Kant e o estatuto dos milagres

Juan A. Bonaccini

Resumo


Sabe-se que o estatuto e a crença em "milagres" têm sido objeto de disputas e controvérsias na história da filosofia moderna, mas geralmente se ignora que Kant elaborou uma teoria bastante idiossincrática acerca dos milagres.As poucas menções que se encontram na literatura evidenciam um status quaestionis que ora equipara e assimila a posição de Kant à de Hume, com base numa análise que privilegia certa interpretação da sua epistemologia (Peddicord, 2001), ora reconhece algumas diferenças entre ambas as posições, mas tomando como base apenas a crítica kantiana da religião (Nuyen, 2002). Nesse contexto, meu objetivo central é apresentar, discutir e avaliar a viabilidade da teoria kantiana dos milagres. Em primeiro lugar,argumento que tanto aqueles que defendem que Kant acreditava em milagres (ou teria defendido a crença em milagres), como Nuyen (2002), quanto os que sustentam que para Kant milagres são impossíveis, como Peddicord (2001), devem enfrentar evidência textual contrária a sua posição. Em segundo lugar, destaco e analiso algumas passagens naReligião para mostrar (contra Nuyen) que quando Kant fala sobre os milagres é claramente negativo quanto a sua credibilidade;  e (contra Peddicord), que nem por isso quer dar a entender que milagres seriam impossíveis em si mesmos. Na terceira e última parte do estudo proponho analisar e discutir algumas passagens pouco conhecidas das Preleções de Metafísica para mostrar que Kant sustenta uma concepção não-humeana acerca dos milagres, a qual, não obstante, é diferente daquela de Baumgarten e constitui um aperfeiçoamento do tratamento coetâneo naReligião, porque não apenas deixa explicitamente aberta a possibilidade lógica dos milagres, mas também autoriza admitir "milagres" do ponto de vista prático. No final, defendo que essa abordagem dos milagres é compatível com uma reconstrução do Idealismo transcendental.

 

Abstract:

It is well known that both status and belief in "miracles" have been subject to disputation and controversy in the history of modern philosophy and ideas, but it is usually ignored that Kant developed a quite idiosyncratic theory of miracles. The few references in literature show a rather controversial picture: either one assimilates Kant´s position to Hume´s rejection of miracles based on a certain interpretation of critical and pre-critical texts (Peddicord 2001), or one recognizes differences between both Kant and Hume conceptions based only on Kant´s (Nuyen 2002). I take position in the debate and my main purpose is to present, discuss and evaluate the feasibility of Kant´s theory of miracles. First, I analyze the available evidence and arguments for both parties and suggest that both those who argue that Kant believed, or defended belief in miracles, as Nuyen, and those who argue that for Kant miracles are impossible, as Peddicord, must face textual evidence contrary to their position. Second, I highlight and analyze a few key passages in theReligion and argue, first, that Kant is here against the credibility or belief in miracles; and second, that he does not imply to mean that miracles are in themselves impossible. In the third part of my study I analyze and discuss crucial passages in the Metaphysics Lectures and suggest that Kant defends a non-Humean conception of miracles, which nevertheless is different from that of Baumgarten and improves his treatment in the Religion. Moreover, I suggest that Kant not only leaves explicitly open the logical possibility of miracles, but also allows for admitting "miracles" from the practical standpoint. In the end, I argue that this approach of miracles is compatible with transcendental idealism.

Recebido em 08/2012
Aprovado em 10/2012

 


Palavras-chave


Kant; Milagres; ordem da natureza; Hume; Religião, Preleções de Metafísica; Kant-Forschung; Miracles; Order of Nature; Hume; Religion; Lectures on Metaphysics; Kant-Forschung

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DOI: https://doi.org/10.35920/arf.2011.v15i2.39-93



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ISSN 1414-3003, Qualis A2

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