Adoecimento do corpo docente na sociedade de vigilância e de controle

Rafael da Silva Mattos, Fernanda Andressa Chagas, Juliana Brandão Castro, Madel Therezinha Luz, Wecisley Ribeiro do Espírito Santo

Resumo


A Sociedade disciplinar pode ser situada entre os séculos XVIII e início do XX. Nela, destaca-se o enclausuramento, operação fundamental e, como função maior, o adestramento. Chamamos de disciplinas os métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, realizando uma sujeição constante de suas forças, impondo-lhes uma relação de docilidade-utilidade. A sociedade de controle ascendeu na metade do século XX e foi discutida por Deleuze como um aperfeiçoamento das tecnologias de poder sobre a vida, ultrapassando os muros institucionais. É marcada pela suposta ausência de limites geográficos definidos. Nessa, há uma predominância do poder cada vez menos localizável e o predomínio de indivíduos supostamente livres, mas normatizados por práticas, discursos e políticas de saúde. Este ensaio teve como objetivo identificar algumas características da disciplina e do controle sociais que podem ser determinantes sociais na saúde de docentes que trabalham em instituições de ensino superior. O adoecimento e o sofrimento desses trabalhadores têm aumentando, principalmente em paralelo ao crescimento exorbitante de práticas individualistas e produtivistas no desempenho das tarefas docentes e do produtivismo.

Palavras-chave


Sociedade Disciplinar; Sociedade de Controle; Saúde do Trabalhador; Professor Universitário.

Texto completo:

PDF

Referências


ADAM, P.; HERZLICH, C. Sociologia da doença e da medicina. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2001. 146p.

ANTUNES, R. L. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas, SP: Cortez, 1995. 155 p.

ARAÚJO, T.M. et al. Estresse ocupacional e saúde: contribuições do Modelo Demanda-Controle. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 8, n. 4, p. 991-1003, 2003.

BENEVIDES-PEREIRA, A.M.T.; YAEGASHI, SFR.; ALVES, I.B.; LARA, S. O trabalho docente e o Burnout: Um estudo em professores paranaenses. Em Anais do VII EDUCERE e III CIAVE, (p.4870- 4884) Curitiba, PUCPR.

BOLTANSKI, L. As classes sociais e o corpo. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

BOSI, A. P. A Precarização do trabalho docente nas instituições de ensino superior do brasil nesses últimos 25 anos. Educação & Sociedade, Campinas, v. 28, n. 101, p. 1503-23, 2007.

BORSOI, I. C. F. Trabalho e Produtivismo: saúde e modos de vida de docentes de instituições públicas de ensino superior. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, , v. 15, n. 1, p. 81-100, 2012.

BOURDIEU, P. Questões de Sociologia. Rio de janeiro: Marco Zero, 1983.

CANGUILHEM, G. Le normal et le pathologique. Paris: PUF, 1993.

CARLOTTO, M.S. Síndrome de Burnout em professores: prevalência e fatores associados. Psic.: Teor. e Pesq. [online], v.27, n.4, p. 403-410, 2011.

COSTA, R. Sociedade de Controle. São Paulo em Perspectiva, v. 18, n. 1, p. 161-67, 2004.

DEJOURS, C. Psicodinâmica do Trabalho: contribuições da escola Dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. São Paulo: Atlas, 1994. 145 p.

DELEUZE, G. Conversações. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2013. 240 p.

DIAS, R.; SERAFIM, M. Comentários sobre as transformações recentes na universidade pública brasileira. Avaliação Campinas, Sorocaba, SP, v. 20, n. 2, p. 335-351, 2015.

FOUCAULT, M. Histoire de la sexualité: la volonté de savoir, Paris: Gallimard, 1976.

_____. Il Fault Défendre la Société: Cours au Collège de France 1976. Paris: Seuil, 1997.

______. Surveiller et Punir: naissance de la prison Paris: Éditions Gallimard, 1993.

FREITAS, P. A. L. M; SILVA, M. S. Trabalho docente cercado por circunstâncias que são fontes de adoecimento. Revista: Direitos, trabalho e política social, Cuiabá, v. 2, n. 2, p. 126-151, jan./jun. 2016.

GOMEZ, C. M. Campo da saúde do trabalhador: trajetória, configuração e transformações. In: GOMEZ, C. M.; MACHADO, J. M. H.; PENA, P. G. L. (Orgs.). Saúde do Trabalhador na Sociedade Brasileira Contemporânea. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011. p. 23-34.

GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere: volume I. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 500 p.

LACAZ, F. A. C. Saúde dos trabalhadores: cenário e desafios. Caderno Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, p. 7-19, 1997.

______. O campo saúde do trabalhador: resgatando conhecimentos e práticas sobre as relações trabalho-saúde. Caderno Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 4, p. 757-66, 2007.

______. Qualidade de vida no trabalho e saúde/doença. Ciência & Saúde Coletiva, v. 5, n. 1, p. 151-61, 2000.

LEVI-STRAUSS, C. Tristes Trópicos. 70 ed. Lisboa/São Paulo: Martins Fontes, 1981.

LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social: volume II São Paulo: Boitempo, 2013. 856 p.

LUZ, M. T. Novos saberes e Práticas em Saúde Coletiva: estudo sobre as racionalidades e atividades corporais. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2005. 176 p.

______. Pequenas destruições, danos irreparáveis: comentários aos modos sociais de vida no capitalismo pós-moderno; implicações na saúde. Revista EPOS, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 1-22, 2013.

______. Prometeu Acorrentado: Análise Sociológica da Categoria Produtividadee as Condições Atuais da Vida Acadêmica. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.15, n.1, p. 39-57, 2005.

MANCEBO, D. Trabalho docente: subjetividade, sobreimplicação e prazer. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 20, n. 1, p. 74-80, 2007.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política -- volume I. São Paulo: Nova Cultural Ltda.,1996. 473p.

MATTA, G. C. A Organização Mundial da Saúde: do controle de epidemias à luta pela hegemonia. Trabalho, Educação e Saúde, v. 3 n. 2, p. 371-96, 2005.

MATTOS, R. S. Fibromialgia: o mal-estar do século XXI. São Paulo: Phorte, 2015. 240 p.

MENDES, R.; DIAS, E. C. Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador. Revista de Saúde Pública, v. 25, n. 5, p. 341-9, 1991.

MERLO, A. R. C.; LAPIS, N. L. A Saúde e os Processos de Trabalho no Capitalismo: Reflexões na Interface da Psicodinâmica do Trabalho e da Sociologia do Trabalho. Psicologia & Sociedade, v. 19, n. 1, p. 61-8, 2007.

NETTO, N. B.; CARVALHO, B. P. Trabalho, universidade e suicídio: uma análise da precarização/intensificação do trabalho docente desde o materialismo histórico-dialético. Revista Advir, Rio de Janeiro, n. 33, p. 67-85, 2015.

NUNES, E. Ciências Sociais em Saúde: um panorama geral. In: GOLDENBERG, P; MARSIGLIA, RMG; GOMES, MHA (org.). O Clássico e o Novo. Tendências, objetos e abordagens em Ciências sociais e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003. p.

PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

ORGANIZACIÓN INTERNACIONAL DEL TRABAJO (OIT). Empleo y condiciones de trabajo del personal docente. Genebra: OIT, 1981

PORTOCARRERO, V. Instituição escolar e normalização em Foucault e Canguilhem. Educação e Realidade, v. 29, n. 1, p. 169-85, 2004.

REZENDE, P. S.; IANNI, A. M. Z.; ALVES, O. S. F. Uma contribuição para a história das Ciências Sociais na Saúde Coletiva -- Os Congressos Brasileiros de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da ABRASCO e suas produções científicas, 1995 -- 2007. Cadernos de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 3, p. 603-626, 2009.

ROBAINA, C. M. V.; PINHEIRO, R. M. S. Saúde mental e trabalho nas particularidades do serviço público. Revista Advir, Rio de Janeiro, n. 33, p. 36-46, 2015.

RODRIGUES, P. C. Saúde do Trabalhador: A Contribuição de Um Programa de saúde Mental numa Universidade Pública. Revista Advir, Rio de Janeiro, n. 33, p. 99-111, 2015.

SOUZA, T. M. S.; DUCATTI, I. Rebatimentos do assédio moral no trabalho sobre o processo de alienação dos/as trabalhadores/as. Revista Advir, Rio de Janeiro, n. 33, p. 7-24, 2015.

SOUZA, K.R.; SANTOS, M.B.M.; PINA, J.A.; MARI, A.B.V.; CARMO, M.A.T.; JENSEN, M. A trajetória do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (Sepe -- RJ) na luta pela saúde no trabalho. Ciência & Saúde Coletiva 2003: 8(4): 1057-68.

SCLIAR, M. História do conceito de saúde. Physis, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 29-41, 2007.

SFEZ, L. A Saúde Perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Edições Loyola, 1996. 403 p.

VASCONSELLOS, L. C. F. Saúde, trabalho e desenvolvimento sustentável: apontamentos para uma Política de Estado. 2007. 421f. Tese (Doutorado em Ciências na área de Saúde Pública). Centro de Informação Científica e Tecnológica - Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Rio de Janeiro, 2007.

VERTHEIN, M. A. R.; GOMEZ, C. M. Movimentos de assepsia social: a doença do trabalho fora de alcance. In: GOMEZ, C. M.; MACHADO, J. M. H.; PENA, P. G. L. (Orgs.). Saúde do Trabalhador na Sociedade Brasileira Contemporânea. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011. p. 273-94.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Constitution of the World Health Organization. 1946. Disponível em: . Acesso em: 4 dez. 2015.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


ISSN 1809-9556. Todos os direitos reservados a revista ARQUIVOS em MOVIMENTO e a seus Autores.