DOSSIÊ A MÍSTICA NA LITERATURA MODERNA

APRESENTAÇÃO

Eduardo Guerreiro Brito Losso

Universidade Federal do Rio de Janeiro

edugbl@msn.com

Resumo: Apresentação do Dossiê Mística na literatura moderna.

Palavras-chave: Mística; modernidade; experiência; sagrado; linguagem

Em todos os verdadeiros exaltados e místicos atuaram sem dúvida forças superiores — daí nasceram, é certo, curiosas mesclas e configurações.

Novalis

Para desatar amarras doutrinais e liberar a modernização, a cultura ocidental precisou divorciar a religião das instituições de saber e de poder. Não há dúvida de que essa cisão foi (e continua sendo) necessária, mas tanto o orgulho que se tem dela quanto o lamento conservador sofrem, ambos, da dificuldade de examinar o alcance psicossocial dessa ferida. Assim como houve, durante tanto tempo, uma censura religiosa do pensamento laico, há, também, dentro de instâncias do saber laico, uma repulsa a tudo o que cheire a religião, o que prejudica o livre exame e reflexão de profundas relações entre religião, imaginação ficcional, trabalho da linguagem e esclarecimento.

Um dos setores onde esse problema aparece se dá na difícil pronúncia da palavra “mística”. Quem não a estuda geralmente conhece apenas seu sentido pejorativo: crendice, superstição, carência de autoajuda, fetiche da mercadoria, qualquer coisa que se oponha à ciência objetiva, autonomia do sujeito e, até mesmo, autonomia da literatura diante de esferas religiosas que, durante tanto tempo, não se distinguiam dela. Para o estudioso das diversas formas culturais da religião, demora um certo tempo até se demonstrar que a mística foi um dos fenômenos teológicos, filosóficos e literários mais estudados pela academia do século XIX e XX, e que sua história – da Antiguidade, atravessando momentos-chaves da patrística e escolástica, sua cristalização nas mulheres escritoras dos séculos XII e XIII em diante, e seu auge na especulação germânica e no Século de Ouro espanhol –, é um dos episódios mais difíceis de entender da literatura e do pensamento formadores do Ocidente, e mais conflitivos com o poder eclesiástico. Dentro e fora da Igreja, surgem correntes perigosas, que, na posterior constituição do valor estético como campo autônomo, vão dar um suporte antigo a subversões formais, doutrinais e políticas, como é o caso, em especial, da relação muito repetida do gnosticismo com William Blake, por exemplo. O estudo da mística sofreu com a incomunicabilidade abismal entre teologia e filosofia, posteriormente, teologia e ciências humanas, mas também desafiou tal impossibilidade de diálogo e foi um dos objetos centrais para a fundação dos estudos de religião como campo epistêmico desligado da teologia.

Os textos que, nos séculos XVI e XVII, foram classificados como místicos e, numa luta valorativa, foram apaixonadamente defendidos ou atacados, testemunham os princípios da subjetividade inovando formas e estilos de escrever ao serem movidos pela ânsia de experimentar o absoluto. Resultam daí grandes clássicos da literatura ocidental: os sermões apofáticos de Meister Eckhart, a assinatura das coisas de Jakob Böhme, a brevidade sentenciosa da poesia de Silesius, a autobiografia de Teresa de Ávila, os exóticos tratados de João da Cruz, estruturados de forma em que cada capítulo explica uma estrofe de um poema seu, isto é, trata-se de uma impressionante correlação entre poesia e pensamento. A mistura de tratados de ascensão da alma com alta densidade poética e existencial, a invenção de estranhas maneiras de falar, o uso e abuso de oxímoros, hipérboles e novidades linguísticas, fizeram parte da criação da língua vulgar e imprimiram uma marca decisiva em toda a cultura posterior.

Se o adjetivo “místico” foi seguido, em tempos de contrarreforma e iluminismo, do substantivo, ele rapidamente se tornou um guarda-chuva conceitual para falar de todo encontro ou busca de uma experiência espiritual em qualquer cultura, religião e tradição, sendo associado a um fascínio pelo irracional, contraposto ao mecanicismo, racionalismo e positivismo burguês. Mesmo especulações da pré-história e do surgimento do espaço sagrado, que constituíram a cultura humana, não mais podem ser desligadas da tentativa de pensar esse misterioso inconsciente social. É por isso que estudiosos mostram a pertinência de como e onde o nome surgiu, para o uso que dele foi feito depois. De fato, a mística cristã é a chave não só do jogo infindável de dizer o não dito, de desafiar as fronteiras da linguagem de modo a mergulhar em seu vazio dinâmico, sua potência criadora e despersonalizante, mas também da reflexão em torno do sagrado, e do quanto ele é mais pervasivo e complexo do que imaginávamos, atingindo os campos mais improváveis da sociedade.

Na modernidade, os místicos foram absorvidos com fervor e admiração por nomes como Hegel, Heidegger, Novalis, Schlegel, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Benjamin, Adorno, Bataille e, no Brasil, Cruz e Sousa, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Jorge de Lima, enfim, a grande maioria de românticos, simbolistas e modernistas, e boa parte dos principais pensadores pós-metafísicos. Contudo, não podemos, simplesmente, chamar seus admiradores e reatualizadores modernos de “místicos”. Este dossiê busca pensar, justamente, como a mística atravessa a literatura, como o espaço sagrado está tanto na formação da linguagem e da sociedade quanto na solidão e intimidade da escrita.

O texto do filósofo Christoph Türcke é uma pequena seleção de trechos do livro Hiperativos!: Crítica da cultura do déficit de atenção (Hyperaktiv! Kritik der Aufmerksamkeitsdefizitkultur, de 2012), que será lançado em breve pela editora Record. Selecionamos os trechos que abordam diretamente a estreita associação entre o surgimento do espaço sagrado e da faculdade da atenção. O autor argumenta como experiências de epifania estão na origem de gestos dêiticos, preparando a constituição da linguagem. Posteriormente, evidencia-se que há uma mútua implicação entre sagrado e profano na atualidade, mesmo em esferas onde aparentemente não haveria confusão entre elas. Türcke é um dos maiores teóricos do sagrado na atualidade, já tem alguns livros traduzidos para o português, mobilizando grande interesse da comunidade acadêmica, motivo pelo qual agradecemos a disposição da Record em publicar este, que será uma grande contribuição aos estudos brasileiros de literatura, educação, religião, filosofia e pedagogia.

O artigo do poeta, tradutor e crítico Claudio Willer (“Há poetas gnósticos? Algumas observações sobre modernidade e misticismo; rebelião e pensamento arcaico”) faz uma revisão e reavaliação atualizada de seus últimos livros, especialmente O obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, de 2010. A maior parte da crítica literária brasileira ainda não se deu conta da enorme importância deste trabalho, que procurou abordar a relação entre a história das religiões, em especial do gnosticismo, e o entendimento da poesia moderna. O artigo reflete e desdobra esse feito mostrando grande conhecimento da bibliografia sobre gnosticismo, sobre cada um dos poetas modernos, e avaliando, tanto do lado de lá (estudos de religião) como de cá (estudos literários), qual foi a contribuição da crítica para esse campo comparativo e quais pistas cada poeta deixou a respeito, alargando o leque comparativo explorado no livro. Para a compreensão dos autores, Willer toma como base a distinção de Festugière entre gnose otimista e pessimista para pensar os diferentes temperamentos que se alternam nas obras.

Suzi Frankl Sperber, autora de vários livros sobre literatura e sagrado, especialmente sobre Guimarães Rosa, analisa no artigo “Ultraje, profanação e redenção” como ocorre o ultraje do corpo morto (chamado de corpo-testemunho) em cena, visto nas peças teatrais contemporâneas de língua inglesa Buried Child, de Sam Shepard, Blasted, de Sarah Kane e Ariel, de Marina Carr. Sperber se interroga como os mais terríveis acontecimentos motivam os personagens a se transformarem e indica, aí, um resquício de esperança. Sob um pano de fundo contextual pós-moderno de criação literária, tais textos retomam, de diferentes maneiras, estruturas ritualísticas sagradas. Desse modo, numa leitura imanente, a autora encontra elementos para discussão do estatuto do sagrado num tempo atravessado pelas mazelas de um mundo capitalista.

Faustino Teixeira é um dos autores mais importantes, no Brasil, para o estudo da mística, pesquisando não só a cristã, mas também a árabe e budista, tendo organizados vários eventos a respeito, com livros publicados. Em “O canto espiritual de Rilke”, ele busca apontar a especificidade da espiritualidade de Rainer Maria Rilke. Remontando ao processo de composição literária das Elegias de Duíno dentro da biografia do poeta, o autor analisa os temas que movem a reflexão do livro: temporalidade (que leva à corrosão, dissolução, mortalidade), caminho interior (alojamento na intimidade, valorização da serenidade, contemplação da natureza e paciência), busca do divino (sede de transcendência, imagética dos anjos, prisão da imediatidade e anseio pela eternidade), melodia das coisas (dom da eterna infância de cada minúcia, mergulho nas “superfícies vivas”) e alegria.

Teresinha V. Zimbrão da Silva, em “Guimarães Rosa: ‘esta é a minha mística’” começa examinante o conceito de mística para examinar as declarações explícitas de Rosa a respeito de sua identificação com o campo da espiritualidade. Ele reconhece em sua vida “sutil gênero de fatos” que influenciaram sua produção, aproximando-a da reza, da confissão, do mistério, até da mediunidade. Embora Rosa se caracterize como anti-intelectualista, a autora sublinha o quanto ele se vale de procedimentos racionais. De qualquer modo, Teresinha Silva esclarece que o campo semântico da espiritualidade é constante nas declarações do renomado escritor.

Elisa Duque Neves dos Santos e Adalberto Müller Jr., em “A via sacra da poesia de Manoel de Barros” examinam como a criação de palavras do poeta (“natência”, “divinar”, “empoemar-se”) está ligada a um processo de transfiguração, fusão e metamorfose com os seres. Apesar de se dizer homem de fé católica, o que interessa aos autores é observar sua mística e ascese secularizada, desentranhada da própria experiência poética. A partir daí aparece uma construção imagética cujos gestos poéticos configurariam uma espécie de revelação imanente.

Sandra Luna e Klara Schenkel, em “A mística da geração beat contra a falência da modernidade: quem salvará a América?”, situam como o desencantamento do mundo moderno, com sua industrialização, capitalização, guerras e vazio existencial, motivou o consumismo do pós-guerra como busca de um paraíso perdido. Contra a superficialidade do sonho americano, os beatniks denunciam a decadência espiritual e, na esteira do percurso anterior do romantismo e de certas vanguardas, praticam uma espécie de misticismo da transgressão, tornam-se vagabundos iluminados. As autoras citam o trabalho de Claudio Willer, que os aproxima do gnosticismo, e exploram suas leituras do budismo.

Roy David Frankel e Gustavo Bernardo Krause, em “Aprendizagens: a experiência metafísica em Clarice e Hesse” servem-se da expressão de Adorno “experiência metafísica” para analisar como as narrativas dos romances de Clarice Lispector e Hermann Hesse alteram a estrutura tradicional de modo a dar conta de seu despontar em momentos culminantes. Os autores demonstram de que maneira o narrador, em Clarice, alterna unidades monologais e dialogais, desloca-se da terceira para a primeira pessoa, utiliza efeitos gráficos, que, enquanto recursos icônicos, explicitam o indizível, o incomunicável. Ao comparar com estruturas tradicionais da imagética religiosa, os autores asseveram o trabalho aniquilador da linguagem em Clarice e o simbolismo em Hesse como modos diferentes de enfrentar o desafio de narrar a experiência metafísica, e filiam os romances à busca da vida autêntica heideggeriana em oposição à perdição do impessoal.

Cleide Maria de Oliveira, em “Uma ascese aos avessos”, defende que a obra de Adélia Prado promove um processo de simultânea sacralização e erotização do corpo feminino, que se identifica com a humanidade de Cristo mas, por outro lado, repudia a negação ascética do corpo. Assim, termos tradicionalmente ligados à esfera transcendente são erotizados, desmontando uma hierarquia doutrinal estrita. Tal presentificação do corpo transfigura o banal e vislumbra epifanias poéticas, abrindo-se para o mistério da própria sensibilidade.

Nos artigos aqui presentes, vê-se o esforço dos autores de pensar como que elementos da mística tradicional permanecem nos anseios modernos, mas modificados ou por uma maior valorização da imanência, ou por um encontro diverso, aberto, singular, com a transcendentalidade. Ainda que haja uma certa identificação, em alguns casos, de escritores com a mística, ou uma diferenciação explícita de elementos e estruturas tradicionais, percebe-se de que modo diferentes pesquisadores buscam decifrar a maneira pela qual escritores modernos transformam a matriz tradicional e a subvertem ou a reatualizam.

De qualquer modo, a relação entre mística tradicional e traços místicos da modernidade não é fácil. É comum muitos desavisados caírem em polarizações estanques, subestimando os avanços dos místicos, superestimando o dos modernos. Por isso, para entender melhor a complexidade labiríntica das experiências extáticas dos modernos, na qual sempre nos perdemos, é preciso enfrentar a complexidade dos místicos, cuja suposta simplicidade sempre engana. Não há como ignorar o quanto a herança da mística vigora na temática, nos símbolos, na transgressão linguística, na obsessão pelo indizível, no anseio e na busca vital dos modernos.

É possível dizer que os escritores analisados seguiram uma curiosa máxima: para ser absolutamente moderno, é preciso ser minimamente místico.

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