A palavra poética e a filosófica plasmadas em "Água viva" e "A paixão segundo G.H.": o impessoal/inumano como aposta política e estética

Flavia Natércia da Silva Medeiros

Resumo


Este artigo analisa A paixão segundo G.H. e Água viva, de Clarice Lispector, a partir de duas ideias defendidas por Giorgio Agamben: a cultura ocidental é marcada pela cisão entre a palavra poética, que possui sem conhecer, e a palavra filosófica, que conhece sem possuir; à crítica, por sua vez, cabe a tarefa de gozar daquilo que não pode ser possuído e possuir o que não pode ser gozado, sem buscar o reencontro de um objeto que lhe seja próprio, garantindo as condições de sua inacessibilidade. Para tanto, é preciso caminhar no sentido oposto ao da cisão, como fazem os dois livros analisados ao abordarem poeticamente temas filosóficos. Uma escultora e uma pintora exploram os limites da própria linguagem e a precariedade da condição (forma) humana. Nos dois textos, na abordagem de Deus, do it, do instante-já, da liberdade heroica, dentre outros temas que os perpassam, podemos ouvir ressoarem noções, conceitos, concepções provenientes de "filosofias da imanência": as concepções de Espinosa relativas a Deus, aos afetos, à potência de agir, à liberdade; de Heidegger, reverberam a noção de Dasein, o caráter transcendental da dimensão temporal e suas concepções de imanência e transcendência. Tanto Espinosa quanto Heidegger concebem a essência como inextricável da existência e refletem sobre a forma como os seres se afetam ou se abrem para os outros. Essa ressonância poética da filosofia contribui para que os livros de Lispector façam pensar nos limites das políticas identitárias na possibilidade de políticas do comum, voltadas para o impessoal ser qualquer.

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