PRODUÇÕES EM TEMPO DE ISOLAMENTO: UMA EXPERIÊNCIA DA EXTENSÃO DURANTE A QUARENTENA

Por Rejane Maria de Almeida Amorim - Coordenadora de Integração Acadêmica de Graduação – CFCH/UFRJ; Professora da Faculdade de Educação – Departamento de Didática - UFRJ

O tempo do confinamento é atravessado pelo antes e pelo depois, é um momento que  fica entre ambos e, na maior parte das vezes, é um tempo estendido que demora a passar.   Como elemento constitutivo da experiência humana, como algo que nos passa, que nos acontece,  que nos toca (LAROSSA, 2002, p.21), é vivido das mais singulares formas.

A aposta em opções para ocupar nosso tempo, que foi entendido como “livre”, em especial pelo mercado, apareceram ofertas de cursos dos mais variados temas, lives, leituras, oficinas, experiências de arte, dança, visitas virtuais e milhares de atividades online que entraram em nosso cotidiano com muita força. Essa corrida para voltarmos a fazer o que fazíamos de modo remoto e manter atividades esportivas, culturais, sociais na mesma frequência e intensidade o mais rápido possível, também foi um ingrediente a mais para aumentar nossa ansiedade em um momento em que tememos pela nossa vida e pela vida dos nossos.

Nos pareceu que ter tempo livre era algo nocivo e que precisávamos preencher. O tempo precisou ser desconstruído. Pode parecer que o tempo ficou mais longo, mas nossas atividades cotidianas nunca foram tão desafiadoras.

Escrever em tempo de isolamento, se expressar, discutir, socializar sentimentos, compartilhar experiências e mais que isso, encontrar espaços de interações num momento completamente novo para todos, pareceu ser mais uma possibilidade de vivermos essa experiência sem nos perder no produtivismo e deixar esvair o que dela podemos tirar de melhor: a nossa transformação nesse processo.

Um experiência concreta de escrita pode favorecer a mudança. Como nos diz Foucault, “[...] meus livros são, para mim, experiências, em um sentido que gostaria o mais pleno possível. Uma experiência é qualquer coisa de que se sai transformado.”(2010, p. 289-290). A compreensão de que, assim como qualquer outra forma de expressão, a escrita nos transforma, nos faz refletir e ampliar nosso entendimento sobre nós mesmos.

Por muito tempo o ensino da língua esteve ligado a uma concepção de linguagem tradicional que compreende a escrita como uma habilidade de transpor o que há na mente para o papel. Os estudos foram ampliando essa visão, ao escrever vamos articulando nossas experiências, ampliando nossas percepções e um texto vai sendo construído na medida que se escreve, tanto fora quando dentro de nós.  “[...] Sou um experimentador no sentido em que escrevo para mudar a mim mesmo e não mais pensar na mesma coisa de antes.” (FOUCAULT, 2010, p. 289-290)

Foi com o intuito de oferecer um espaço de registro da experiência concreta, que vivemos na pandemia, que surgiu a ideia de promover um concurso de escrita no âmbito do Projeto de Extensão “Compartilhando Leituras”.

O projeto de extensão "Compartilhando Leituras" emergiu a partir da proposta da gestão da decania atual do CFCH (2018-2022), que deseja promover ações de formação em formatos distintos para atender os mais variados públicos. Em resposta a essa demanda, o Centro criou esse projeto que abrange tanto o público da graduação, como o das escolas públicas, nosso foco atual. Atualmente, o projeto é formado por quatro técnicos do CFCH, dois professores  e cinco estudantes extensionistas, oriundos dos cursos de Comunicação e Pedagogia. A proposta do projeto, para além da leitura literária, encontra-se no movimento de leituras de mundo. Nesse sentido, ousamos reconhecer e privilegiar as possíveis manifestações culturais dos indivíduos, em suas mais diversas áreas. Nosso trabalho visa apresentar as temáticas trazidas por palestrantes convidados nos mais diversos seguimentos educacionais, desde educação infantil até a universidade, promovendo amplos debates que circundam a educação e suas diversas interpretações e contextos. Com a experiência advinda de nossas atuações, conseguimos, também, nos aproximar de âmbitos artísticos e redes de sociabilidades comuns para relações integradas, conjuntas e comunicativas dentro do ambiente universitário e escolar.

Durante o ano de 2019 promovemos nove eventos ao todo, sendo oito na universidade e um deles em uma escola pública. Em relação aos convidados, dois desses eventos foram coordenados por estudantes. Recebemos uma convidada externa da UFRJ, escritora de livros infanto-juvenis e os demais eventos foram coordenados por professores da casa.  

Nosso público foi bem variado, em apenas um dos eventos conseguimos trazer trinta estudantes de uma escola de ensino médio, o que era um objetivo que perseguíamos. Da nossa experiência de 2019, organizamos um e-book que sairá em breve, contendo a textualização do encontro de cada convidado e as narrativas dos extensionistas sobre as suas vivências no projeto.

Nossa avaliação dos eventos de 2019 foi a de que precisávamos focar no público das escolas. Então, para 2020 já havíamos organizado nossa atuação que se daria majoritariamente em escolas públicas. Os extensionistas já haviam realizado um levantamento junto as escolas e já tínhamos preparado um cronograma com as demandas em relação às temáticas e aos convidados. O projeto  já havia planejado um concurso literário para o ano de 2020, a princípio conversamos sobre um concurso de poesia com tema a ser definido.

Todo nosso planejamento foi interrompido quando a pandemia chegou. Nos dias que seguiram ponderamos que seria importante antecipar esse concurso que já teria tema e foco determinado pelo contexto atual. Ao levar a ideia para o grupo, todos concordaram e nos empenhamos juntos para colocar a ação em prática e tornar esse concurso o mais diverso possível.

Não imaginávamos que a participação seria tão grande. Recebemos  676 textos de várias regiões do Brasil e de países como Angola, Portugal e Estados Unidos.

Os textos poderiam ser enviados em qualquer gênero textual, com o limite de 1000 palavras, foram essas as únicas recomendações. Desejávamos que com a pouca exigência e com envio facilitado pelo e-mail, pessoas dos mais diversos grupos pudessem participar. Esse objetivo foi alcançado.

A divulgação foi intensa nas nossas redes sociais, foram muitos compartilhamentos de unidades da UFRJ, decanias, pró-reitorias e em especial da extensão da UFRJ. A rádio da UFRJ fez um podcast conosco (O extensionista Felipe gravou o áudio), e recebemos muitas questões sobre o concurso nos diversos meios digitais.

A necessidade em falar sobre nossas experiências ao nosso ver, foi o que mobilizou os participantes. Talvez a máxima de Camus se fez notar na beleza dos textos, “No meio do inverno, aprendi que existia em mim um invencível verão.” (CAMUS, 1986, p. 76)         

Os textos recebidos foram escritos nos gêneros conto, mini conto, carta, cordel, poema, reflexões, diários, notícia de jornal, entrevista consigo mesmo, carta como uma capsula do tempo, carta para si mesmo, carta para alguém que partiu  etc. Escritores nos divertiram com contos engraçados em meio a um momento difícil, nos fizeram refletir das mais variadas formas em contextos completamente diversos e também nos fizeram chorar. Alguns participantes enviaram breve biografia (não foi solicitado) e por meio dessas informações percebemos o quão plural foi o alcance da nossa ação, escritores com mais de setenta anos de idade e que já acumulam prêmios literários e estudantes de 13, 14 anos que se arriscam em seu primeiro concurso, estavam lado a lado. Uma professora de escola pública nos escreveu contando que seus estudantes do ensino fundamental participaram com textos que receberam a sua correção. A professora aproveitou o concurso para trabalhar com esses jovens nas suas aulas de Língua Portuguesa, realizadas remotamente. Essa professora nos contou que não foi fácil fazer isso sem a presença, mas que agradecia a oportunidade e esperava ver os textos publicados.

Recebemos textos de estudantes do ensino fundamental, ensino médio, ensino superior, de mestrandos, doutorandos, professores, donas de casa, médicos, bancários, escritores, trabalhadores informais e etc. Essas vozes unidas em um só tema formaram um grande texto em nossas mentes, que configuram em nós um sentimento de que as perspectivas são sempre distintas e complementares, ao mesmo tempo.

Um senhor de sessenta anos escreve dizendo que se arrisca na pandemia pelo amor que sente por uma mulher de quarenta. Enquanto um jovem estudante de Lisboa vê nas águas do Tejo todas as lágrimas de tristeza que sente pela falta de pessoas que não pode ver e que não poderá mais ver. No centro do Rio de Janeiro se vende álcool em gel de origem duvidosa para alimentar a família desempregada durante a pandemia. O trabalhador informal tenta o auxílio emergencial do governo. A menina escreve uma carta para irmã que partiu na pandemia. Muitos escrevem cartas para si mesmos, alguns com data marcada para reler e não esquecer as lições desse tempo. O médico reflete sobre as transformações da medicina, que talvez em 2030 possamos ter uma estatística correta dessa pandemia. Inúmeros expressam a tristeza pelo vírus e pelo momento político. O jovem lamenta a interrupção de momentos de confraternização e muitos fazem sensíveis poemas que na liberdade poética e na metáfora possível falam do tempo, do antes e do depois da pandemia, do amor, da necessidade de socializar, tocar e na necessidade de humanização.

Todos falam de um mesmo momento, mas a fresta na janela pelo qual percebem a realidade é distinta. Essa paisagem junta forma nossa realidade plural e complementar.

Tivemos pouco tempo para pensar o concurso, mas desejávamos o texto com a essência do momento, no calor dos acontecimentos. Foucault (2006), ao falar da distância que toma da escrita como algo formal de se colocar algo no papel, destaca o que desejávamos:  “[...] Eu gostaria que ela [a escrita] fosse um algo que passa, que é jogado assim, que se escreve num canto de mesa, que se dá, que circula, que poderia ter sido um panfleto, um cartaz, um fragmento de filme, um discurso público, qualquer coisa...”. (p. 81)

Ao começarmos a receber os textos, percebíamos que não se tratava de um concurso como qualquer concurso literário, era uma escrita de um momento novo, triste, sem certezas. As escritas carregadas de sentidos, de querer dizer, de revolta dos mais variados níveis mostravam a indignação pelo momento político tão instável quando a pandemia, do universo alheio ao humano.

Nosso trabalho de seleção dos textos foi bastante intenso, porque todos os textos nos afetam de forma diferente. A banca composta por professores, equipe técnica e extensionistas do CFCH, definiu as rodadas de leituras que foram nos ajudando a perceber que um e-book precisava ser organizado, que não bastaria escolher 5 textos (como estava previsto) dentre essas 676 produções. Portanto, organizamos um e-book com todos os textos que passaram para segunda fase, cerca de 200 textos, divididos em proza e verso. Na primeira parte colocamos as cinco produções que a banca elegeu como as melhores e em seguida um bloco com os cerca de 30 textos finalistas, seguido dos textos da segunda fase. Podemos dizer que os verdadeiros ganhadores fomos nós e os leitores,  são fragmentos de nossa humanidade registrada na história o que vivemos nesse momento.

Quando informamos a data de divulgação do resultado nas nossas redes sociais, uma participante nos escreveu dizendo que os textos desse concurso compõe um legado para que as futuras gerações possam saber o que vivemos. Essa fala foi sendo confirmada por outras pessoas e pela nossa banca do concurso que a todo momento desejava socializar o texto que tinha acabado de chegar, pela dificuldade em chegar aos cinco melhores.

Tratamos de todo material com muito carinho e cuidado, sabemos que nessas páginas contém a grandiosidade do impacto da pandemia de 2020 que vivemos juntos.

Nossa percepção foi a de que muitos dos participantes podem fazer parte de um grupo de pessoas que já escreve, que  participa de concurso e que já possuía textos sobre o tema. Podemos afirmar isso porque recebemos muitos textos do mesmo autor, ao que solicitamos que escolhesse apenas um para seguir no concurso para todos terem a mesma chance. Também conseguimos perceber pelas perguntas que nos chegavam, se tratar de pessoas que já participaram de concursos.

Porém, ao lado desses, muitos participantes relataram que resolveram escrever um texto porque a situação despertou um desejo de sair do seu silêncio e de querer deixar o seu registro, como uma capsula do tempo. Isso também nos foi relatado por alguns estudantes que após o termino do prazo de envio registraram nos comentários das nossas redes sociais os motivos pelos quais escreveram. “Eu creio no poder das palavras, na força das  palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco” (LAROSSA, 2002, p.21), partilhamos dessa afirmação e nos modificamos enquanto pessoas com o que nos chegava.

Quando um tema tão visceral nos convida a escrever, percebemos que, como nos diz Ramos do Ó,  produzimos “[...] mecanismos onde a escrita seja uma prática do cotidiano, onde o desejo de escrever se possa instalar, onde o desejo de compreender e imaginar o mundo se amplie. (Ó; COSTA, 2007, p. 111)

Nos chamou atenção um texto cujo autora fala que jamais imaginou escrever uma carta para si mesma para o futuro. Ela conta que sempre escreveu sobre coisas que já haviam acontecido em sua vida e não sobre o que virá. Explicou na sua carta o quão importante foi essa escrita para entender o que se passava em sua vida e sobre as projeções de mudança que fará quando tudo passar. Ter oportunizado esse momento para esse grande coletivo é motivo de muita satisfação.

O projeto de extensão se ampliou, não imaginávamos como seria lidar com os textos e tínhamos incertezas sobre a quantidade de material que receberíamos. Nas projeções que fizemos a questão de ser a escrita uma linguagem tão dolorida para grande parte das pessoas, não conseguimos mensurar o quanto o momento deu a força que precisávamos.

Como afirma Foucault, os "homens não somente se fixam em regras de conduta como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo". É o que chama de arte da existência (FOUCAULT, 1984, p. 15).  No período de confinamento pelo qual passamos, após um período de completa mudança em nossas rotinas e atitudes, as pessoas recriaram suas formas de ser, se permitiram fazer novas experiências das mais variadas áreas. Alguns optaram por viver as mais variadas experiências em áreas distintas como culinárias, esportivas, artísticas, literárias e também de escrita.

As formas de ser dos núcleos familiares também se reorganizou. Sob essa perspectiva, o confinamento se apresenta não somente em sua privação e fechamento, mas em um estado latente e fervilhante de potencial inventivo, talvez isso tenha ficado mais claro no comércio que se reinventou rápido.

Tendemos a questionar o ponto de vista da concepção comum de isolamento social como lugar reservado à solidão. Talvez para alguns esse momento de estar em sua casa tenha se revelado um importante espaço para pensar sua existência e fazer o seu balaço do momento atual. Quem sabe nossas resoluções possam rapidamente dar lugar ao ativismo e a pressa quando tudo voltar, mas o momento de reflexão está registrado em vários lugares, nos lembrando que esse tempo existiu e que sofremos mundialmente a mesma dor.

A segunda fase de nosso concurso é uma roda de conversa com os autores, algo que só o futuro dirá quando será. Enquanto isso, podemos desfrutar de uma boa leitura que em breve estará disponível no site da decania do CFCH, Produções em tempo de Isolamento!

Referências Bibliográficas

CAMUS, Albet. L’étranger (Em prefácio entrevista com Jules Roy). Versão lida (da edição de 1942 da editora Gallimard) por Michael Lonsdale. Audilivre – Auvidis, 1986.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal.1984.

FOUCAULT, Michel. Conversa com Michel Foucault. In: ______. Repensar a política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, (Ditos & escritos VI). p. 289-347.

FOUCAULT, Michel. Eu sou um pirotécnico. In: POL-DROIT, Roger. Michel Foucault, entrevistas. São Paulo: Graal, 2006, p. 67-100.  

LARROSA, Jorge. Notas sobre  experiência e o saber de  experiência.  Revista  Brasileira  de  Educação,  nº 19, p. 20-28, jan/abr 2002.

Ó, Jorge Ramos do; COSTA, Marisa Vorraber. Desafios à escola contemporânea: um diálogo. Educação & Realidade, v. 32, n. 2, p. 109-116, jul./dez. 2007.

LARROSA, Jorge. Notas sobre  experiência e o saber de  experiência.  Revista  Brasileira  de  Educação,  nº 19, p. 20-28, jan/abr 2002.