Violência epistêmica e resistência decolonial em Vou lá visitar pastores de Ruy Duarte de Carvalho

Marco Bucaioni

Resumo


Ruy Duarte de Carvalho publicou em 1999 Vou Lá Visitar Pastores, relato de uma expedição ao território dos Kuvale, povo do Sudoeste angolano parte do grupo Herero e objeto de estudo privilegiado da extensa atividade científica desse autor. Entre os vários tipos de violência que podemos encontrar registados nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, este livro reconduz explícita e convictamente a violência de que os Kuvale foram alvo durante e depois do colonialismo a uma raiz epistémica. O texto acompanha a história desse povo a partir das primeiras incursões europeias pela costa do Sul de Angola, ao longo dos anos de penetração colonial, culminados nas “guerras mucubais” (ou kokombola) de 1940/41, que por pouco não votaram este povo ao desaparecimento. O texto também acompanha anos mais recentes, com a reorganização quase milagrosa dos Kuvale ainda no tempo do colonialismo, para depois avançar até à última parte do século XX, dando pontual conta da violência cultural exercida sobre esse grupo pela sociedade circundante e por emissários do governo angolano, já depois da Independência. Objetivo deste artigo será investigar os pontos de contacto entre as formulações de Ruy Duarte de Carvalho e o discurso decolonial, sublinhando as convergências entre os dois.

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DOI: https://doi.org/10.35520/mulemba.2021.v13nEsp.a51055

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