Ruína em regeneração

Autores

DOI:

https://doi.org/10.60001/ae.n51.1

Palavras-chave:

ruínas, arte e arquitetura, regeneração

Resumo

Apresentamos o número 51 da Arte & Ensaios, com importante notícia: a revista recebeu conceito A1 na última avaliação Qualis Capes, relativa ao período 2021-2024. Esse fato é resultado do empenho de todas as pessoas que contribuem e contribuíram com a revista, desde as que a editaram e participaram da equipe ao longo dos anos até as que compõem o corpo de avaliadores ad hoc, cuja colaboração é fundamental para manter a qualidade dos artigos publicados. Nosso muito obrigado a vocês que participam da produção da revista e às pessoas leitoras, que são o destino e motivo principal da sua existência.

Aproveitamos para homenagear o colega, parecerista e colaborador da revista, Alexandre Sá que nos deixou recentemente. Sua sabedoria e paixão pelo que fazia deixarão saudades em todos nós.

O tema que guia esta edição, Ruínas em regeneração, articula arte e arquitetura diante das ruínas físicas e metafóricas que marcam a paisagem de nossos tempos calamitosos. Parte-se, assim, da urgência de pensar novas ações colaborativas no fluxo entre essas duas disciplinas, cuja separação, consolidada institucionalmente ao longo da modernidade, tem se mostrado cada vez mais insuficiente para responder à complexidade dos problemas contemporâneos. A edição de modo geral reflete o diálogo entre elas, com olhares do campo da arte para a arquitetura e, em outros momentos, o oposto: práticas arquitetônicas que se inserem no campo artístico ou que propõem respostas práticas desde o campo da arquitetura para as urgências atuais.

Diretamente vinculada a esse trânsito, a entrevista de capa é com a artista espanhola Lara Almarcegui, primeira artista estrangeira a ser entrevistada pela equipe da Arte & Ensaios, estando sua atuação artística diretamente implicada na crítica à arquitetura como instância disciplinadora na produção espacial e como parte da manutenção dos processos extrativistas que exaurem a crosta terrestre. Partindo da atenção aos materiais que compõem os edifícios e da arbitrariedade do planejamento urbano capitalista, a artista vem demonstrando cada vez mais preocupação ecológica frente à emergência climática, uma das agendas que guiou a conversa. Cumpre aqui destacar o papel da equipe de entrevistadoras, por sinal quase todas elas arquitetas, cujas pesquisas e atuações se dão no campo das artes visuais ou no trânsito entre as disciplinas. A elas nosso muito obrigado pela generosidade em dedicar seu tempo a esta conversa que mais uma vez marcará história na Arte & Ensaios. Muito nos orgulha também a possibilidade de divulgar para o público brasileiro o trabalho de Almarcegui, poucas vezes exposto por aqui.

O dossiê temático, organizado pelo editor André Leal, apresenta algumas produções que transitam entre a arte e a arquitetura, duvidando de suas separações rígidas e se aproveitando do melhor de cada disciplina para enfrentar os problemas estéticos e ecológicos atuais. Como afirma o organizador, há um espelhamento entre práticas artísticas que se dirigem à arquitetura, como a de Almarcegui, e as que desde a arquitetura se dirigem às artes visuais, como a dos arquitetos cubanos do escritório Infraestudio. Tal espelhamento dá a ver as interlocuções e colaborações possíveis entre as duas disciplinas. As outras produções reunidas no dossiê também trazem diferentes maneiras de atuar, interdisciplinarmente, frente às ruínas que se amontoam ao nosso redor.

Os artigos submetidos à chamada temática também refletem uma pluralidade de atuações que vão desde as mais especulativas e fabulatórias até as mais ligadas a ações de restauro arquitetônico propriamente. São textos que divulgam práticas artísticas, pedagógicas e arquitetônicas implicadas na arte de viver nas ruínas, das quais nos fala Anna Tsing. O debate relativo ao Antropoceno, derivas artísticas no campus do Fundão e na Argentina também são alguns dos temas levantados pelas pessoas autoras, via experiências nos campos artístico e arquitetônico, delas próprias ou de artistas e arquitetos relevantes do circuito contemporâneo.

Esta edição traz ainda duas traduções de importantes textos para o debate artístico contemporâneo. Colonialidade póstuma e (pós-)vida decolonial: reparação interminável e remediações (im)possíveis, da antropóloga italiana e professora da Academia de Belas Artes de Nápoles Giulia Grechi, debate, escrita ácida e mordaz, o colonialismo e racismo que subjazem aos museus europeus e suas coleções. Superfícies iridescentes: reflexões sobre arte e petróleo, da pesquisadora canadense Heather Davis, professora de cultura e mídia da The New School, de Nova York, explora as relações nada fáceis entre arte e petróleo, expondo as contradições do campo da arte que dependem dos combustíveis fósseis para sua produção, exposição e circulação.

Este número da Arte & Ensaios também marca o fim da editoria de André Leal e Felipe Scovino, que passam o bastão, após três edições, para os professores Teresa Bastos e Fernando Gerheim, que certamente atuarão com afinco para manter a qualidade editorial da revista. Só temos a agradecer pelos últimos anos de trabalho e parceria, com gratidão por termos atuado no campo da difusão e do conhecimento em artes no Brasil.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

André Leal, Universidae Federal do Rio de Janeiro

É pós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais-EBA-UFRJ e editor de Arte&Ensaios.

Felipe Scovino, Universidade Federal do Rio de Janeiro

É professor de história da arte contemporânea no Departamento de História e Teoria da Arte e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Downloads

Publicado

10-09-2026