Aprender a falar e a pensar: algumas notas em torno da dialética e da escrita no Fedro de Platão

Fábio Fortes

Resumo


No Fedro, de Platão, não somente a dinâmica da pesquisa dialética se materializa através das falas de seus personagens, como também eles próprios destacam a pesquisa dialética como tema de reflexão (266a-274b; 276a-279c). Em exercício de análise do terceiro discurso (265e-266b), Sócrates revela notável semelhança entre a estrutura do discurso e do “método dialético”: a busca de definições gerais para o assunto pesquisado, seguida de um método de divisões (διαίρεσις) e reunião (συναγωγή), com o qual se aprende a falar e a pensar (266c).  Encerrando a peça, os dialogantes refletem ainda sobre os entrelaçamentos entre os discursos dialéticos e a escrita: aqueles são capazes de defender a si próprios (contêm um germe que fará nascer outros discursos nas almas diferentes – 277a), como um corolário da ideia de que, embora a escrita, em geral, seja perigosa, exatamente por não ser autônoma, respondendo sempre o mesmo e requerendo espécie de tutela de seu autor (275d), seria um erro condenar todo tipo de escrita, pois existe um tipo específico de escrita (para ser estudada e pronunciada com fins didáticos) que caracterizaria os dialéticos (278a). Nessas duas passagens, o que fica claro é que a dinâmica da dialética no Fedro não pode prescindir dos embates que essa modalidade de linguagem tem em relação ao discurso oratório, por um lado, e à escrita, por outro. Iluminando especificamente este segundo ponto, propomos apresentar algumas notas que pretendem examinar em que medida o "falar e pensar" em Platão se enriquece e pode (ou não) se consubstanciar também na modalidade escrita da linguagem.


Palavras-chave


lógos; escrita; dialética; Platão

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Referências


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DOI: https://doi.org/10.47661/afcl.v11i22.22940

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