“Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão”: o luto rasurado em Lady Tempestade
Resumo
O artigo analisa a peça Lady Tempestade, de Sílvia Gomez, concebida a partir dos diários de Mércia Albuquerque Ferreira, advogada militante que atuou na defesa de presos políticos durante a ditadura civil-militar brasileira. Discute-se que a adaptação teatral não funciona como simples ilustração documental, mas como recriação performativa do testemunho, na qual a memória íntima é convertida em ato público de rememoração coletiva. O conceito central de “rasura” (apagamento, risco, censura e lacuna) é interpretado como escolha estética e política que traduz trauma, resistência e os limites da linguagem diante da violência histórica. A encenação, mediada pela atuação de Andréa Beltrão e pela direção de Yara de Novaes, evidencia fragmentações, silêncios e repetições como dispositivos para elaborar o luto e reinscrever o passado no presente, produzindo uma “estética das ruínas” orientada à responsabilidade histórica.
Palavras-chave: escrita de si; testemunho; trauma cultural; memória coletiva; literatura brasileira contemporânea.
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