v. 8 n. 1 (2026): DOSSIÊ - GT FILOSOFIA E RAÇA: QUEM TEM MEDO DA FILOSOFIA PRETA?

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A Revista Estudos Libertários, vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem a satisfação de apresentar sua primeira edição de 2026: Quem tem medo da filosofia preta? Este dossiê reúne trabalhos de autores(as) pretos (as) integrantes do GT Filosofia e Raça da ANPOF, produzidos a partir das pesquisas de doutores(as) e doutorandos(as) que participaram do I Encontro Nacional do GT, realizado virtualmente em outubro de 2025. O evento contou com a presença de diversos pesquisadores dedicados às reflexões sobre filosofia e raça no Brasil, evidenciando a relevância crescente desses estudiosos no cenário acadêmico contemporâneo, especialmente considerando que muitos deles emergem de grupos sociais, étnicos e de gênero historicamente marginalizados pelo colonialismo e pelas estruturas de poder que dele derivam.

              Nesse mesmo movimento de ampliação do acesso ao conhecimento e de fortalecimento das vozes pretas no campo intelectual, uma pesquisa divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em 2025 apresentou um dado expressivo: mulheres pretas e pardas da classe C constituem o maior grupo consumidor de livros do país. Embora esse resultado possa parecer contraditório diante das desigualdades historicamente vivenciadas por essa população, ele revela avanços decorrentes de décadas de mobilização, resistência e ampliação do acesso à educação e ao letramento racial. E, por uma feliz coincidência, contamos com a participação de diversas autoras e organizadoras negras neste número da REL.

              Em um cenário marcado por persistentes desigualdades raciais, o protagonismo das mulheres pretas no universo da leitura representa não apenas acesso ao conhecimento, mas também autonomia, fortalecimento e transformação social. Nesse processo, as pesquisas produzidas por intelectuais pretos e pretas consolidam-se como instrumentos fundamentais para a construção de consciência crítica, a afirmação de direitos e o enfrentamento das injustiças. É nesse contexto de expansão da produção intelectual preta que apresentamos os artigos desta edição.

              Abrimos com Inconsciente Totêmico, Plantando Bananeira, da Dra. Fabíola Menezes Araujo, que investiga a formação de um “inconsciente totêmico” na tradição platônica. A autora mobiliza o pretuguês de Lélia Gonzalez para tensionar estruturas coloniais e propor uma leitura s‑Exu‑al da experiência, oferecendo uma abordagem crítica que confronta o racismo estrutural e reivindica um lugar de fala anticolonial.

              Em seguida, no artigo Tempo, Racialidade e Produção, o Dr. Giovanni Codeça da Silva escrutina a articulação entre tempo, subjetividade e avaliação própria do produtivismo acadêmico, bem como o que disso tem resultado, formas de estranhamento experimentadas por discentes de mestrado. Ao incorporar a dimensão racial na análise, o exame consegue evidenciar o enfrentamento de regimes diferenciados de vigilância e exaustão vivenciados por pesquisadores negros, mas também seus modos de resistência que se revelam próprios da crítica, nervo central da prática universitária.

              No artigo As Matrizes Afro-Indígenas da Ajuda Mútua e da Autogestão no Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, a Dra. Isabel Sant’Anna Andrade revisita o povoado sertanejo para revelar formas coletivas de organização baseadas na cooperação e na autogestão, articuladas a saberes afro-indígenas. A autora contrapõe registros históricos às narrativas dos moradores, evidenciando como essas experiências foram alvo de violência estatal e apagamento simbólico.

              Em A Filosofia Contracolonial do Samba, Dr. Jeferson da Costa Vaz demonstra como a malandragem presente no samba opera como forma de resistência ao adestramento colonial descrito por Nego Bispo. Ao relacionar quilombos, favelas e a tradição da Turma do Estácio, evidencia o samba como prática filosófica que afirma autogestão, crítica social e enfrentamento das violências coloniais.

              No artigo O Contrato Social e o Impacto Racial-Epistêmico no Brasil, o Dr. Manoel Pereira Lima Junior mobiliza o aparato conceitual de Charles Mills e Miranda Fricker para examinar os pactos racializados e epistêmicos que estruturam a experiência contratualista brasileira. Ao detectar aqui a injustiça e desigualdade históricas que a caracterizam, o autor estrutura uma leitura epistemológica capaz de pôr em relevo preconceitos e estereótipos negativos.

              Em Crianças‑Crias de Favela e Seus Artifícios Epistemológicos, Marco Correa investiga como vocabulários, gestos e modos de ser das infâncias negras das favelas produzem conhecimento a partir de suas próprias ontologias, revelando uma epistemologia de cria que desafia a ordem desigual do mundo.

              As doutorandes Ialley Lopes e Umeno Morita, em Filosofias em Diáspora: Produção de Subjetividades, Imagens e Linguagem Racializada, analisam como imagens, linguagem e processos de outrificação moldam subjetividades racializadas nas diásporas africanas e asiáticas no Brasil, tensionando ficções étnico‑raciais e evidenciando modos de aparição e resistência em contextos coloniais.

              Por fim, esta edição é encerrada com o artigo Africanismo Eurocentrista, do doutorando Kenyatta Mugo dos Santos Filho, no qual defende uma reorientação dos estudos sobre África e suas diásporas a partir das próprias ontologias e historicidades constituídas no continente. Com isso, o eurocentrismo operante no pensamento ocidental consegue ser denunciado, ao mesmo tempo que semelhante reorientação viabiliza o rompimento necessário com categorias coloniais que têm moldado categorias, nomes e cosmologias próprias dos povos africanos e de suas diásporas.

              Partindo da premissa de que o racismo é uma criação da branquitude – uma branquitude que se cerca de privilégios e que busca privar pretos e pretas de direitos conquistados não apenas pela Constituição de 1988, mas sobretudo pela histórica luta do Movimento Negro Unificado (MNU) – podemos interrogar o sentido de produzirmos escritas que dificilmente alcançarão aqueles que mais necessitam de se despir de seus privilégios. Apesar disso, o conjunto dos textos que apresentamos nesta edição da REL é uma prova inconteste de que quando a filosofia preta entra em ação, estruturas coloniais racistas e capitalistas estremecem.

              Uma vez revelada a estratégia colonial de racializar para separar e dividir, reconhecer-nos como racializados(as) pode nos libertar dessa estratégia. Libertar a branquitude de si mesma talvez seja uma ambição inócua, uma pretensão insensata; contudo, tornar nítidos os caminhos legados por nossos ancestrais permite que lancemos, uma vez mais, os dados de uma guerra que se revela nítida no plano espiritual. Para que continuemos com o sonho de nossos ancestrais, é preciso que haja luta: “enquanto a cor da pele for mais importante do que o brilho dos olhos, haverá guerra” — frase atribuída a Haile Selassie, popularizada recentemente pela tatuagem de Vinícius Júnior, camisa 7 da Seleção Brasileira deste ano.

 

Boa leitura a todes!

Giovanni Codeça (Organizador do dossiê)

Leonardo Rennó Ribeiro Santos (Organizador do dossiê)

Pamela Cristina de Gois (Organizadora do dossiê e Editora Adjunta da REL)

Isabel Sant Anna Andrade (Organizadora do dossiê)

Fabíola Menezes de Araújo (Organizadora do dossiê)

Wallace de Moraes (UFRJ – Editor Geral da REL)

Publicado: 2026-07-22

Edição completa

Dossiê GT Filosofia e raça

  • INCONSCIENTE TOTÊMICO, PLANTANDO BANANEIRA

    Fabíola Menezes Araujo
    11-38
    DOI: https://doi.org/10.59488/987
  • TEMPO, RACIALIDADE E PRODUÇÃO: NOTAS SOBRE O ESTRANHAMENTO NA UNIVERSIDADE

    Giovanni Silva
    39-53
    DOI: https://doi.org/10.59488/98700
  • AS MATRIZES AFRO-INDÍGENAS DA AJUDA MÚTUA E DA AUTOGESTÃO NO CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO

    Isabel Sant'Anna Andrade
    54-83
    DOI: https://doi.org/10.59488/9885
  • FILOSOFIAS EM DIÁSPORA: PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES, IMAGENS E LINGUAGEM RACIALIZADA

    Umeno Morita, Ialley Lopes
    84-100
    DOI: https://doi.org/10.59488/9433
  • A FILOSOFIA CONTRACOLONIAL DO SAMBA A MALANDRAGEM COMO RESISTÊNCIA AO ADESTRAMENTO COLONIZADOR

    Jeferson da Costa Vaz
    100-125
    DOI: https://doi.org/10.59488/322
  • O CONTRATO SOCIAL E O IMPACTO RACIAL-EPISTÊMICO NO BRASIL: UM CASO DE INJUSTIÇA EPISTÊMICA

    Manoel Pereira Lima Junior
    126-152
    DOI: https://doi.org/10.59488/433
  • CRIANÇAS-CRIAS DE FAVELA E SEUS ARTIFÍCIOS EPISTEMOLÓGICOS

    Marco Correa
    153-177
    DOI: https://doi.org/10.59488/521
  • AFRICANISMO EUROCENTRISTA: DAS INTERPRETAÇÕES E CONSTRUÇÕES EQUIVOCADAS SOBRE ÁFRICA E SUAS DIÁSPORAS AO APAGAMENTO EPISTEMOLÓGICO PROPOSITAL

    Kenyatta Mugo dos Santos Filho
    178-189
    DOI: https://doi.org/10.59488/643