Um estudo das formas verbais imperativas em cartas pessoais dos séculos XIX e XX

Aldeir Gomes da Silva

Resumo


Este estudo analisa cartas pessoais pernambucanas escritas nos séculos XIX e XX, a fim de verificar o comportamento variável do uso de imperativos nas correspondências, bem como observar quais outras formas não verbais podem e são usadas com objetivo de fazer pedidos, exortações etc., considerando os processos de elipse dos verbos, principalmente nas sessões de captação de benevolência, recomendações e despedida das missivas. No que diz respeito às formas imperativas textualmente marcadas, temos por objetivo verificar quais ações podem ser expressas através dos verbos no contexto das cartas analisadas. Para tanto, baseamo-nos na teoria de Tradição Discursiva (KOCH, 1997; KABATEK, 2006; COSTA, 2012), que caracteriza modelos textuais, social e historicamente convencionalizados, que fazem parte da memória cultural de uma comunidade (LONGHIN, 2014) e abrangem distintos graus de abstração e complexidade de modelos textuais. Além de ser uma rica fonte aos estudos da história das línguas, as cartas pessoais constituem um exemplo eficaz da relação existente entre tradições existentes e inovação no contexto sócio-histórico, e o uso dos imperativos nas correspondências oferece um recorte dessa relação.  Para a realização desta análise, foram coletadas 60 correspondências produzidas entre os anos de 1901 e 1969. Para a discussão dos dados, apoiamo-nos nos conceitos da sociolinguística (LABOV, 1994 apud LOPES, 2011) na análise quantitativa das ocorrências (ou não ocorrências) de imperativos nas sessões de captação de benevolência, recomendações e saudações das cartas pessoais. Os resultados desta pesquisa apontam para a constatação de que a variação é “mais sistemática e predizível tanto estrutural quanto socialmente” (LOPES, 2011, p. 365).


Palavras-chave


Imperativo; Cartas pessoais; Tradição Discursiva

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DOI: https://doi.org/10.24206/lh.v4i2.17498

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