Funk é cultura?: arte, racismo e nação na criminalização de um ritmo musical

Mylene Mizrahi

Resumo


Neste artigo busco complexificar a discussão em torno da perseguição histórica ao funk, como música e como movimento cultural, por meio de uma reflexão erigida na articulação entre arte, racismo e nação. Argumento que o funk pode ser tomado como objeto de arte complexo, que aglutina diferentes intencionalidades e por isso mesmo permite acessar as contradições que regem o Brasil como nação. O funk coloca face a face diferentes perspectivas sobre a cultura. De um lado, a cultura é entendida como movimento que define e deriva da própria vida coletiva e cotidiana. De outro lado, vemos uma perspectiva colonial no entendimento do que vem a ser a cultura. O funk nos ajuda também a reconceituar a noção de estética, a despeito de sua associação com a estética ocidental, que por tanto tempo ditou o que era o certo, o belo e o bom. Como se só existisse uma beleza possível, fundada sobre os cânones europeus da arte que, graças aos poderes colonizadores, tratou também de disseminar suas imagens, seus códigos e seus regimes de beleza. Uma noção de beleza branca, europeia, que ditou o padrão certo e específico de se pentear, vestir, ornamentar, enfeitar, bem como de decoro corporal, de se dançar e de se compor música. A tentativa de criminalização do funk é de fato uma tentativa de policiamento estético e de regulação do gosto alheio. Uma vontade de supressão de estéticas alternativas e desafiadoras do gosto e da moral hegemônicas.

Palavras-chave


gosto, estética, funk, racismos cotidianos, e projeto de nação

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