CORONAVÍRUS E RACISMO NO BRASIL: NOTAS DE UMA OBSERVAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Notas de uma observação em tempos de pandemia

Por Aline da Cunha Valentim Francisco - Graduada em Serviço Social (ESS/UFRJ) e Mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos (NEPP-DH/UFRJ).

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”

Emicida, música “Amarelo”

O coronavírus (COVID-19) tornou-se um assunto global nos últimos meses. Um vírus que já deixava a sociedade chinesa em estado de alerta e tensão, alcançou outros países do mundo, gerando o mesmo resultado de medos e incertezas. No Brasil, a realidade não é diferente e o que antes parecia distante e nada grave hoje é parte da vivência de todas e todos nós brasileiras/os.

Com esta nova realidade em território nacional, o isolamento social torna-se a medida de prevenção imediata a ser implementada. O que significa todas e todos em casa. Muitas transformações ocorrendo, o home office acontecendo como regra. Nas redes sociais, “lives” surgindo segundo após segundo. E o desejo de alguns – de muitos – é de que o país esteja recolhido em casa. De que ninguém esteja fora de sua casa neste momento em que o lar é o local de maior segurança.

Há inúmeras análises que podem ser realizadas neste momento se pensarmos as relações sociais no Brasil, atentando para a questão racial. Neste artigo, a partir de determinados discursos que circulam na imprensa brasileira sobre o papel do Estado e as ações do Governo Federal, sobre a circulação das pessoas e nas representações dos sujeitos nestes espaços. É possível que estejamos diante de uma mudança de paradigmas, ainda que momentânea, que pode ser observada quando jornalistas passam a cobrar posturas éticas do presidente da República ou quando pressionam para que o Estado alcance o contingente populacional surpreendido pela dificuldade em produzir renda na informalidade.

Basta olhar para os reflexos de uma história escravocrata e colonial para fundarmos aí um paralelo importante para a análise do tempo presente. Neste momento, onde estão as pessoas negras, que estatisticamente somam mais da metade da população? O que elas estão fazendo? Como está sendo a prevenção para elas? O movimento que vemos na imprensa pode nos permitir pensar que somente agora a estrutura de suas residências é discutida e percebida como precária a um ser humano? Só agora a questão da falta de água, de higiene básica é uma questão?

Na TV, nos mais variados horários do dia os meios de comunicação relatam os dados de pessoas que contraíram o vírus, pessoas que se recuperaram dele e pessoas que perderam sua vida por causa dele. Abordam a maneira como o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde privada têm agido com este novo fenômeno, que, se não é visível, é, contudo, sentido de forma muito brutal no corpo de um ser humano. Basta um breve momento para assistir na TV jornalistas, profissionais da saúde, abrindo o diálogo para a importância de termos um sistema único de saúde efetivo e de qualidade na ponta, vale lembrar que até pouco tempo, comentários deste tipo eram raríssimos. Outra novidade recente é o diálogo público, através de suas bancadas, sobre a necessidade dos governos, e também o presidente da República, de responder às demandas sociais que surgem a todo o momento.

É irônico pensar que em algumas empresas de comunicação que se organizaram e deixaram explícito durante o período eleitoral qual proposta de governo lhes parecia mais apropriada para obter uma vitória presidencial – governo este eleito – , agora vem cobrando ao seu eleito uma postura e prática que já demonstrava não possuir, antes mesmo de sua campanha e consequente eleição.

Para quem está acostumado a observar a abordagem destas empresas de comunicação permanece a sensação de que há algo diferente, mais ainda quando os/as convidados/as de agora são profissionais da saúde, acadêmicos que não deixam de expressar a importância e o papel do Estado na garantia de uma vida social igualitária e digna e passam também a permitir que seus/suas jornalistas, falem abertamente e sem pudor sobre o que acreditam serem reflexos do governo, ou da falta dele, neste momento em que o país lida com a pandemia do Coronavírus.

É possível dizer que as epidemias e pandemias não escolhem governos. Mas é bastante crítico assistir uma série de cobranças neste momento, como se anteriormente não estivesse muito nítida a incapacidade de governo diante da agenda que venceu as eleições. Pior que a agenda, são os quadros que estavam designados para o governo. Não ficou nítido que o governo eleito governaria como tem governado? E porque então cobrá-lo de algo que está fora de seu alcance? Mais ainda se o que mais fez e continua fazendo é se distanciar de suas responsabilidades, descritas na Constituição Federal.

Podemos pegar como exemplo a jornalista Natuza Nery, que compõe a equipe de articulistas da Globonews, ela não escondeu sua perplexidade em relação à necessidade de respostas por parte do presidente da República, e disse que tal colocação não era sobre ideologia política. Em seu comentário, abordou a postura de outros chefes de estado, que neste momento de pandemia, adotaram práticas governamentais de seguridade social, sendo eles republicanos, conservadores, de direita ou esquerda. Endossando a urgência da assinatura do projeto que asseguraria o mínimo de bem estar, de possibilidade de sobreviver, de brasileiros que estão postos à margem, sem renda ou trabalho formal.

Ainda que tenham sido parte do grupo que apoiou intensamente reformas como a trabalhista e a da Previdência Social, que colaboram para ampliar um quadro de degradação social, neste momento se posicionam para cobrar medidas preventivas eficazes, no contexto do Coronavírus. Ainda assim, é mais simples cobrar do chefe do Executivo do que lembrar a herança escravocrata no Brasil e de seus efeitos perversos na construção da desigualdade brasileira. Parece mesmo que falar sobre herança escravista no Brasil é como pisar em ovos.

É um desafio posto em nossa sociedade e refletido nas bancadas de análises dos telejornais e nos editoriais dos impressos em que, cadernos como o “Ela”, do jornal O Globo vêm publicando as ideias refletidas nas camadas média e alta da sociedade, formadas por pessoas brancas e ricas e garantindo que no pós-Coronavírus o mundo será mais “solidário”. Nas capas e entrevistas do último mês, mulheres e homens brancos/as, abordam em suas entrevistas, a descoberta dos serviços domésticos que passaram a realizar e a valorizar. Outros falam de ensaios fotográficos realizados por chamada de vídeo conferência, sobre práticas de meditação para frear a ansiedade, assim como a importância do exercício físico para o corpo “não parar”. Há divulgação dos pequenos e médios negócios para que não quebrem financeiramente. E o que se vê, expressivamente, são pessoas brancas, classe média e rica organizada e assegurada estruturalmente ostentando suas vidas diante da desigualdade que aglomera pessoas em filas de bancos públicos em busca de um auxílio de R$600.

Para muitas das pessoas em destaque nos meios de comunicação, a realização de trabalhos domésticos tornou-se a experiência a compartilhar nesta pandemia. A pergunta que deve surgir é: porque não limpar o que se suja e organizar o que se desorganiza em outros momentos da vida? É falta de tempo apenas ou continuidade de uma prática escravista? O trabalho doméstico, realizado por pessoas que são desvalorizadas historicamente (pessoas negras), não nos diz mais nada, além da desculpa da falta de tempo daqueles que dela usam?

Pouco se fala das rotinas daqueles e daquelas que atravessam a cidade para garantir o funcionamento dos serviços essenciais sem que seja pelo viés de que suas moradias podem ser inapropriadas e que as áreas onde residem sejam insalubres. Em meio a tudo isso, poderíamos perguntar: onde está o presidente? O que seu governo tem a dizer e, mais do que dizer, fazer. E a Constituição Federal de 1988 não é entendida e praticada? Os direitos que há nela são garantidos a quem?

Essas invisibilidades, frutos de descasos que retardam respostas ao histórico de precarização de instituições de saúde pública tornam-se uma resposta racista às pessoas que não estão nas capas dos cadernos especiais. Temos constantemente a reprodução de que o sujeito normativo, cidadão e, portanto, detentor de direitos é o sujeito branco. Nestas representações, os sujeitos negros permanecem sem humanidade e complexidade e, consequentemente, sem direitos. Esta é a herança colonial e escravocrata do país que, continua a ser disseminada nos projetos políticos, na ideologia e no cotidiano de todas/os brasileiras/os.

Esta pandemia nos apresenta o real cenário brasileiro: pessoas negras permanecem sem ter o direito à vida. Permanecem sem direitos. São as que continuam ocupando os postos de trabalho que não as permitem isolamento social e com isso, continuam em seus trabalhos nos supermercados, no serviço doméstico, nas entregas de delivery – este último teve aumento expressivo porque há um grupo que não pode ser contaminado em detrimento de um grupo que pode –, na coleta de lixo da cidade, como camelôs e nas ruas porque não têm casa.

Pessoas negras, que correspondem a mais da metade da população, não foram lembradas como também vulneráveis em outros momentos da história do país, por quê? Porque acessos não foram dados as pessoas negras antes da pandemia do Coronavírus? Por que os direitos, garantidos em lei, não foram implementados no cotidiano delas? Todo este conjunto articulado gera uma precarização sobre a vida das pessoas negras. Educação desqualificada, alimentação de má qualidade que resulta em hipertensão e diabetes. Assim como a falta de infraestrutura adequada que acompanha uma casa nas favelas do Rio de Janeiro.

Sob o advento da pandemia do Coronavírus, evento com temporalidade mais ou menos definida, fica exposto o racismo estrutural e institucional do Brasil. Não que fosse difícil em um país como o Brasil observá-los. E o que faremos? É necessário não apenas pensar, mas também agir. Como enfrentar a desigualdade que expõe a vida de brasileiros/as negros/as há tantos anos? Não há dúvida de que precisaremos formular novas práticas e novos projetos de sociedade, que gerem novos projetos políticos mais igualitários, que o acesso aos direitos seja mais que uma bandeira de luta, mas condição imprescindível para a vida humana.

Cada vez mais, como sociedade e como indivíduos será necessário fazer uma análise constante, sem intervalos, do quanto o Brasil é um país racista e o impacto disso na vida das pessoas negras. Precisamos seguir uma corrida antirracista para que nos novos dias sejam desfeitas ideias, práticas, estruturas e leis desiguais e racistas. Que sejam abandonados ideários que resultam em vivências em que pessoas negras tenham de ser desvalorizadas, expropriadas de sua dignidade humana e de sua vida. Que venham dias em que a realização do serviço doméstico e assim como sua valorização se tornem comuns e possíveis de serem exercidas por ricos e brancos do país.

Também o desejo de que serviços como os “deliverys” não sejam uma função normal em um momento como este e que tenhamos consciência da necessidade de proteção de pessoas, das pessoas negras, e que o Estado seja capaz de garantir que as empresas médias e pequenas possam suportar uma quarentena e que não quebrem se precisarem recolher seus/suas funcionários/as em cuidado.

Que donos/as de supermercados, farmácias e de outros estabelecimentos que ofereçam serviços básicos, por exemplo, possam colaborar para que seus funcionários, majoritariamente negros/as, estejam prevenidos/as em vez de pensar apenas e somente no consumo que gera lucro, sem disponibilizar a eles máscaras, luvas e álcool em gel. Sabendo que apenas isto não é o suficiente para os resguardar.

Não é mais aceitável que vidas negras continuem sendo expostas e, na verdade, nunca foi. Assumirmos o racismo brasileiro é um meio pelo qual essas práticas de extermínio podem ser erradicadas do pensamento e do fazer humano.

Voltando às entrevistas, torço para que a fração de entrevistados, que disse haver mudança no pós-Covid-19, assim como toda parcela da sociedade brasileira branca, de classe média e rica, aqueles/as que detêm meios de influências sobre outros, não apenas acreditem, mas atuem para disseminar a transformação desta sociedade em um ambiente democrático e igualitário. Que trabalhem em conjunto para que as pessoas tenham moradia digna, que superem o analfabetismo e que acessem boa alimentação.

O Coronavírus pode ser a primeira pandemia com efeitos globais severos do século 21 e pode não ser a última. É por isso que precisaremos trabalhar para uma nova construção de sociedade, pois esta em que vivemos e que construíram sobre nós não aguenta mais.