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2013

v. 17, n. 2 (2013): Analytica: 20 Anos

Com o presente número comemoramos vinte anos de existência da revista Analytica. Aproveitemos esta data para refletir sobre o passado e nos aconselharmos sobre o futuro que se abre à nossa frente.

Analytica nasceu, vale a pena lembrar, em um momento bem diferente daquele em que agora vivemos. Os cursos de pós-graduação em filosofia davam os seus primeiros passos e, com eles, começava a crescer e se organizar o que já se podia chamar de uma comunidade filosófica brasileira. A ditadura militar que então chegava ao fim lançava ainda sua sombra sobre a universidade e a cultura brasileira em geral; nossa incipiente comunidade dividia-se em dois grupos antagônicos. De um lado, aqueles que viam na filosofia antes de mais nada um instrumento para a crítica social e o engajamento político; do outro, aqueles que, sem abandonar a oposição à ditadura, preferiam na filosofia dedicar-se aos temas clássicos como objeto de uma atividade eminentemente teórica e acadêmica. Naturalmente, ambas as visões da filosofia eram legítimas e podiam perfeitamente coexistir, como de fato aconteceu, e é difícil compreender sem contextualizar por que a comunidade filosófica brasileira viveu tão intensamente essa divisão. Em todo o caso, foi nesse contexto atravessado por tensões e anátemas recíprocos que um grupo de professores, que já há algum tempo se reuniam no Rio e Porto Alegre em colóquios promovidos pelo Seminário Filosofia da Linguagem, no Rio e, em Porto Alegre, pelo Seminário Lógica e Ontologia, dos quais também participavam professores de São Paulo, decidiu fundar uma revista com o objetivo de promover o estudo acadêmico e a discussão dos temas clássicos da filosofia.

Para essa revista escolheu-se o nome de “Analytica” não porque quiséssemos privilegiar a escola filosófica que tem esse nome, mas porque, como foi enfatizado na apresentação do número inaugural da revista, víamos na análise conceitual o traço distintivo da filosofia em geral em face das ciências empíricas e das matemáticas e que, de uma ou de outra maneira, está presente ao longo dos séculos nos mais diversos sistemas e doutrinas filosóficas, mesmo que não seja ele o único a dar a cada qual sua feição particular.

Aberta a todos os temas e orientações, a revista recusou também desde o início a falaciosa divisão entre Filosofia e História da Filosofia, pois estávamos convencidos de que qualquer análise filosófica está inserida na tradição filosófica e de que isso é uma das razões para que um texto seja considerado filosófico. Por isso, Analytica abria suas páginas a todos os textos consagrados à análise crítica de temas e obras de filósofos clássicos, modernos ou contemporâneos, ou destinados à expressão do ponto de vista pessoal do autor sobre qualquer questão filosoficamente relevante. Única exigência, que até hoje se mantém, era que os textos tivessem um caráter argumentativo e dessem alguma contribuição, por pequena que fosse, para o avanço da pesquisa e da discussão atual entre os especialistas.

Perseguíamos com a revista Analytica um duplo objetivo. Um era incentivar a produção de textos de qualidade acadêmica comparável ao das melhores revistas internacionais. O outro, promover o diálogo e a discussão entre os autores e assim contribuir para a formação de um público filosófico brasileiro, atento bem entendido para o cenário internacional, mas recusando-se a jogar um papel epigonal e confiante de poder dar uma contribuição original à discussão dos temas da filosofia.

A importância que dávamos à formação de um público filosófico no Brasil explica duas decisões tomadas. Primeiro, a de dar ênfase à publicação de textos discutidos em seminários e colóquios. Segundo, a decisão de publicar unicamente em língua portuguesa. A primeira decisão entende-se facilmente e nunca foi questionada. A segunda, porém, não só já sofreu uma e outra exceção, abertas por razões circunstanciais, mas tem sido repetidamente posta em questão, sobretudo em um momento histórico em que os editores de revistas filosóficas não só no Brasil, mas também na Europa, sofrem pressões para publicar preferencialmente em inglês, como uma condição para serem bem avaliadas pelas agências de fomento à pesquisa.

O primeiro objetivo, qual seja, incentivar a produção de textos de qualidade acadêmica comparável ao das melhores revistas internacionais, estamos confiantes de ter atingido. Um índice objetivo disso é o fato de a revista ter sido sempre bem avaliada por juízes competentes, o que demonstra que foi reconhecida a qualidade dos artigos nela publicados. Um índice mais subjetivo é o renome da revista e o respeito de que goza entre os pesquisadores brasileiros.

Porém, será o segundo objetivo, o de publicar em língua portuguesa a fim de contribuir para a formação de um público filosófico brasileiro, ainda pertinente? O inglês parece ter se tornado, como o latim na Idade Média, a língua franca do debate científico. As agências de fomento, não apenas no Brasil, mas também na Europa, qualificam as revistas ditas “internacionais” num nível superior às “nacionais” e tendem a identificar como “internacionais” as revistas que publicam preferencial ou exclusivamente em inglês. Não será isso uma razão para relativizar, senão abandonar, o objetivo de publicar majoritariamente textos em português? Essa questão está em aberto e merece ser aprofundada entre os todos os interessados na sobrevivência da revista Analytica. No interesse de aprofundar a questão gostaríamos de fazer as seguintes considerações. Primeiro, a linguagem natural tem para a filosofia uma importância que não tem para as ciências exatas e a lógica, que usam uma linguagem matemática. Com efeito, não só os conceitos temáticos da filosofia, mas também os conceitos operatórios, inventados pelo filósofo a fim de aclarar os conceitos que são o tema de sua reflexão, são formulados a partir de recursos fornecidos pela linguagem natural. Donde a importância que o português, como o inglês e qualquer outra língua, tem como instrumento da reflexão filosófica, bem como a vantagem que o falante nativo possui sobre os demais quando escreve em sua língua.

A segunda consideração é a importância que a preservação de um público filosófico lusófono para evitar que a inserção dos filósofos brasileiros na discussão internacional se faça de maneira individual, epigônica e periférica. Só a publicação de revistas e livros filosóficos em português cria um espaço em que os pesquisadores brasileiros possam discutir e dialogar entre si, a fim de evitar que se tornem apêndices isolados e distantes de uma discussão travada no essencial longe de nossas fronteiras, cuja agenda não estabelecem, mas à qual se subordinam inevitavelmente.

Finalmente, queremos considerar a possibilidade de que a desvalorização da língua portuguesa como instrumento da reflexão filosófica repouse sobre pressupostos falsos. Com efeito, a ideia de que o inglês tenha se tornado a língua franca para a filosofia, como o era o latim durante a Idade Média, precisa ser retificada. É preciso levar em conta que, durante a Idade Média, o latim não concorria com nenhuma outra língua culta. Ora, isso contrasta não só com a Antiguidade greco-romana, na qual o grego veio a sofrer a concorrência do latim (graças aos esforços de Cícero), mas, sobretudo, com os tempos atuais, em que o inglês sofre, não na ciência, admitamos, mas na filosofia e nas humanidades em geral, a concorrência de outras línguas cultas, como o alemão e o francês. Por isso mesmo, não há razão válida para supor que outras línguas cultas, como é o caso do nosso português, bem como do espanhol e do italiano, não possam concorrer com o inglês, como instrumento da pesquisa filosófica.

É por essas razões que permanecemos fiéis ao nosso propósito inicial de publicar preponderantemente artigos em língua portuguesa. Nos últimos anos passamos a aceitar, contudo, também artigos em língua inglesa e espanhola, basicamente em função da criação de uma versão eletrônica da revista, o que possibilitou sua difusão para além das fronteiras nacionais. Continuaremos no futuro a publicar eventualmente artigos nessas línguas, não pretendendo, entretanto, transformarmo-nos em um revista brasileira de língua estrangeira.

Os editores










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