Chamada de artigos — Metamorfoses 24.1
Chamada de artigos — Metamorfoses 24.1
Luci Ruas, entre livros e legentes
Em A prisioneira, quinto volume de Em busca do tempo perdido, Marcel Proust narra a morte do escritor Bergotte. Depois de enterrado, seus livros permanecem nas vitrinas iluminadas, onde “velavam como anjos de asas abertas” e pareciam o “símbolo de sua ressurreição”. A imagem talvez diga alguma coisa sobre a estranha temporalidade da literatura: os escritores morrem; os livros, não exatamente. Permanecem, passam de mão em mão, encontram outros olhos, outras vozes, outros corpos.
É nesse lugar, entre memória e sobrevivência, que gostaríamos de situar esta homenagem à professora Luci Ruas. Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora e formadora de sucessivas gerações de estudiosos da literatura portuguesa, Luci construiu um percurso crítico marcado pelo trânsito entre textos, tempos, autores e artes. Raul Brandão, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, David Mourão-Ferreira, Maria Gabriela Llansol, José Cardoso Pires, Antero de Quental, Fialho de Almeida e Mário Cláudio são algumas das muitas vozes que atravessaram sua trajetória.
Em seus trabalhos, a literatura aparece como espaço de encontros e sobrevivências. Morte, memória, ruína, imagem, corpo e afeto tornam-se maneiras de interrogar aquilo que desaparece e, no entanto, continua a produzir sentidos. Como escreveu Luci, “um texto é um corpo feito de palavras e de silêncios”: entre o corpo que lê e o corpo escrito estabelece-se uma relação que faz da crítica também uma prática de transmissão.
Este número não pretende, portanto, reunir apenas estudos sobre a obra crítica de Luci Ruas. Interessa-nos sobretudo ler com Luci e depois de Luci, retomando, prolongando ou desviando questões que atravessaram sua trajetória. Serão bem-vindos trabalhos sobre literatura portuguesa dos séculos XIX, XX e XXI; morte, memória, luto e sobrevivência; literatura e outras artes; literatura e imagem; corpo, escrita, leitura e afeto; literatura portuguesa para a infância; além de reflexões sobre ensaio, crítica e transmissão.
Homenagear talvez não seja construir um monumento, mas deixar aberta uma passagem. Reunir antigos alunos, colegas, amigos, pesquisadores e novos leitores para fazer existir aquilo que Luci chamou de uma “comunidade de legentes”: uma comunidade na qual cada leitura prolonga os sentidos e os afetos de outras leituras.
Como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen:
“da noite e do silêncio
onde emergimos.”
Este número nasce desse lugar: daquilo que permanece, daquilo que retorna, das vozes que um livro ainda pode fazer emergir.
Para Luci Ruas, professora, leitora, ensaísta.
Para Luci, que nos ensinou que ler é também uma maneira de fazer sobreviver.
Organização
Monica do Nascimento Figueiredo (UFRJ)
Marlon Augusto Barbosa (UFRJ)
Teresa Cristina Cerdeira da Silva (UFRJ)
Prazo para submissão: 30 de abril de 2027.
Publicação prevista: 25 de julho de 2027.