OS GRUPOS DE RISCO EM NOSSAS PANDEMIAS: E A VELHICE COM ISSO?

Por Murilo Peixoto da Mota – Sociólogo do NEPP-DH/UFRJ; Coordenador -  GANIMEDES - Grupo de Estudos e Pesquisas em Diversidade Sexual e DH/UFRJ

Tudo indica que o novo Coronavírus está para abalar gerações. O fato é que estamos sendo confrontados com muitas questões que nos impõem imensos desafios e contradições neste momento de pandemia. A luta se amplia contra a disseminação e por assistência. E o que há de novo nessa conjuntura?

No que tange ao contexto do desafio pandêmico, sempre é bom lembrar a quem ainda não atingiu os áureos 50 anos ou mais, que o enfrentamento do HIV/Aids também causou grande reviravolta em nossas mentes. Nós jamais esqueceremos dos amigos, artistas queridos, parceiros e amores mortos pela síndrome. Ademais, também perecíamos pelo preconceito que ela nos empunha - uma luta diária para mostrar e fazer entender -,  que todos éramos possíveis portadores do HIV. Tivemos que enfrentar e logo levantar bandeira, era preciso nos defender do vírus e não dos sujeitos portadores.

No auge da pandemia do HIV, a falácia do “grupo de risco” (homossexuais, hemofílicos, usuários de drogas endovenosas) não prestava para prevenir a disseminação pandêmica ou ter alguma eficácia para o planejamento de combate. O foco no grupo de risco servia erroneamente para poupar alguns do medo do contágio, propagar a falsa moral dos sexualmente puros e a absurda ideia de que o portador do vírus era culpado por contraí-lo. Foram décadas de terror para nós LGBTs e ainda não vencemos essa síndrome e nem os preconceitos que nos ronda.

Naquela época, mais especificamente a partir dos anos 1990, a demonstração do uso desse conceito epidemiológico ganhou força. Nas décadas posteriores, constatou-se que a ideia de grupo de risco prestava um desserviço para enfrentar os desafios da Aids. O equívoco levou a população a “tapar o sol com a peneira”. Tínhamos um vírus transmissível sexualmente, mas ao priorizar os homossexuais como problema, esqueceu-se de buscar saber quem eram os homossexuais na cultura brasileira. Em consequência, a luta foi tentar envolver os homens, independentemente de sua classificação como homo, hétero ou bissexual. Surge um novo personagem para o enfrentamento preventivo a fim de responsabilizar todos os sujeitos pela disseminação: o “homem que faz sexo com homem”. Foram slogans dos movimentos sociais, que colocavam esse heterossexual “ativo” na relação com outros homens envolvidos com o problema. Como no cotidiano popular “ser homossexual” é representado como o “passivo” da relação, os heterossexuais “ativos”, mesmo em relação com outro homem, não se percebiam no grupo de risco para o HIV.

A Aids foi impactante para todos, principalmente nós LGBTs sobreviventes que podemos contar essa história. Entretanto, jamais poderia imaginar que novamente estaríamos sob o pano de fundo de um grupo de risco de uma nova pandemia. Essa categoria epidemiológica parece voltar a dar sentido e justificativa soberana aos vulneráveis ao novo Coronavírus, cuja análise aponta para os idosos.  Assim, como em outras pandemias que o mundo já experimentou, e eu já assisti, nessa não será diferente, a designação de grupo de risco lamentavelmente colocará para a população em geral as cores do oportunismo, do preconceito e da ignorância. Em outras palavras, a ultradireita, dentro da lógica neoliberal[1], volta a se afirmar e dizer que os "velhinhos vão morrer mesmo, como grupo de risco, que fiquem em quarentena, mas nós os “atletas”, no auge da produtividade e consumo, sigamos consumindo e trabalhando, talkey".

De fato, sob a cortina de fumaça desse conceito grupo de risco, bem lembra Luiz Mello e Jean Baptista[2]: muitas de nós fomos mortas sem termos estado doentes. E muitos correm o risco de outra vez morrerem de morte matada. Portanto, no decorrer dessa lógica, quem viver verá pois os defensores da quarentena vertical, que priorizam como em risco somente os idosos, farão acertos com a tragédia. Entretanto, penso que devemos seguir o senso científico e não as falácias daquele que se disse atleta em cadeia nacional de TV, em um vexaminoso pronunciamento de repercussão internacional. Mas vamos seguir pelo foco da ciência, com inteligência para distinguir o joio do trigo, ou seja, desconfiar dos usos políticos que fazem dela, e vamos todos ficar em quarentena!

Os discursos das autoridades apontam os maiores de 60 anos como os altamente vulneráveis e a caminho da morte se infectados, como se os jovens fossem imunes. Ledo engano, triste caminhar para o abismo. Sem entrarmos nos meandros estatísticos, pois não é o foco desta reflexão, fica no imaginário popular que esse novo vírus somente terá severo impacto no organismo mais velho. Ora, nunca é tarde para lembrar, o vírus não tem preconceito, mas busca os vulneráveis, cuja vulnerabilidade tem  distinção de idade, classe, raça/etnia, gênero ou escolaridade. E na interseccionalidade[3] que envolve as inúmeras questões sociais, esse vírus faz seus estragos e leva à morte, principalmente aqueles que estão sob a égide da desigualdade estrutural.

Nessa conjuntura, a representação da ideia de grupo de risco vem fomentar a “velhofobia”. Recentemente ouvimos do presidente-médico-cientista: quem está são, o risco é quase zero, o risco maior é quem tem mais de 60 anos. Segundo esse senhor, o grupo de risco dá o sentido das coisas, como se dissesse: "a pandemia não tem muito problema não, só vai morrer velho, talkey?" É aceitável que os velhos morram? É natural que, na falta de leitos ou UTIs, tais sujeitos sejam os escolhidos para morrer?

Talvez esse seja o outro lado perverso desta tragédia que nos assola, esses discursos que se acentuam por trás do grupo de risco. Além dos idosos que se contagiam estarem morrendo pela natural condição de saúde mais vulnerável, na conjuntura de guerra contra o Coronavírus são eles os escolhidos para morrer quando faltam leitos, UTIs ou equipamentos hospitalares. O que se indaga nessa conjuntura é por que os velhos são os mais escolhidos para morrer? Por que já viveram o suficiente e portanto não têm mais nada a viver? Que poder soberano é esse, capaz de escolher quem vive ou quem morre pelo crivo racional da idade? Que humano da Era Moderna é esse, capaz de [JBL1] escolher, quem viver ou morrer?

A escolha dos velhos para morrer não é fato novo na escalada da precariedade dos hospitais brasileiros. Faz parte da lógica neoliberal direcionada para o lucro, que permeia a formação de muitos profissionais de medicina. Além disso, é um aspecto que desaba sobre o SUS, de continuada desestrutura, a fim de fazer frente ao capital e à lógica privatista do sistema de saúde. O diferente é que o novo Coronavírus colocou a questão na ordem do dia.

Uma recente reportagem[4], intitulada “Massacre de velhos: na Itália, é preciso escolher quem salvar e quem deixar morrer”, dá visibilidade a essa conjuntura. Ressalta a matéria:

Hospitais saturados de doentes e uma onda de contágio que não termina. A epidemia do novo Coronavírus está a abalar Itália, um país onde milhões de pessoas estão de quarentena. Nos hospitais, os médicos atuam como numa zona de guerra, fazendo escolhas quanto a quem salvar e há quem denuncie um “massacre de velhos”.   

Cabe refletir que a idade pode fazer sentido, mas somente para a caracterização estabelecida pela política pública. O Estatuto do Idoso, de suma importância, existe para salvaguardar a integridade desse sujeito e, neste sentido, conceitua quem está acima de 60 anos como idoso. Mas não bastasse a falência do Estado para suprir com uma aposentadoria digna aqueles que já contribuíram com a sua força de trabalho, estes são os escolhidos para morrer e assim dar vez na fila aos que são eleitos pela lógica do mercado para produzir e consumir.

E o que é um idoso diante da vida? Estão eles alijados do mercado de consumo e do trabalho produtivo? Poderia listar uma série de cientistas sociais, estudiosos da velhice, que já nos alertaram o quanto os sinais do corpo são elaborados e apropriados simbolicamente de diferentes maneiras de uma cultura para outra. Portanto, as fronteiras etárias devem ser relativizadas com sentidos distintos em cada sociedade. A representação da eterna juventude e a possibilidade de experimentá-la indefinidamente é uma fantasia, remonta há séculos na mentalidade de muitos povos. Juventude e velhice têm representações distintas e sentidos morais controversos para além do crivo da idade. Importa afirmar, os recursos materiais e simbólicos disponíveis e apropriados pelo indivíduo na trajetória de sua vida vão influenciar na construção da qualidade de vida na velhice e o modo como se pode vivê-la, em meio à degeneração do corpo. Nesse sentido, vale lembrar, idade são apenas números, dizem muito pouco sobre a possiblidade de prosseguirmos pelo tempo de vida.

Não existe um marcador corporal que indique que estamos velhos, diferentemente da puberdade e adolescência. O sentido de envelhecer se dá desde que nascemos, é contínuo, um curso permanente para a vida e não para a morte. Como afirma o sociólogo Pierre Bourdieu[5],  “somos sempre o velho ou o jovem de alguém”.  O que implica afirmar, como nos lembra Guita Debert[6], que a velhice é uma categoria socialmente produzida. Mas o corpo degenera e, em uma sociedade individualizada, possuir um corpo improdutivo, fraco, sem autonomia o torna vulnerável diante dos outros, não importando a idade. Entretanto, há sempre um outro a sujeitar os que têm mais de 60 anos e colocá-los à margem social, imprimindo-lhes a exclusão de tudo, inclusive a possibilidade de atividade produtiva, como se já não fossem mais indivíduos capazes. Tal fato, de modo geral, nos impõe perceber que estar velho em sociedade é enfrentar constantes riscos para a vida.

O que busco salientar é que diante da conjuntura do novo Coronavírus estamos todos em risco, mas para os idosos os riscos se agravam, assim como para os cardiopatas, pessoas com doenças pulmonares, com baixa imunidade, com câncer entre outros problemas de saúde. De todo modo, o idoso tem ampla vulnerabilidade, mas isso não lhe tira o direito à vida. O Covid-19 vem salientar como a nossa sociedade vê e percebe o sujeito com mais de 60 anos. Ainda sobre a citada reportagem[7]:

Na pior zona do surto, na região da Lombardia, onde fica Milão, os médicos atuam como numa guerra, tendo que decidir quem socorrer e quem deixar morrer com base nas capacidades de sobrevivência de cada doente. Este é o cenário traçado por um anestesista do Hospital Juan XIII de Bergamo. “Todos os dias temos que decidir quem salvar”, refere-se Christian Salaroli, de 48 anos, frisando que os médicos não podem “fazer milagres”. Assim, os mais velhos e as pessoas que têm maiores problemas de saúde estarão a ser excluídos dos tratamentos nas Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) porque é preciso curar quem tem mais possibilidades de sobreviver e de viver mais tempo. “Decide-se por idade e pelas condições de saúde. Como em todas as situações de guerra. Não o digo eu, mas os manuais que estudamos”.

De fato, devemos perceber que estamos todos em risco nesta pandemia, mas é estarrecedor e perverso o contexto de eutanásia dissimulada contra os idosos. É preciso pensar: que soberania é essa, que dita quem pode viver e quem deve morrer? E quem pode afirmar que sujeitos com mais de 60 anos não teriam recuperação e longevidade após acometidos por esse vírus?

O filósofo Michel Foucault[8] nos alerta para essa condição de poder soberano, a qual se refere como sendo o biopoder, que são as práticas direcionadas para regular os processos vitais humanos. Trata-se do poder que visa administrar determinadas populações. São leis, conhecimentos e princípios políticos de controle racional de fenômenos, como epidemias. No atual contexto de medicalização social, os hospitais foram transformados em instrumentos terapêuticos. Nessas circunstâncias, passa-se a regular a vida como um objeto, cujo mecanismo transforma os processos biológicos em operações de poder, um poder soberano que reside no direto de ditar sobre a vida e a morte dos sujeitos, seguindo determinados padrões variáveis, com hipóteses quantitativas, ponderações e valores classificatórios construídos pela lógica de mercado, entre outros interesses. Em eras anteriores, os monarcas tinham o poder soberano de provocar a morte ou deixar viver. Na atualidade, os mecanismos de poder visam produzir a vida, mas com a possibilidade de deixar morrer como um descarte.

Argumentam alguns médicos[9] na Itália:

Se você escolher tratar o paciente 'errado', vai usar muito tempo e recursos com alguém que não chegará a ser salvo e deixará de atender duas ou três outras pessoas, que vão morrer (pela falta de atendimento). Em uma situação assim, é melhor salvar um do que nenhum e os mais velhos são escolhidos.   

Cabe pensar no impacto que estamos amargando diante desta nova pandemia, que nos coloca diante de muitas questões. É uma obrigação de todos proteger a vida e quebrar essa soberania que busca se sobrepor e justificar quem morre. Não podemos nos curvar a isso! É preciso enfrentar essa situação como uma tarefa coletiva, exigindo do Estado seu papel de promover a cidadania e o direito à vida, ou perderemos o bonde da História. Não vamos cair nas armadilhas do passado. O vírus não escolhe o grupo que vai viver o morrer, quem faz isso são os humanos.



[1] Aqui entendido aos modos conceituais colocados resumidamente por Marcia Tiburi, o neoliberalismo busca “privatizar e desregulamentar economias para entregá-las ao setor privado, é parte do programa acionado pelo dispositivo ideológico que usa cada corporação, que usa cada indivíduo como parte do seu plano. Minimizar o Estado para a maioria da população e reservá-lo às elites econômicas, é a parte nuclear do seu método”. revistacult.uol.com.br/home/tiburi-precisamos-falar-sobre-neoliberalismo/ . Visto em 08/10/2020.

[3] Grosso modo, estou me referindo ao completo contexto das relações sociais que exigem análises mais amplas com a intersecção de categorias, identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação.

[5] BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilo de vida. In: Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.

[6] DEBERT, Guita Grin. Pressupostos da reflexão antropológica sobre a velhice. In: DEBERT, Guita Grin (org.). Antropologia e Velhice. Campinas: IFCH/ Unicamp, p. 7-30, 1994.

[8] Foucault, M. (1999). Em defesa da sociedade: Curso dado no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999.