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JABBOUR, Elias; GABRIELE, Alberto. China: o socialismo do século XXI. São
Paulo: Boitempo, 2021. 314 p.p
Javier Vadell *
Dentre os analistas e intelectuais das Ciências Sociais, observa-se, em termos amplos,
duas maneiras de entender a experiência de desenvolvimento da República Popular
da China (RPC) e sua ascensão econômica. A primeira, a mais comum, é apresentar
a experiência de desenvolvimento chinesa como mais um ensaio de catch up de um
país capitalista com forte presença do governo/Estado na gestão dos assuntos públi-
cos/privados. A bibliograa sobre “tipos de capitalismo” é frequentemente utilizada,
além de expressões alheias ao pensamento liberal ou ortodoxo, como “capitalismo de
Estado”. Por outro lado, observa-se um segundo grupo de intelectuais minoritários
que enxergam a experiência do desenvolvimento da RPC como um acontecimento
sem precedentes, como uma experiência social inédita.
Nesse segundo caminho heurístico, encontra-se a obra disruptiva de Elias Jabbour
e Alberto Gabriele, China: o socialismo do século XXI, que se poderia sintetizar com
três expressões: resgate, criatividade e inovação. O resgate observa-se, em primei-
ro lugar, nos fundamentos dialéticos da metodologia marxista, do conceito chave
de formação econômico-social (FES) e sua revitalização para entender as mudanças
contemporâneas nas experiências socialistas; em segundo lugar, no conceito de “nova
economia de projetamento, que tem sua origem com Ignácio Rangel. A criatividade
está no conjunto da obra, que articula teoria e empiria de maneira brilhante. E a ino-
vação reete-se no resultado acabado como material indispensável para entender a
China, o que catapulta a obra como um “clássicoavant la lettre.
Os autores se propuseram entender a China moderna a partir das ferramentas on-
tológicas, teóricas e metodológicas do marxismo. Em outros termos: trata-se de um
esforço intelectual ímpar, cujo objetivo é compreender um fenômeno social – o nas-
cedouro de um modo de produção embrionário na China –, para logo ressignicar
as totalidades entendidas a partir de dois conceitos: FES e meta-modo de produção
(MMP). Logo depois, os autores esmiuçam as particularidades (unidades de contrá-
rios), produto de uma pesquisa empírica louvável.
* Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, professor adjunto pela Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, professor visitante na Business School Jianxing University, editor de Estudos Internacio-
nais, Revista de Relações Internacionais da PUC Minas.
1 A expressão utilizada por Lenin, “capitalismo de Estado, em 1918, sugere um passo à frente de um
“Estado capitalista” no caminho ao socialismo. Não pretendemos abrir esse debate neste ensaio, mas
destacar que foi no debate dos revolucionários socialistas onde se debateu e cunhou essa expressão.
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RESENHA
Não obstante, a interpretação da experiência chinesa de Jabbour e Gabriele como
um “socialismo real”, em processo embrionário, denominado “nova economia de pro-
jetamento” (NEP), vai muito além de uma visão binária dos fatos sociais. A obra não só
desaa o “senso comum” a respeito dos entendimentos sobre a China, como também os
padrões e estruturas cognitivas para compreender o signicado de capitalismo, socia-
lismo e desenvolvimento, assim como o questionamento cienticamente embasado do
mito de homo economicus, muito caro ao pensamento econômico ortodoxo.
Desde o nosso ponto de vista, o livro apresenta uma grande inovação interpreta-
tiva e conceitual de mérito teórico ímpar: trata-se, como mencionamos, do resgate
do conceito “formação econômico-social” (FE como a totalidade social mais acabada
para compreender a experiência chinesa e suas contradições. O resgate desse concei-
to se articula com uma metodologia genuinamente dialética (hegeliana/marxista),
que parecia ter cado nos cantos mais ocultos do pensamento crítico, rendido ao
canto das sereias do positivismo.
Trata-se de um esforço singular para interpretar a emergência “do novo, uma
nova FES, no âmbito da estrutura global dominada pelo modo capitalista de produ-
ção e a lei do valor. Uma outra grande inovação da obra apresenta-se no entendimen-
to do sistema capitalista global como um “meta-modo de produção” (MMP), cate-
goria inédita que permite entender a articulação entre o conceito abstrato de MP e
as FES como concretude multimodal nas mudanças na história. O MMP é, portanto,
uma “meta-estrutura” que “[...] opera num nível de generalidade e abstração superior
ao MP” (JABBOUR; GABRIELE, 2021, p. 116) no espaço (planeta) e no tempo que se
sobrepõem à FES existentes.
Nesse sentido, o caso chinês seria mais uma experiência embrionária de socialis-
mo – lembrando que a União Soviética (URSS) deixou o legado como uma primeira
experiência – que, desde as entranhas do meta-modo de produção (MMP) capitalis-
ta, estaria se apresentando ao mundo. Nesse sentido, o desao do livro é oferecer aos
leitores, com grande rigor teórico, as contradições inerentes a esse incipiente proces-
so, com um profundo conhecimento empírico da experiência chinesa. O livro traz
ainda um belo presente no apêndice sobre os casos do Vietnã e Laos como mais dois
exemplos de “formações sociais de novo tipo.
A obra está organizada de maneira didática, embora aborde conceitos profundos
das Ciências Sociais. A estrutura do livro consta de duas partes divididas em oito
capítulos cada uma, além de uma introdução e as conclusões. A primeira parte é
dedicada aos aspectos teóricos conceituais, e a segunda, a explorar e esmiuçar as ca-
racterísticas da experiência de um novo tipo de FES na China. Nessa primeira parte,
os autores aprofundam nos conceitos de modo de produção, FES, trabalho e valor, a
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chegar à elaboração original do conceito de MMP como uma estrutura global. Todas
essas ferramentas teóricas, somadas ao rigor cientíco empregado pelos autores, têm
como nalidade entender os modos de produção capitalista e socialista realmente
existentes, na sua concretude e historicidade.
A segunda parte consta de mais oito catulos e leva o leitor num percurso históri-
co da China moderna na tarefa de desvendar os fundamentos da particular estratégia
de desenvolvimento da nação. Essa parte da obra representa a pesquisa de anos de
ambos os autores. Evidencia-se, assim, uma riqueza empírica e analítica muito deta-
lhada, ideal para aqueles que desejam conhecer as características socioeconômicas
da China contemporânea e entender melhor as diculdades pelas quais atravessou
esse “país-civilização” no seu percurso para a construção do socialismo. O ponto de
inexão é o processo de abertura liderado por Deng Xiaoping em 1978.
O objetivo geral dessa segunda parte é a tarefa hercúlea de ressignicar o so-
cialismo como um projeto desenvolvimentista a partir da experiência da RPC. Para
essa tarefa, aplicam-se as ferramentas conceituais elaboradas na primeira parte, ope-
racionalizando os conceitos previamente elaborados. O capítulo 10 apresenta uma
análise macroeconômica da China e grácos interessantes para entender a dinâmica
das reformas na China pós 1978. Assim, analisa-se a estratégia chinesa para compor
seu “macrosetor produtivo” com políticas econômicas especícas, como: manuten-
ção de uma taxa de câmbio desvalorizada, taxas de juros baixas, desestimulando os
inuxos de capitais, controle estatal das empresas estratégicas, correta administração
de balança de pagamentos e aumento dos salários reais acima da produtividade e da
inação, com o objetivo de criar um mercado socialista moderno.
O capítulo 11 é dedicado a esmiuçar as reformas no setor agrícola e o surgimen-
to de empresas “não capitalistas” orientadas para o mercado, com especial destaque
para as Town Village and Enterprise (TVE). Os autores mostram que é nesse setor
crucial, num país cuja maior parte da população mora no mundo rural, onde aconte-
ceram prematuramente as importantes mudanças das estruturas de propriedade no
setor produtivo da China, fato que acompanhou a dinâmica de acumulação do país
nos últimos anos.
O capítulo 12 foca nos grandes conglomerados empresariais (GCE) chineses, que,
segundo Jabbour e Gabriele, constituem a vanguarda produtiva da nova FES, e isso
está intimamente vinculado às regulações nanceiras, às mudanças do sistema nan-
ceiro estatal chinês e à lenta, mas consistente, construção da soberania monetária do
país, temática abordada no capítulo 13.
Com conhecimento singular do objeto de estudo, os autores destacam que,
ao longo de quatro décadas, houve profundas mudanças estratégicas no setor empre-
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RESENHA
sarial estatal (setor público) que: 1) derivaram em reformas institucionais que ele-
varam as capacidades estatais “[...] ao ponto do Estado se transformar em executor
e nanciador em primeira e última instância”; e 2) “[...] pacotes scais e políticas
industriais foram implantados para que o Estado fosse portador – a partir de suas
empresas ou de um setor privado (não público) auxiliar, não concorrente ao estatal –
do rumo no sentido da fronteira tecnológica” (JABBOUR; GABRIELE, 2021, p. 194).
Assim, essa experiência mostra que o setor público da economia chinesa, em
constantes mudanças e inovações institucionais, foi gerando efeitos de encadeamento
(spillover) por toda a economia, impulsionando e reproduzindo os setores não pú-
blicos, que foram adquirindo diferentes formas de propriedade. Dentre as inovações
mais relevantes, segundo os autores, o destaque foi a criação, em 2003, da Comissão
de Supervisão e Administração de Ativos de Propriedade Estatal – SASAC, segundo
a sigla em inglês. Essa instituição age como uma espécie de manager e regulador
da economia socialista de mercado. A criação da SASAC foi um marco importante
no processo de reformas e inovações institucionais na China moderna, promovendo
eciência no setor público como orientador e motor da “nova economia de projeta-
mento” a partir da planicação estatal guiada pelos sucessivos planos quinquenais.
Finalmente, o catulo 16 apresenta a NEP como um novo estágio de desenvolvi-
mento do socialismo na China. O capítulo retoma o conceito originário de Rangel de
economia de projetamento” e o aplica para compreender o campo da planicação
econômica da China atual. Quiçá seja o Box didático número 5 que sintetize de ma-
neira mais clara a noção de NEP como: “[...] uma economia na qual a movimentação
da lei do valor encontra grandes restrições, abrindo a possibilidade de existência de
uma economia baseada em grandes projetos (de infraestrutura)” (JABBOUR; GA-
BRIELE, 2021, p. 242). Paralelamente, a NEP “[...] caracteriza-se também por ser
uma economia voltada para a construção de grandes bens públicos, segundo os au-
tores JABBOUR; GABRIELE, 2021, p. 243), os setores “improdutivos” da sociedade,
seguindo a diferenciação de Marx.
Jabbour e Gabriele fecham a seção destacando que o “projetamento, na sua mani-
festação na China como NEP, não é senão o socialismo como se manifesta no mundo
real, como a resposta cientíca ao capitalismo. Em termos dialéticos, a NEP e o governo
baseado na razão e na ciência seriam a antítese “[...] da irracionalidade capitalista e do
fetichismo do homem sobre si mesmo” (JABBOUR; GABRIELE, 2021, p. 243).
O livro é um convite à polêmica e ao debate dentro do campo do marxismo e en-
tre os estudiosos sociais da experiência de modernização e industrialização da China
contemporânea. A experiência das reformas econômicas da China desde a década
de 1970 acontece num momento chave da história. Na política internacional, a RPC
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aproveita-se da Guerra Fria e da rivalidade Estados Unidos-URSS, possibilitando a
aproximação Nixon-Mao Zedong, que se constituiu como plataforma política crucial
para dar início às reformas modernizantes lideradas por Deng Xiaoping, a que as
grandes corporações ocidentais aderiram posteriormente.
Não obstante, essas reformas, contrariamente às experiências latino-americanas,
não apontaram a realizar reformas neoliberais segundo a cartilha do Consenso de
Washington, mas a favorecer profundas reformas, apontando também a metas que
outorgaram maiores capacidades ao setor público, como motor dinâmico da eco-
nomia, promovendo o desenvolvimento das forças produtivas e a transferência tec-
nológica para fortalecer a economia socialista de mercado. Nessa tarefa, a liderança
do Partido Comunista Chinês foi crucial, com todas as contradições inerentes a um
processo de mudanças quantitativas e qualitativas tão profundo e veloz.
Para nalizar, o leitor pode sentir-se à vontade para ler o livro como quiser. Pode
começar pelas conclusões para ter um apanhado geral da temática, ou por um ca-
tulo de caráter mais empírico, da segunda parte, ou ir diretamente aos conceitos
teóricos da primeira parte. Ora, assim como em O jogo da amarelinha, do escritor ar-
gentino Julio Cortázar, que deixa livre aos leitores ler o livro desde o capítulo que eles
desejem, alterando a ordem convencional, o livro de Jabbour e Gabriele nos convida
a um amplo debate de ideias que permite aos leitores começar pelo capítulo que con-
siderem mais desaador para seguir interrogando, questionando ou, simplesmente,
abrindo mais janelas de conhecimento de dois tópicos fundamentais do nosso tempo:
o socialismo e a China.