Caracterização Petrográfica dos Calcários Ornamentais da Formação Caatinga (BA)

Rafael Martins de Oliveira Santos, Amanda Goulart Rodrigues, Patrick Führ Dal’ Bó

Abstract


Os calcários da Formação Caatinga (Paleógeno-Quaternário, Bacia de Irecê), conhecidos popularmente como Bege Bahia ou Travertino Nacional, estão amplamente distribuídos pelo centro-norte do estado da Bahia e consistem em importantes rochas ornamentais no Brasil. Apesar da relevância comercial, esses carbonatos carecem de estudos geológicos detalhados sobre suas características macro e microscópicas de modo a contribuir com o entendimento dos aspectos evolutivos dessa unidade. A partir do estudo detalhado de placas ornamentais adquiridas em diferentes marmorarias do estado do Rio de Janeiro, pôde-se identificar que estes carbonatos consistem em calcretes desenvolvidos em um substrato original majoritariamente carbonático, com pouca influência de aporte siliciclástico e com diferentes feições macro e microscópicas resultantes de processos bióticos e abióticos formados em condições vadosas e freáticas. As principais texturas e estruturas identificadas são: (1) nódulos; (2) vênulas; e (3) brechas. Além disso, observa-se uma contribuição siliciclástica (areia média a grânulo) organizada em níveis horizontais, que por vezes preenchem vênulas oblíquas, além de ocorrerem dispersos na matriz micrítica. Os nódulos, vênulas e brechas se formaram a partir de processos essencialmente abióticos enquanto que a presença de grãos siliciclásticos com envelopes micríticos sugerem que processos bióticos foram atuantes. A ocorrência de bioclastos de ostracodes e carófitas indicam um paleoambiente com disponibilidade de água, porém as fraturas de dessecação, brechas e os argilominerais fibrosos autigênicos sugerem momentos de exposição associados a períodos mais secos. As feições macro e microscópicas descritas indicam que os calcretes da Formação Caatinga possuem uma evolução complexa e dinâmica formada sob condições de sazonalidade entre períodos secos e úmidos.

Keywords


Bacia de Irecê; Quaternário; Calcretes

References


ABIROCHAS 2019. Associação Brasileira da Indústria de

Rochas Ornamentais, Informe 01/2019, São Paulo, São Paulo (Brasil). Disponível em: < http://

abirochas.com.br/wp-content/uploads/2018/06/

Informes/Informe_01_2019_Balanco_2018.pdf>.

Acesso em: 12 jan. 2020.

Almeida, F.F.M. 1977. O Cráton do São Francisco. Revista

Brasileira de Geociências, 7: 349-364.

Alonso-Zarza, A.M.; Calvo, J.P. & García Del Cura, M.A. 1992.

Palustrine sedimentation and associated features to

grainification and pseudo-microkarst in the Middle

Miocene (Intermediate Unit) of the Madrid Basin,

Spain. Sedimentary Geology, 76: 43-61.

Alonso-Zarza, A.M. 2003. Palaeoenvironmental significance of

palustrine carbonates and calcretes in the geological

record. Earth-Science Reviews, 60(3–4): 261-298.

Alonso-Zarza, A.M. & Tanner, L.H. 2010a. Carbonates in

Continental Settings: Facies, Environments and

Processes. Amsterdam, Elsevier, 369p.

Alonso-Zarza, A.M. & Tanner, L.H. 2010b. Carbonates in

Continental Settings: Geochemistry, Diagenesis and

Applications. Amsterdam, Elsevier, 336p.

Auler, A.S. 1999. Karst Evolution and Palaeoclimate in Eastern

Brazil. University of Bristol, Ph.D. Thesis, 268p.

Auler, A.S.; Smart, P.L.; Wang, X.; Cristalli, P.S. & Edwards,

R.L. 2003. O calcário Caatinga e os carbonatos

secundários superficiais do norte da Bahia: Geocronologia e significado paleoambiental. In: CONGRESSO

DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS

DO QUATERNÁRIO, 9, Recife. 2003. Anais.

Borges, S.V.F.; Balsamo, F.; Vieira, M.M.; Iacumin, P.;

Srivastava, N.K.; Storti, F. & Bezerra, F.H.R. 2016.

Pedogenic calcretes within fracture systems and

beddings in Neoproterozoic limestones of the Irecê

Basin, northeastern Brazil. Sedimentary Geology,

: 119-133.

Braithwaite, C.J.R. 2005. Carbonate Sediments and Rocks. A

Manual for Earth Scientists and Engineers. Dunbeath,

Whittles Publishing, 164p.

Branner, J.C. 1910. Aggraded limestone plains of the interior

of Bahia and the climatic changes suggested by them.

Geological Society of American Bulletin, 22: 187-206.

Bustillo, M.A. & García Romero, E. 2003. Arcillas fibrosas

anómalas en encostramientos y sedimentos superficiales: características y génesis (Esquivias, Cuenca

de Madrid). Boletín Sociedad Española Cerámica y

Vidrio, 42: 289-297.

Carbonel, P.; Colin, J.P.; Danielopol, D.L.; Loeffler, H.

& Neustrueva, I. 1988. Paleoecology of limnic

ostracodes: a review of some major topics. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology,

: 413-461.

Chadwick, O.A.; Hendricks, D.M. & Nettleton, W.D. 1987.

Silica in duric soils: I. A depositional model. Soil

Science Society of America. Journal, 51(4): 975-982.

Coury, R.L.M.; Rocha, A.M.; Silva, M.S. & Rodrigues,

C.C. 2018. Mármore Bege Bahia: atual fonte

econômica ao saber fazer do futuro. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM ON TECHNOLOGICAL

INNOVATION, 9, Aracaju, 2018, p. 930-946.

De Deckker, P. 1988. Biological and sedimentary facies of

Australian salt lakes. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 62: 237-270.

Dickson, J. 1965. A modified staining technique for carbonate in

thin section. Nature, 205: 587.

Esteban, M. & Klappa, C.F. 1983. Subaerial exposure environments. In: SCHOLLE, P.A.; BEBOUT, D.G. &

MOORE, C.H. (eds.). Carbonate Depositional

Environments. Tulsa, American Association of

Petroleum Geologists Memoir 33, p. 1-96.

Flügel, E. 2004. Microfacies of Carbonate Rocks: Analysis,

Interpretation and Application. Berlin, Springer, 976p.

Folk, R.L. 1965. Some aspects of recrystallization in ancient

limestones. In: PRAY, L.C. & MURRAY, R.C. (eds.).

Dolomitization and Limestone Diagenesis. Tulsa,

Society of Economic Paleontologists and Mineralogists Special Publication, 13, p.14-48.

Freytet, P. 1973. Petrography and paleo-environment of

continental carbonate deposits with particular

reference to the Upper Cretaceous and Lower Eocene

of Languedoc (Southern France). Sedimentary

Geology, 10: 25–60.

García, A. 1994. Charophyta: their use in paleolimnology.

Journal of Paleolimnology, 10: 43-52.

Gierlowski-Kordesch, E. L. 2010. Lacustrine carbonates. In:

ALONSO-ZARZA, A.M. & TANNER, L.H. (eds.).

Carbonates in Continental Settings: Facies, Environments and Processes. Amsterdam, Elsevier, p. 1-101.

Gile, L.H.; Peterson, F.F.& Grossman, R.B. 1966. Morphological

and genetic sequences of carbonate accumulation in

desert soils. Soil Science, 101: 347-360.

Harrison, R.S. & Steinen, R.P. 1978. Subaerial crusts, caliche

profiles and breccia horizons Comparison of some

Holocene and Mississippian exposure surface,

Barbados and Kentucky. Geological Society of

American Bulletin, 89(3): 385-396.

Hoffman, P.F.; Kaufman, A.J.; Halverson, G.P. & Schrag, D.P.A.

A Neoproterozoic Snowball Earth. Science, 281:

-1346.

Land, L.S. & Epstein, S. 1970. Late Pleistocene diagenesis

and dolomitization, North Jamaica. Sedimentology,

: 187-200.

Magalhães, A.C.F. 2007. Mármore Bege Bahia: dos tempos

pretéritos ao panorama atual. In: CONGRESSO

BRASILEIRO DE ROCHAS ORNAMENTAIS,

, Natal, 2007, Anais, Natal, p. 288-293.

Neves, B.B.B. 1967. Geologia das folhas de Upamirim e Morro

do Chapéu, Bahia. Recife, Sudene/Conesp, 17, 53p.

Palacios-Fest, M.R.; Cohen, A.S.; Ruiz, J. & Blank, B. 1993.

Comparative paleoclimatic interpretations from

nonmarine ostracodes using faunal assemblages, trace

elements, shell chemistry, and stable isotope data. In:

SWART, P.K.; LOHMANN, K.C.; MCKENZIE, J.

& SAVIN, S. (eds.). Climate Change in Continental

Isotopic Records. Washington, American Geophysical

Union Geophysical Monograph, 78, p. 179-190.

Pedreira, A.J.; Arcanjo, B.A.; Pedroza, C.J.; Oliveira, J.E.

& Silva, B.C. 1975. Projeto Bahia — Geologia da

Chapada Diamantina. DNPM/CPRM. Ministério das

Minas e Energia. República Federativa do Brasil,

Brasília.

Pedreira A.J.; Rocha, A.J.D.; Guimarães, J.T.; Morais Filho,

J.; Bonfim, L.F.C. & Tesch, N. 1985. Folha SC.

-Y-C-Irecê. Carta geológica 1:100.000. Projeto

Bacia de Irecê-CPRM. CBPM, Salvador - BA.

Penha, A.E.P.P. 1994. O Calcário Caatinga de Ourolândia,

Bahia: Feições diagnósticas, gênese e evolução de

um perfil calcrete. Programa de Pós-graduação em

Geologia, Universidade Federal da Bahia, Dissertação

de Mestrado, 114p.

Ribeiro, A.F.; Pereira, C.P. & Magalhães, A.C.F. 2002.

Mármore Bege Bahia em Ourolândia-Mirangaba-Jacobina, Bahia: geologia, potencialidade e desenvolvimento sustentável. Salvador, CBPM, Série Arquivos

Abertos, 52p.

Semeniuk, V. 1986. Calcrete breccia floatstone in Holocene

sand developed by stormuprooted trees. Sedimentary

Geology, 48(3): 183-192.

Siever, R. 1962. Silica solubility 0–200ºC and the diagenesis of

siliceous sediments. Journal of Geology, 70: 127–150.

Souza, S.L.; Brito, P.C.R. & Silva, R.W.S. 1993. Estratigrafia,

Sedimentologia e Recursos Minerais da Formação

Salitre na Bacia de Irecê, Bahia. 2. Salvador, CBPM,

Série Arquivos Abertos, 36p.

Watts, N.L. 1978. Displacive calcite: evidence from recent and

ancient calcretes. Geology, 6(11): 699-703.

Wieder, M. & Yaalon, D.H. 1982. Micromorphological fabrics

and developmental stages of carbonate nodular forms

related to soil characteristics. Geoderma, 28(3):

-220.

Wright, V.P. 1990. A micromorphological classification of fossil

and recent calcic and petrocalcic microstructures.

In: DOUGLAS, L.A. (ed.). Soil Micromorphology:

A Basic and Applied Science. Amsterdam, Elsevier,

p. 401-407.

Wright, V.P. & Tucker, M.E. 1991. Calcretes. Oxford, Blackwell

Publishing Ltd, 347p.

Wright, V.P. 2007. Calcretes. In: NASH, D.J. & MCLAREN,

S.J. (eds.). Calcretes in geochemical sediments and

landscapes. Oxford, Blackwell Publishing, p. 10-45.




DOI: https://doi.org/10.11137/2020_2_139_149

Refbacks

  • There are currently no refbacks.


Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Indexers and Bibliographic DatabasesFollow us
SCImago Journal & Country Rank
ISSN
ROAD
Clarivate
Diadorim
DOAJ
DRJI
GeoRef
Google Scholar
Latindex
REDIB
Oasisbr
Twitter
Instagram
Facebook
All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International Public License (CC BY-NC 4.0).