Sem a certeza da casa – morada e discurso em Lídia Jorge
DOI:
https://doi.org/10.35520/metamorfoses.2024.v21n01a62230Resumo
A casa é nosso canto do mundo, nosso primeiro universo, escreveu Bachelard (1993, p. 24). “Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. É corpo e é alma. É o primeiro mundo do ser humano” (Bachelard, 1993, p. 26). Na literatura, os diversos sentidos de casa foram explorados em diferentes níveis, estabelecendo relações profundas com seu interior, mas também com o exterior. As metáforas como lugar físico e como lugar em que se abriga a estrutura familiar estão presentes na literatura portuguesa que problematiza acerca do período salazarista e, refletindo, com isso, sobre uma herança patriarcal do país. Não à toa, como apontou Jorge Fernandes da Silveira, “[a] casa é cenário das questões-chave, ainda hoje, para a relação dos portugueses com a sua própria história, consigo mesmos” (1999, p. 15). Para nos aproximarmos dessas questões-chave, propomos realizar um exercício de diálogo com o texto de Mônica Figueiredo “A segunda morada: Vale da paixão, de Lídia Jorge”, que faz parte do livro No corpo, na casa e na cidade: as moradas da ficção. Seguindo os passos da autora, busca-se colocar em comparação o romance de Lídia Jorge, A manta do soldado, com um conto da mesma escritora, “Marido”, ambos publicados pela primeira vez em 1998. Mobilizamos ainda algo que se compreende aqui como um modelo para a casa portuguesa erguida sob os valores salazaristas, ideia que tão bem se apresenta no fado “Uma casa portuguesa”, conhecido na voz de Amália Rodrigues.
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