HUMANIDADE À PROVA: REFLEXÕES DE UM BRASILEIRO EM MADRI SOBRE CORONAVÍRUS, ISOLAMENTO SOCIAL E NECROPOLÍTICA

Reflexões de um brasileiro em Madri sobre coronavírus, isolamento social e necropolítica.

Por Conrado Dess – diretor teatral, dramaturgo e mestrando do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo[1]

Cheguei em Madrid no dia 3 de março de 2020. Naquele momento, a Espanha tinha cento e cinquenta casos confirmados de infectados pelo novo coronavírus e nenhuma morte registrada[2]. Cheguei em um dia frio e ensolarado, ainda um pouco de ressaca do carnaval de São Paulo. Na minha bagagem, além das roupas trazidas para uma temporada de seis meses, havia um pacote de máscaras cirúrgicas e três embalagens de álcool gel adquiridas depois de uma pequena peregrinação pelas farmácias da capital paulista, onde os itens já se encontravam em falta. No Brasil, eram dois os casos confirmados naquela data[3].

Apesar do número significativamente alto de contaminados em comparação com os países americanos, a vida em Madri seguia seu ritmo normal. Os parques estavam lotados, museus, bibliotecas e escolas funcionavam normalmente e as calçadas continuavam tomadas por jovens que fumavam e bebiam descontraidamente. No entanto, a relativa calma proporcionada pela normalidade em que se encontrava a capital espanhola se distinguia das páginas principais dos portais de notícias do país, onde se alarmava, a cada dia mais, os perigos do aumento exponencial no número de acometidos pela Covid-19.

Assim, enquanto os espanhóis prosseguiam a vida sem muita preocupação, a situação se agravava rapidamente na Itália, fato que fez com que o primeiro-ministro italiano assinasse, no dia 8 de março, um decreto impondo restrições de deslocamento em grande parte do território nacional. No mesmo dia, em Madri, uma grande passeata em prol do Dia da Mulher levava aproximadamente duzentas mil pessoas às ruas do centro.

No evento o clima era de festa. Um mar de pessoas vestidas de roxo caminhava pela cidade entoando gritos de protestos em meio a sorrisos e abraços entre conhecidos. O novo vírus que, no país vizinho, já era uma ameaça palpável ainda parecia, naquela tarde domingo, uma lembrança distante que só vinha a memória ocasionalmente em virtude de alguns poucos cartazes que o citavam. Na capa dos jornais da manhã seguinte, as notas sobre a manifestação dividiam espaço com reportagens sobre a conjuntura na Itália e sobre o número alarmante de novos contágios na Espanha.

Nos dias que se seguiram, a situação se agravou rapidamente e ignorá-la passou a não ser mais um caminho possível. Na quarta-feira (11) escolas, universidades e museus fecharam suas portas e, na sexta-feira (10), foi declarado o Estado de Alarme no país, obrigando as atividades comerciais a se limitarem aos serviços essenciais, suspendendo a realização de aulas, espetáculos ou qualquer outro tipo de evento público e controlando a circulação de pessoas em todo o território nacional.

A imposição do isolamento social, seguida de voos cancelados, fronteiras fechadas e hospitais de campanha erguidos às pressas, coisas que há pouco mais de dois meses eram o cenário utópico de uma China distante, tornavam-se assim, pouco a pouco, a realidade também da maioria dos países ocidentais. De súbito, nos vimos encerrados em nossos pequenos apartamentos, observando pelas telas dos computadores e celulares o desenrolar ainda incerto de uma nova conjuntura que expõe a violência dos sistemas de controle e dominação que sustentam a harmonia social fictícia projetada pelos Estados modernos.

Considerando os inúmeros decretos de diferentes naturezas jurídicas que, neste momento, colocam em suspensão o direito de ir e vir, a livre-iniciativa e a autonomia sobre o próprio corpo como ações que sustentam um estado de exceção de ordem global, o que testemunhamos não é apenas a produção de uma zona de anomia comum a grande parte dos países, mas, sobretudo, a formação de uma nova ordenação política em que as distinções entre público e privado encontram-se desativadas.

Com a interdição do urbano, aquilo que podemos compreender como a máquina social por excelência, como um artefato colossal de fazer e desfazer nós humanos que não pode parar seu trabalho interminável (DELGADO, 2007), vemos borradas as fronteiras que antes nos separavam enquanto coletividade e enquanto indivíduos. Nesse cenário, o que nos une já não é a mais o compartilhamento de um espaço comum que se sustenta na medida em que escolhemos o acessar junto de outros pares, na medida em que nele habitamos coletivamente a fim de se fazer política, de se criar e compartilhar experiências comuns, ativando-o e desativando-o conforme colocamos nossos corpos na rua. O que nos une hoje, é, por outro lado, a privação da possibilidade de ativação dessa máquina social que é a vida urbana, algo que só pode ser acionado ao passo em que nos colocamos em movimento, em que nos mostramos para além de nossa intimidade. Instaura-se, assim, a impossibilidade de preservação integral da dimensão pública da vida e a consequente elevação da dimensão privada a quase totalidade de nossa existência.

Ao nos enxergamos imóveis, seja por imposições legais ou simplesmente pelo medo, nos vemos também um pouco destituídos daquilo que nos torna humanos: o equilíbrio entre o interior e o exterior, entre a intimidade e a exposição, entre o coletivo e o individual. Como seres sociais, nos entendemos como sujeitos a partir de uma relação de dualidade entre um Mesmo e um Outro, ou seja, percebemo-nos indivíduos a partir de um Outro que se coloca diante de nós (BEAUVOIR, 1968), e, quando essa relação encontra-se desequilibrada, nos vemos um pouco mais esvaziados. Algo nos falta. Falta a conversa rápida durante o café no final da tarde, falta vestir o traje que utilizamos para projetar o modo como desejamos ser vistos, falta a troca, o sorriso, o afeto.

Como em uma estratégia de sobrevivência, não tardamos a desenvolver táticas de manutenção de nossa humanidade. Seja das janelas onde os vizinhos se unem para aplaudir os profissionais da saúde ou das telas de nossos celulares, onde conversamos por chamadas de vídeo com parentes e amigos que não víamos há meses, onde assistimos artistas realizarem transmissões ao vivo das salas de suas casas e participamos de festas que acontecem através de videochamadas, embaralhamos as antigas distinções entre público e privado ao transformarmos o olho da câmera ou a simples janela de um apartamento na porta que nos leva para a vida exterior, para a intempérie de um espaço urbano convertido em um dínamo de ações e experiências (DELGADO, 2007).

No entanto, mais do que quando confunde e restringe a relação entre o público e o privado em um âmbito individual, conjuntura, de certa forma, ainda confortável para aqueles privilegiados pelo sistema neoliberal hegemônico, a Covid-19 mostra-se ainda mais cruel ao fazer rodar furiosamente as engrenagens da máquina moedora de carne que, em condições ordinárias, já consome diariamente todos aqueles “terrivelmente outros não contemplados por uma concepção de humano e humanismo: negros e indígenas, asiáticos e africanos” (BORGES, 2019, p.10), trabalhadores braçais e informais.

 Há de se considerar, nessa perspectiva, que a utilização da exceção como modo de governabilidade já não é há muito tempo uma novidade nos Estados contemporâneos, inclusive nos chamados democráticos. A qualidade particular do cenário pandêmico atual é que esse estado de exceção assume agora sua dimensão mais ampla, que passa a ser utilizada sem qualquer tipo de censura ou constrangimento. Há de se considerar, ainda, que no cerne da noção de exceção encontra-se o conceito de necessidade, que atua como pressuposto para que ações sejam empreendidas. Nesse sentido, “mais do que tornar o lícito o ilícito, a necessidade age aqui como justificativa para uma transgressão em um caso específico por meio da exceção” (AGAMBEN, 2004, p.40). A necessidade, porém, como explica Agamben, “longe de apresentar-se como um dado objetivo, implica claramente um juízo subjetivo e que necessárias e excepcionais são, é evidente, apenas aquelas circunstâncias que são declaradas como tais” (2004, p. 46), ou seja, “o conceito de necessidade é totalmente subjetivo, relativo ao objetivo que se quer atingir” (BALLADORE-PALLIERI, 1970, p. 168).

Há, assim, escondido sob os estados de alarme, emergência e calamidade que vemos serem implantados atualmente, um programa que decide de acordo com os interesses daqueles que o implantaram quem terá acesso a leitos hospitalares, medicamentos, testes, máscaras e respiradores; quem terá direito a auxílios financeiros, renúncias fiscais e garantias de direitos trabalhistas; quem poderá velar e sepultar seus mortos. Um programa que ditará os distintos graus de punições àqueles que não conseguirem cumprir as regras impostas; e que, ainda, já determinou quem poderá enfrentar um distanciamento social, ainda sem data para acabar, com o mínimo de dignidade. O que se desvela, portanto, é uma forma de soberania “cujo projeto central não é a luta pela autonomia, mas a instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição material de corpos humanos e populações” (MBEMBE, 2016, p. 125).

Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, a Covid-19 tem se mostrado mais letal entre negros do que entre brancos[4]. Nos Estados Unidos, dados preliminares mostram que comunidades negras e latinas de baixa renda concentram casos e mortes em números desproporcionais[5]. Diante desse panorama, como podemos dizer que um vírus que se disseminou no Brasil através de eventos sociais como festas no Country Club do Rio de Janeiro, casamentos de web celebridades e jantares da autointitulada “família real brasileira”[6], e que agora começa a assolar favelas inteiras veio para mostrar que somos todos iguais? Como podemos dizer que um vírus que fez da sua primeira vítima fatal no Rio de Janeiro uma empregada doméstica que foi contaminada pela sua patroa, moradora do Leblon, que havia acabado de retornar de uma viagem para a Itália[7], veio para mostrar que estamos todos no mesmo barco?

A verdade é que não estamos. Um vírus, de fato, não escolhe quais corpos irá infectar, no entanto, as condições para seu contágio e para seu tratamento resguardarão ao máximo aqueles que se mostram mais úteis para a manutenção do sistema capitalista neoliberal. Na história do novo coronavírus, o biopoder, como conceitualizado por Foucault, já operou a divisão entre as pessoas que devem viver e as que devem morrer para que o mundo possa superar esta crise. Nessa necropolítica, termo cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, corpos velhos, negros, latinos, imunossuprimidos serão abatidos para que o sistema permaneça em pleno funcionamento.

Hoje, quarenta e cinco dias depois da minha chegada na Espanha, os cento e cinquenta casos confirmados naquela data se transformaram em 188.068 contaminados e 19.478 mortos[8]. Madri se tornou, ao longo desse tempo, uma cidade quase fantasma. As ruas estão desertas, os estabelecimentos fechados, e, nas poucas vezes que saí de casa para ir ao mercado, a visão das pessoas andando com máscaras e luvas, dos carros de polícia por toda parte, me faz pensar que estou em um filme. A cidade encontra-se em vida latente, mas permanece viva. E podemos ver isso na solidariedade daqueles que auxiliam seus vizinhos que não podem sair, nos trabalhadores que nos atendem com um sorriso por baixo das máscaras e dos painéis de acrílico, na alegria e na esperança que tomam conta das ruas todos dias às oito da noite, quando as sacadas ficam lotadas de madrilenhos que se reúnem para aplaudir os profissionais da saúde.

No Brasil, são 30.425 contaminados e 1.924 mortos confirmados oficialmente até o momento que escrevo este texto[9]. Apesar do número menor de afetados diretamente, a situação no país parece ser ainda mais assustadora. Os impactos de um governo que desavergonhadamente privilegia os interesses privados em detrimento da segurança de sua população certamente trarão uma dor que será sentida por todos os brasileiros.

No entanto, a despeito do cenário catastrófico que essa pandemia nos impõe, são memoráveis as inúmeras pequenas demonstrações de humanidade que tenho testemunhado, como as duas velhinhas espanholas que vejo todos os dias conversando, cada uma de suas sacadas, após o momento das palmas e que se despedem todos os dias com um alegre “até amanhã”. Ou o ato do refugiado sírio Talal Al-Tinawi, que, junto com sua família, já distribuiu gratuitamente mais de novecentas marmitas com comida árabe para idosos que não podem sair de casa em São Paulo.

É inegável que estamos diante do fenômeno primordial que marcará de fato o início do século XXI e que, indubitavelmente, causará transformações profundas na sociedade como a compreendemos hoje. É, no entanto, urgente lembrarmos também que esse não é um momento de entrega, mas de resistência. É necessário que façamos o melhor possível dessa situação, pois os sistemas não são imutáveis e a luta ainda não está perdida. O que está em jogo agora é a manutenção da nossa humanidade.

 

Referências bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

BALLADORE-PALLIERI, Giorgio. Diritto Costituzionale. Milão: Giuffré, 1970.

BEAUVOIR, Simone de: El segundo sexo. Buenos Aires: Siglo Veinte, 1968.

BORGES, Rosane. Das perspectivas que inauguram novas visadas. In: HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.

DELGADO, Manuel. Sociedades movedizas. Barcelona: Anagrama, 2007.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Artes & Ensaios. PPGAV, EBA, UFRJ, v. 32, 2016.



[1] Encontra-se em Madri para realização de um estágio de pesquisa no Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC) com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), através do processo nº 2019/18964-2.

[4] Coronavírus é mais letal entre negros no Brasil, apontam dados do Ministério da Saúde. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml

[5] Coronavírus mata negros e pobres de forma desproporcional dos EUA. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/coronavirus-mata-negros-e-pobres-de-forma-desproporcional-nos-eua.shtml

[7] Primeira vítima do RJ era doméstica e pegou coronavírus da patroa no Leblon. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/19/primeira-vitima-do-rj-era-domestica-e-pegou-coronavirus-da-patroa.htm

[8] Dados do Ministerio de Sanidad do Governo da Espanha. Disponível em:

https://www.mallorcadiario.com/adjuntos/551843/Actualizacion_78_COVID-19.pdf