A filologia e os documentos do século XX: cartas e prontuários do Sanatório Pinel

Antonio Ackel

Resumo


Este artigo apresenta atividades filológicas em um material textual brasileiro datado entre 1929 e 1944. Os documentos dividem-se entre relatórios médicos e cartas escritas por pacientes que ficaram internados no Sanatório Pinel, em São Paulo. A partir de fragmentos selecionados, busca-se apresentar de que maneira, por meio de estudos codicológicos e paleográficos, pode-se compreender de forma mais aprofundada fatos históricos e sociais, sob perspectiva do pensamento dominante da época: a eugenia. Trata-se de uma teoria médica, advinda da Europa, em que se acreditava poder melhorar a raça humana, por meio de terapias, remédios e outras intervenções psiquiátricas. Pretende-se mostrar neste texto que trabalhar com documentos da primeira metade do século XX é também atividade filológica, na medida em que demanda uma série de práticas relacionadas a esta ciência, por exemplo: observar os diversos elementos utilizados para produzir o documento, como suporte e instrumentos; decifrar tipos caligráficos de difícil compreensão; analisar a morfologia das letras; examinar as condições materiais do suporte que mostram os modos de circulação e transmissão do documento. A intenção é apresentar parte de um estudo filológico de maior escopo que possa servir de fonte para estudos de outros campos do saber.


Palavras-chave


Filologia. Codicologia. Paleografia. Cartas manuscritas. Eugenia.

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DOI: https://doi.org/10.24206/lh.v7i1.39240

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