Chamada para submissão de artigos para o número 52 de Arte & Ensaios
Arte e distâncias
“Aparentemente imagem e mundo se encontram no mesmo nível do real; são unidos por cadeia ininterrupta de causa e efeito, de modo que a imagem parece não ser símbolo e não precisa de deciframento.” Essa frase parece descrever com precisão a atualidade. O filósofo Vilém Flusser a escreveu em Filosofia da caixa preta, e falava sobre a fotografia. Agora, com a IA, não só a imagem, mas também o discurso articulado está sendo nivelado com o mundo. O que parece ser eliminado nesse encurtamento progressivo do intervalo entre o mundo e sua produção simbólica pelos Grandes Modelos de Linguagem (LLM, na sigla em inglês) da IA é a ideia de distância.
A equiparação de arte e vida, que pertencia ao horizonte utópico em tempos analógicos, em tempos de digitalização da intuição pode soar inócua. Se a imagem, o tempo e o discurso não podem ser desfiados do tecido do real a pergunta que deve ser feita é: onde está a distância na arte? Da superação da contemplação que a aproximou do mundo da vida até o presente que já foi chamado de a era do literal, a proposta temática do próximo número de Arte & Ensaios é refletir sobre a ideia de distância na cultura do instantâneo, como uma forma mesma do instante – um presente dissonante, contraditório, lacunar, transitivo, autodiferencial. A distância como um instante – uma instância – de qualidade transformadora.
Se o suposto nivelamento da imagem e da palavra ao real é ilusão e, mais do que isso, tende à polarização, ao fanatismo e ao discurso de ódio, por outro lado o único instante a que verdadeiramente temos acesso não seria aquele que nos abre simultaneamente à distância e ao intervalo? Pairar sobre esse paradoxo, que permite aproximar o que está longe e afastar o que está perto, não é a experiência de suspensão proporcionada pela arte da qual “voltamos” transformados?
Prazo para entrega de artigos: até 10 de agosto de 2026.