Limpar a poeira do esquecimento:
a escrita da memória na literatura de Mia Couto
DOI:
https://doi.org/10.35520/metamorfoses.2025.v22n02a69067Resumo
O romance A cegueira do rio, de Mia Couto, publicado em 2024, encena uma escrita da memória marcada por camadas de esquecimento, apagamentos e reinvenções simbólicas do passado. A obra constrói uma tessitura narrativa em que as vozes silenciadas, sobretudo das mulheres e dos povos tradicionais, emergem para confrontar as histórias oficiais e coloniais. O rio, elemento simbólico que atravessa o texto, opera como metáfora das fronteiras políticas, culturais e subjetivas que, ao invés de separar, unem as margens de uma mesma memória ancestral. Nesse contexto, a escrita de Mia Couto busca “limpar a poeira do esquecimento” ao resgatar fragmentos de histórias enterradas, reconstruindo sentidos a partir do vestígio, da oralidade e da experiência vivida. A memória, aqui, não é um depósito fixo de lembranças, mas um campo de disputas e revisitações. O narrador, ao vasculhar o passado da região e de seus habitantes, reconfigura identidades individuais e coletivas em um tempo que é ao mesmo tempo mítico, histórico e poético. A escrita torna-se, assim, uma forma de resistência contra o esquecimento imposto pela colonização, pelas guerras e pelos regimes autoritários. Nesse processo, Mia Couto desafia a linearidade cronológica e explora a linguagem como território de travessia entre o real e o imaginado. A cegueira do rio propicia, portanto, uma reflexão crítica sobre o poder de recordar, denunciar e reinventar a partir dos escombros do silêncio, afirmando a literatura como instrumento vital de construção e preservação da memória social e afetiva.
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