Duas execuções musicais

Francine Fernandes Weiss Ricieri

Resumo


Dois poemas longos (que têm em comum a encenação de duas execuções musicais) colocam em discussão aspectos teóricos da constituição da categoria “sujeito lírico” em sua relação com o conceito de “endereçamento”. A consideração da experiência poética como resistente à representação e voltada para o que Rancière pensou como “partilha do sensível”, leva, também à exploração das formas de estabelecimento de um ritmo por meio do qual cada um dos poemas presentifica as execuções referidas. Reportando-se a reflexões de Rogério Chociay sobre a complexidade dos suportes rítmicos em poesia, de Mary Ann Caws e Octavio Paz sobre poema longo e, finalmente, de Joëlle de Sermet (que recupera, por sua vez, Benveniste) a propósito daquelas duas categorias (sujeito lírico e endereçamento), o ensaio se volta, ainda, para o estabelecimento de uma subjetividade que se constitui pelo embate ou diálogo com alteridade(s), em eventuais projetos de constituição de comunidade(s),  em uma posição política, ou de que derivam Políticas da escrita, nos termos propostos por Rancière, no livro com esse título. “Violões que choram...”, de Cruz e Sousa, organiza-se a partir de um jogo de ocultação/apresentação de uma voz. Centrando-se na exploração da construção do ritmo, sobretudo no âmbito macroestrutural da estrofação do poema e no modo como ela organiza pausas, suspensões ou fluxos, a análise abordou aspectos da complexidade da subjetividade constituível em poesia, na modernidade. Exploraram-se, ainda, reflexões de Caws a propósito de como um poema organiza ritmicamente a experiência da leitura. “Harpa esquisita”, de Pedro Kilkerry, é pensado a partir do mesmo aporte téorico, em abordagem convergente. Entende-se que a comparação tenha contribuído para evidenciar aspectos específicos de cada uma das composições, adensando a problematização das categorias teóricas em discussão. Uma decorrência indireta seria a contribuição para um redimensionamento histórico das poéticas usualmente referidas pelo recurso à categoria historiográfica “simbolismo”.

Palavras-chave


sujeito poético, endereçamento, comunidade, ritmo, poema longo

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Referências


CAWS, Mary-Ann. Poème long, poème court: sujet en cloture. In: RABATÉ, Dominique et al. Le sujet lyrique en question. Bordeaux: Presses Universitaires de Bordeaux, 1996. pp. 69-82.

CHOCIAY, Rogério. Teoria do verso. São Paulo: MacGraw-Hill do Brasil, 1974.

CRUZ E SOUSA, João da. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.

KILKERRY, Pedro. Horas Ígneas. In: CAMPOS, Augusto de. Revisão de Kilkerry. São Paulo:Brasiliense, 1985.

PAZ, Octavio. Contar e cantar (sobre o poema longo). In: A outra voz. Tradução Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1993.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. Tradução Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2011.

RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. São Paulo: Editora 34, 2017.

SERMET, Joëlle de. L’adresse lyrique. In: RABATÉ, Dominique. Figures du sujet lyrique. Paris: Presses Universitaires de France, 1996. (Collection Perspectives littéraires, dirigée par

Michel Dellonet Michel Zink).




DOI: https://doi.org/10.35520/diadorim.2020.v22n1a32018

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