Apresentação

Ricardo Pinto de Souza

Teoria Literária | Universidade Federal do Rio de Janeiro — Rio de Janeiro

ricardo.pintodesouza@gmail.com

A presente edição da revista Terceira Margem reúne artigos de Paulo Sérgio de Souza Jr, Plínio Fernandes Toledo, Miguel Vieira, Ernani Chaves, Anna Paula Lemos e duas resenhas, de André Rangel Rios e Ricardo Marques. É um número dedicado à crítica, seja ela teórica (Paulo Sérgio de Souza Jr, Plínio Toledo, Ernani Chaves), literária (Miguel Veiria, André Rios, Ricardo Marques), estética (Anna Paula Lemos). Apresentamos, então, um panorama bastante diverso da atividade crítica, com interesses e métodos diversos para tratar do fenômeno estético.

Paulo Sérgio de Souza Jr, em “Poesia e limite”, chama a atenção para a relevância, já na linguística clássica, da superação de um esquematismo binário, com Saussure insistindo na importância do poético para a compreensão da linguagem. Assim, o poético surge como elemento estruturante para a compreensão da própria linguagem – o que complica e torna problema a descrição. A resitência da poesia a um protocolo crítico rígido e a uma metalinguagem sem desvios, a dificuldade que há em tratá-la “de fora”, como objeto, ressaltaria exatamente um limite da linguística estrutural. Segundo Souza Jr

Assim, há diversos momentos em que o objeto se faz ver teimando em tomar as rédeas, ditar as regras e desmantelar o aparato descritivo que procura segmentá-lo e descrevê-lo — algo nele, por assim dizer, resistindo ao suposto exterior sugerido, muitas vezes, sob o título de uma metalinguagem.

Plínio Fernandes Toledo, em “O desvio em Debord e o ensaio como forma” faz a reflexão da tarefa e da estratégia dialética na obra de Debord, ampliando seu sentido e demontrando a unidade entre a forma do desvio e a dialética (com o desvio como modus privilegiado de exercício de pensamento dialético). Seria na forma do ensaio que a prática teórica debordiana se daria de maneira privilegiada. Segundo Toledo:

O método dialético, conforme exercitado por Debord, deve ser construído em divergência com as circunstâncias históricas burguesas, representadas teoricamente pelas ideologias de matriz positivista e estruturalista, que arrastam toda a tentativa revolucionária para a órbita do espetáculo aniquilando, ou melhor, neutralizando sua natureza insubmissa. Não há nenhum caminho prévio que se possa adotar como forma de orientar a consciência revolucionária. O caminho deve ser construído juntamente com as regras de articulação, no próprio processo, sempre complexo e difícil, de construção do texto desviante.

Migue Santos Vieira resgata a relação de S. de M. B. Andresen com a antiguidade clássica, especialmente a Grécia, ao longo da vida da autora em seu texto “A presença da mitologia clássica e pensamento filosófico no regresso à Grécia de Sophia M. B. Andresen”. Haveria na obra de Andresen a tentativa de fazer ressurgir o mito em sua plenitude temporal e ontológica, com a afirmação da circularidade do tempo, que deixa de ser progressivo, aproximando sua poética do projeto filosófico de Heidegger.

Em “Walter Benjamin: ver a catástrofe”, Ernani Chaves retoma o confronto crítico de Walter Benjaim com a psicanálise a partir de um fragmento contido em Infância berlinense por volta de 1900. Chaves lembra da centralidade de Para além do princípio do prazer para a obra de Benjamin e do sadismo na interpretação ferudiana, que estabelece um circuito de sentido entre pulsão de ver e de conhecer. A criança que vê a grande cidade plena de acidentes e rupturas (“catástrofes”) recebe de Benjamin o relevo de um sujeito de conhecimento distinto do tradicional, capaz, talvez, de dar conta de maneira mais peofunda da expriência moderna. Como podemos ler “[…] que a criança vê, o que ela torna visível em meio ao cotidiano da grande cidade moderna, não são os sinais evidentes do que chamamos “progresso” ou ainda do que é considerado “belo”. Ao contrário, o que ela vê, com alguma melancolia, é verdade, é a presença, por toda parte, da “infelicidade” (Unglück).”

Anna Paula Lemos aborda o filme felliniano em “Ginger e Fred — quando a luz se apaga no tempo espetacular”, tomando o pano de fundo do filme, a perda de espaço do cinema para a TV, como uma reflexão mais profunda sobre o espetáculo. O passeio pela indústria cultural e pelos cenários televisivos é entendida, então, como uma descida dantesca ao inferno, ao lugar do sempre mesmo, e, finalmente, à caverna platônica.

Em “A história continua — John Barth: meio século de pós-modernismo”, André Rangel Rios faz uma revisão da obra dos últimos anos do crítico e autor John Barth, célebre por propor a ideia de uma “literatura de esgotamento” (literature of replenishment). Acompanhamos a recapitulação da obra (meta-)ficional de John Barth desde seu início mais realista até os complicados artefatos pós-modernos e meta-narrativos da década de 1960. O mîse-en-abŷme, a pujança da criação conspícua de narrativas, surge como uma estratégia que se relaciona diretamente a uma das questões da Guerra Fria a que o pós-modernismo (com Barthes como um exemplar típico e modelar) faz crítica: a noção de que há um apocalipse iminente, refletindo-se no tema comum dos vários fins (do homem, da história, da metafísica) que são tematizados na teoria e nas humanidades da época. Nesta cena a obra On with the story surge como uma reafirmação, após e contra a obra O fim da história e o último homem, de Fukuyama, do credo pós-moderno da centralidade das narrativas na experiência humana.

Finalmente, Ricardo Marques apresenta uma resenha do livro de poemas Cotão, de Miguel Martins (&ETC, 2014), em que uma sensibilidade irônica, subversiva e crítica se apresenta poeticamente.

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