Reoriente • vol.3, n.1 jan/jun 2023 • DOI: 10.54833/issn2764-104X.v3i1p191-217
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Vigência e Relevância de Dialética da dependência à Luz de Marion Greenwood
Roberta Traspadini * e José Gilberto de Souza **
Resumo
O presente texto, em homenagem aos 50 anos da obra de Ruy Mauro MariniDialética da dependência,
tem como objetivo trabalhar as categorias centrais imperialismo, dependência e superexploração, a partir
de um diálogo com o painel pintado por Marion Greenwood. Dividimos o texto em três seções: 1) A
Revolução Mexicana e a centralidade do popular; 2) O moderno muralismo mexicano e a centralidade
do popular; e, 3)A Dialética da dependência, o popular superexplorado na América Latina, à luz da
imagem muralA industrialização do campo.Ao nal, respondemos às seguintes questões: o que é o
popular, este que salta das imagens murais mexicanas? Que relação há entre o popular, como categoria
analítica, e a superexploração da força de trabalho na América Latina e o Caribe?
Palavras-chave: Dialética da dependência. Popular. Muralismo.
Resumen
El presente texto, en honor al cincuentenario de Dialéctica de la dependencia, de Ruy Mauro Marini,
pretende trabajar las categorías centrales de imperialismo, dependencia y superexplotación, a partir de
un diálogo con el panel pintado por Marion Greenwood. Dividimos el texto en tres secciones: 1) La Rev-
olución Mexicana y la centralidad de lo popular; 2) El muralismo mexicano moderno y la centralidad
de lo popular; y, 3) La Dialéctica de la dependencia, lo popular superexplotado en América Latina, a la
luz de la imagen mural La industrialización del campo. Al nal, respondemos a las siguientes preguntas:
¿qué es lo popular, ese que salta de las imágenes murales mexicanas? ¿Cuál es la relación entre lo popu-
lar, como categoría analítica, y la superexplotación de la fuerza de trabajo en América Latina y el Caribe?
Palabras clave: Dialéctica de la dependencia. Popular. Muralismo.
Abstract
e present text, in honor of the 50th anniversary of Ruy Mauro Marinis e dialectics of dependency,
aims to work on the central categories of imperialism, dependency and super-exploitation, based on a
dialogue with the panel painted by Marion Greenwood. We divide the text into three sections: 1) e
Mexican Revolution and the centrality of the popular; 2) Modern Mexican muralism and the centrality
of the popular; and 3) e dialectics of dependency, the superexploited popular in Latin America, in light
of the mural image e industrialization of the countryside. In the end, we answer the following ques-
tions: what is the popular, this that leaps out of the Mexican mural images? What relationship is there
between the popular, as an analytical category, and the super-exploitation of the labor force in Latin
America and the Caribbean?
Keywords: Dialectics of dependency. Popular. Muralism.
* Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (2016). Doutorado em Estudos Lati-
no-Americanos, UNAM-México (2000-2004 – não concluído). Atualmente é professora permanente do
Mestrado em Relações Internacionais (Unila) e professora colaboradora no Programa de Pós-Gradua-
ção em Serviço Social, UFSC. Cocoordenadora do Observatório de Educação Popular e Movimentos
Sociais na América Latina (Obepal), UFES. Coordena o grupo de pesquisa Saberes em movimento: a
luta por terra e trabalho na América Latina, Unila.
** Doutor em Geograa Humana (1999), Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Livre-docência
(2008), Universidade Estadual Paulista – (FCAV-Unesp, Câmpus de Jaboticabal). Pós-doutorado na
Universidad de Salamanca (2010-2011). Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB/
Nacional) 2016/2018. Secretário da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geograa
(Anpege) 2019-2021.
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ARTIGOS (DOSSIÊ)
A história de todas as falsicações que operaram nessa con-
cepção de Volkstum é longa, complexa e faz parte da história
da luta de classes. Não a examinaremos mas devemos man-
ter essa falsicação em mente sempre que falarmos de nossa
necessidade por uma arte popular, para as amplas massas
populares, os muitos que são oprimidos por poucos, a grande
massa de verdadeiros produtores que sempre foram o objeto da
política e que agora tornam-se o seu sujeito. Devemos lembrar
as poderosas instituições que sempre impediram esse folk de
desenvolver-se completamente, obrigando-o articialmente a
permanecer preso por convenções. E lembrar que o conceito
de volkstumlich tem sido um conceito estico sem formação e
sem desenvolvimento. Não usaremos essa versão do conceito.
Vamos combatê-la. Nossa concepção de popular se refere ao
povo, que não só está inteiramente envolvido num processo de
desenvolvimento, como está na verdade dominando-o, forçan-
do-o, decidindo-o. Temos em mente um povo que está fazendo
a História, transformando o mundo e a si próprio. Temos em
mente um povo combatente e também um conceito combatente
de popularidade.
(BRECHT, O popular e o realista, 1937)
1
Introdução
O presente texto, em homenagem aos 50 anos da obra de Ruy Mauro Marini Dialética
da dependência, tem como objetivo principal trabalhar as categorias centrais trata-
das no texto (imperialismo, dependência e superexploração) a partir de um diálogo
com uma das mais importantes expressões estéticas latino-americanas e caribenhas:
o moderno muralismo mexicano, através da análise de um dos painéis pintados por
uma das estudantes de Diego Rivera, Marion Greenwood. Localizado no mercado
popular Abelardo Rodriguez, na Cidade do México, o painel foi pintado entre 1934-
1 Em Brecht, o povo não é uma abstração. É o universo da classe trabalhadora, esteja formalmente, ou
não, vinculado à trama da exploração. É essa composição da maior parte dos sujeitos, submetidos à ló-
gica da dominação burguesa e do Estado burguês. Assim, não fere a leitura do método de Marx, porque
entende que, nesse povo, já não cabe mais todo mundo, mas somente os que lutam contra as amarras da
escravidão, seja ela moderna ou contemporânea. Situamos o debate que ora faremos, sobre o popular,
nessa linha de Brecht (1967), do teatro dialético, que também é a de E. ompson e de V. Benjamin. Na
cotidianidade da luta social, exala a forma de ser, na memória, e de fazer história, do popular, esse sujeito
sempre plural e diverso.
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1935, no período de governo de Lázaro Cárdenas, no processo que cou conhecido
como Cardenismo. A obra La industrialización del campo de fato evoca dois movi-
mentos fundantes da lógica imperialista: a expansão geográca do capital como rela-
ção social, nas formas de produção não capitalistas – campesinas (LUXEMBURGO,
2009), e a exportação de capitais que altera profundamente a composição orgânica,
acelerando a produção do valor e sua realização nos marcos das relações de troca no
comércio internacional (MARINI, 2022).
Nesse texto o popular é a tônica das necessárias mediações entre o concreto e as
imagens dos murais à luz do método marxiano, colocando no centro da análise o
materialismo dialético em sua historicidade.
Entretanto, antes de correlacionar as categorias de Dialética à imagem mural, tra-
taremos de um debate ainda pouco reetido, quiçá ainda negado pela esquerda inte-
lectual e partidária latino-americana e caribenha: a centralidade do popular, esse ser
social que atua sempre na corda bamba da cooptação e formação alienada do capital
e sua fonte própria e conitiva de burla frente à ordem (MARTIN-BARBERO, 1997).
O popular é entendido como ponto de referência política e metodológica do deba-
te de classe social, historicamente transitando ao modo de produção capitalista. Isto
é, antes de conformar parte majoritária dos sujeitos latino-americanos e caribenhos
em escravos ou servos (invasão colonial) e, posteriormente, em classe trabalhadora
superexplorada, foi necessário retirar desses sujeitos suas histórias, suas memórias,
suas terras e ontologias. Tomou-se o próprio popular para, posteriormente, fragmen-
tá-lo e dominá-lo, a partir de um processo educativo que o torna passivo e sujeito às
regras sistêmicas como naturais e divinas, ao mesmo tempo em que se tenta incitá-lo
a compreender seus pares com os mais diversos estereótipos vinculados ao crime e
ao castigo
2
.
O popular é demarcado em sua centralidade na produção estética e cotidiana de
uma história que, situada a partir da invasão colonial, tornou o próprio em não pró-
prio, como mecanismo violento e sanguinário de subsunção e submissão. Tem-se o
popular como o abrigo plural e diverso, anterior à constituição das classes sociais
mercantis, imerso na transição de um mundo próprio, originário, condenado pela
invasão genocida, etnocida e memoricida.
Na dialética do popular, evidencia-se, ao longo do processo de desenvolvimento
capitalista dependente, tanto uma história falsicada, com ares de verdade (BRE-
2 Sem dúvida, a leitura da obra de Martin Barbero Dos meios às mediações foi decisiva para esse processo
de construção. Junto com o grupo Observatório de Educação Popular e Movimentos Sociais na América
Latina, estamos, ao longo desse primeiro semestre, nos dedicando ao estudo da obra de Barbero para
fortalecer nosso entendimento sobre o trabalho de memória e história que efetuamos nas prisões ao
longo de 2021 e 2022.
194
ARTIGOS (DOSSIÊ)
CHT, 1937), do capital como algo natural, como a reiteração, no tempo presente, de
uma gênese de resistência que aparece como risada, festividade, queima carnavalesca
de seus rivais. É esta dialética que a forma linear de entendimento do popular não
captura porque fragmenta suas próprias contradições e rupturas. Uma história oral
em que o sagrado e o profano se mesclam gerando complexas sínteses entre o que se
sente a partir do que se vive. Mas é esse mesmo popular que tem por estrutura onto-
lógica a capacidade de superação.
Assim, como forma de colocar em debate as reexões aqui propostas, dividimos
o texto em três seções: 1) A Revolução Mexicana e a centralidade do popular; 2) O
moderno muralismo mexicano e a centralidade do popular; e 3) A Dialética da de-
pendência, o popular superexplorado na América Latina, à luz da imagem mural A
industrialização do campo.
Ao nal das três seções, pretende-se responder às seguintes questões: o que é o
popular, este que salta das imagens murais mexicanas? Que relação há entre o po-
pular, como categoria analítica, e a superexploração da força de trabalho na América
Latina e o Caribe?
A Revolução Mexicana e a centralidade do popular
3
As primeiras décadas do século XX foram decisivas para a consolidação das teorias
do desenvolvimento na América Latina e, posteriormente, para o debate da depen-
dência ocorrido nos anos 1960. Debate este que segue sem substituto real na batalha
das ideias sobre a interpretação marxista da função que cumpre a América Latina
e o Caribe na divisão internacional do trabalho ao longo dos dois últimos séculos
regidos pelo imperialismo.
Antes mesmo da eclosão de duas grandes guerras mundiais e uma crise sem
precedentes na história do capitalismo (crise de 1929), eclodia, na trama da luta de
classes da América Latina e o Caribe, a Revolução Mexicana. Dita revolução, com
traços próprios – indígenas e camponeses –, a exemplo da singularidade da Revolu-
ção Haitiana protagonizada pelos jacobinos negros, em 1804, entrava em cena ques-
tionando a violência da tirania imperialista dos capitais e Estados hegemônicos, em
especial o estadunidense, sobre os povos do continente.
À luz dos sombreiros e das indumentárias das Adeliltas, o México se levantava
em armas contra o empobrecimento instituído pelo capital, a partir das diversas
3 Para este item, utilizamos como referências principais: Martin-Barbero (1997), Bonl Batalla (2019),
Cueva (1986) e Baez (2010).
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expressões do universo do trabalho que habitam o sentido do popular – entendi-
do o popular como a produção territorial da história das resistências, dos vencidos
(LEON-PORTILLA, 2003), dos de abaixo (AYER..., 2021), suscetíveis às opressões e
particulares explorações na dinâmica do capital; o popular, cujas cores das resistên-
cias foram, ao longo do tempo, subsumidas à condição de coisa na produção de seu
próprio drama, como produtor da riqueza mercantil, mantendo viva a necessidade
própria de existência/sobrevivência.
Esse marco de produção territorial das resistências se processa não como um
aspecto mecânico de “área geográca, ainda que se processe uma relação espacial
centro-periferia de relações econômicas de dominação. A produção territorial das
resistências é engendrada pelo conjunto de práticas socioespaciais das quais o popu-
lar referência teórica e metodologicamente novas lógicas de poder. A centralidade
epistêmica do território são as relações de poder (SOUZA, 2009), e o popular elabo-
ra novas tramas que são capazes de estabelecer constructos territoriais contra-hege-
mônicos ao capital.
Assim, o popular, partindo do método de Marx, é esse território cuja análise tem
como ponto de partida, e de chegada, a história da luta de classes. E as classes sociais
estão situadas no tempo histórico do modo de produção capitalista, desde sua gênese
à atualidade.
Nos termos de Cueva (1986), as classes sociais são conformadas por modos de
produção especícos, como o escravismo, o feudalismo, o capitalismo. Especica-
mente no capitalismo, são instituídas pela lógica da propriedade privada dos meios
de produção, associada à lei do valor, à teoria da exploração. Seguindo esse racio-
cínio, antes de sermos escravizados, os nossos grupos diversos, originários, foram
tornados uma massa sem história e sem memória – o avesso do que havia na materia-
lidade concreta de suas vidas, em que parte do continente (Abya Yala) inclusive pos-
suía histórias, relações, estrutura de poder bem demarcadas a partir de suas próprias
estraticações sociais.
Assim, antes da imposição da escravidão, foi necessária a destruição dos modos
de vida originários, uma parte modos comunais, outra parte modos de produção
com estraticação social mediada por guerras territoriais (CARDOSO, 1981). Isto
é, o popular presente na história determina um processo de apropriação do espaço
e impõe novas determinações territoriais como estado e movimento destas práticas
na luta contra-hegemônica ao capital – de forma que se entende a necessidade de
reexão em um duplo sentido: da análise do Estado como situação e/ou determi-
nação histórica em relação de classe quando analisamos os indígenas e as lógicas de
espoliação; e do aprofundamento sobre a própria luta de classes quando analisamos
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ARTIGOS (DOSSIÊ)
diretamente a dimensão proletária e as formas de superexploração da força de tra-
balho. Desse modo, entre espoliação e proletarização é que emerge o movimento,
como direção de enfretamento destas determinações, na formulação do popular.
Então, o universo político, econômico, cultural e social das sociedades pré-co-
lombianas foi substituído pela história da invasão colonial, na qual espoliação e
superexploração são expressões concretas na determinação de suas (r)existências.
Homens e mulheres com uma produção ontológica variada e abundante de vida
foram transformados em “povos bárbaros”. É desse universo de massacre coletivo
real e formal, no qual transita a história e o poder ociais, que o popular se origina
na América Latina e o Caribe.
Tem-se, portanto, o popular como campo de abrangência teórica e metodológica
dos sentidos do trabalho – servil, escravo, livre assalariado – e da cultura, presentes
na história
4
. O popular se consolida como condição metodológica, epistêmica, políti-
ca e cultural das resistências, em meio à existência subjugada pela ordem do capital,
e seu par, o Estado-nação burguês (MARTIN-BARBERO, 1997). Se a classe social
é entendida como a relação imediata direta entre a produção/apropriação social da
riqueza mercantil, o popular é um território, um habitat a partir do qual essa classe
diversa, complexa e imersa nas tensões/contradições da luta, cotidianamente respira
tanto os pós-contaminados do capital como as sementes históricas da resistência,
ambos entranhados e estranhados um no outro (como espaços). O popular é a síntese
dialética entre espaço e território, uma vez que ele é mesmo uma forma de apropria-
ção do espaço e, simultaneamente, de produção territorial quando instaura nessa
mesma espacialidade uma outra lógica de poder.
É dessa indissociável relação entre a classe (território) e seu universo diverso (es-
paço), que o popular (economia, sociabilidade, cultura), se põe a pensar a experiên-
cia e ao mesmo tempo constituir o “modo de alcançar o que irrompe na história com
as massas e a técnica, nos termos de Walter Benjamin (1987, p. 306). Dessa forma,
o popular transborda o sentido de classe, que o integra, por ser uma dimensão social
mais ampla e territorializada entre a diversidade dos oprimidos e superexplorados,
no que diz respeito à América Latina e o Caribe. E, ao mesmo tempo, torna o univer-
so do trabalho alienado à trama mesma de sua existência.
4 Sobre os povos originários do nosso continente, estudar sua formação social, política, econômica e
cultural exige, epistemologicamente, afastar-nos da matriz racional instituída pelo Ocidente para en-
tender o passado, cujas raízes são outras que não as desse sentido de razão. No entanto, os povos maias,
astecas, incas possuíam, cada um em sua formação própria, estruturas concretas de poder, de riqueza
e de hierarquização entre os grupos. Mas é possível nominar da mesma forma processos tão distintos e
tão pouco estudados por nós? Pensamos ser mais complexo do que nos permite fazer uma mera análise
comparativa.
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E isso se dá a tal ponto que, mesmo quando a diversidade camponesa, indígena e
quilombola não integra o sentido de classe operária do setor produtivo industrial, se
relaciona com esta, desde e como popular. Ainda que essa diversidade não se cons-
titua como classe, tem sua existência demarcada nos conitos de uma relação desi-
gual. Os conitos sociais são como a epiderme da luta de classes que produz todas
as formas destrutivas desses sujeitos sociais. Esse processo torna o território popular
decisivo em seu caráter de emancipação, dado que suas profundas determinações se
manifestam como constitutivas de uma concepção ontológica da realidade social, na
qual os sujeitos sociais produzem suas condições objetivas e subjetivas de existência
e, por isso, constituem uma unidade entre método, teoria e concretude histórica (o
real concreto). A diversidade e a pluralidade enredadas na trama do popular como
resistência, existência para além do capital, repletas, não sem contradições, de me-
mórias, histórias, vidas para além das mutilações vivenciadas, guardam o sentido de
unidade daqueles que “[...] sofrem de uma só vez todas as calamidades e todos os
horrores de duas épocas: a das relações de dominação da economia natural tradicio-
nal e a da exploração capitalista mais moderna e renada(LUXEMBURGO, 2017,
p. 141).
O mesmo vale para o que se entende como periferias rurais e urbanas, termos
instituídos pela hegemonia da indústria cultural para reicar a desigualdade como
normal e estereotipada. Tanto o campesinato como os sujeitos vinculados à esfera
marginal de reprodução social direta do capital, compondo, ou não, o exército in-
dustrial de reservas, conformam a dimensão estética, política, econômica e cultural
do popular. O popular é, assim, o ponto de referência da trama da desigualdade e
cooptação, produzida pelo capital contra aqueles e aquelas que vivem não só da ven-
da de sua força de trabalho, mas de uma existência à margem do âmbito formal, do
assalariamento com direitos.
Diferentemente da dimensão política do povo/população, como pontuara Marx
(1985), orquestrada pela lógica da organização padronizadora do Estado-nação à
serviço da burguesia, o popular é o nexo presente na história, sempre no plural, das
resistências em todo o mundo. Na produção, via indústria cultural, da ideia de povo,
esses sujeitos políticos presentes no popular e ocupantes do universo diverso da ex-
ploração de classe, apenas eram receptores da projeção de Ordem e Progresso mer-
cantis. Mas, se entendidos como sujeitos políticos orgânicos na relação-reação-re-
vanche histórica, esses populares – ribeirinhos, camponeses, indígenas, quilombolas
e trabalhadores em geral – enredavam outras histórias ocultas intencionalmente da
história ocial e dimensionam tanto o conito como o entendimento da dialética a
partir da experiência de sobrevivência à lógica da propriedade privada da vida.
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E, se no conceito de povo/população cabem todos os sujeitos de uma nação, como
massa amorfa, vinculada a uma ideia de cidadania refém de uma sociedade política
punitiva, no popular torna-se evidente quem são os sujeitos que, não tendo proprie-
dades e tendo seus corpos como único meio de sobrevivência na sociedade mer-
cantil, se tornarão a peça-chave da produção de riqueza mercantil, seja na forma de
operários fabris, de camponeses, de trabalhadores informais e/ou não pagos. Estes e
estas conformam os rostos do popular. A classe trabalhadora, portanto, é conforma-
da por diferentes grupos sociais que precisam sobreviver dentro de uma lógica que
insiste em restringi-los/as e igualá-los/as.
Nesse sentido, resulta assertiva a premissa do método de Marx de que o real con-
creto nada tem de povo como existência comum e igualitária na sociedade. O real
concreto apresenta-se, de imediato, como a existência conitiva e contraditória dos
grupos e sujeitos sociais em condições materiais de existência muito diferentes na so-
ciedade mercantil, seja na propriedade, no trabalho, na produção material e simbó-
lica de vida. Assim, deve-se sempre partir do real concreto, suas contradições, como
forma de avançar para uma análise mais profunda, que não aparece imediatamente
no plano do real vivido: o concreto reetido.
Olhar a história a partir do popular que nos toca viver no tempo presente, signica
dar vasão à intenção de Benjamin sobre “pasar por la historia el cepillo a contrapelo
– frase que o historiador Adolpho Gilly utiliza para expressar, a partir do Sul Global,
as vozes e os ecos das resistências, em História a contrapelo. Una constelación (2006).
Gilly argumenta que há muitas razões para escrever, escovar a história à contra-
pelo, das quais destaca quatro, a saber: a) para fazer justiça à vida dos milhares de
sujeitos que foram relegados a ninguéns da história; b) para entender a correlação
de forças, a partir das estratégias hegemônicas das classes dominantes; c) para recu-
perar as condições de existência do passado que interpelam o presente desde outras
possibilidades que não somente as que se apresentam a olho nu, no imediato da vida
cotidiana; d) para uma nova práxis revolucionária que, com os pés no presente, rei-
vindique a história dos vencidos como protagonistas do devir.
Ao chegarmos no México da Revolução de 1910-1923, vericamos não somente
que o popular, esse sujeito político secundarizado pela história ocial (GILLY, 2006),
é prioritariamente camponês e indígena (e posteriormente afrodescendente), mas
também que esses sujeitos carregavam, após cinco séculos de resistência, histórias e
memórias para além da forma hegemônica de produção de uma existência. A eles se
somaram outros sujeitos com consciência de classe sobre a tarefa histórica própria de
seu tempo, ou seja, intelectuais orgânicos, operários fabris, professoras da educação
básica e superior, artistas e muralistas que se vincularam ao campo político e estético
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das resistências.
A dialética do popular/classe é constituída por esse complexo movimento de ser
tecido pela lógica hegemônica a partir de seus mecanismos de dominação, ao mes-
mo tempo em que – de forma silenciosa ou em gritos – revela uma herança que
transborda a contrapelo aquela lógica. Assim, na dialética do concreto, no mundo
efervescente da pseudoconcreção (KOSIK, 1969), enquanto grupos sujeitados, es-
tes homens e mulheres sofriam – via poder do Estado burguês e do capital – com a
falta de terra, de trabalho digno, dos direitos constitucionais próprios, cópia formal
dos lemas da Revolução Francesa, como um ideário comum reprodutivo no mundo
(liberdade, igualdade, fraternidade). Sofriam por serem submetidos ao universo do
direito, substituto concreto da vida em comunidade. Mas, na existência cotidiana do
popular, mulheres e homens protagonizavam, via revolução, a rebeldia, a revolta e a
solidária combinação de combater as raízes violentas do capital, enquanto produziam
ou deixavam uir sua própria história.
Vale relembrar ainda que, ao longo de cinco séculos (XVI a XX), a produção eco-
nômica, social, política e cultural diversa e robusta do nosso continente, somado ao
processo de invasão também sofrido pelas diversidades étnicas da África, foi exter-
minada, saqueada, pilhada, retida e destruída pelos invasores produtores de um ideá-
rio de civilização. Transformaram a diversidade de hierarquias e horizontalidades
presentes nas culturas do continente em sujeitos escravizados sem histórias e, não
menos importante, violentados na memória.
Mas é a memória presente na oralidade dos cantos, dos lamentos, das tranças e
das fugas que registra a presença na história de outras histórias. Sujeitos políticos
diversos e suas culturas foram transformados em povos subjugados. Desterrados de
suas construções cotidianas próprias, foram condenados a produzir a história ocial,
cujo drama os condicionava à não existência protagonista da história.
O nascimento do popular na América Latina e o Caribe irrompe da destruição
cultural e do memoricídio, inerente ao colonialismo (BAEZ, 2010). É anterior à con-
dição de classe social vinculada à propriedade privada, mas terá nela uma de suas
sustentações históricas após a consolidação do modo de produção escravista colonial
(GORENDER, 2016). Logo, após o processo de invasão, o popular tem raízes nas
escravidões indígenas e negras e na subjugação campesina, e transita do plural e di-
verso para o singular da espoliação, violação, expropriação e exploração.
A história do popular na América Latina e o Caribe, se combinada com a mo-
dernidade, necessita ser narrada na transição primeira das comunidades originárias
massacradas pelas guerras sanguinárias coloniais. Neste continente, as raízes orais
demarcam um passado muito presente de uma riqueza própria, transmutada à po-
200
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breza mercantil e que, no entanto, insiste em expressar suas raízes originárias ao lon-
go dos séculos, até o presente.
O moderno muralismo mexicano e a centralidade do popular
Entre a dimensão abstrata/padronizada do povo/população e a luta concreta do po-
pular (sempre no plural e diverso), os/as camponeses/as-indígenas do México, asso-
ciados/as a diversos outros grupos políticos, produziram uma nova história no con-
tinente ao longo dos 15 anos iniciais do século XX.
É essa dimensão popular, política e estética da revolução (1910-1923) que deve-
mos entender como um bom esboço da vigência da Dialética da dependência dos
anos 1960. A partir da centralidade do popular, a Revolução Mexicana produziu a
complexa síntese entre a educação popular/cultura popular e a produção estética e
cientíca de outros horizontes possíveis de captação da história em movimento, a
contrapelo. Uma unidade de pores teleológicos secundários que alteraram em exten-
são e profundidade as práticas e as formas sociais. Engendram-se complexas formas
de viver que vão colocar em movimento teleologia e causalidade, instituindo um ser
popular, que possibilita essa nova existência e suas mediações complexas, originadas
no trabalho (LUKÁCS, 2013).
O muralismo foi uma dessas mediações/expressões, e posteriormente o teatro do
oprimido, dialético, e negro, a literatura popular e, não menos importante, a fotogra-
a com o olhar sobre a beleza conituosa dos “ninguéns.
Entre os anos 1920 e 1970, a estética muralista fundia-se com a fotograa, com
os jornais populares e com outras expressões culturais, e produzia uma síntese desse
complexo processo enraizado na trama da revolão popular, frente ao caráter na-
cional ainda presente no continente, e as limitações resultantes disso. O muralismo
abriu uma página da práxis estética latino-americana e caribenha, dando centralida-
de ao popular e suas histórias ao longo do tempo (HIJAR, 2020; ESQUIVEL, 2004).
Para Hijar (2020), somente tem sentido recuperar a história da estética latino-
-americana e caribenha se inserida na compreensão de como funciona a sociedade
capitalista. Logo, essa história deve ser recuperada na forma que se constitui a extra-
ção do valor, o sobretrabalho, tendo como referência a totalidade caótica e violenta
imposta por uma classe dominante (pequena proporção da população) ao campo
majoritário de vida cotidiana da outra (universo do popular, a classe trabalhadora).
Os pores teleológicos secundários, como o muralismo, são marcadamente mediados
pelo trabalho, que impele à práxis social. Lukács (1978, p. 5) considera, portanto, que
o ser passa a dar “[...] respostas precisamente na medida em que – paralelamente ao
Reoriente • vol.3, n.1 jan/jun 2023 • DOI: 10.54833/issn2764-104X.v3i1p191-217
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desenvolvimento social e em proporção crescente – ele generaliza, transformando
em perguntas seus próprios carecimentos e suas possibilidades de satisfazê-los.
Nas histórias contadas nos muros, habita um passado e um presente repletos de
outras dimensões, para além da lógica do capital – vestimentas, base produtiva do
campo e alimentar, história oral com cânticos e poemas, retratada após densos pro-
cessos de investigação sobre os povos pré-colombianos presentes em luta ao longo
dos séculos de invasão e colonização.
Uma vez que estamos dando centralidade à “história contada a contrapelo, ree-
timos sobre um dos murais mais importantes produzidos por mulheres neste perío-
do em que o moderno muralismo mexicano passava com primazia pelas trajetórias
de Diego Rivera, Davi Alfaro Siqueiros e Clemente Orozco (TRASPADINI, 2019).
As irmãs estadunidenses Marion e Grace Greenwood chegaram ao México nos anos
1930, período em que a Escola Mexicana de Artes estava consolidada e já era inter-
nacionalmente reconhecida pela centralidade que dava à dimensão estética e política
dos murais. Ainda no bojo do nacional-desenvolvimentismo, a obra das irmãs no
mercado Aberlado Rodriguez, antigo colégio de San Gregório, está situada juntam-
ente com mais seis pinturas de outras grandes referências muralistas desse período
5
.
Vale lembrar que uma das características mais fortes do México profundo foram
os mercados para trocas abundantes, como, por exemplo, Tlatelolco no período da
invasão. O Vale do México abrigava um encontro de muitas culturas a partir da troca
de bens diversos, oriundos de diferentes partes da região, situação que gerou espanto,
perplexidade e surpresa tanto aos Jesuítas, como Bernard Sahagun, como nos rela-
tos de Cortéz à Coroa espanhola. Em ambos, se situava a abundância e organização
das trocas presenciadas. Bonl Batalla explicita essa condição de trocas e encontros
quando diz (BONFIL BATALLA, 2019, p. 91):
As trocas acontecem não somente nos mercados semanais. Em vastas regiões do México fun-
ciona um sistema de feiras anuais frequentadas por habitantes de zonas muito distantes e de
produção diversa. Organiza-se, assim, o movimento de produtos costeiros e de terra quente
em direção ao e a partir do altiplano. São, em alguns casos, feiras multitudinárias que, no
transcurso de uma semana, recebem muitos visitantes, comerciantes, intermediários e produ-
tores diretos. O motivo central é religioso, por exemplo, uma festa de uma imagem venerada,
de fama regional ou nacional. Mas ao acudirem à feira, cumprem simultaneamente muitas
funções. Os visitantes pagam uma benção ou pedem um favor divino. Aproveitam das danças,
5 São eles: 1) Pablo O’Higgins, com a obra La lucha de los obreros; 2) Antonio Pujol, obra: Los alimentos
y problemas del obrero; 3) Miguel Tzab Trejo, obra: Historia de los mayas y los aztecas; 4) Ángel Bracho,
obra: La inuencia de las víctimas; 5) Isamu Noguchi, obra: La Historia de México; e 6) Raúl Gamboa,
obra: Los mercados (AGUIRRE, 2018).
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ARTIGOS (DOSSIÊ)
da música e dos jogos pirotécnicos. Veem conhecidos que encontram todos os anos. Trocam
notícias e brindam com eles. Vão ao médico. Vendem e compram, vivem, enm, um momento
de festa em meio às tarefas do ano. Muitas feiras têm sido celebradas durante séculos nos mes-
mos lugares. Os visitantes vindos de povoados distantes referendam, com sua presença anual
e suas cerimônias, uma relação particular com outros povoados, provavelmente, oriunda de
tempos anteriores à invasão europeia.
Assim, o popular que resistiu ao longo dos séculos de espoliação, seguiu utilizan-
do as ruas para sua sobrevivência e existência. Logo, uma das políticas nacionais de-
senvolvimentistas de “limpeza das ruas” foi a consolidação dos mercados populares,
a tomada do popular. O mercado Abelardo Rodriguez (então presidente do México),
em 1934, unia as histórias do m do processo revolucionário e da retomada das rea-
ções de reincorporação do país às lógicas mercantis sob a hegemonia estadunidense.
Entre as práxis estéticas dos discípulos de Rivera, presentes nos muros, e o popu-
lar organizado pelo Estado dentro de um controle arquitetônico, habitam múltiplas
mediações. Na mediação entre o externo e o interno aos muros, aparecia a tensão
dialética e conitiva em duas dimensões: o povo-Estado-nação; e o popular presente
na história da Liga dos Escritores e Artistas Revolucionários vinculados à internacio-
nal comunista, da qual os/as muralistas faziam parte. No entanto, das tensões, vigora
a vitória do Estado-nação, sobre o popular, o que signica reiterar a vitória do valor
de troca sobre o valor de uso (LINERA, 2019; ECHEVERRIA, 1998).
Marion Greenwood pintou cinco peças no Mercado Abelardo entre 1934-1935: 1)
Los alimentos y su distribución sobre el canal de la Viga (pintado em uma peça); 2) La
industrialización del campo (pintado em quatro peças) (AGUIRRE, 2018)
6
. Para uma
análise histórica, teórica e política da imagem, tendo como referência a centralidade
do popular, utilizaremos uma das peças de La industrialización del campo:
6 Cabe destacar que, além do debate da industrialização do campo, os outros três painéis que compõem
essa obra referem-se: 1) à questão da mineração, que era controlada por um pequeno número de gran-
des capitais estadunidenses: American Smelting and Rening Company, American Smelting Securitirs
Company, Green Cananea Copper Company, Green Gold and Silver Company e Travers Durkes Co-
ppers; 2) à exaustão e aos acidentes de trabalho nas minas; 3) à mediação entre o trabalho na mina e a
organização da luta dos próprios trabalhadores e suas famílias; 4) à necessária luta de classes, aludida a
partir do painel que dá centralidade à frase de Marx e Engels presente no Manifesto do Partido Comu-
nista: “trabalhadores do mundo uni-vos!”, que está sendo xada por dois trabalhadores, um operário e
um camponês.