QUESTÕES DE GÊNERO, QUESTÕES DE SI: CORRESPONDÊNCIAS DE GABRIELA MISTRAL E VICTORIA OCAMPO

Ana Beatriz Mauá Nunes

Resumo


Este artigo tem como objetivo refletir sobre os debates travados entre Gabriela Mistral e Victoria Ocampo em torno das identidades latino-americanas em suas correspondências, trocadas entre 1926 e 1956. A questão das identidades hispano-americanas foi um ponto central em seu diálogo epistolar e suscitou profundas tensões entre as escritoras, quepossuíam entendimentos opostos sobre o tema. Tanto os sentidos da formação identitária latino-americana, quanto as suas responsabilidades individuais perante o desenvolvimento de seus países de origem eram percebidos de maneiras diversas. O único ponto de convergência era o entendimento de que todos os nascidos na América Latina compartilhariam o sentimento denominado de americanidad, proporcionado pelo passado comum de dominação colonial ibérica. Este conceito, entretanto, não era precisamente delimitado e os esforços para caracterizá-lo ocasionavam profundos dissensos. Enquanto Mistral advogou fervorosamente pela emancipação dos povos indígenas e pela questão agrária, Ocampo direcionou sua atuação para a construção de diálogos intelectuais e econômicos com o Velho Mundo, os quais seriam necessários para o desenvolvimento material e espiritual deseu país. O pensamento político de Gabriela Mistral está substancialmente caracterizado pela defesa do indigenismo, pela proposição de reformas agrárias e pela necessidade de afirmar a identidade latino-americana em contraposição à dominação europeia e estadunidense. Para Victoria Ocampo, as temáticas mais pungentes em seus escritos estão relacionadas à reivindicação das Américas enquanto espaço primordial de troca constante entre o nacional e o universal.

Palavras-chave


identidades latino-americanas; Gabriela Mistral; Victoria Ocampo;

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