Da realidade à utopia: o impacto da Primeira Guerra Mundial sobre o teatro russo em fins de 1914

Daniela Simone Terehoff Merino

Resumo


A Primeira Guerra Mundial causou forte impacto sobre a vida teatral russa entre 1914 e 1917. Com a expansão deste trágico evento não apenas a necessidade do fazer teatral foi posta em cheque, como também as escolhas de repertório tornaram-se repentinamente influenciadas pelos acontecimentos na Europa. Esta influência levou uma parte dos escritores russos a explorarem em suas obras a realidade bélica que os cercava. Foi o caso de Leonid Andreiev (1871 – 1919), que em fins de 1914 escreveu a peça Korol, zakon i svoboda (O rei, a lei e a liberdade) com base nas mais recentes notícias sobre a guerra. Por outro lado, houve no teatro russo quem optasse por suprimir ou até negar esta realidade. Foi o caso do Primeiro Estúdio do Teatro de Arte de Moscou (TAM), que neste mesmo ano encenou a novela The Cricket on the Hearth (O grilo na lareira, 1845) de Charles Dickens (1812-1870), colocando o amor, o perdão e a felicidade em primeiro plano. Este artigo compara a recepção de O rei, a lei e a liberdade com a de O grilo na lareira. Sublinha-se a importância que a eclosão da Grande Guerra teve sobre o Primeiro Estúdio em 1914.


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Referências


No dia 25 de agosto teve início o incêndio de Louvain. A cidade medieval na estrada entre Liège e Bruxelas era famosa por sua Universidade e sua Biblioteca incomparável, fundada em 1426, quando Berlim era apenas um punhado de choças de madeira. Localizada na sede da Corporação dos Tecelões, uma construção do século XIV, a Biblioteca incluía, entre seus 230.000 volumes, uma preciosa coleção de 650 manuscritos medievais e mais de mil incunábulos. A fachada da Prefeitura, considerada ‘uma jóia da arte gótica’, era uma tapeçaria em pedra, com cavalheiros, santos e damas entalhados, exuberante atém mesmo para o estilo gótico (TUCHMAN, 1994, p.368)

Quarta mulher: Dizem que eles são 20 milhões e que já incendiaram Paris. E que tem canhões que podem atirar a 100 km de distância.

Henrieta: Meu Deus, meu Deus, e tudo isso chegou até nós.

Segunda mulher: Deus misericordioso, estão se comprimindo sobre nós!

Quarta mulher: E eles voam e lançam bombas de navios aéreos, bombas terríveis, que destroem cidades inteiras.

Henrieta: Meu Deus, o que eles estão fazendo com o céu! Antes no céu, o Senhor estava só e agora também aí estão os infames prussianos.

Segunda Mulher: Antes, quando a alma queria alegria e tranquilidade, eu olhava para o céu, mas agora o pobre homem não pode olhar para lugar algum.

Quarta mulher: Arrancaram tudo de nossa Bélgica, inclusive o céu!

(ANDREIEV, 2012, p.37, tradução nossa)

Emil Griele: Como chamá-los? Não, como cháma-los? Meu querido Per, meu menino, como posso chamá-los?

Pier: Você está muito perturbado, papai.

Emil Griele: Eu sempre pensei, eu sempre acreditei que as palavras dependiam de mim, mas eis que fico em frente a essa monstruosidade, o incompreensível, e não sei, não sei mesmo como chamá-los. Meu coração grita e eu escuto a sua voz, mas a palavra! Pier, você é estudante, você ainda é um menino, sua fala é clara e imediata, Pier, encontre uma palavra para mim.

Pier: Eu, achar para você, papai? Sim, eu era um estudante então sabia tais palavras: paz, direito, humanidade, mas agora você vê! Meu coração também grita, mas como chamar esses patifes eu não sei. Patifes? Mas isso é pouco (em desespero) Muito pouco!

(ANDREIEV, 2012, p.19-20, tradução nossa)

Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos dos campos de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boca em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano. (BENJAMIN, 1987)

Sobre a utopia teatral em sentido estrito e terminológico, nós consideraremos possível falar apenas daqueles casos em que surge um complexo de ideias utópicas que incluem ‘a negação de dada realidade em nome da paz que deveria existir’, a construção de uma ‘realidade organizada’. A utopia confere ao trabalho criador uma força vivificante, dando-lhe um significado mágico e sobrenatural. O artista utopista acredita que todos os antagonismos e contradições da realidade social podem ser resolvidos através da arte. Quando neste processo o teatro desempenha o papel principal, surge a utopia teatral. (STAKHORSKI,1993., p. 2, tradução nossa)

“A guerra na qual não queríamos acreditar irrompeu, e trouxe a... desilusão. Não é apenas mais sangrenta e devastadora do que guerras anteriores, devido ao poderoso aperfeiçoamento das armas de ataque e de defesa, mas pelo menos tão cruel, amargurada e impiedosa quanto qualquer uma que a precedeu. Ela transgride todos os limites que nos impusemos em tempos de paz, que havíamos chamado de Direito Internacional, não reconhece as prerrogativas dos feridos e dos médicos, a distinção entre a parte pacífica e a parte lutadora da população, nem os direitos de propriedade. Ela derruba o que se interpõe (p.161) no seu caminho, em fúria enceguecida, como se depois dela não devesse existir nem futuro nem paz entre os homens. Ela destrói todos os laços comunitários entre os povos que combatem uns aos outros, e ameaça deixar um legado de amargura que por longo tempo tornará impossível o restabelecimento dos mesmos.” (FREUD, 2010, p.160-161)

Não, eu devo matar, Pier. Claro, eu poderia pegar a sua espingarda e não disparar, - não, isto seria uma porcaria, Pier, um erro sacrílego! Quando meu povo dócil está condenado a matar, então quem sou eu para conservar minhas mãos puras? Seria uma pureza desprezível, Pier, uma santidade ignóbil, Pier! Meu povo dócil não queria matar, mas foi forçado a isso e se tornou um povo assassino – então, isso quer dizer que eu me tornarei um assassino ao seu lado. (ANDREIEV, 2012, p. 12, tradução nossa)

Senhora Peeryngle: (...) Feliz aquele que tem um grilo em sua lareira. E você sabe, Jhon, quando foi a primeira vez que eu escutei a voz dele? Foi naquela tarde em que você me trouxe para casa; quando você me trouxe para cá, para a minha nova casa, como a dona. Isso logo fará um ano. Você se lembra, Jhon.

John: Lembro, como não lembraria.?

Senhora Peeryngle: A sua canção foi então para mim um encontro feliz. Ela então me animou; ela então me pressagiou o futuro. Como se dissesse: ele será bom e carinhoso com você; ele sabe que você é jovem e não espera encontrar uma cabeça velha e racional sobre os ombros insensatos da pequena esposa.”, algo que eu temia, Jhon. E o grilo disse a verdade, Jhon; você sempre foi o melhor e mais amável dos maridos (começa a abrir as encomendas). A sua casa me trouxe felicidade, John e eu amo o grilo por causa disso.

Jhon: E eu também o amo, Maliutka , também o amo.

(SUKHEVITCH, 1918, p. 52, tradução nossa)

Os homens não poderiam sustentar uma guerra de tal enormidade e sofrimento sem uma esperança – a esperança de que a sua própria magnitude assegurasse que ela jamais poderia acontecer novamente; a esperança de que quando , de um modo ou de outro, ela chegasse a um desfecho, as bases de um mundo melhor tivessem sido lançadas. (TUCHMAN, 1994, p.510)


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