A violência colonial na obra de Fernando de Castro Soromenho

Pedro Réquio, Gabriel Ambrósio

Resumo


Este ensaio tem como objetivo analisar a representação da violência na obra ficcional de Fernando de Castro Soromenho (1910-1968). Castro Soromenho foi um jornalista, escritor e opositor ao regime português do Estado Novo. Este autor, inspirado pelo neorrealismo, e assumindo-se enquanto escritor angolano, concebeu alguns romances passados no norte de Angola durante as décadas de 1930 e 1940. As obras Terra Morta (1949), e Viragem (1957), que providenciam as bases desta reflexão, funcionam como antevisão da eclosão da guerra colonial. Em ambas se denota uma preocupação em exibir a existência de contradições insanáveis entre o modo de vida dos colonos portugueses e dos povos autóctones. A violência, que assume diversas formas (exploração laboral, castigos corporais, repressão policial e militar) e se plasma através das mais elementares relações humanas, pauta o quotidiano e conduz a um clima de tensão permanente. Mais do que proceder a uma análise da narrativa destas obras, pretende-se interpretar a forma como a instrumentalização da violência, por parte dos povos subalternos, é legitimada politicamente pela visão de Castro Soromenho. Apesar de a obra de Soromenho já ter sido estudada a sua visão ainda não foi articulada com a legitimização das lutas dos movimentos independentistas e com o devir histórico da guerra colonial portuguesa. É esse o principal objetivo deste artigo.


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DOI: https://doi.org/10.35520/mulemba.2021.v13nEsp.a51062

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