Apresentação

Dossiê Poesia e modos de contato

Luciana di Leone

Universidade Federal do Rio de Janeiro

lulidileone@yahoo.com.ar

Se for possível pensar junto com Derrida que todo poema se constitui em torno de um gesto de envio, por um endereçamento a um outro, e se pensarmos ainda, com Jean-Louis Chrétien, que em toda chamada ou toda demanda já se dá como uma resposta, e vice-versa, poderíamos propor que todo poema se constitui por um toque, tentando tocar o outro e sendo tocado, colocando em risco as fronteiras do próprio eu. O toque, como sugere Nancy, seria o sentido propriamente poético. Desse modo, a poesia não seria algo dado, um objeto fechado que se deixa contemplar passivamente, mas algo da ordem da prática, um texto instável feito e refeito cada vez pelos contatos que o propiciam e que ele, por sua vez, vai propiciar.

Mas se essa é uma leitura possível, uma visão autônoma da arte se dedicou tradicionalmente, através das suas expressões artísticas, teóricas e críticas, a afastar a poesia da sua dimensão de práxis comunitária e inclusive ritual, dimensão que se torna imprescindível quando a arte é vista de uma perspectiva que procura entender os contatos que ela propõe e não tanto a sua forma ou seu conteúdo. Esses contatos têm, por outro lado, um sentido amplo, que não se limita à utilização de uma segunda pessoa ou ao endereçamento ao um leitor, mas perpassa o poema, a sua produção, sua distribuição, sua leitura e as infinitas construções de sentido feitas com ele, acompanhando-o ou atritando-o. Os contatos, nesse sentido, são necessariamente políticos e poucas vezes pacíficos. Saraus poéticos, arte de rua, novas modulações da poesia de circunstância, ou mesmo a poesia medieval e a arte das vanguardas históricas, podem ser exemplos da vitalidade e da necessidade de releitura da poesia de uma perspectiva que reflita sobre os contatos que ela tenta estabelecer, sobre os contatos que a tornam possível e não sobre a sua forma final.

Partindo dessa premissa, este número da Terceira Margem nasce da proposta de refletir em torno dos diversos modos em que a poesia se faz no contato, nas suas diferentes manifestações, em diferentes épocas, em diferentes geografias. Em resposta, como era de se esperar, os artigos não puderam se limitar ao que tradicionalmente continuamos chamando de poesia, e encenam uma reflexão que extrapola qualquer definição genérica para pensar modos de se tocar, de estar junto, do verso com a prosa, do texto com a vida, do poema com o mundo, de uns com os outros.

Se os contatos propostos como núcleo da reflexão são dissimétricos e incomensuráveis, o desafio também recaiu na organização do número, na ordem que os artigos teriam. Se, por um lado, poderia ter sido estabelecida uma ordem pela cronologia positiva dos objetos trabalhados, partindo de literatura mais antiga para chegar à mais moderna, ou mesmo dividir textos um pouco mais teóricos de um lado e textos mais críticos do outro, as possibilidades se mostraram pouco satisfatórias. Por esse motivo, o número se organiza não de uma forma aleatória, mas estabelecendo uma continuidade entre um texto e outro às vezes a partir de um dado menor.

Assim, abrimos este número não com um artigo mas com um collage da poeta, crítica, professora da Universidad Nacional de Mar del Plata e pesquisadora de CONICET, Ana Porrúa, pois todo collage torna incontornável a pergunta pelos encontros, as suas violências e as suas delícias, e ainda nos convida a pensar as relações entre imagem e poesia.

O primeiro artigo, do professor de filosofia da Universidad Nacional de Córdoba e pesquisador de CONICET, Emmanuel Biset, vai interrogar o por vezes chamado “fim da desconstrução” e, necessariamente, a própria desconstrução, a partir da impossibilidade de apaziguamento das tensões entre o esgotamento e a permanência. Enquanto modo de leitura, a desconstrução combina de modo singular uma necessária intervenção performativa sobre aquilo que é lido e sobre o mundo, operando ao mesmo tempo uma abertura e uma estratégia singular, que fazem com que o texto não se pense como dado, mas seja praticado, feito, singularmente a cada contato, encenando um gesto tanto de aproximação quanto de afastamento. Esses contatos, então, não podem ser celebrados como pacíficos e, nesse ponto, abre-se a interrogação para as relações entre filosofia e política, entre filosofia e prática, entre ética e violência, entre justiça e violência.

De certo modo, a tensão entre o contato e o atrito, pode ser visto nas reflexões que em torno da poesia de Catulo faz Guilherme Gontijo Flores (UFPR). Num “borrão” afetivo ― como o crítico instigantemente coloca ― ironia e sarcasmo, brigas poéticas, campo literário, erotismo e afeto marital, se encontram de uma forma tão confusa, ou melhor, complexa, que expõem as interfases entre as dimensões público e privada da poesia, e como ambas são ― por inseparáveis ― sempre políticas.

Essas políticas da poesia, que transparecem na poesia catuliana que dialoga de forma intensa com o seu contexto cotidiano/literário, são trabalhadas por Celia Pedrosa (UFF) na poesia contemporânea, quem olha simultaneamente para uma série de poemas singulares e para modos de edição articulados nas últimas décadas, em revistas ou antologias. Pensando especificamente a antologia A Poesia Andando, organizada pelas cariocas Valeska Aguirre e Marília Garcia para a editora portuguesa Cotovia, Pedrosa desmonta as tradicionais relações de herança vendo movimentos de contato entre Brasil e Portugal, que não passam pela língua, a espontaneidade e o construtivismo, desmontando avaliações críticas muito arraigadas, ao mesmo tempo em que mostra o paradoxo de toda antologia ou coleção, o de encenar ao mesmo tempo um gesto de juntar e de fragmentar.

Também sobre os contatos da poesia na contemporaneidade trabalha Susana Scramim (UFSC) ao abordar a poesia de José Paulo Paes em relação inextricável com a atividade tradutória, mostrando como esse investimento na tradução o colocaria em um lugar crítico em relação à tradição moderna na qual estaria inserido. Convocando a cena que deu origem ao ensaio “A tarefa do tradutor”, ser um prefácio à tradução de As flores do mal que o próprio Benjamin fizera, Scramim sublinha a necessidade de associar a tradução e a vida, já que entre original e tradução se estabeleceria, antes de mais nada, uma “pervivência” que, ao mesmo tempo, não tem acesso pleno à “vida” original, mas a pressupõe.

Se a tradução permite refletir sobre a condição da obra sem obra, quase no paradoxo menardiano, e ainda sobre a vida e a sobrevida dos textos, Alexandre Nodari (UFPR) vai propor uma releitura da noção de “invenção”, que estaria na definição ― mais do que a classificação de “romance” ― de Memórias Sentimentais de João Miramar. O estranho texto oswaldiano abre-se a uma reflexão não autônoma da ideia de invenção, sendo necessário o estabelecimento de contatos com outros textos, com a vida literária, e com a vida de forma geral. Uma releitura necessária que faz da atenção formal mais uma das variáveis de investigação para entender de que modo a literatura mergulha na vida, na bio-grafia, já que assim como o nome João Miramar se manteria numa terceira margem entre um heterônimo de Oswald de Andrade e o pseudônimo literário, a “invenção” se manteria numa terceira margem ― a de contato, a o do traço ― do bio-gráfico.

Em seguida, Francine Fernandes Weiss Ricieri (UNIFESP) também vai retomar a reflexão, não estritamente sobre o campo literário, mas sim sobre a relação estabelecida com o público na poesia simbolista. Estratégias de leitura que ultrapassam a retórica, para se abrirem ao outro, incorporando-o ao próprio texto, mas de forma pouco afetada ou grandiloquente.

Eduardo Veras (UFTM) concentra-se em esse modo menor abordando as “bagatelas”, os lugares comuns, as falas cotidianas, que são centrais na poesia de Baudelaire e que permitem uma reflexão sobre a sua relação com a cidade e, principalmente, uma reflexão sobre o comum e como o comum se torna um elemento privilegiado para explorar os contatos e seus desencontros do poeta e o mundo.

Também bagatelas e também parisinas poderiam ser considerados os “cartões-postais” que estão no centro da poética de Postales negras da venezuelana Jacqueline Goldberg abordados por Adriana Kanzepolsky (USP). Os cartões postais entram no livro, colocando em cena o gesto do corte, da collagem, da reprodução, tornando incontornável ― como no caso da tradução analisado por Susana Scramim ― a reflexão sobre a relação da palavra poética e a vida, ou sobre a palavra poética e a sobrevida das bagatelas que a vida oferece enquanto experiências inapreensíveis.

De certo modo, também de “bagatelas” e de lugares comuns do discurso da cultura popular, do midiático, mas também da literatura, está feita a poesia de Leonardo Gandolfi trabalhada por Filipe Manzoni (Doutorando – UFSC). A partir do jogo – algo f for fake ― proposto por Gandolfi é possível recusar ou tirar a importância do estatuto originário de qualquer texto, para investir nos modos de circulação que ele não apenas propõe, mas realiza, encena.

E como coisa de troca, mas também de graça, e também à venda, é abordado o caso da produção e circulação da poesia no interior mineiro, analisada por Vinicius Tobias (Mestrando ― UFJF) e Rafael Senra (UFJF). A partir de um olhar atento sobre essas produções, o poema deixa de ser um elemento fechado e mais uma realidade atravessada por contingencias e entusiasmos, propondo outros modos de circulação e contato que propiciam uma poesia extremamente política a partir, não do seu conteúdo engajado, mas da sua experiência.

Como fechamento do número, mas apontando ainda para uma abertura da reflexão, trazemos a tradução de um pequeno ensaio de Jean-Luc Nancy, “Le toucher”, ― o toque ou o tocar ― incluído no livro Les sens du monde (1993), com tradução e notas do professor, pesquisador e tradutor Rodrigo Ielpo (UFRJ). No texto, Nancy propõe pensar o mundo não como algo externo ao sujeito, ao qual o sujeito tem ou não acesso, mas algo da ordem do ser-entre, do ser-em-meio, do ser-contra. Se, como lemos em As musas também do Nancy, as artes se fazem por contato, por atrito e encontro, “umas contra as outras”, esse contato problemático seria o constitutivo das nossas continuidades e também das nossas diferenças. O contato seria o próprio sentido, uma matéria se formando, que existe no encontro, mas que nunca se tem totalmente, que não preexiste, que não transcende.

Boa leitura!

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Direitos autorais 2017 Luciana di Leone

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.