A imagem insiste: Carolina Maria de Jesus como gesto curatorial

Autores

DOI:

https://doi.org/10.60001/ae.n50.3

Palavras-chave:

Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo, Gesto Curatorial, Genocídio Simbólico, Imagem

Resumo

A imagem de Carolina Maria de Jesus vem sendo revisitada nas últimas décadas, ultrapassando o campo literário e adentrando o universo das artes, da curadoria e das narrativas gráficas. Partindo desse contexto, este artigo tem como eixo a figura de Carolina Maria de Jesus, investigando como a imagem de uma mulher negra tem sido traduzida como símbolo curatorial, estético e político, a partir de três manifestações centradas na autora: o livro Quarto de Despejo, a história em quadrinho Carolina, e a exposição Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para Brasileiros. A análise interpreta como esses suportes constroem e disputam o imaginário visual e simbólico em torno da escritora. Como pistas encontradas, a exposição, com curadoria de Hélio Menezes e Raquel Barreto, opera como gesto curatorial e espaço de disputa simbólica, legitimando Carolina como produtora de pensamento e cultura por meio de documentos, fotografias e obras de arte. Já a novela gráfica transpõe sua escrita literária ao campo visual, reforçando o caráter crítico e simbólico de sua obra. Em ambas, observa-se a centralidade de criadores afro-brasileiros, que partem de suas subjetividades para a insurreição da imagem da autora, movimento possível para quem consegue enxergar através do espelho de Oxum, entendido como uma contraposição ao espelho de Narciso. Conclui-se que essas representações reinscrevem Carolina como imagem crítica e símbolo político, capaz de tensionar passado e presente, tornando-se chave para reaprender a ver o Brasil a partir de sua (re)existência.

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Biografia do Autor

Ana Carolina Oliveira, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Seu campo de interesse abrange as Artes Visuais, com ênfase em narrativas gráficas, gravura, memória, ancestralidade e representações de corpos negros. Doutoranda em Imagem e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestre em Mídias Criativas pela Escola de Comunicação da mesma universidade, com dissertação centrada em histórias em quadrinhos autobiográficas e foco em questões sociais vividas por mulheres negras na sociedade brasileira. Foi contemplada com a bolsa Emerging Leaders in the Americas Program (ELAP), promovida pelo EduCanada, atuando como pesquisadora visitante na Ontario College of Art Design University (OCADU), em Toronto, onde aprofundou seus estudos em quadrinhos autobiográficos. Graduou-se com dignidade acadêmica Summa Cum Laude em Artes Visuais Gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ (2021), tendo também cursado Escultura entre 2016 e 2018 na mesma instituição. Atuou como bolsista de iniciação científica no grupo de pesquisa Arte Contemporânea na Cidade do Rio de Janeiro, onde produziu críticas de exposições em formato experimental de narrativas gráficas, sendo agraciada com menção honrosa por apresentação em evento acadêmico da UFRJ. Em 2024, lançou o quadrinho autobiográfico Purgatório: a cozinha fica aqui, viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB); a obra foi vencedora do Latin American Design Awards principal premiação de design da América Latina na categoria Ilustração. Também é graduada em Gastronomia pelo Centro Universitário Hermínio da Silveira IBMR (2013), com dupla titulação pela instituição parceira Kendall College, em Chicago (EUA).

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Publicado

11-05-2026