O NOVO CORONA VÍRUS E A REFLEXÃO NECESSÁRIA

Há alguns anos, a questão do aquecimento global foi levantada como uma preocupação importante para toda a humanidade, exigindo mudanças profundas nas economias, nas relações sociais e na cultura.

 Por Eduardo Mourão Vasconcelos - psicólogo, cientista político, doutor pela London School of Economics, e professor aposentado da UFRJ.

 Há alguns anos, a questão do aquecimento global foi levantada como uma preocupação importante para toda a humanidade, exigindo mudanças profundas nas economias, nas relações sociais e na cultura. Foi feito o alerta sobre suas consequências no destino comum que temos no planeta, mas seus efeitos de curto prazo, como os fenômenos climáticos cada vez mais radicais (furacões, tempestades, inundações e secas) apresentam uma associação complexa e pouco visível com o atual modo de vida dominante. E assim, de forma conjunta com nossos governos e autoridades, estamos empurrando o “lixo” para debaixo do tapete.

 No entanto, essa estratégia é impossível de ser repetida com a pandemia do corona vírus. Ela afeta diretamente a vida de cada cidadão e família, escancarando para todos que ainda têm algum bom senso, que somos uma só humanidade, com nossas fragilidades comuns, que só podem ser enfrentadas com muitas doses de reconhecimento da reciprocidade humana, bem como por políticas sociais e particularmente de saúde geridas com base científica, articuladas em nível nacional e internacional. E no isolamento ‘forçado’ de nossas casas, convido para uma profunda reflexão sobre o futuro de nosso destino e dessa presença tão interdependente neste mesmo barco comum do planeta e de cada país, e que acredito ser urgente e necessária.  

 Após a crise econômica de 2008, as forças políticas de ultradireita deixaram o grande guarda chuva das lideranças liberais de centro direita e direita, e traçaram caminhos próprios, conquistando governos ou aumentando sua presença nos parlamentos. Radicalizaram o chamado projeto neoliberal, forçando agora um projeto radical que já tinha sido traçado por seus autores economistas clássicos, como Friedman e Hayek, mas que ainda encontrava alguma resistência nos partidos liberais, que conservavam algum senso de direitos humanos. Sobre isso, recomendo a leitura de um livro recente da autora norte-americana Wendy Brown (Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente, de 2019, que teve tradução e publicação no Brasil no mesmo ano). Ela retoma esses fundamentos, e nos relembra os objetivos básicos desses autores: desmantelar todas as raízes do senso de sociedade, de solidariedade, justiça social e de Estado social, que se expressa em suas políticas sociais, construídas para lidar com dramas sociais comuns, como foram a crise econômica de 1929 e a II Grande Guerra.

 Para os autores neoliberais, só existiriam indivíduos e relações humanas presididas pelo mercado, como dissessem: “cada um por si, as mãos invisíveis do mercado por todos”. Situações sociais comuns, como a de trabalhadores, não precisariam das políticas  coletivas, pois são pensadas por meio de estratégias de empreendedorismo e responsabilidade pessoal, seguros privados, transformação de habilidades em ‘capital humano’, reinserção na família e comunidade, e realocação de suas necessidades em práticas de autoprovisão, de cuidado/educaçãos/saúde dos filhos, aparência e provisão para a velhice, tornando-os mais resilientes às crises e recessões econômicas. Lares urbanos com quintais poderiam produzir hortas e galinhas, e aqueles sem vínculos no mercado de trabalho poderiam se inserir pela terceirização, transformando suas pequenas posses, qualidades e seu tempo em fontes de capitalização, arrendando seus quartos no Airbnb, trabalhando no Uber ou em aplicativos de entrega, compartilhando veículos e bicicletas etc. Para Brown, os intelectuais neoliberais já defendiam o argumento de que estariam ‘salvando’ e resgatando o indivíduo, a família e os vínculos comunitários da ‘desintegração típica’ provocada pela modernidade tardia, transformando-os em capital humano, como unidades familiares ou comunitárias econômico-morais. Essa estratégia de forte dimensão moral foi capaz de interpelar as confissões religiosas mais conservadoras, divulgadoras da teologia da prosperidade individualizada e familiar, tema que explorei com mais detalhes em livro recente (Religiões e o paradoxo apoio social – intolerância, de 2019). E, em paralelo, o mundo digital e as redes sociais revelaram também uma faceta sombria, o poder de arruinar o debate e uma gestão pública com base em evidências/debates científicos e racionais, por meio de estratégias de espionagem digital, marketing político gerado em grandes bancos de dados orientados para cada cidadão, e de fake news reproduzidas por robôs de repetição, gerando bolhas de comunicação fundamentalistas.

 Todos estes processos fazem com que as novas gerações percam a memória dos dramas de 1929 e da II Guerra Mundial, do totalitarismo e genocídio corporificado no nazismo e no fascismo, ou mesmo em alguns governos do socialismo real, cujo drama e sua reação nos lembraram dessa nossa reciprocidade social e da importância de construir um destino comum. O mesmo ocorreu no Brasil, no processo de redemocratização, em reação a 20 anos de ditadura, conquistas que foram consagradas na Constituição de 1988. Hoje, essa perda da memória histórica, a contínua crise econômica e social e a necessária luta contra a corrupção acabam induzindo a esta descrença na democracia e na tolerância necessária para a resolução negociada de conflitos, e acabam criando as condições para a emergência de lideranças míticas, idealizadas, que flertam abertamente com regimes ditatoriais, propondo ter uma ligação direta com a massa da população, sem a mediação das instituições democráticas. Contextos muito similares levaram à ascensão de Mussolini e Hitler ao poder, pelo voto de seus cidadãos.

 Assim, a presente pandemia pode ter sim seus custos sociais e humanos trágicos, mas ela traz também uma oportunidade de reflexão e um convite para a correção de rumos. Ela nos lembra de nossa finitude, da possibilidade da morte, nossa ou de nossos entes queridos, e de nossa responsabilidade pelo destino humano e social comum. Ela nos chama atenção também para as necessárias medidas oriundas do Estado para manter a economia em andamento, ou a importância de sistemas públicos de políticas sociais e de saúde robustos, capazes de identificar os riscos sociais e sanitários e manter uma rede de cuidados para a população. Tudo isso vai exatamente na direção inversa da doutrina dos precursores do pensamento neoliberal, e que está sendo colocada em prática pelas lideranças e governos ultraconservadores atuais.

 Aproveite a oportunidade de estar mais em casa, sem muita correria, para pensar e conversar sobre esses temas!