POESIA E LIMITE:

QUANDO À LINGUAGEM CARECE A META




Paulo Sérgio de Souza Jr.

Linguísitca — UNICAMP

zlatic.jr@gmail.com

RESUMO: Este artigo aborda a poesia como aquilo que faz frente à possibilidade da metalinguagem. Uma vez que o poético mobiliza na língua instâncias que, entre outros, a retiram do âmbito da comunicação ordinária e do binarismo ‘significado/significante | signo/referente’, ele dá corpo à própria impossibilidade de se pensar um exterior à língua. Não é por menos que esse limite foi experimentado por teóricos da linguagem como F. de Saussure, ocupado que esteve, em seus trabalhos sobre fenômenos linguísticos, com elementos de ordem poética.

Palavras-chave: poesia; metalinguagem; Saussure; Lacan.

ABSTRACT: This article discusses poetry as something that withstands the possibility of metalanguage. Since poetry mobilizes some instances in language that move it out, among others, from the scope of regular communication and from the binarism ‘signified/signifier | sign/referent’, it embodies the very impossibility of considering an exterior to language. No wonder that this limit was experienced by theorists of language such as F. de Saussure, who also dedicated himself — in his work on the linguistic phenomena — to elements of poetic order.

Keywords: poetry; metalanguage; Saussure; Lacan

Ini.

1.

“Não há metalinguagem.”
J. Lacan, La logique du fantasme, 23/11/1966

É a um pedaço de folha rasgada que Ferdinand de Saussure irá confessar, no rascunho interrompido de uma carta não datada e posteriormente compilada entre seus originais, a resistência que se instalava junto ao percurso de abordagem do seu objeto de estudo. Podemos começar a vislumbrar aí o alto preço que lhe era cobrado quando — no intuito de produzir um conhecimento sistemático e mais rigoroso no âmbito da disciplina em que se inscrevia (a gramática comparada) — insistia em supor, no campo da linguagem, um objeto merecedor de uma disciplina autônoma:

[...] tenho um horror doentio pela pena, e [...] esta redação me causa um suplício inimaginável, completamente desproporcional à importância do trabalho. Para mim, quando se trata de linguística, isto é acrescido pelo fato de que toda teoria clara, quanto mais clara for, mais inexprimível em linguística ela se torna, porque acredito que não exista um só termo nesta ciência que seja fundado sobre uma ideia clara e que assim, entre o começo e o fim de uma frase, somos cinco ou seis vezes tentados a refazê-la. (SAUSSURE apud STAROBINSKI [1971] 1974, p. 11)

As dificuldades em jogo no trato com a linguagem podem, no entanto, ser encaradas de maneiras diversas por aqueles que se debruçam diante dela como observadores de seus mecanismos, tendo em vista o estabelecimento de um saber. Nesse sentido, é bem possível desembocar numa certa indignação com a indeterminação à qual as línguas muitas vezes condenam o estudioso, suscitando que se diga, por exemplo, que “a linguagem é uma mercadoria tão vulgar e tão vil [que] há mais trabalho no interpretar as interpretações que a interpretar as coisas, e mais livros sobre os livros que sobre qualquer outro assunto: [em resumo, que] não fazemos senão nos entreglosar” (MONTAIGNE apud SCHNEIDER, [1985] 1990, p. 305).

Todavia, há quem declare ver nisso algum fascínio. Nesse caso, acontece de o arrebatado pela língua subverter determinados pressupostos teóricos ou se ver coibido a aceitar certos pontos que, no mais das vezes, de saída não suporia necessário — ou até mesmo conveniente — levar em conta na análise. Noutras palavras, a resistência severa e atuante na construção de saber sobre o material linguístico pode ora constituir uma barreira, ora suscitar a incorporação de novos elementos a serem estudados pela disciplina — ainda que a concretude dos contornos nesses impedimentos e transições não seja muito exatamente afiançável, e tampouco sejam sempre manifestos os elementos que aí interatuam.

Em todo caso, se esses elementos outrora limítrofes são capazes de encontrar espaço e sob que condições eles o fazem trata-se, porém, de outras questões; afinal, sobretudo no que tange ao âmbito das ciências, vale ressaltar aqui a afirmação lacaniana segundo a qual nele todo discurso “sobre a língua se apresenta por uma redução de seu material” (LACAN [1968-69] 2008, p. 34) — redução que acaba fatalmente por rasurar o objeto teorizado. Ora, não é por menos que Émile Benveniste afirmava que a mudança fundamental instaurada na linguística estaria justamente no reconhecimento de que “a linguagem deveria ser descrita como uma estrutura formal, mas que essa descrição exigia antes de tudo o estabelecimento de procedimentos e de critérios adequados, e que [...] a realidade do objeto não era separável do método próprio para defini-lo” (BENVENISTE, [1962] 1976, p. 127).

No entanto, no terreno da linguagem, passamos longe de estar diante de uma mera relação de amoldamento, em que o objeto tão simplesmente se adornaria conforme os ditames investigativos da voga teórica. E isso não apenas porque teríamos aí algo da ordem de um palimpsesto — dado que a rasura deixa vestígios —, mas também porque, no caso das línguas, o método vai afetar um objeto pelo qual invariavelmente terá sido desde sempre afetado. Basta lembrarmos que a própria língua, afinal — antes mesmo de ser objetificada —, habita todo e qualquer artifício de que se disponha para analisá-la, configurando uma espécie de recursão que descreve um ponto cego estrutural: só se fala da linguagem na/pela linguagem, sem que qualquer exterioridade seja possível. Assim, há diversos momentos em que o objeto se faz ver teimando em tomar as rédeas, ditar as regras e desmantelar o aparato descritivo que procura segmentá-lo e descrevê-lo — algo nele, por assim dizer, resistindo ao suposto exterior sugerido, muitas vezes, sob o título de uma metalinguagem.

2.

“Se, com efeito, a língua — é aqui que Saussure toma seu ponto de partida na distinção língua/fala — é fruto de uma maturação que se cristaliza em uso, a poesia resulta de uma violência feita a esse uso.”
J. Lacan, L’insu..., 15/03/1977

Naturalmente, são diversas as formas possíveis de abordar os entraves encontrados por Ferdinand de Saussure e compartilhar dessa sua confissão. Assim, há quem diga que tais dificuldades no trato com as línguas naturais provenham do próprio conteúdo analisado, em sua materialidade: “do fato [, por exemplo,] de que suas marcas sintáticas [...] são essencialmente capazes de deslocamentos, de transgressões, de reorganizações” (PÊCHEUX; GADET, [1981] 2004, p. 24). Considerações como essa, que parecem evocar a linguagem “multiforme e heteróclita” (SAUSSURE, [1916] 1972, p. 17), procurarão ver nas próprias línguas — entendidas como entidades delimitáveis — e em seu funcionamento os percalços no processo de constituição de um saber. E o teórico, sob esse ponto de vista, será consequentemente entendido como aquele que vai padecer das dificuldades que essas entidades venham a lhe apresentar.

Outros estudiosos, como é o caso de J.-C. Milner, na esteira da doutrina psicanalítica, reconhecem o advento desses entraves na sempre potencial obliteração do todo da língua, uma vez que ela “não se restringe a uma territorialização operada para fins de conhecimento” — o que seria atestado pelo chiste, pelo lapso, pelas associações ou ainda, “numa só palavra, [pel]a pura possibilidade da escuta analítica” (MILNER, [1978a] 2012, p. 66). Dito isso, a dificuldade em teorizar sobre as línguas naturais também pode ser atribuída à iminência constante da insinuação, na cadeia significante, do sujeito do inconsciente: evidencia-se nela uma incisão e inscreve-se aí, e a despeito daquele que fala, um algo a mais — para além da língua enquanto sedimento social ou dispositivo biológico. E o falante pode então ser entendido como alguém que não está livre de sucumbir ao fato de que a língua, ultrapassando seu eu, pode falá-lo — logo, os impasses teriam lugar não na língua enquanto entidade, mas na indissociabilidade da linguagem e do uso: na resistência que se apresenta ao gesto de separação da língua, como ferramenta e objeto teórico possíveis, do corpo que fala e se constrói sob seus efeitos.

Ora, o leitor poderia naturalmente fazer a objeção de que Saussure não era teórico do verso — ou da literatura, de modo geral —; que não esteve vinculado aos estudos de estilo, nem sequer à história dos movimentos poéticos: em resumo, que não era um esteta de nenhuma ordem. Por que, então, partir dos impasses saussurianos com a linguagem para falar sobre a poesia enquanto puro corte, empecilho à metalinguagem? Afinal, quando folheamos o célebre Curso de Linguística Geral em busca da palavra ‘poesia’ e de seus correlatos, não deveríamos nos deixar surpreender com o resultado então obtido: com efeito, tirante uma referência à importância do verso para reconstituições de pronúncia e uma menção aos poemas homéricos — ao tratar de fala e escrita —, nada mais se pode ler ali que esteja nominalmente atribuído à dimensão do poético.1

Porém, muito evidentemente não é nesse aspecto que se poderia esperar alguma alusão à poesia nos cursos de Saussure, e sim, de fato, na direção de algo que viria fazer jus à tangência que o poético efetuou em sua obra de modo a conduzi-lo ao adensamento de uma compreensão do signo e à edificação de uma teoria da língua. E nesse sentido, então, talvez fosse plausível haver ali uma referência à poesia como lugar do desfralde daquilo que operou como causa do interesse vivo do linguista, e que não deixou de demandar seu crivo e a sua escrita teorizante.

As alusões à poesia, de fato, entram em cena justamente ao nos depararmos com uma produção que precede, em sua maior parte, as aulas que dariam origem ao CLG e que constituem seus trabalhos sobre os anagramas em textos antigos gregos, latinos e indianos. Contudo, a poesia que o preocupava nos anagramas e que o acompanhava em sua saga pela linguística histórica restaria à sombra de suas gavetas e será apenas tardiamente, então, que essas obras conhecerão seu público. Nesse segundo momento, todavia, virão envoltas naquilo que podemos chamar de uma aura de subversão — subversão do científico pelo poético em cena nas suas anotações; pelas marcas de sua “loucura” ao longo de análises que vão se mostrar tão díspares da sobriedade transmitida por Charles Bally e Albert Sechehaye naquilo que seria seu famigerado volume apócrifo.

Atenhamo-nos, aqui, ao fato de que o trabalho de Saussure com os textos poéticos revela, minimamente, que a dimensão acústica se impõe, isto é, que

[u]ma forma é uma figura vocal que, na consciência dos sujeitos falantes, é determinada, ou seja, é ao mesmo tempo existente e delimitada. Ela não é nada mais; assim como não é nada menos. Ela não tem, necessariamente, “um sentido” preciso; mas ela é percebida como alguma coisa que é; que, além disso, não seria mais, ou não seria mais a mesma coisa, caso se modifique o que quer que seja em sua exata configuração. (SAUSSURE, 2002, p. 37).

E por que o elemento vocal da linguagem — sendo, por sua vez, “o cavalo sobre o qual o poeta viaja” (AGAMBEN, [1988] 1998, p. 25) — é silenciado mediante uma não referência à poesia naquilo que chegou até nós dos cursos por ele ministrados? Dito de outro modo: se são muito precisamente elementos da ordem do poético que parecem suscitar/reforçar a aposta de Saussure em pontos que, investidos, são capazes de impelir os estudos da linguagem rumo à consolidação de uma disciplina autônoma, entendida como a linguística moderna, por que a referência aos estudos desenvolvidos por ele nesse campo é especialmente deixada de lado, em particular?

Ora, não custaria afirmar que, ao se falar em poético, fala-se em limite (como se fala em limite do discurso, em limite da lógica); e não é difícil recuperar o quanto a poesia é tida, há tempos, precisamente como uma espécie de prática subversiva que traz consigo justamente a complicação de tratá-la de fora, isto é, de tomá-la como objeto de um juízo — o que já em Platão (Protágoras, 347c) podia-se observar:

conversar sobre poesia se assemelha muitíssimo aos banquetes dos homens ordinários e vulgares. Estes, por não poderem entreter-se uns com os outros por si mesmos, por falta de educação, fazem subir o preço das flautistas contratando caro a voz alheia e por ela se entretêm; onde, porém, estão convivas belos e bons e educados, não verás flautistas, dançarinas nem tocadoras de lira. [...] Assim também estas reuniões, se comportam homens como a maioria de nós pensa que é, absolutamente não precisam de voz estranha nem de poetas, os quais é impossível interrogar sobre o que dizem, e quando a maioria os cita nos seus discursos, uns dizem que o poeta quer dizer isto, outros que aquilo, discutindo sobre assunto que não podem demonstrar. (PLATÃO, [380 a.C.] 1986, p. 130)

O verso e a rima, por exemplo — seus afamados avatares — contrastam com o discurso ordinário; a reiteração fônica exacerbada especifica-se em meio ao ressoar da fala quotidiana. E, mesmo se pensamos em versos livres e brancos, é também como insurreição que eles se estabelecem, na transgressão da métrica e das concordâncias sonoras outrora disruptivas e assentadas pela tradição. Logo, não parece difícil apreender que “o encanto poético reside no repertório linguístico de desvios, nos quais cada qual tem seu próprio encanto específico apesar de haver, talvez, um deleite especial em desvios complexos de ordens crescentes” (BRONNER, 2007, p. 107) — a tal ponto que a linguagem pode até mesmo tender ao desaparecimento, tornando à música.

A prática do poeta, pensada como contravenção do ferramental comunicativo ordinário — sem a qual a poesia não se dá, senão como chancela de um suposto lirismo (ode ao belo) ou da ver-se-ficação de um anúncio publicitário (tributo ao prático) —, pauta-se necessariamente numa lei, portanto; e essa lei não é outra que não a da própria linguagem, à qual todo ser falante se vê submetido — e com a qual, não por menos, Saussure teve de se haver em suas pesquisas anagramáticas. “[T]udo, então, não é permitido, até mesmo justamente entre as coisas que se tomaria por mais ou menos lícitas, se não fosse uma homofonia qualquer que decidisse” (SAUSSURE apud STAROBINSKI, [1971] 1974, p. 34). Logo, os lindes da língua marcam — coincidem com? — os itinerários da poesia.

3.

“É o próprio movimento dos órgãos da fonação que propicia o prazer dito poético.”
V. Shklôvski apud P. Zumthor ([1990] 2005, p. 154)

O poeta, apesar disso, não se vê preso num impedimento: “escuto sílaba por sílaba a forma que a essência dada exige. Preparo a forma, e depois a preencho... Mas a poesia não é um molde de gesso! Não!, me deixo seduzir pela poesia, depois a encarno. Isso é o poeta” (TSVIETÁIEVA, [1926] 1990 p. 51). Afinal, se habitualmente a poesia é tida como aquilo que “revira e desfaz todas as bordas, rediz à sua maneira a mesma lei” (MILNER, 1978b, p. 55), contrariamente à tendência de reduzir a lei a tão somente um estorvo, o poeta vê aí justamente as oportunidades de sua desforra: “arte é limitação; a essência de todo quadro é a moldura” (CHESTERTON, [1908] 2009, p. 64).

Assim, no exercício dessa liberdade in-condicional — pensemos, por exemplo, em toda a produção dos representantes do Ouvroir de Littérature Potentielle —, o poeta, em seu âmbito, deixa-se explorar pela língua e faz com ela uma série de proezas que a deslocam não apenas com relação à referência ordinária, mas também no que se refere a ela mesma, uma vez que “não há dimensão da língua que não possa ser crucial ao poético” (MILNER, 1978b, p. 54). A empreitada exploratória desembocará, com isso, numa verdadeira extrapolação: submetido a algo que parece evocar uma certa lei da resistência dos materiais, o enrijecimento dos limites — ressaltando e reforçando sua dureza — faz, também na língua, com que nos deparemos com uma maior fragilidade. Em resumo: quanto mais asseverados os lindes, menor será sua resiliência. Algo, então, se rompe; e a esse momento, instante da presença crua do corpo que emerge na linguagem, aquele que se submete ao poema não passa incólume, vítima que é da heterogeneidade xifópaga, por assim dizer, entre o que é do corpo e o que é da língua — o que a própria catacrese que nomeia a segunda já seria o bastante para revelar.

É [...] por amor que alguém se torna “louco pela língua”: por amor e inicialmente por apego primeiro ao corpo da mãe, quando sua insistência toma a forma de um amor da língua-mãe ou da língua-materna. Então o simbólico faz irrupção diretamente no corpo, as palavras tornam-se peças de órgãos, pedaços do corpo esfacelado que o “logófilo” vai desmontar e transformar para tentar reconstruir ao mesmo tempo a história de seu corpo e a da língua que nele se inscreve: essa “loucura das palavras”, que pode desembocar na escrita (Rabelais, Joyce, Artaud ou Beckett), na poesia (Mallarmé) ou na teoria linguística, persegue sem trégua o laço umbilical que liga o significante ao significado, para rompê-lo, reconstruí-lo ou transfigurá-lo [...]. (PÊCHEUX; GADET, [1981] 2004, p. 45)

Cumpre notar que a ação vocal que se destaca, intervindo nesse processo, “conduz quase sempre a um afrouxamento das compreensões textuais, ela deixa emergir os traços de um saber selvagem, emanando da faculdade linguageira, senão da fonia como tal, no calor de uma relação interpessoal” (ZUMTHOR, [1990] 2005, p. 145). Ela é, pois, capaz de proporcionar um efeito particular sobre aquele que experiencia a obra poética; afinal, cabe à poesia fazer algo com quem a ela se submete: “[s]e você ouve um poema e nada acontece, o poeta falhou” (SHULMAN, 2007, p. 305-6).

Por outro lado, se a própria poesia “nunca é a poesia que já obteve êxito [ — pois c]ada êxito é um fim da poesia” (MESCHONNIC, 1985, p. 181) —, o leitor fatalmente se interroga: em que é que o poeta poderá ter aí falhado? Para que então se avente uma resposta, é conveniente lembrar que, “se a gramática é o que, pelo jogo repetido de sintagmas e paradigmas, une, nível por nível, o som ao sentido, a poesia, em contrapartida, [é não apenas aquilo que se] realiza nesse momento em que todos os níveis são projetados uns nos outros” — “figuração singular em que a racionalidade se exerce desatando e separando os fios emaranhados” (MILNER, 1978b, p. 55) —, mas notadamente o que se produz simultaneamente a uma derrocada da possibilidade de se falar em / a partir de um pretenso fora, isto é, uma instância que se usaria para falar sobre a linguagem que seria outra coisa que não ela própria. Em outras palavras, a poesia desmantela não só a referenciação ordinária, mas, em certo sentido, obstaculiza a meta-linguagem: o fato de a poesia mobilizar a linguagem como tal e, nesse sentido, ser um expediente eminentemente pautado em si mesmo não nos dá garantias para que possamos pensar aí numa orientação no espaço que supusesse consistência a seja lá o que for que que nela se realiza.

Ora, pode-se depreender que, em não sendo capaz de fraturar essa divisão de que se vale a teoria — e que ela muitas vezes é feita para obnubilar —, a poesia perde para o tamponamento complacente do sentido, para a artimanha sempre disponível ao falante de estabilizar aquilo que escuta e rebaixar qualquer excitação inconveniente: afinal, supõe-se que um sujeito não queira ser pego de surpresa por aquilo que “não consiste em acrescentar ao discurso ornamentos retóricos; [mas] implica, antes, uma total reavaliação do discurso e de todos os seus componentes, quaisquer que sejam” (JAKOBSON, [1960] 2008, p. 161).

Quando o poeta fracassa, portanto, algo falha em fazer fracassar uma certa homeostase que vigora para aquele que o lê. Dito de outro modo: quando a poesia é incapaz de desestruturar o aparato dessa estratificação, dá-se o sucesso — nesse caso, extremamente inconveniente — da comunicação. É fato, e digno de nota, que “jogar [...] um jogo sério na intenção de perder é um comportamento bastante sofisticado, e talvez uma sofisticação derradeira numa dada cultura”, como afirma Beaujour (1968, p. 62) — sofisticação que “será sentida como sendo um retorno à natureza e a algo fundamental, universal e espontâneo no homem”, o que “é meramente a ilusão aguardando a quebra de velhas regras, quando as novas ainda não foram formuladas”.

Entretanto, é preciso ir adiante. Afinal, nesse jogo — em que um duplo fracasso tem seu lugar (a poesia fracassa como música e também fracassa enquanto comunicação verbal) — o poema comportará um paradoxo em si mesmo, caso lembremos da definição dada por Paul Valéry, segundo a qual a poesia é uma “hesitação prolongada entre o som e o sentido” (VALÉRY, [1943] 1971, p. 63). Afinal,

se a poesia vive sozinha na tensão insatisfeita entre as séries semiótica e semântica, o que acontece no momento do fim, quando a oposição das duas séries não é mais possível? Haveria aqui, finalmente, um ponto de coincidência no qual o poema [...] junta-se ao seu elemento métrico para converter-se definitivamente em prosa? — o casamento místico do som com o sentido poderia, então, ter lugar. Ou, pelo contrário, som e sentido estariam agora separados para sempre, sem possibilidade alguma de contato, cada um deles eternamente do seu próprio lado — nesse caso, o poema deixaria para trás apenas um espaço vazio no qual, de acordo com a frase de Mallarmé, verdadeiramente rien n’aura lieu que le lieu [nada além do lugar terá lugar]. (AGAMBEN, [1996] 1999, p. 114)

Digamos que, no primeiro caso, o poeta fracassa: o poema resvala para o discurso ordinário. No segundo, por outro lado, abre-se o caminho para uma intervenção: o poema, enquanto ato, faz vibrar no sujeito justamente um oco, le lieu du langage, subtraindo a si seu término e encontrando, no seu endereçamento, a oportunidade de não se extinguir em prosa: “como se o poema, enquanto estrutura formal, não fosse e não pudesse terminar; como se a possibilidade do fim lhe estivesse radicalmente revogada, dado que o fim implica uma impossibilidade poética”. Deste modo, “[n]a altura em que o som está para ser arruinado no abismo do sentido, o poema procura abrigo suspendendo seu próprio fim numa declaração de, por assim dizer, estado de emergência poética” (AGAMBEN, [1996] 1999, p. 113).

Poesia é emergência, portanto. Emergência enquanto crise, ao mesmo tempo em que emergência enquanto mostração: conforme o aforismo — em francês no original, articulado no ano de 1969 pelo romeno Paul Celan (2002, p. 51) —, ela “não mais se impõe, ela / se expõe”. Trata-se, digamos, de nomear algo; mas não por um processo referencial qualquer, na medida em que se viesse a significar alguma coisa, e sim por meio da instauração de um nome próprio no sentido justo que lhe cabe — “nome-bandeira” (علم إسم), diriam os árabes —: não o da metáfora que significa, mas o do puro sinal que designa; pura marca, baliza, no território dos discursos.

Ora, se a poesia consiste justamente no retorno do mesmo na língua, nesse processo a linguagem é retirada da pretensa obviedade quotidiana de sua função e natureza de sentido, sim, mas também da sua possibilidade de referenciação metalinguística entendida como um falar sobre si substancializado: então, apartada de si mesma, exibe-se aí justamente um intervalo que mostra que, “no abismo assim revelado, no coração da linguagem, jaz, não a plenitude de um sentido oculto, mas o que constitui a verdade mesma da linguagem, quer dizer, seu vazio, ou, se quisermos, sua facticidade. É o que Foucault chama «a falha ontológica da linguagem»” (MACHEREY in FOUCAULT, [1963] 1999, p. XXII): a poesia, portanto, revela-se — e, assim sendo, revela também aquilo que, da linguagem, cumpre à referência ordinária apagar — como algo carente de função (qual a serventia do poema?) e de meta (qual o seu alvo se, embora retorne sobre si, não é a si mesma que ela encontra no ponto de chegada?).

Dito isso, depreende-se que o que temos aí se trata menos de uma soberba experiência verbal — que fosse somável em seus efeitos de garimpar os eventuais enigmas da linguagem — do que, mais precisamente, um expediente elementar que evoca a própria relação do falante com o tesouro irrisório da língua. Estamos, assim, diante de uma forma de encarar aquilo que a poesia realiza enquanto tentativa de dar extensão, criar um tecido verbo-temporal, ao abismo que, instalado no / instalando o campo da linguagem, é menos o seu produto do que propriamente a verdade derrisória de sua gênese.

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  1. Cf., respectivamente, F. de Saussure ([1916] 1972; p. 46 e p. 227).

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