v. 8 n. 2 (2026): SOB A SOMBRA DO TERROR: COLONIALISMO E VIOLÊNCIA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

					Visualizar v. 8 n. 2 (2026): SOB A SOMBRA DO TERROR: COLONIALISMO E VIOLÊNCIA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

A Revista Estudos Libertários (REL) apresenta mais uma edição em um contexto marcado pela persistência das guerras, pelo aprofundamento das desigualdades internacionais e pela continuidade de estruturas históricas de dominação. No Oriente Médio, a questão palestina ocupa uma posição central nesse cenário, expondo as contradições de uma ordem internacional na qual a soberania, a segurança e a legitimidade do emprego da força permanecem profundamente condicionadas pelas assimetrias de poder. A ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, o apoio político e militar dos Estados Unidos a Israel e a ampliação das tensões regionais não podem ser compreendidos exclusivamente como acontecimentos conjunturais. Inscrevem-se em processos históricos mais amplos, nos quais colonialismo, imperialismo e disputas geopolíticas continuam a produzir consequências sobre territórios e populações. Sob a sombra do terror, a violência permanece não apenas como instrumento de imposição política, mas também como objeto de disputas em torno de sua definição, justificação e reconhecimento.

O colonialismo não desapareceu com a desarticulação dos impérios coloniais formais. A conquista das Américas, a escravização de populações africanas e a expansão imperialista sobre a África e a Ásia contribuíram para a constituição de hierarquias econômicas, políticas, raciais e epistemológicas que ultrapassaram os processos de independência e descolonização. Embora essas transformações tenham modificado profundamente as relações internacionais, não eliminaram as estruturas desiguais de poder nem os mecanismos de classificação e subordinação de povos e territórios. A permanência dessas relações exige compreender o colonialismo não como uma experiência histórica encerrada, mas como um processo cujos desdobramentos continuam a atravessar as instituições, a produção do conhecimento e as formas contemporâneas de exercício da violência. É nesse sentido que a crítica decolonial e o pensamento libertário oferecem instrumentos para interrogar a naturalização das hierarquias e as diferentes modalidades de dominação.

A violência, contudo, não se manifesta exclusivamente por meio das guerras e das intervenções militares. Suas expressões atravessam as relações sociais, as instituições, a produção do conhecimento e os mecanismos de classificação e subordinação de indivíduos e populações. Ao longo da história, diferentes formas de dominação foram legitimadas em nome da ordem, da civilização e da segurança, enquanto práticas de resistência foram frequentemente submetidas à criminalização e à repressão. Compreender essas contradições exige investigar as relações históricas entre poder, violência e resistência, sem desconsiderar as particularidades de cada experiência. É nesse horizonte que os trabalhos reunidos nesta edição estabelecem diálogos entre a tradição libertária, a crítica ao colonialismo e os debates contemporâneos sobre racismo, linguagem, tecnologia e emancipação.

Abrindo a seção de artigos, em “James Guillaume: homenagem a um pioneiro do anarquismo”, Luciana Brito e Francisco Raphael Cruz Maurício recuperam a trajetória intelectual e política de James Guillaume (1844–1916), por ocasião dos 110 anos de seu falecimento. A pesquisa examina sua participação no movimento operário internacional, suas contribuições para a Associação Internacional dos Trabalhadores e suas relações com o sindicalismo revolucionário francês. Ao investigar diferentes momentos de sua trajetória, os autores contribuem para a preservação da memória histórica do anarquismo e para a compreensão da circulação das ideias libertárias entre distintas gerações do movimento operário.

Em “A algoritmização da morte: produção de alvos, fabricação do ‘terrorista’ e reconfiguração da Nakba no século XXI”, Juan Filipe Loureiro Magalhães investiga as transformações contemporâneas das relações entre produção de conhecimento, controle populacional e exercício da violência no contexto histórico da questão palestina. A partir de uma abordagem histórico-documental, o autor examina a incorporação de sistemas algorítmicos às estruturas de vigilância e produção de alvos militares, relacionando essas transformações às continuidades históricas da ocupação e do controle territorial.

Em “O terrorismo e o pacto da colonialidade: sobre os limites de um conceito e sua influência em nossa percepção de mundo”, Alice Pessanha Souza de Oliveira investiga as relações entre terrorismo e colonialidade, questionando os critérios políticos e epistemológicos que condicionam a definição e a aplicação desse conceito. Em diálogo com o pensamento crítico e decolonial, a autora examina como as assimetrias de poder influenciam a percepção da violência no cenário internacional, problematizando os mecanismos pelos quais determinadas práticas são reconhecidas como legítimas enquanto outras são classificadas como terroristas.

Ricardo Bruno Boff e Carolina Carvalho do Nascimento e Silva, em “‘Fraternidade seletiva’ na mídia ocidental: um comparativo das abordagens de atentados terroristas no Quênia e na França”, analisam as diferenças de tratamento conferidas pela imprensa aos atentados ocorridos em Garissa e Paris, em 2015. Por meio de uma investigação comparativa de notícias publicadas em veículos brasileiros, sul-africanos e estadunidenses, os autores examinam como hierarquias historicamente constituídas influenciam a visibilidade atribuída às vítimas e aos acontecimentos internacionais. A pesquisa relaciona essas desigualdades às estruturas de colonialidade do poder e aos mecanismos de produção de representações sobre a violência.

Em “O impacto do racismo na socialização e na formação identitária de crianças negras”, Julian Samacá-Pulido, Domitila Morais Sana e Roberta Janone dos Reis e Vaz analisam os efeitos do racismo estrutural, institucional e cotidiano sobre os processos de socialização e construção identitária na infância. O estudo examina a importância das relações familiares e escolares na reprodução ou no enfrentamento de hierarquias raciais, destacando como práticas, discursos e formas de reconhecimento interferem na formação das crianças negras e nas possibilidades de construção de experiências educativas antirracistas.

Elisângela Campos Damasceno Sarmento e Juhlly Ferreira Bezerra, em “A topofilia na obra de Lima Barreto: percepções simbólicas e socioculturais em Triste fim de Policarpo Quaresma”, investigam as relações entre subjetividade, ambiente e sociedade a partir da literatura brasileira. Mobilizando uma abordagem ecocrítica e interdisciplinar, as autoras exploram as dimensões simbólicas e socioculturais presentes na obra de Lima Barreto, evidenciando as possibilidades de diálogo entre Literatura, Geografia e Sociologia para a compreensão das relações entre os indivíduos, os espaços e as experiências sociais.

Em “Entre Nego Bispo e Wittgenstein: reflexões sobre o nome, poder e significação”, Francisco Erik Washington Marques da Silva estabelece um diálogo entre o pensamento de Antônio Bispo dos Santos e a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein. O autor investiga a nomeação como prática de construção de sentidos, atravessada por relações de poder, experiências comunitárias e processos de autodeterminação. Ao examinar as implicações políticas e epistemológicas da linguagem, o artigo contribui para a compreensão das disputas em torno da produção dos significados e do reconhecimento de diferentes formas de existência e conhecimento.

Encerrando a edição, o ensaio “De Karl Marx a Bernard Stiegler: a alienação na época da transição digital”, de Pedro Paulo Zanforlin Netto, revisita o conceito de alienação a partir dos Manuscritos Econômico-Filosóficos, de Karl Marx, estabelecendo aproximações com o pensamento de Gilbert Simondon e Bernard Stiegler. O autor examina as transformações da alienação diante da expansão dos objetos digitais e dos processos de automatização do trabalho e do conhecimento, discutindo suas consequências para os saberes e para as condições contemporâneas da existência coletiva.

Ao reunir investigações sobre colonialismo, terrorismo, racismo, educação, linguagem, história do anarquismo e transformações tecnológicas, esta edição reafirma o compromisso da Revista Estudos Libertários com a produção de um conhecimento crítico, plural e comprometido com a reflexão sobre as relações entre poder, dominação e emancipação. Em um mundo no qual antigas estruturas de violência convivem com novas formas de controle e subordinação, preservar espaços de pensamento independente constitui também uma maneira de resistir à naturalização das desigualdades e de afirmar a possibilidade histórica de transformação da realidade.

Desejamos a todas e todos uma excelente leitura!

Saudações libertárias e quilombolas!

A Equipe Editorial da Revista Estudos Libertários (REL/UFRJ)

Wallace dos Santos de Moraes
Juan Filipe Loureiro Magalhães
Pamela Cristina de Gois
Ana Carolina dos Santos da Silva

Publicado: 2026-10-20

Edição completa

Artigos

  • JAMES GUILLAUME HOMENAGEM A UM PIONEIRO DO ANARQUISMO

    Luciana Brito, Francisco Raphael Cruz Maurício
    11-33
    DOI: https://doi.org/10.59488/876
  • A ALGORITMIZAÇÃO DA MORTE: PRODUÇÃO DE ALVOS, FABRICAÇÃO DO “TERRORISTA” E RECONFIGURAÇÃO DA NAKBA NO SÉCULO XXI

    Juan Filipe Loureiro Magalhaes
    34-55
    DOI: https://doi.org/10.59488/90o
  • O TERRORISMO E O PACTO DA COLONIALIDADE SOBRE OS LIMITES DE UM CONCEITO E SUA INFLUÊNCIA EM NOSSA PERCEPÇÃO DE MUNDO

    Alice Pessanha Souza de Oliveira
    56-70
    DOI: https://doi.org/10.59488/432
  • “FRATERNIDADE SELETIVA” NA MÍDIA OCIDENTAL UM COMPARATIVO DAS ABORDAGENS DE ATENTADOS TERRORISTAS NO QUÊNIA E NA FRANÇA

    Ricardo Bruno Boff, Carolina Carvalho do Nascimento e Silva
    71-92
    DOI: https://doi.org/10.59488/nb
  • O IMPACTO DO RACISMO NA SOCIALIZAÇÃO E NA FORMAÇÃO IDENTITÁRIA DE CRIANÇAS NEGRAS

    Julián Samacá-Pulido , Domitila Morais Sana, Roberta Janone dos Reis e Vaz
    93-112
    DOI: https://doi.org/10.59488/9O
  • A TOPOFILIA NA OBRA DE LIMA BARRETO PERCEPÇÕES SIMBÓLICAS E SOCIOCULTURAIS EM TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA

    Elisângela Campos Damasceno Sarmento, Juhlly Ferreira Bezerra
    113-131
    DOI: https://doi.org/10.59488/861
  • ENTRE NEGO BISPO E WITTGENSTEIN REFLEXÕES SOBRE O NOME, PODER E SIGNIFICAÇÃO

    FRANCISCO ERIK WASHINGTON MARQUES DA SILVA
    132-144
    DOI: https://doi.org/10.59488/9olp

Ensaios

  • DE KARL MARX A BERNARD STIEGLER: A ALIENAÇÃO NA ÉPOCA DA TRANSIÇÃO DIGITAL

    Pedro Zanforlin
    146-154
    DOI: https://doi.org/10.59488/8U