Lutos interditados e violência política na literatura brasileira contemporânea: a escrita como trabalho de rastros e ruínas
Resumo
Este artigo discute o modo como a literatura brasileira enfrenta lutos que, mesmo após a redemocratização, permaneceram sem reconhecimento e sem elaboração coletiva. A leitura de “A noite da espera” e “Pontos de fuga”, de Milton Hatoum (2017, 2019), sustenta que o luto não é apenas tema, mas princípio formal: a escrita organiza-se como arquivo precário de rastros e ruínas e faz do silêncio, da espera e do retorno fantasmático modos de narrar uma experiência histórica que insiste no presente. As epígrafes, pensadas como mediações de leitura, abrem a narrativa para uma rede de vozes e tradições (Outeirinho, 1991; Moretti, 2000) e reforçam a dimensão dialógica do romance (Bakhtin, 2011, 2015, 2017). Em diálogo com Freud (2011), Ginzburg (2010, 2012), Gagnebin (2009) e Agamben (2007), entre outros, argumenta-se que a ausência materna de Martim figura uma perda íntima que se expande para lutos coletivos da ditadura, elaborando-se uma escrita resistente à desmemória.
Palavras-chave: luto; memória; ditadura civil-militar; Milton Hatoum; epígrafes.
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