Signos indisciplinados: orientações escalares em competição na circulação de “Tchau querida”

Douglas Knupp Sanque

Resumo


Os primeiros meses de 2016 foram de grande turbulência no cenário político brasileiro, devido principalmente à tramitação do processo de impeachment da ex-Presidenta Dilma Rousseff. Em 16 de março, foi divulgado o áudio de uma ligação telefônica entre Dilma e o ex-Presidente Lula, no fim da qual Lula se despede de Dilma dizendo “tchau, querida”. Mais tarde, em 17 de abril, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment. Nessa sessão, diversas placas com os índices “Tchau Querida” em verde e amarelo foram erguidas por deputados e deputadas apoiadores do impeachment. Após algumas horas de votação, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) grita “Tchau querida” para o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que cospe em seu rosto. Diante desse cenário, este trabalho rastreia a trajetória textual percorrida pelos índices “Tchau Querida”, nos embates interacionais acima, tentando compreender como sua circulação constrói projeções escalares a cada recontextualização desses índices. Trabalhando com uma visão performativa e escalar de linguagem, a análise dos dados permite compreender que há orientações escalares em competição sobre gênero e sexualidade, bem como sobre democracia e justiça social.


Palavras-chave


tchau querida; escalas; trajetória textual; performatividade.

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