CHAMADA: Chamada para ARTIGOS Arte & Ensaios nº 41 - PÚBLICA

Cânones em rotação

 

No primeiro século da idade moderna, o senhor de Montaigne constatava um mundo em balanço. “Todas as coisas nele oscilam sem cessar: a terra, as rochas do Cáucaso, as pirâmides do Egito.” De lá para cá, enfrentamos movimentos tectônicos de grande magnitude.

 

Entre os mais recentes, em março de 2020, fomos surpreendidos pela eclosão de uma epidemia global que continua a fazer centenas de milhares de vítimas ao redor do planeta, sem que se tenha ainda uma perspectiva segura de superação de seu potencial letal. Como um de seus impactos imediatos, experimentamos uma radical virtualização das relações e modos de ação.

 

Num primeiro momento, o advento da Covid-19 foi percebido por alguns como possível brecha para revisões de uma ordem social cruel, estabelecida há décadas por políticas neoliberais. Mas logo se constataram os efeitos do acirramento dos interesses oportunistas do status quo, impulsionados pela ascensão de movimentos e governos de extrema-direita, virulentos e negacionistas.

 

Hoje podemos dizer, sem muita margem de erro, que a catástrofe contemporânea segue seu curso, largamente sedimentada por cinco séculos de exploração colonial e especialização genocida, plasmando múltiplas aberrações sociais, políticas, ambientais e estéticas. 

 

Diante de tais urgências, torna-se impossível ignorar vozes que se fazem audíveis em meio a esforços vigorosos de pensamento e ação em favor da vida. Especialmente no Brasil, intelectualidades ainda minoritárias – negras, indígenas, femininas, trans, periféricas, dissidentes – confrontam hegemonias tóxicas de longa data, produzindo choques de reconhecimento do presente e fazendo valer a máxima de Millôr Fernandes: “O Brasil tem um passado enorme pela frente.”

 

Para o próximo número da Revista Arte&Ensaios propomos a ampliação das discussões sobre os modos pelos quais essas questões reverberam no campo da arte a partir de quatro tópicos:

 

1. Devoração dos cânones; resgates históricos; monumentos em disputa.

2. Economias dissidentes; alianças éticas e estéticas; lugar(es) da arte.

3. Insurreições lexicais; reversões epistêmicas; novas inscrições vocabulares.

4. Deslocamentos cosmopolíticos e cosmopoéticos; reconfigurações de corpo, presença, espaço, tempo.

 

 

 

Os editores

Livia Flores e Tadeu Capistrano