O nada que deixa ser
Manoel de Barros e a abertura ontológica da palavra
DOI:
https://doi.org/10.59488/tragica.v19i3.75067Resumo
Este artigo propõe uma leitura ontológica de Livro sobre nada (1996), de Manoel de Barros, tomando como eixo a relação entre nada, linguagem poética, imanência e sagrado. Em diálogo com o pensamento de Martin Heidegger, defende-se que o nada manoelino não deve ser compreendido como pura inexistência, negatividade abstrata ou vazio metafísico, mas como abertura poética em que as coisas são libertadas dos regimes da utilidade, da representação, da nomeação habitual e da grandeza. Nesse horizonte, o nada não nega o ser; ao contrário, suspende os modos instrumentais de apreensão do ente para que o ínfimo, o abandonado, o desútil e o rasteiro possam aparecer em sua potência originária. A partir da análise de passagens de Livro sobre nada, sustenta-se que essa abertura conduz a uma experiência não-metafísica do sagrado: Deus e o divino não aparecem como fundamento transcendente ou ente supremo, mas como dimensão de mistério que se manifesta na imanência das coisas simples, inúteis e abandonadas. Conclui-se que a poética de Manoel de Barros oferece uma ontologia do ínfimo como clareira do sagrado, na qual a palavra, ao desaprender sua função dominadora, deixa o mundo aparecer em sua pobreza luminosa.
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