A "Fórmula de Pathos" de Warburg nos contextos Psicanalítico e Benjaminiano

Adi Efal

Resumo


Neste artigo publicado em 2000 na Revista da Universidade de Tel-Aviv, Adi Efal confrontou conceito warburguiano de Pathosformel a conceitosfreudo-lacanianos relativos à memória e ao conceito benjaminiano de alegoria, em uma aproximação de fundamentos epistemológicos e operatividade teórico-metodológica, que ilumina o atual retorno a Warburg na história da arte.


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Referências


“Você vive e não me faz mal” (GOMBRICH, E. H. Aby Warburg: An Intellectual Biography. London: The Warburg Institute, 1970:71)

“É característico da mentalidade mitopoética (cf. Vignoli, Myth and Science) que para qualquer estímulo, seja ele visual ou auditivo, uma causa biomórfica de natureza definida e inteligível é projetada de modo às capacidades da mente tomarem medidas defensivas [...] Esse tipo de reação defensiva por meio do estabelecimento de uma ligação entre o sujeito e o objeto com seres de máximo poder que podem, ainda, ser abarcados em sua extensão, é o ato fundamental da luta pela existência [...] Essa pode ser compreendida como uma medida defensiva na luta pela existência contra inimigos vivos, que a memória, em um estado de incitação fóbica, tenta compreender em sua mais distinta e lúcida configuração, enquanto também avalia seu pleno poder de modo a tomar as mais efetivas medidas defensivas. Essas tendências estão sob o limiar da consciência. A imagem substituta objetiva o estímulo causando a impressão e cria uma entidade contra a qual defesas podem ser mobilizadas.” (WARBURG apud GOMBRICH, 1970:217)

"Meu ponto de partida é que vejo o homem como um animal que usa ferramentas, cuja atividade consiste em conectar e separar. Nesta atividade, ele está apto a perder a sensação orgânica do ego. A mão permite a ele manipular coisas que, como objetos inanimados, não possuem sistema nervoso, mas que, mesmo assim, proporcionam uma extensão material do ego (...) aí existe, de fato, uma situação na qual o homem pode ser assimilado por algo que não é precisamente ele próprio ao manipular objetos que sua corrente sanguínea não alcança …". (WARBURG apud WIND, E. Warburg's Concept of Kulturwissenschaft and its Meaning for Aesthetics. In: The Eloquence of Symbols: Studies in Humanist Art. Oxford: Clarendon Press, 1980:31-32; GOMBRICH, 1970:221)

"Quem, então, é a Ninfa? Como um ser real de carne e osso, ela pode ter sido uma escrava liberta da Tartária (…) mas em sua verdadeira essência ela é como uma elfa elemental, uma deusa pagã no exílio" (apud GOMBRICH, 1970:124)

“Dürer reduziu a Saturno um demônio inócuo por meio da obra ativa da razão. (…) O que Melancolia toma em suas mãos não é a baixa e servil espada -- como Saturno usou para tomá-la (…) -- mas o compasso do gênio criativo. Júpiter, magicamente invocado, vem ajudá-la com seus efeitos apaziguadores e benéficos sobre Saturno. Na gravura, a salvação do homem por meio do aspecto neutralizador de Júpiter já se tornou um fato.” (Ges. Schr. II:530-531 apud GOMBRICH, 1970:213)

“A consciência herdada das impressões maximizadas estampadas na mente (engrama) é transferida, sem tomar conhecimento da direção de sua carga emocional, simplesmente como uma experiência das tensões de energia; esse continuum não-polarizado pode também funcionar como continuum. A transmissão de um novo significado para essas energias serve como uma tela protetora.” (Journal, VII, 1929:255 apud GOMBRICH, 1970:249)

“... O conceito de uma "tela de memória " [é aquele] que deve seu valor como uma memória não por seu próprio conteúdo, mas por uma relação existente entre esse conteúdo e um outro, que foi suprimido. (...) Entre uma grande quantidade de memórias de infância de experiências significativas, todas elas de similar distinção e clareza, haverá algumas cenas que, quando são testadas (...), vêm a ser falseadas. Não que elas sejam completas invenções; elas são falsas no sentido de terem se deslocado um evento para onde ele não ocorre -- (…) elas servem aos propósitos da repressão e substituição de impressões desagradáveis ou censuráveis (…), pode-se, de fato, questionar se temos quaisquer memórias provenientes da infância.” (FREUD, S. Screen Memories (1899). In: J. Strachey, A. Freud, A. Strachey, A. Tyson (eds.) The Standard Edition of the Complete Psychological Works. London: Hogarth Press, v. 3, 1953-74a:320-322)

"não há, em geral, garantia dos dados produzidos por nossa memória" (FREUD, 1953-74a:315)

“(…) A memória psicanalítica de Freud trata de (...) algo completamente inacessível à experiência (…) A memória freudiana não está localizada ao longo de uma espécie de continuum da reação à realidade considerada como uma fonte de excitação (…) O que é essencialmente novo em minha teoria, diz Freud, é a reivindicação de que a memória não é simples, ela é registrada de várias maneiras. (…) Sabe-se há muito tempo que os fenômenos da consciência e da memória se excluem mutuamente. (…) No início do circuito da apreensão física há percepção. Esta percepção implica consciência. (…) Entre a Wahrnehmung (percepção) essencialmente efêmera que desaparece tão rápido quanto aparece, e a constituição do sistema da consciência e, mesmo nesse estágio, do ego (…) deve-se assumir uma anterioridade e, ainda que parcialmente, uma organização de linguagem para que memória e historicização funcionem. Os fenômenos da memória que interessam a Freud são sempre fenômenos de linguagem. Em outras palavras, algo já teve que ter material significativo para fazer com que algo signifique.” (LACAN, J. Seminar 3: the Psychoses. New York and London: Norton,1993:152, 181)

“(…) a impressão do mundo externo como bruto, original, primitivo, está fora do campo que corresponde à experiência notável, a saber, aquela que está efetivamente inscrita em algo que (…) Freud expressa no início de seu pensamento como Niederschrift [inscrição], algo que se apresenta não simplesmente em termos de Prägung [estampa] ou de impressão, mas no sentido de algo que faz um signo e que é da ordem da escrita.” (LACAN, J. Seminar 2: the Psychoses. New York and London: Norton,1992:50)

“Poder-se-ia supor que a opacidade do trauma -- como ele foi mantido em sua função inicial pelo pensamento de Freud, ou seja, em meus termos, sua resistência à significação -- é, pois, especificamente responsável pelos limites da rememoração.” (WARBURG apud GOMBRICH, 1970:220)

“Originalmente a integração contextual da arte na tradição encontrou sua expressão no culto. Sabemos que as obras de arte mais antigas originaram-se no serviço do ritual -- primeiro o tipo mágico, depois o religioso. É significativo que a existência da obra de arte no que concerne à sua aura nunca seja inteiramente separada de sua função ritualística. Em outras palavras, o valor singular da obra de arte autêntica tem sua base no ritual, o lugar de seu valor de uso original. (...) A base ritualística, por mais remota que seja, é ainda reconhecível como ritual secularizado mesmo nas mais profanas formas de culto da beleza.” (BENJAMIN, W. Illuminations, H. Arendt (ed.), New York: Harcourt, Brace & World, 1968:224)

“a unidade do objeto material e do transcendental, que constitui o paradoxo do símbolo teológico, é distorcida em uma relação entre aparência e essência. A introdução dessa concepção distorcida de símbolo na estética foi uma extravagância destrutiva e romântica (…). Como um construto simbólico, a beleza se uniria ao divino em um todo indiviso.” (Apud ROCHLITZ, R. The Disenchantment of Art: The Philosophy of Walter Benjamin. New York and London: The Guilford Press, 1996:100)

“A melancolia portava no século XIX um caráter diferente, contudo, do que teve no XVII. A figura chave da primeira alegoria é o cadáver. A figura chave da alegoria posterior é a “lembrança” (souvenir). A lembrança é o esquema da transformação da mercadoria em um objeto de colecionador.” (BENJAMIN, W. Central Park. In: New German Critique, 1985, 34:54-55)

“[A visão alegórica é sempre fundada sobre] um mundo fenomenal desvalorizado. A desvalorização específica do mundo das coisas que pode ser encontrada na mercadoria é a base para a intenção alegórica em Baudelaire […] O corpo inanimado, ainda oferecido ao prazer, une alegoria e mercadoria.” (Apud ROCHLITZ, 1996: 205-206)

“Tornar-se consciente e deixar para trás um vestígio de memória são processos reciprocamente incompatíveis no interior de um mesmo sistema. Ou melhor, fragmentos de memória são “frequentemente mais poderosos e duradouros quando o incidente que os deixou para trás nunca ingressou na consciência”. Colocado em termos proustianos, isso significa que apenas o que não foi experimentado explícita e conscientemente, o que não aconteceu para o sujeito da experiência, pode se tornar um componente da mémoire involuntaire.” (BENJAMIN, 1968:159-160)

“A memória não é nada além da coleção daqueles stimuli que foram respondidos pelas declarações vocais (discursos abertos ou internos). Portanto, considero uma descrição das aspirações de minha bibliotecai a formulação: uma coleção de documentos relacionando a psicologia da expressão humana. A questão é: como as expressões humana e pictórica se originaram; quais são os sentimentos ou pontos de vista, conscientes ou inconscientes, sob os quais são armazenadas nos arquivos da memória? Há leis que governam sua formação ou reemergência?

“O significado de minha biblioteca deveria servir para responder a questão que Hering formulou tão habilmente como “memória como matéria organizada”; ela também deveria fazer uso da psicologia do homem primitivo -- que é o tipo de homem cujas reações são reflexos imediatos ao invés de respostas literárias -- e também ter em conta a psicologia do homem civilizado que conscientemente recorda a formação estratificada de seu ancestral e suas memórias pessoais. Com o homem primitivo, a imagem de memória resulta em uma incorporação religiosa das causas, com o homem civilizado, na separação por meio da denominação.” (WARBURG apud GOMBRICH, 1970:222)

“…história é não apenas uma ciência, mas também uma forma de rememoração. O que a ciência estabeleceu, a rememoração pode modificar” (BENJAMIN, 1989:61)

“não é que o passado lance sua luz sobre o presente ou o este sobre o passado: ao invés disso, uma imagem é aquilo no qual o agora e o depois se constelam como um flash de iluminação” (BENJAMIN, W. N (Re the Theory of Knowledge, Theory of Progress). In: G. Smith (ed.) Benjamin: Philosophy, Aesthetics, History. Chicago: University of Chicago Press, 1989:49)

“Articular o passado historicamente não significa reconhecer “o modo em que realmente aconteceu” (Ranke) (BENJAMIN, 1968:255)


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