valor até o mundo central”, podemos dizer que a condição imperialista
se dene pelo inverso: pela apropriação/expropriação do valor produzido no mundo
dependente. Em síntese, capitais espalhados em diversas partes do mundo relacio-
nando-se de forma mercantil integram-se a uma relação de concorrência na qual os
mais produtivos extraem valor dos demais. Isso potencializa a acumulação de capital
nas regiões que reúnem os capitais mais produtivos, fortalecendo uma polarização
global entre duas regiões, imperialistas e dependentes. Portanto, o mercado mundi-
al (capitalista) carrega necessariamente uma relação social entre capitais na qual a
riqueza subtraída de um polo alimenta o outro. Não se trata de uma exploração entre
nações, embora possa assim aparecer quando mencionamos “exploração internacio-
nal” anteriormente, mas da exploração do capital sobre a força de trabalho em escala
mundial. A classe trabalhadora mundial produz mais-valor, que é redistribuído pelos
capitais em concorrência e, através de vários condutos, dentre eles o comércio exteri-
or, se direciona predominantemente para os centros imperialistas.
Essa relação social é o próprio imperialismo, ou, em outras palavras, a forma social
e histórica do mercado mundial na época capitalista. Interpretar o imperialismo desta
maneira, cotejando-o, assim, com o mercado mundial, nos parece suciente para
sustentar que, independentemente da conguração concreta do mercado mundial
em períodos distintos, ele só existe quando expresso em imperialismo. Este, por sua
vez, também possui uma historicidade própria, com períodos nos quais as congu-
rações concretas se distinguem das de outros períodos. E não poderia ser diferente,
posto que o objeto se apresenta diferentemente em circunstâncias distintas.
Conclusões
Tomando a lei do valor como ponto de partida de nossa exposição, chegamos ao im-
perialismo como a forma social e histórica do mercado mundial, uma vez que aquele
emerge a partir das mesmas condições que constituem este. Nosso ponto é que, uma
vez constituídos, grande indústria e mercado mundial produzem uma relação cres-
centemente assimétrica, de desenvolvimento desigual e combinado, transformando a
antiga relação colonial em uma moderna relação imperialista que engendra relações
de dependência. Isto é, a lei do valor (que pressupõe e põe o mercado mundial) deter-
mina o imperialismo, de modo que este se congura como uma legalidade própria do
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ARTIGOS
capitalismo a partir de sua transformação qualitativa com a grande indústria.
Ao tratar o imperialismo como uma categoria interna à lógica do capital, isto é,
derivada do próprio desenvolvimento do capital, sustentamos um argumento que
poderia ser lido como economicista. Anal, onde está o Estado, a política, a diplo-
macia, a guerra, a cultura, a linguagem? Nossa resposta só poderia ser metodológica:
utilizamos a “força da abstração, para seguir com uma expressão de Marx (2013),
para isolar as formas econômicas do imperialismo. Não é que o Estado ou as outras
determinações citadas anteriormente não estejam presentes. Elas estão presentes e
são necessárias para a existência real dessas formas econômicas, mas abstraímos de-
las para apreender o que de fato era nosso propósito.
A explicação sugerida neste trabalho equivale a uma reconstituição teórica do
processo histórico que produziu a dependência (e o imperialismo). É uma tentativa
de contribuir (i) com o esclarecimento de um aspecto crítico do capitalismo depen-
dente e (ii) com o debate sobre a gênese do imperialismo.
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