FILOSOFIAS DE ARKHÉ COMO ENFRENTAMENTO AO ONTOCÍDIO: ORALIDADE E CULTURA AFRO-BRASILEIRA / Arkhé Philosophies against the Ontocide: Orality and Afro-Brazilian culture

Mateus Raynner Andre de Souza

Resumo


Neste ensaio parto de uma compreensão da modernidade como um momento na história do pensamento que, entre outras coisas, em sua prática de dominação e subjugação dos corpos africanos e afrodiaspóricos – e por que não citar os corpos ameríndios? –, acabou por sobrevalorizar somente o conhecimento escrito e letrado, descartando a oralidade e a identificando como algo menor. Defendo a hipótese de que, ao negar a esses corpos a Palavra, negou-lhes também o Ser, movimento que denomino ontocídio. Defendo também a compreensão das festas afro-brasileiras como filosofias – compreendidas como filosofias de arkhé – e as demonstro como locais de enfretamento das práticas coloniais e de reontologização. Considero que esta discussão, desenvolvida mediante uma revisão bibliográfica, possa promover novas reflexões para um conhecimento menos colonizado.

Palavras-chave: Manifestações culturais; Modernidade; Filosofias africanas e da diáspora; Ontocídio.

 

Abstract

This essay presupposes a meaning of modernity as a moment in the history and as practice of domination and subjugation of African and Afro-diasporic bodies – and why not mention Amerindian bodies –, ended up overvaluing knowledge as something written and literate, discarding oral knowledge and identifying it as something less. The hypothesis to be defended is that by denying these beings the Word, they also denied the Being, a movement that I am calling here ontocide. It is also a hypothesis that Afro-Brazilian manifestations are understood as philosophies, called here arkhé philosophies, I intend to show them precisely as a form to confront colonial practices and as a site for reontologization. I believe that the discussion marked through a bibliographic review can promote new reflections for a less colonized knowledge.

Keywords: Cultural manifestations; Modernity; African and Diaspora philosophies; Ontocide.


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DOI: https://doi.org/10.37235/ae.n41.6

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