A Elegia no Canto IV da Eneida

Paulo Martins, Mariana Marchini Rodrigues

Resumo


No Canto IV da Eneida, Virgílio parece valer-se de tópicas do gênero elegíaco ao narrar o malfadado amor entre Dido e Enéias, inserindo-as dentro do gênero épico. Algumas características fundamentais do amante elegíaco, a saber, o furor pelo qual é tomado ao ser ferido pelas flechas do Cupido, a ócio dos amantes enquanto tais, a mala fama que advém desse amor, e, por fim, a condição misera na qual o amante se encontra, diante da qual é sempre feito um lamento, mostraram-se presentes na composição poética do Canto IV. Para além, então, de demonstrar como o gênero épico, sem perder seu rigor formal, subsume outros gêneros, neste caso o elegíaco, este artigo também procura observar como esta operação acaba por servir tanto ao propósito intranarrativo como extranarrativo de Virgílio ao escrever sua Eneida. No primeiro caso, se lembrarmos que os cantos I ao VI ocupam-se da construção do ἦθος heroico de Enéias, a recusa do herói em permanecer com a rainha confirma, mais uma vez, seu destino, que é a fundação de Roma, destino esse que é próprio de um herói épico -- e não de um amante elegíaco. Já no segundo caso, é necessário, primeiro, ter em mente a intenção de Virgílio ao compor a Eneida, que é a inserção da história de Roma no mito, o qual, vale lembrar, é a matéria narrativa do próprio poema épico. Dessa forma, o abandono de Dido e a imprecação que a rainha realiza dos versos 590-640 é utilizada pelo poeta para justificar, ainda que ironicamente, a rivalidade e violência dos cartagineses contra os romanos nas Guerras Púnicas, colocando-as como resultado da frustração amorosa de uma mulher.

Palavras-chave


Eneida; Canto IV; Virgílio; Épica; Elegia; Amor

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