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RESENHAS
2050 China: Becoming a Great Modern Socialist Country
U, Angang; Shenglong Liu; Xiao Tang; Yilong Yan; et al. 2050 China: Becoming a Great
Modern Socialist Country. Singapore: Springer Singapore, 2021. 105 p.
Pedro Martinez
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*
Nos estudos de ciência política e relações internacionais, a consolidação do poder
chinês é uma das máximas que denem este século. Não é possível analisar o grande
jogo das potências globais sem contextualizar a ascensão de um país de características
tão únicas como o gigante asiático. Hu et al., no contexto do 19° Congresso Nacional
do Partido Comunista chinês, aprofundam a visão ocial do maior partido comunista
do mundo sobre o mundo e, principalmente, sobre si.
É um momento interessante de se analisar o caminhar do projeto de longo prazo
do povo chinês. O primeiro dos dois grandes centenários acaba de ser concluído, e
podemos olhar para os objetivos traçados, além de pôr em perspectiva as metas da
segunda grande data. O nascimento do Partido Comunista chinês, em 1921, e da
República Popular, em 1949, são pontos centrais da discussão da consolidação do
projeto de poder socialista.
Está claro que, nos centros de discussão de poder, a opção do povo chinês
por uma alternativa ao sistema capitalista majoritário é uma opção consciente e,
em simultâneo, pragmática, criando o chamado “socialismo com características
chinesas. Este possui planejamento extenso para a extinção da pobreza e eliminação
das desigualdades internas entre regiões e entre campo e cidade, mas, em simultâneo,
se orgulha ao se abrir ao mundo e permite o enriquecimento pessoal e a iniciativa
econômica.
Como consequência, surge uma grande quantidade de análises ocidentais que
argumentam que a origem da pujança econômica e social que impressiona o mundo
seria obra de uma economia capitalista de mercado que se disfarça ideologicamente.
Em 2050 China: Becoming a Great Modern Socialist Country, encontramos explicações
sobre como a modernização e rejuvenescimento da China se dá em princípios
socialistas e dentro de uma análise pragmática da realidade.
Na expectativa de desenvolvimento em um contexto de mudanças rápidas e
consequentes para a humanidade, um conceito central, espalhado ao longo do texto,
* Mestre em Economia Política Internacional e formado em Relações Internacionais pela Universidade
do Rio de Janeiro. Correio eletrônico: pedrojamartinez@hotmail.com. Orcid https://orcid.org/0000-
0002-3350-2942
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é o de desenvolvimento orientado para o ser humano. A nação que mais cresceu
nas últimas décadas procura articular crescimento econômico e melhoria objetiva da
vida da sua população, para que andem de mãos dadas. Seu desenvolvimento tardio
ainda possui papel importante na realidade atual do bem-estar do povo chinês, que
ainda tem o PIB per capita abaixo da média da economia mundial.
2050 China adota, em sua análise sobre a posição atual do país no sistema
internacional, o mito de uma nação que possui uma continuidade excepcional e
uma cultura superior como características que lhe possibilitariam alcançar o topo
em poder e inuência no concerto de nações. Nada muito diferente de inúmeras
narrativas criadas em torno do nacionalismo. Para reverenciar o projeto socialista
chinês e sua contribuição ao planeta e aos seres humanos, não é necessário justicar
com narrativas inadas.
A liderança do Partido Comunista chinês defendendo e conquistando um
desenvolvimento centrado no ser humano, ao invés de indicadores de crescimento
econômico, e ao atuar para a eliminação da pobreza e o desenvolvimento avançado
dos seus sistemas sociais demonstra, na prática, que possui um projeto de poder que
resulta em conquistas concretas e consegue alcançar índices de prosperidade humana
comparativamente mais expressivos que o resto do primeiro mundo.
Essa ambição de não só alcançar, mas ultrapassar países ditos desenvolvidos, tem
consequências que talvez ainda não sejamos completamente capazes de compreender.
2050 China demonstra o não contentamento do partido com nada que não seja a
demonstração de superioridade do seu sistema de desenvolvimento. Sistema esse
que, apesar de reivindicar uma maneira própria de socialismo, nomeia entre seus
objetivos o alcançar de uma sociedade “pantissocrática, uma espécie de governo de
todos, mas que foge de maneira consciente de conceitos ligados à esquerda histórica.
Da mesma forma, se deixa de utilizar para ns ociais, como conceito, a expressão
“luta de classes, de maneira a “modernizar” o discurso do país.
A imagem completa da realidade chinesa não está somente nos seus sucessos,
mas também nas suas diculdades; o caminho para a sua modernização tardia teve
capacidade de aprender com países desenvolvidos, seus erros e acertos. Por m,
chega-se a um pensamento estratégico com detalhamento especíco, porém baseado
em valores essenciais ao partido e ao país para introduzir a China no concerto das
nações: uma nação grande demais para estar isolada. A partir do 13° Congresso, o
partido buscou uma posição prática de abertura política e econômica ao mundo.
Esse pensamento estratégico de médio prazo toma forma com diversos planos,
como as quatro modernizações (1964 – 2000) e a estratégia de três passos de um
país socialista moderno (1980 – 2050). Atualmente, China atua nas duas metas
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centenárias (2020 – 2050), em simultâneo aderindo à estratégia de duas fases para
um país socialista moderno em uma nova era (2020 – 2050). Todos esses planos
são públicos e andam em paralelo, para resultar em uma transformação ainda mais
profunda da sociedade e do povo chinês. É necessário entender a grande contradição
que a China encontra em seu futuro, entre o desenvolvimento desequilibrado
e a necessidade da melhoria das condições de vida de quase um bilhão e meio de
pessoas. O entendimento é que se chegou ao m de uma primeira fase do socialismo
à maneira chinesa. As conquistas que permitiram uma sociedade rural e pobre ser
alavancada a status de potência global agora serão as bases de uma modernização com
metas ambiciosas para seu primeiro centenário: a consolidação das bases econômicas
de desenvolvimento para a melhoria das condições de vida da população, criando
a maior classe média do mundo, e projetar ainda mais sua inuência, liderando o
planeta na transição energética que retirará o planeta da crise ambiental causada pelo
aquecimento a níveis globais, ao mesmo tempo abrindo-se culturalmente e passando
pela transição para a economia que exporta serviços ao invés de bens. Para isso,
investe-se de maneira massiva em uma política cultural e educacional de massa.
As mensagens expostas, de uma maneira ou de outra, mostram uma ambição que
possui motivos para ser. O teor ocialista do texto não necessariamente prejudica sua
mensagem; é essencialmente o que se propõe: expor a visão ocial desse momento
transicional e crucial. É incompleto, porém, dentro de uma perspectiva global da
China, com seus desaos existenciais para este século. Não é mencionada em nenhum
momento sua fronteira marítima; outra questão existencial, a dívida demográca que
será paga na próxima geração, é citada de maneira breve. São apenas duas questões,
entre outras, que representam aspectos sob pouco controle do politburo, sendo
justamente essas questões que podem ameaçar a capacidade chinesa de poder sobre
seu povo e território. A diminuição considerável de população economicamente
ativa na próxima geração afetará signicativamente o sistema de segurança social
e o potencial de crescimento econômico. Essa não é uma exclusividade do país
em questão, mas qualquer análise de desenvolvimento futura necessita incluir essa
temática.
Além disso, ao contrário do seu competidor direto na liderança do sistema
internacional, a China precisa contínua e assertivamente demarcar seu interesse
no controle de sua fronteira marítima, a linha de nove raias, sob ameaça de perder
controle de rotas indispensáveis para sua economia. Da mesma forma, a existência
do governo da República da China (ROC), corpo governante de facto da ilha de
Formosa, como ponto de conito remanescente da guerra civil é aspecto central
das perspectivas de projeção global da República Popular da China (RPC) e dos
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seus representantes internacionalmente conhecidos. A proximidade e a relevância
geoestratégica de Taiwan com a parte principal do território da China, somada à
importância tecnológica e econômica de alto valor agregado de sua indústria de
semicondutores fazem essa tensão ter alta capacidade de escalada. O governo de Xi
Jinping, ao mesmo tempo em que impõe internacionalmente a posição de detentor
legítimo da ilha e seu povo, atua de maneira paciente e cautelosa, mantendo uma
perspectiva de longuíssimo prazo que vem dando resultados, como a recuperação
dos territórios de Macau e Hong Kong. Não há como analisar a questão de Taiwan
em termos de meses ou anos. A paciência de um governo que acredita estar atuando
como legítimo herdeiro e representante de um povo de cinco mil anos que busca
reaver terra que acredita ser sua de direito é longa e precisaria de capítulo à parte para
entendê-la, mas não é ousadia argumentar que as próximas décadas serão de eventos
de altíssima relevância nesse front, dada a projeção de liderança econômica e militar
inconteste do governo da China.
A ausência de temas tão importantes quanto sensíveis representa, portanto, um
buraco a ser preenchido no discurso do Estado. Essa potência socialista já provou
ao mundo que possui virtudes em sua governança. China 2050 é uma produção que
busca demonstrar de maneira objetiva exatamente isso. O futuro chinês, porém,
possui desaos tão pujantes quanto suas conquistas. A China de Xi Jinping sabe
disso, mas age com cautela em um século em que já é a protagonista do cenário
internacional. Protagonismo esse que traz um discurso de abertura, de valorização
do desenvolvimento humano, da responsabilidade ambiental e da redução das
desigualdades internas e externas. Valores que, se seguidos nas próximas décadas,
põem a China em uma posição de liderança baseada em qualidades muito diferentes
das de seus antecessores.