Histórias de famílias de palavras: o caso de 'laranja' e 'cidra'

Alina Villalva

Resumo


Laranja é um caso na história do léxico do Português por razões várias, nomeadamente conceptuais, etimológicas, semânticas e gramaticais. As razões conceptuais estão relacionadas com a dificuldade em saber exatamente se o nome que é dado ao fruto corresponde sempre ao mesmo fruto e se o fruto a que se dá o nome de laranja teve sempre esse nome, ou se outros nomes lhe estiveram ou estão ainda atribuídos. As razões etimológicas ligam-se à ausência de um elo na cadeia que liga o étimo remoto (Sânscrito nɑ̄raṅgɑ́h̥) à forma laranja, mesmo admitindo que a forma Árabe nɑ̄rɑ́nŷɑ assumiu um papel veicular. Quanto às razões semânticas, importa compreender o processo de polissemia que fixa laranja como nome de um projétil usado sobretudo em brincadeiras de Carnaval e como termo de cor. Acresce, por último, a necessidade de considerar a complexidade gramatical de laranja, que pode ser um nome feminino, um nome masculino ou um adjetivo, sem nunca mudar de forma. A resolução deste caso implica uma investigação em várias frentes, nomeadamente históricas, factuais e linguísticas, e sincrónicas, mas neste trabalho, dados os limites físicos, ficarão de fora os últimos cem anos. Esta investigação diz respeito à forma laranja e aos seus derivados (especialmente laranjeira, laranjal e laranjada), mas também a cidra e derivados (como cidrão, cidrada, cidreira e cidral), porque as duas se entrecruzam inevitavelmente. No final, espera-se chegar a uma narrativa coerente que conte a história destas famílias de palavras.


Palavras-chave


Laranja. Cidra. Família de palavras. Histórias de palavras. Etimologia. Morfologia.

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DOI: https://doi.org/10.24206/lh.v6i3.35389

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