Sobre a recepção canibal de uma tragédia perdida

Fernando José De Santoro Moreira

Resumo


São apresentados, neste artigo, alguns momentos de como se deu o processo de composição da tragédia Penteu, em três recortes narrativos: misto de vivências pessoais, de uma certa arqueologia filológica e do engajamento no teatro contemporâneo de viés antropofágico. Esta tragédia foi gestada em colaboração com o grupo extensionista “Teatro das Ideias Vivas”, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Penteu é uma recepção exuzíaca da tragédia homônima de Ésquilo, perdida. Desta tragédia, restou apenas um verso: μηδ' αἵματος πέμφιγα πρὸς πέδῳ βάλῃς [“Nenhuma gota de sangue caísse sobre o pé”], citado por Galeno. Analisamos o genoma literário desta gota e o alimentamos com questões contemporâneas até gerar um drama trágico em uma inquietante ritualística que mistura elementos da linguagem de Ésquilo e dos ritos sincréticos da cultura do Rio de Janeiro. Utilizamos uma informação preciosa, escrita por Aristófanes de Bizâncio, o gramático, na hipótese de As Bacantes. Ele disse que Eurípides copiou para a composição de sua última tragédia o enredo de Penteu, o drama escrito por Ésquilo em homenagem a Dioniso libertador.


Palavras-chave


Ésquilo; As Bacantes; Penteu; Dioniso; teatro decolonial

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DOI: https://doi.org/10.25187/codex.v8i2.38916

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